Notas iniciais
Esse capítulo está mais gordinho :3

–GUILHERME

Depois da visita da minha Detectora eu fiquei horas pensando em como seria a minha nova escola, que tipo de pessoas encontraria lá, se me daria bem nas matérias e quais seriam essas matérias. Sendo uma Academia em outro país (minha mãe foi obrigada a telefonar para Alice e perguntar onde ficava Woodhand, depois de tanta insistência minha) eu teria aulas diferentes sobre assuntos diferentes, e além disso devem haver “aulas excepcionais”. Sou excepcional como disse a própria Alice, então imagino que assistirei a aulas nesse patamar.

No dia seguinte acordei mais agitado do que no momento que fui convidado para estudar em Woodhand, estava muito ansioso para conhecer a escola. A novidade sobre a Academia ainda ecoa na minha cabeça e eu não consigo parar de sorrir. É uma pena não poder dividir isso com meus amigos, eles ficariam felizes por mim.

Me aprontei em tempo recorde e fui para a escola, acabei chegando no mesmo horário que normalmente chego por causa da demora do ônibus. Quando entrei na sala de aula meus amigos já haviam escolhido os mesmo lugares de sempre, eles também estavam como eu: agitados e nervosos. Principalmente o Renan, ele gaguejava e isso é um claro indício de que tem algo o preocupando. Eu sei que não deveria, mas acabo rindo quando Renan gagueja, ele não se importa desde que eu respeite o limite da brincadeira.

–Boa tarde meu povo! –Cumprimentei-os sorrindo enquanto entrava na sala.

–Fa-fala aí irmão. –Disse Renan gaguejando (tive que segurar uma risadinha).

Renan é um ótimo amigo, sempre sabe dar bons conselhos, coisa que preciso bastante de vez em quando. Mesmo ele sendo briguento igual a mim, sabe como me impedir de arrumar confusões. Brigamos algumas vezes, só que depois de alguns minutos voltamos a ficar bem um com o outro. Renan é negro, tem o corte de cabelo é bem baixo, usa óculos e tem uma risada engraçada e escandalosa. Temos mais ou menos a mesma altura e o mesmo peso (ele deve ser uns 3 ou 4 quilos mais pesado, todos são mais pesados que o magrelo aqui [Risos])

–Oi Gui. –Disse Gabrielly

–Fala Dino –Saudou-me Lais. Ela me deu esse apelido porque diz que meu corte de cabelo “moicano” (que na verdade não é moicano, só alto em cima e mais baixo dos lados) parece com a crista de um dinossauro.

–Olá. –Falei sorrindo para elas e me sentei ao lado do Renan, atrás de Gaby e Lais.

Vai ser difícil prestar atenção na aula, meus amigos tentavam disfarçar a agitação, mas eu notei assim mesmo os sinais: Renan gaguejando, Gaby não parava de balançar os pés e Lais (que já é “220 volts”) estava mais inquieta que o normal, não achava posição confortável na cadeira e derrubava as canetas e lápis no chão a cada tentativa. Meu motivo pra agir assim eu sei, agora quero saber o deles também... mas antes tenho que pensar em um motivo falso, caso perguntem porque eu também estou nervoso. Minha Detectora, pediu que não falasse de Woodhand com ninguém, eu só posso falar com minha mãe e meu pai sobre isso.

Quando o sinal tocou anunciando o recreio (sim recreio, eu não falo intervalo), perguntei porque todos estavam animados.

–E aí, qual o motivo de tanta energia?

–Ah então... eu... eu quero falar sobre isso mesmo. –Confessou Lais.

–Então começa aí. –Pediram Renan e Gaby ao mesmo tempo.

–Eu fui convidada para estudar em outra escola, muito conceituada... No exterior. Um senhor foi até minha casa ontem e ofereceu a vaga. Ainda não aceitei, mas acho que quero ir.

Senti um calafrio na hora. Será que era a Academia Woodhand? Com certeza não. Quais as chances de ser no mesmo país e mesmo se for no mesmo país, qual a chance de ser a mesma escola?

–Uau! Que incrível Queixo, parabéns! –Comemorei realmente feliz por ela, e fui o único...

–Ah que legal Lais –Disse Gaby sem muita certeza. Estava claro que ela não queria se separar da amiga, sempre foram criadas juntas, sempre estudaram juntas. Será uma separação dolorosa para elas duas mais do que será para mim, as conheço a um ano, elas se conhecem desde sempre.

Renan havia congelado. estava parado e sem expressões olhando para o nada.

–Eu quero curtir o resto do nosso tempo o máximo possível. Vamos aproveitar que temos os dois últimos tempos vagos para ver um filme lá em casa ou alguma coisa parecida. –Falou Lais tentando tirar a tristeza dos amigos.

–Tenho que falar uma coisa também. –Comecei antes que a coragem fosse embora. –Eu também vou mudar de escola, minha mãe ainda não deu certeza, mas as chances são grandes. Acho que as aulas começam em agosto. Não lembro o nome da escola. –Decidi esconder algumas coisas, talvez eu perca a vaga se falar demais.

–O que ta acontecendo?! Minha avó e eu vamos nos mudar para que ela consiga me ver mais vezes quando eu começar a frequentar uma nova escola, e também fui convidada por uma moça que foi na minha casa ontem. Todos vamos mudar de colégio. Esquisito...

–Um homem foi na minha casa também e ofereceu vaga em uma escola com um nome engraçado. Eu não aceitei, e mesmo se eu aceitasse meus pais não deixariam, principalmente minha mãe eu acho. –Disse Renan acordando do transe

Era coincidência demais, e agora eu tinha quase certeza de que falávamos do mesmo lugar. Woodhand. Comecei a pensar como detetive e fui ligando as coisas. Primeiro: todos nós fomos convidados para uma escola no mesmo dia, por pessoas desconhecidas que apareceram em nossas casas. Segundo: ninguém falou o nome da escola, minha Detectora pediu pra não contar a ninguém, então os possíveis Detectores deles também pediram isso. Terceiro: tirando o Renan, todos falaram que a escola era no exterior. Quarto: talvez eu esteja paranoico e imaginei isso tudo como forma de mudar de colégio e continuar perto do grupo.

O sinal tocou e nós fomos liberados, hoje a professora faltou então temos os dois últimos tempos vagos. Passamos pelo portão e andamos até a casa da Lais como ela sugeriu. Todos mudos, ninguém disse nada e eu já estava incomodado, foi então que pensei em implicar com eles. Sabe quando seu amigo anda na sua frente e você dá um chutinho no pé dele, e ele perde parte do equilíbrio? Não? Então finge que sabe [Risos]. Fiz isso com os três, eles reclamaram e me deram empurrões de leve. Nós já estávamos acostumados com essas brincadeiras uns dos outros, no final todo mundo ria junto.

–Seus palhaços! Vou sentir falta de vocês se a gente mudar mesmo de colégio. –Falou Lais enquanto abria o portão e tentava manter Mel, a cachorrinha macabra dela, do lado de dentro.

–Sabe de uma coisa que eu não vou sentir falta? Desse seu esquilo raivoso. –Eu disse morrendo de rir e levando junto comigo o Renan. Essa cadela era terrível, rosnava e avançava no Renan e em mim sem motivo, sorte nossa ela ser do tamanho de um esquilo.

–Ah sim! To contigo Gui, a Azeite é muito inconveniente –Disse Renan rindo alto.

–Mel! O nome dela é Mel, e ela não é nada disso, né meu amor!? –Disse Lais agarrando e fazendo cócegas na barriga da cadela/esquilo.

–Então, o que vamos fazer agora? –Perguntou Gabrielly.

–Olha lá hein! Acabei de arrumar tudo aqui, cuidado com a bagunça –Brincou Cleide, a empregada da casa. Ela consegue ser mais baixinha que a Lais, está sempre sorrindo e tem cabelos curtos e pretos. Todos gostamos muito dela e ela também gosta de nós.

–Mulé! A gente não vai bagunçar nada, pode deixar. –Disse Lais rindo.

–Se bagunçarem vocês que vão limpar tudo, eu já estou indo, até amanhã gente. –Despediu-se Cleide, animada pelo fim do expediente.

–Vamos brincar de “perguntas bizarras”! –Disse Renan

–Isso! Eu adoro esse jogo. –Falei animado

–Nada disso. É impossível brincar disso com vocês e manter a dignidade. –Cortou Gabrielly.

–Isso mesmo. Vamos jogar “quem sou eu”.

–É bom também, mas o outro é mais engraçado –Reclamei.

Lais foi procurar o jogo e voltou alguns minutos depois com uma caixa empoeirada.

–Guilherme! Se liga! –Gritou Renan jogando um tufo de poeira da caixa no meu rosto. Eu sou alérgico e na mesma hora meu nariz começou a coçar.

–Ha ha ha! –Disse jogando o elástico que prendia as cartas na testa dele.

–Cuidado com a bagunça! –Repreendeu Lais.

–Vamos jogar ou não? –Perguntou Gabrielly ansiosa

–Vamos Gaby. –Respondeu Lais

O jogo começou e cada um tirou uma carta e prendeu na própria coroa sem olhar o desenho da carta. Tentei olhar o desenho da minha carta mas fui pego trapaceando e fui forçado a escolher outra carta do monte, dessa vez sem roubar (será?... brincadeira! [Risos]).

O objetivo do jogo é adivinhar o desenho preso na sua coroa. Na regra original cada jogador tem trinta segundos para fazer perguntas sobre o próprio desenho, mas nós inventamos nossa regra. Cada um faz três perguntas e se todas forem respondidas com “não” o jogador pode fazer mais uma pergunta bônus.

Renan tinha o desenho de um ventilador, Gaby um coelho e Lais um tomate. Eu ganhei a primeira rodada, minhas perguntas foram: Sou um animal? Responderam que sim. Sou uma ave? Outro sim. Posso voar? Dessa vez foi um não. Aí eu pensei e descobri o que eu era.

–Sou um avestruz! -Eles responderam que sim, e eu comecei na frente.

Jogamos sete rodadas antes de eu ficar entediado e sugerir fazer outra coisa. O resultado foi o seguinte: Lais venceu com três pontos, eu em segundo com dois e na lanterninha Renan e Gaby com um ponto cada. Isso não durou nem 15 minutos, mas eu já estava cansado de ficar parado.

–Eu quero jogar três cortes. Vamos? –Sugeri

–Vamos. –Concordaram Renan e Lais

–Vamos. –Falou Gabrielly por último e sem entusiasmo, esportes não a agradavam muito.

Brincamos por trinta minutos aproximadamente. Eu e Lais como sempre, na maior rivalidade ao estilo Brasil X Argentina, e Renan também não estava muito longe disso. Não contamos os pontos e eu detesto admitir, mas mesmo sem contar todos sabiam que a Lais havia vencido. Renan e eu basicamente empatamos, e Gaby não deu muita importância para o jogo.

–Pessoal vamos assistir um filme? –Sugeriu Gabrielly. Afinal era vez dela escolher alguma coisa pra fazer.

–Concordo, também quero ver –Concordou Renan.

–É, eu estou cansado de jogar –Me juntei a eles.

–Qual filme vocês querem ver? –Perguntou Lais enquanto voltávamos para a sala.

–Harry Potter!

–Super Escola de Heróis!

–X-Men! –Falamos eu, Renan e Gaby respectivamente.

–Eu gosto de todos. –Disse Lais –Tirem na sorte.

Tiramos no “zero ou um” quem for diferente escolhe o filme. Finalmente venci alguma disputa no dia! O filme escolhido: Harry Potter.

Mais rimos e comemos do que vimos o filme. Algumas pipocas e um pouco de molho do cachorro quente acabaram caindo no tapete da sala (não fui o único a fazer sujeira).

Quando o filme acabou, ajudei meus amigos a arrumarem tudo. E aquele clima chato voltou a nos assombrar.

–Não acredito que vamos mesmo nos separar. –Comentou Renan meio cabisbaixo meio zangado.

–Também não fico feliz cara, mas já que separar faz parte do nosso crescimento, temos que seguir. E além disso sempre teremos as férias –Tentei animá-los, não sou fã de tristeza, gosto de sorrir e de fazer com que sorriam comigo.

–Tem razão, nada de tristeza –Apoiou Gabrielly.

–Vamos tirar fotos, quando sentir saudade, é só olhar as fotos e telefonar –Sugeriu Lais

–BUUU! –Gritou Pojucan, o pai da Lais, aparecendo do nada sem ser notado, como sempre.

–Oi pai. –Falou Lais

–Oi Laí. oi pessoal.

–Olá. –Nós cumprimentamos ele.

–Chegou bem na hora pai. Pode tirar uma foto da gente? –Pediu Lais

–Claro, se posicionem. –Pediu Pojucan já com a câmera preparada.

Depois de algumas fotos (algumas normais, outras com careta e chifrinhos), eu e a galera conversamos e começamos a relembrar os bons momentos. Havíamos passado ótimos dias juntos, até mesmo eu, que só os conhecia a um ano, enquanto eles a uns três anos no mínimo (Gaby e Lais se conhecem a vida toda).

–E então... para qual escola vocês vão? –Perguntou Renan.

–Não posso contar, é segredo –Respondemos Gaby, Lais e eu em uníssono.

Agora todos se encaravam, isso era muito estranho e me fez lembrar da teoria que eu pensei hoje durante o recreio. Um de nós não ter permissão de falar onde estudaria era uma coisa, já nenhum poder contar...

–Isso é muito esquisito. Sabe de uma coisa? Danem-se as regras! Vamos dizer o nome do colégio todos ao mesmo tempo. Nenhum de nós vai sair espalhando por aí não é? –Sugeriu Gabrielly. Não era normal ela querer passar por cima dos limites, mas se ela está disposta, é algo grande.

Eu voltei a ter ideias malucas, onde continuaríamos juntos só que em outra escola, na Academia Woodhand! Comecei a me sentir mais animado do que o normal (o meu nível normal já é alto o bastante). Pela reação dos meus amigos, dava para notar que eu não era o único que pensava assim. Ou talvez eu esteja imaginando coisas, de vez em quando me perco da realidade.

Preparem-se. Três... dois... um... –Contei.

–ACADEMIA WOODHAND! –Todos, inclusive Renan, que não aceitou a oferta, falamos em voz alta.

O silêncio seguinte foi intenso. Um olhava para o outro com a boca aberta e os olhos arregalados sem saber o que dizer...