Nova Perspectiva
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Olívia olhava-se para o espelho de sua penteadeira de madeira maciça, herança de sua avó. Observava que seu rosto bronzeado tinha novos pertencentes, como duas novas linhas que iam desde o fim de seu nariz até o meio dos lábios. Era decepcionante quando encontrava novas marcas da idade em seu rosto, principalmente porque já havia passado dos quarenta. Tinha quarenta e três, para ser exata. Por mais que pensasse em investir seu salário de psicóloga de uma clínica de reabilitação em botox e preenchimentos, no fim das contas não os fazia porque considerava ser um bom negócio, porque teria que ser escrava daquilo.
Seus olhos castanhos levemente puxados por uma possível herança indígena formava alguns pés de galinha quando ela sorria. Seus fios negros, lisos até os ombros também possuíam invasores brancos. Não tinha para onde correr, já estava envelhecendo e precisava lidar bem com isso.
— Posso entrar? — A mulher ouviu duas batidinhas na porta e virou-se para olhar para trás. Era seu marido.
— Sempre. — O homem entrou contido, como se tivesse algo para revelar à esposa. Sentou-se na cama e exitou um pouco antes de falar.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou ela, preocupada com o comportamento atípico de seu esposo.
— Sim. Precisamos conversar.
— O que aconteceu?
— Bem – Ele umidificou os lábios antes de começar a falar – Recebi uma ligação da minha ex-cunhada, e ela me comunicou que a Flávia faleceu. — Olívia arregalou seus olhos e pôs a mão na boca. Seu marido havia sido casado por dez anos e tinha um filho que estava com vinte um anos. — Ela me disse que o Lucas quis ver se seria possível ele vir morar comigo aqui no Brasil. Eu, claro, gostaria muito que meu filho viesse morar comigo, mas eu preciso ver com você se isso será possível. Você enxerga algum problema nisso?
— Obvio que não, meu amor! É claro que seu filho pode morar com a gente. Não precisava nem me perguntar nada. — A mulher levantou do banco onde estava sentada e sentou-se ao lado do marido na cama. — Ele será muito bem-vindo, não se preocupe. — Alexandre sorriu e de um beijo nos lábios carnudos da esposa. Era apaixonado por ela, e a cada dia tinha mais motivos para isso.
— Seu pai ligou, Lucas. — A mulher rechonchuda de cabelos brancos adentrou o quarto de hóspedes onde o sobrinho estava dormindo, encontrando-o sentado na cama, desenhando. — Ele disse que você pode ir morar com ele.
— Eu tô um pouco receoso, tia. — Ele levantou o rosto para olhar para a mulher. — Faz quinze anos que moro aqui em Nova Iorque, eu não tenho qualquer intimidade com o meu pai. Sei lá, talvez ele seja um cuzão.
— Não se preocupe, amor. — A tia sentou ao lado de Lucas. — Se não der certo eu estarei aqui te esperando. — O rapaz largou o caderno que usava para desenhar e abraçou a tia. Estava fragilizado pela perda precoce de sua mãe para um câncer, e tinha esperança de que viver com seu pai fosse amenizar a dor que sentia
— Olívia, você vai estar livre sábado? — Questionou Graziela, a melhor amiga e colega de trabalho da mulher.
— Hm… não, o filho do Alexandre vai se mudar para nossa casa, então vou tentar preparar algum para recebê-lo. Ele perdeu a mãe, tadinho. Se quiser aparecer lá em casa…
— O Alexandre tem um filho? Sério?
— Nunca te falei? — Olívia franziu o cenho – Ele tem um rapaz de vinte um anos que se mudou para Nova Iorque com a mãe dele enquanto ele era bem pequeno, depois que os pais se separaram. O único contato que o Alexandre tem do filho dele é pela internet, ligação. Então vai ser como se eles tivessem acabado de se conhecer.
— Então a Maria tem um irmão mais velho… Que legal, amiga!
— Tem! Ela ficou muito empolgada.
— Ai que legal, amiga!
A semana passou rápido, e logo o sábado havia chegado. Lucas, iria chegar no Brasil durante a tarde. Olívia estava ansiosa, porque não sabia muito sobre seu enteado, e temia que eles não fossem se dar bem ou alguma coisa do tipo. Ao mesmo tempo, também estava animada porque seria mais um membro na família, e isso era algo ótimo. Esperava que eles tivessem uma boa relação.
— Amor, devemos chegar antes do anoitecer, isso se o voo não atrasar.
— Não se preocupe. Eu e Maria ficaremos aqui arrumando tudo, não é filha?
— Simmm! — Falou a menina de cinco anos.
— Torçam por mim! — O homem aproximou-se da esposa para lhe dar um beijo nos lábios. E saiu em seguida.
Alexandre estava ansioso. Olhava curioso para as pessoas que estavam no mesmo espaço que ele, esperando a chegada do voo vindo de Nova Iorque. Havia pais, namorados, namoradas, filhos e amigos que assim como ele estavam ali aguardando o desembarque de seus entes. Mas ele sabia que o caso dele era diferente, porque a lembrança que tinha de seu primogênito era de quando ele era pequeno, e as fotos em redes sociais não eram tão fidedignas. Estava curioso para vê-lo de verdade. De repente, algumas pessoas começaram a sair pelo desembarque, algumas correndo ansiosas até seus familiares, e outras apenas caminhando. Seu estômago estava mais do que embrulhado de nervoso, ele estava prestes a vomitar, até que viu um rapaz alto, de fios curtos, olhos castanhos e corpo atlético. Teve certeza que de que era seu filho porque era idêntico a ele na mesma idade. O rapaz caminhou mais rápido até ele, e quando percebeu, seu corpo já havia sido envolto pelos braços musculosos do filho, e não lhe restou outra alternativa além de abraçá-lo na mesma intensidade. Finalmente seu filho havia chegado, e ele poderia compensar tudo o que não puderam viver durante quinze anos.
— Finalmente você chegou!
— Sim! — Lucas abraçava seu pai o máximo que podia, e não tinha palavra no mundo para descrever o que estava sentindo naquele momento.
— Mamãe? — Maria apareceu na cozinha, enquanto sua mãe terminava de confeitar o bolo que estava preparando.
— Sim, filha.
— O papai vai gostar mais do Lucas do que de mim? — Olívia deu um riso e caminhou até sua filha, ficando de cócoras diante dela.
— Ele vai gostar igual de você e dele. E você vai gostar muito dele e ele de você.
— Será, mamãe?
— Claro, amor. — Olívia deu um beijo na testa alva da filha, esfregando o polegar em cima. — Agora vai brincar, que daqui a pouco ele chega.
Assim que anoiteceu, Olívia, que já estava arrumada para a recepção do enteado, terminava de aprontar a filha, quando ouviu a voz do marido, vinda da sala.
— Chegamos! — Maria saiu correndo para ver seu irmão. Olivia caminhou mais devagar, porém não menos ansiosa que sua filha. Ao chegar na sala, encontrou um rapaz alto, corpulento, com os fios curtos por máquina. Era um rapaz muito bonito, e parecido com seu esposo.
— Olá, eu sou Olívia. — A mulher aproximou-se do rapaz para lhe dar um abraço, que foi retribuído da mesma forma.
— Eu sou Lucas. Meu pai sempre falou muito bem de você, Olívia.
— Digo o mesmo. — Lucas também havia achado Olívia uma mulher muito bonita, e conservada. A madrasta usava um vestido preto, um pouco decotado, que deixava uma parte de seus seios redondos e morenos à mostra. O corpo dela era magro, curvilíneo, o que surpreendeu o rapaz, uma vez que ela já havia passado dos quarenta.
— Preparamos algumas coisas para celebrar sua chegada, mas acredito que queira conhecer a casa. — Disse Olívia.
— Uhum, quero sim. — A madrasta chamou o rapaz e levou-o até o quarto onde ele iria dormir daquele dia em diante. — Bem, esse é o seu quarto. Era o quarto de hóspedes, então está bem clean, mas acredito que com o passar do tempo você irá deixá-lo do seu jeito.
— Sim, eu desenho também, então eu gostaria de colocar minhas artes.
— Você desenha? Nossa, que legal! E pela sua forma física acredito que também deva praticar algum esporte, não?
— Sim, eu fazia muay thai lá nos EUA. Fiz desde os meus quinze.
— Bem, tem uma academia aqui perto, talvez fosse interessante se você fosse lá dar uma olhada também. Acredito que eles tenham essa modalidade.
— E você, pela sua acredito que faça também. — Olívia deu uma risadinha sem graça.
— Não, sou super sedentária. — De repente, Alexandre apareceu no quarto.
— E o resto da casa, amor? Vamos mostrar os outros lugares também.
— Claro. — Comentou Olívia, sem graça.
Lucas estava embasbacado com a beleza da esposa de seu pai. É claro, que pensava nela da forma mais respeitosa possível, mas era impossível não reparar naquela mulher.
— Então filho — Iniciou Alexandre, quando todos já estavam sentados à mesa – Espero que se sinta em casa, porque essa é a sua nova casa, e essa é a sua nova vida.
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