Nova Geração - Ano 1

17 Um Belo Dia Para Se Ter Dor de Cabeça


Victorie estava quase contente por ser domingo. Na verdade ela estava aliviada por ser domingo e não ter que enfrentar montes de professores e lousas lotadas de “teorias disso” “teorias daquilo” e então ser obrigada e fingir estar de bom humor e bancar a boa aluna. Ela simplesmente não estava com humor para aquilo naquela manhã. E estava grata por não ser forçada a isso. Naquela bela manhã de domingo – uma das ultimas manhãs ensolaradas que ela veria em muito tempo – tudo o que ela mais queria era afundar no meio dos lençóis da sua cama. Por isso tinha fechado o dossel azul marinho com detalhes em fio de prata que cercava sua cama e se enfiado de baixo dos cobertores por precaução. E era ali que pretendia ficar. Ela tinha uma ideia de como a sua aparência devia estar naquele momento: os longos cabelos loiros provavelmente estavam embaraçados, a maquiagem que usara na noite passada provavelmente tinha escorrido enquanto chorava durante a noite então seus olhos deviam estar inchados e pretos e seu rosto provavelmente estava muito vermelho – uma pequena coisinha que herdara de seu pai por ser ruivo.

O motivo de tudo isso? O motivo de ela querer deixar de existir e sumir entre o emaranhado que virara sua roupa de cama? Garotos. Por que sempre eram garotos?

Na manhã anterior ela ligara para Teddy. Celulares não eram permitidos dentro da escola, mas cartas eram lentas de mais e sempre tinha alguém que conseguia fazer passar um celular para dentro pelo preço certo – normalmente seu primo James estava envolvido nessas transações.
Então, devido aos motivos já expostos, ela arranjara um celular e ligara para ele na manhã antes do grande jogo para fazer uma surpresa, o problema foi que uma menina atendeu o celular dele.

– Quem esta falando? – perguntou Victorie.

– Quem quer saber? – disse a voz feminina.

– Onde esta o Teddy?

A menina do outro lado da linha suspirou e gritou:

– Fofinho, é pra você!

Alguns instantes depois a voz de Teddy apareceu no telefone:

– Alo?

– Fofinho?! – perguntou Victorie indignada.

– Quem esta falando?

– Sou eu sua lesma! Victorie!

– Ah! Oi, Vic.

– Não me venha com “oi, vic”, quem foi que atendeu seu celular?

– Ah, foi a Lola.

– E porque ela atendeu seu celular?

– Bom, eu não tive tempo de te contar, mas arranjei um emprego e a Lola trabalha aqui comigo.

– Ainda não entendi por que ela atendeu seu celular.

– Por que eu estava longe... – ele fez uma pausa e riu – Todo esse interrogatório é ciúmes?

– Ciúmes? Eu? Claro que não! – ela sentiu o rosto corar e ficou grata por ele não poder ver.

– Ah, então você não tem ciúmes de mim?

– Não é isso... É que eu... AAAH! Esta bem, eu estou com ciúmes!

Ele deu risada:

– Afinal, como você conseguiu um celular de dentro da escola? – ele disse escola de um jeito tão forçado que ela pode deduzir na hora que a tal Lola era trouxa.

– James arranjou pra mim.

– Eu tinha a impressão de que ele estava metido nisso. – ele deu risada.

– Enfim, como você esta? Como é o novo trabalho?

– Ah estou ótimo. E eu estou trabalhando numa boate no centro de Londres.

– Uma boate?

– Sim, quando você vier pra casa no natal posso te trazer aqui, é muito legal Vic!

– E o que você faz ai? – algo não a agradava nessa historia.

– Sou garçom, junto com a Lola.

– E o que vocês dois estão fazendo ai a essa hora sozinhos? – ela sabia que não estava gostando desse novo trabalho dele.

– Estamos limpando o lugar Vic. E não estamos sozinhos, a barman e o DJ também estão aqui.

– “A” barman? Tem duas garotas ai?

– É Vic! Garotas também trabalham sabia? – ele se forçava a manter a voz baixa.

– Mas o que elas fazem ai com você?! – sua voz tinha afinado um pouco com o nervosismo.

– Você ao menos escutou que tem um homem aqui também ou ficou surda de repente? – ele estava ficando nervoso também – Eu não estou fazendo nada de mais Vic! Estou trabalhando...

– Eu sabia que isso não ia dar certo! – disse ela de repente.

– O que? – ele abaixou a voz totalmente.

– Eu sabia! Você não consegue ficar sozinho!

– Eu não consigo? Qual é a sua fama mesmo ai dentro da sua escola? – pelo menos ele se lembrou de não dizer “Hogwarts” já que ele estava gritando.

– Não interessa! Eu não fiz nada desde que cheguei aqui! Já você!

– Victorie eu não estou fazendo nada!

– Ah tá!

– Já que você não quer acreditar em mim não temos mais nada para conversar!

– Ótimo! – gritou ela.

– Ótimo! – gritou ele de volta.

A ligação foi finalizada. O barulho de “tu tu tu” era tudo o que ela escutava e pareciam marteladas em sua cabeça. Foi então que notou um aperto em seu peito, guardou o celular nas vestes e saiu do armário de vassouras que tinha se escondido. Olhou para os lados e correu pelo corredor na esperança de alcançar seu dormitório antes que algum conhecido a visse. Enquanto corria não pode evitar que as lagrimas rolassem por seu rosto. Virando em um corredor para chegar até as escadas magicas ela trombou com alguém.

– Ei, Vic! Aonde vai com tanta pressa? O jogo é para o outro lado.

Na sua frente, de cabelos cor de areia e olhos cor de mel e um sorriso tão grande que da vontade de sorrir junto estava seu melhor amigo – homem claro, sua melhor amiga era sua prima Roxanne – Rob Goldstein. Um aluno do sexto ano da Lufa Lufa que tinha sido o porto seguro de Victorie tantas vezes que ela nem imaginava a sua vida sem ele.

– Você esta chorando? – ele a segurou pelos ombros e olhou em seus olhos – O que houve minha pequena? – aquele era um apelido que ele dera para ela no terceiro ano deles ali. Uma vez que ele crescera até quase atingir dois metros e ela mal passava dos 1,60m.

Com ela ainda chorando ele a fez sentar no corredor encostada na parede e se ajoelhou na frente dela. Olhou para ela com um sorriso tão solidário que tudo o que ela queria fazer era sorrir para agrada-lo. Ela não conseguia entender como aquele garoto namorava tão pouco. Com aqueles grandes olhos cor de mel ele parecia um cachorrinho abandonado pedindo por carinho. Qualquer garota se derreteria por ele. Vic também se não o conhecesse desde sempre.

– Me conte o que aconteceu. – ele pediu gentilmente.

Ela explicou tudo a ele. De como começara seu caso com Teddy durante o verão e de como as coisas tinham ficado complicadas de mais para ela lidar quando ela teve que voltar para a escola e ele ficara lá. Ela simplesmente não sabia como administrar um relacionamento a distancia e não conseguia controlar o ciúme que sentia dele toda vez que ele mencionava uma pessoa nova na vida dele, seja homem ou mulher.

– Vic, ta na cara que isso foi só mais um casinho de verão. Você tem que seguir em frente. Esse cara, Tom...

– Teddy. – ela corrigiu.

– Teddy. Ele esta longe, lá em Londres. Ele tem outra vida. Um cara de dezenove anos que esta começando a curtir não vai querer a se prender a uma garota de dezesseis que fica longe o ano todo. – vendo o olhar em seu rosto ele sorriu e completou – Por mais incrível que ela seja.

– Mas... Eu pensei que...

– Você pensou que dessa vez fosse diferente. Que ele gostasse realmente de você. Você pensou que ficariam juntos pra sempre. – ele disse numa voz entediada como um gravador – Quantas vezes já estivemos nessa situação Vic?

– Algumas. – ela disse envergonhada.

– Muitas. – ele corrigiu – Mas tudo bem, eu estarei sempre aqui, não importa mais quantas vezes isso ira se repetir. E nunca se esqueça de que quem perde são eles.

– Você é um amor sabia? Não sei como não tem uma namorada.

– Estou esperando a garota certa me notar. – disse ele enxugando uma lagrima de seu rosto com o dedo.

Seus olhos se encontraram e tudo o que ela viu foram as duas poças de mel que ele chamava de olhos, tão gentis, tão familiares. Ela ficou feliz de ter esbarrado com ele e sorriu. Se preparou para levantar e foi surpreendida por um beijo. Um beijo que – pela primeira vez na vida – ela não correspondeu. Ela ficou simplesmente ali, paralisada. Surpresa de mais para reagir. E então o afastou.

– Rob, o que você esta fazendo?

– Por que você nunca me deu uma chance Vic? Eu sou o único que nunca te fiz chorar.

– Você é meu amigo! Eu nunca te vi desse jeito.

A expressão em seu rosto se tornou magoada. Parecia um cachorrinho que caiu da carrocinha e ainda levou um chute do seu amado dono. Simplesmente desolado. O primeiro instinto que ela teve foi o de ir consola-lo como ele fizera com ela mas ele afastou suas mãos.

– Rob, por favor, me desculpe. É só que – ela parou sem saber o que dizer.

– É só que você não me ama. – a expressão em seu rosto era de partir o coração.

– É claro que te amo! Você sabe que sim! Só que não do jeito que você queria que eu amasse.

– Você consegue amar todos os garotos que passam pela sua vida, menos a mim?

Ao ouvir aquela frase ela sentiu como se tivesse levado um soco no estomago. No mesmo momento em que terminou de dizer ele se arrependeu.

– Olhe, Vic, não foi bem isso que eu quis dizer, eu só...

– Esqueça isso. – ela estava a ponto de chorar de novo – Só... Me deixe sozinha.

Ela se levantou e correu para algum canto do castelo onde pudesse sumir.

...

Passaram-se algumas horas até que ela resolvesse sair da incrível sala que achara. Parecia que a sala sabia o que ela precisava. Lencinhos para enxugar as lagrimas, muitas coisas para jogar contra a parede que se refaziam logo após estourarem em pedacinhos, varias almofadas para se jogar em cima. A sala era tão boa que ela até esqueceu o leve cheiro de queimado que ela tinha.

Quando ela finalmente decidiu que era hora de voltar ao mundo real o jogo tinha acabado faziam alguns minutos e ela pode escutar a comemoração da Sonserina por todo o castelo. Ela resolveu ir até seu dormitório e fingir que nunca saiu de lá, infelizmente ela teria que passar pelos alunos que voltavam pro castelo no saguão.

Chegando no saguão a ultima pessoa que ela queria ver veio falar com ela.

– E então princesa, não ganho nenhum premio pelo meu ótimo desempenho no jogo hoje? – disse Lucas chegando perto dela.

– Não enche. – ela o empurrou para o lado e continuou andando.

– Ei! – ele a alcançou e a segurou pelo braço.

Ela o olhou com fúria e ele soltou seu braço e ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Calma. Eu só ia te convidar pra festa na sala comunal da Sonserina. Nós ganhamos sabe?

A diferença entre Lucas e sua miniatura chamada Fabian? Ele era menos arrogante. O que fez uma Victorie determinada a dizer não, acabar aceitando o convite. E ambos foram para a sala comunal da Sonserina. Chegando lá ela nem viu muito da festa em si, ela e Lucas passaram a maior parte se agarrando num canto da sala como se ninguém estivesse vendo. Claro que tinham horas que ela só queria dar um tapa na cara dele e sair dali, mas ai ela pensava na briga com Teddy de manhã, no que Rob tinha dito a ela e de como estava com raiva deles naquele momento e isso só fazia com que ela quisesse arrancar a camisa de Lucas que escondia todos aqueles músculos que ele cultivava com tanta dedicação. Talvez não fosse a melhor maneira de lidar com a situação, mas entre um gole de aguardente e outro – disponível apenas para os alunos acima do quinto ano – ela perdia um pouco do discernimento do certo e errado.

Em algum ponto da festa o Lucas anão – Fabian – resolveu arrumar briga com dois alunos do primeiro ano que ela descobriu serem seu primo Alvo e o amigo dele. Quando Fabian prendeu seu priminho no chão e se preparava para dar um olho roxo a ele, ela puxou a manga de Lucas e disse:

– Tira o animal do seu irmão de cima do meu primo.

– Deixa que eles resolvam os problemas deles. – disse ele querendo beija-la de novo.

– Ou você impede o seu irmão ou eu faço isso. O que seria pior? Ele apanhar de você ou um professor descobrir que você trouxe uma corvina aqui pra dentro?

– Você não faria isso...

– Ah, eu não testaria a minha paciência hoje.

Ele a encarou por um segundo e então bufou e foi em direção aos meninos que brigavam. Arrancou o irmão mais novo de cima de Alvo com a facilidade que uma criança carrega uma boneca e o segurou. Victorie foi ver como eles estavam e apesar das perguntas irritantes de Alvo, ela ficou feliz de estar ali para ajuda-los. Lucas mandou eles de volta para os quartos e quando eles estavam entrando no corredor dos dormitórios uma bomba de confete vermelho e dourado estourou enchendo a sala comunal da Sonserina de purpurina “grifinoria”. Isso deixou Lucas bem furioso e o distraiu dela, que aproveitou a chance para escapar dali.

Agora ela se encontrava na sua cama, querendo se esconder do mundo se sentindo um lixo e com uma ressaca fortíssima de bônus. Sentiu a cabeça latejar e o barulho das meninas acordando em seu dormitório. Agradeceu mais uma vez por ser domingo e se ajeitou para passar o resto do dia na cama.

Notas finais
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