Notas iniciais
Boa leitura, guys!

Ela não queria presenciar aquela cena, mas tinha medo das consequências caso desobedecesse à ordem de seu pai para descer, imediatamente, até a sala do trono. Apertava a saia do vestido para não tremer tanto, porém seus olhos lacrimosos não conseguiam esconder o quão desconfortável se sentia naquele momento.

A princesa respirou fundo e assentiu para um dos guardas que se punha ao lado da entrada. O som das pesadas portas de madeira maçiça sendo abertas ecoou por todo o lugar, embora estivesse parcialmente cheio.

Ao longe, ela conseguiu avistar seus pais. Algumas pessoas se curvaram enquanto atravessava a sala do trono, demonstrando respeito, porém a maioria parecia estar vidrada em algo mais interessante do que uma princesa. Ela agradeceu mentalmente por não ser o centro das atenções, mas logo arrependeu-se do pensamento ao ver um homem ajoelhado na frente da pequena elevação onde estavam os tronos e aquilo significava apenas uma coisa:

Julgamento.

A princesa se acomodou em seu lugar ao lado do trono da mãe e permaneceu quieta. Alguns anos atrás, ela ousou ir contra o decreto do pai na frente de todos e, bom, isso quase lhe custou a língua.

Selletus levantou-se do enorme trono de carvalho branco com caveiras esculpidas nos apoios de braço e nos pés, e sua capa negra de couro esvoaçou conforme desceu os três degraus. Ele encarava um homem magricela, sujo e maltrapilho de joelhos no chão frio a sua frente. Dois Julgadores seguravam o rapaz pelos braços com força, fazendo-o encarar o rei e deus da morte.

— Roven Dugall. Você já sabe o que acontecerá em seguida — falou Selletus enquanto caminhava ao redor dele. — Fui misericordioso na primeira vez ao deixá-lo sair do meu reino com vida e, agora, sou surpreendido quando minhas crianças o encontram vagando por aqui novamente.

— Não tenho medo de você, Selletus! — rosnou encarando o deus.

— Claro que não. — Ele se curvou, ficando perto do rosto de Roven. — Como teria medo de mim se estava planejando me assassinar? — perguntou sorrindo, deixando visível seus dentes perfeitos e as presas afiadas.

Alguns Julgadores presentes deram breves risadas. Selletus era um deus; seria necessário outro deus ou um semideus muito forte e habilidoso para enfrentá-lo de igual para igual. Com certeza um humano magricela causaria nada além de tédio ao deus da morte.

Ellisse Caunder, a princesa, se encolheu no seu trono um pouco menor comparado ao de seus pais. Não desejava fazer parte daquilo, apesar de saber que, cedo ou tarde, seu pai ordenaria que consumisse sua primeira alma.

— Mas vou ser generoso com você, Roven — disse antes de endireitar o corpo e caminhar para trás do rapaz. — Deixarei que tenha o privilégio de sua alma ser a primeira de muitas que minha filha consumirá.

Selletus encarou a princesa, numa ordem silenciosa para que a mesma se aproximasse, então voltou a ficar de frente para Roven.

Ela se levantou e uma mão envolveu seu pulso. Ellisse olhou para por cima do ombro e encontrou sua mãe carregando na face uma expressão nova para ela: raiva borbulhava nos olhos castanhos amarelados da rainha enquanto ela encarava o marido.

— Mamãe — sussurrou Ellisse, tentando se livrar do aperto em seu pulso. Temia receber uma dolorosa punição de Selletus pela demora.

— Ellisse, parece que está sentindo falta de nossas conversas na masmorra — disse o deus ainda de costas para ela.

A princesa estremeceu diante das palavras do pai. Suas “conversas” naquele lugar horrendo sempre acabavam em ferro quente contra sua pele ou cortes profundos em suas costas causados pela Ceifadora.

— Ela é só uma criança, Selletus! — esbravejou a rainha, colocando-se na frente de Ellisse.

O rei respirou fundo antes de se levantar e virar para a esposa.

— Katherin, você sabe que esse é o destino dela. — Ele aproximou-se das duas um passo e depois outro, ficando cada vez perigosamente mais perto. — Ellisse é minha sucessora e, como tal, deve começar a seguir meus passos para se tornar uma deusa e a Rainha da Morte!

Ellisse, num impulso, colocou-se entre seus pais. Eles travavam uma intensa batalha de olhares, deixando-a agoniada por não saber como acalmá-los. Ela, então, olhou instintivamente para Roven e percebeu um sorriso discreto nos lábios dele. Para alguém prestes a morrer, sorrir e brincar com os dedos, como se estivesse contando, era intrigante. Imaginou se Roven estaria tramando algo, mas como? Havia Julgadores o suficiente para tomar a Capital Emblemática Central, a maior de toda Linearth, em poucas horas. Planejar um ataque ou, até mesmo, fugir parecia impossível.

Parecia.

Passaram-se alguns segundos para que tudo mudasse.

Os vitrais cinzentos da sala do trono se quebraram em milhares de cacos, e pessoas encapuzadas invadiram através deles, surpreendendo a todos. Julgadores sacaram suas espadas rapidamente, indo em direção aos invasores para detê-los o mais rápido possível. Enquanto isso, Katherin puxou a filha contra seu corpo, protegendo-a possessivamente sem tirar os olhos do deus.

Ele, naquele momento, pareceu perceber o que estava realmente acontecendo. Fora traído. Traído pela própria mulher e bem de baixo dos seus olhos.

— Desgraçada! — rosnou Selletus avançando na direção de Katherin. Veias negras subiam por seu pescoço até o maxilar, e a Ceifadora materializou-se gradativamente na sua mão direita.

Enquanto alguns Julgadores lutavam contra os encapuzados, outros removiam às pressas os poucos cidadãos presentes que estavam ali pelo julgamento.

Ellisse, percebendo o que ia acontecer, empurrou sua mãe para trás e ergueu as mãos para tentar, de alguma maneira desesperada, parar a Ceifadora. Ela ouviu sua mãe gritar e esperou a dor de sua carne sendo rasgada, mas algo sólido materializou-se em suas mãos e ela segurou com força. Um som alto de metal contra metal ecoou alto por todo lugar. As lutas pararam quase imediatamente; todos pareciam surpresos ou curiosos para saber o que tinha acontecido.

— Ellie... — ofegou Katherin.

— Que... grandioso! — sussurrou Selletus.

Uma espada de lâmina negra, com finas rachaduras verdes, surgira nas mãos de Ellie. Ela a deixou cair num impulso.

Criada pela deusa dos humanos, Tory, Noturna era uma espada lendária e de poder inimaginável. Foi usada pela deusa antes mesmo de Selletus existir para combater deuses menores de outros universos. Mas seu poder de destruição foi crescendo, tornando-se incontrolável. Tory, então, amaldiçoou a espada e a fez desaparecer durante séculos para que ninguém pudesse empunhá-la novamente.

Mas lá estava Noturna, para que todos vissem sua nova portadora capaz de conviver com sua maldição.

— Katherin! — gritou Roven ao longe. Ele tinha escapado dos Julgadores e, agora, comandava a retirada dos encapuzados.

Ellisse começava a entender. O ataque fora planejado e sua mãe fazia parte dele, por isso Selletus estava furioso.

— Mamãe? — chamou Ellisse, ignorando a espada ao seu lado.

Katherin fitou Roven, parecendo criar forças para resistir ao chamado da filha e seguir o rapaz. Não tinha muito tempo; os Julgadores começavam a criar vantagem contra os encapuzados e a rainha precisava se decidir.

— Sinto muito, Ellie — sussurrou virando-se de costas para a filha.

— Detenham-na! — bradou Selletus enquanto se aproximava.

Dois Julgadores avançaram rapidamente na direção da rainha, mas ela fora mais rápida. Katherin, num movimento ágil, saltou por entre eles, fazendo com que desequilibrassem e caíssem no chão. Seu corpo tornou-se, durante o salto, uma massa negra inconsistente até que aterrissasse suavemente na forma de uma pantera negra de olhos dourados.

Os Transmorfos — como a rainha e o seu povo eram chamados — foram criados pelo deus Kellow para serem os protetores da natureza. Eram humanos com a habilidade de se transformar em animais e, assim, transitar tranquilamente entre os dois mundos.

Ellisse deu um passo em direção a pantera, mas ela já estava longe demais. Iria chamá-la quando uma mão segurou seu braço com força. A princesa virou para trás e encontrou Selletus lhe encarando.

— Não poderia estar mais orgulhoso de você, minha criança — falou sorrindo. — Sua mãe nunca nos entendeu realmente, então tentou nos impedir de salvar o mundo.

— Salvar o mundo? De quem? — perguntou com os olhos fixos na lâmina negra com suas ranhuras verdes brilhantes.

— Ainda não está na hora de se preocupar com isso, criança, mas te ajudarei de agora em diante. — Selletus afagou os cabelos pálidos de Ellisse, idênticos aos da mãe, com falsa afeição. — Logo estaremos transformando o mundo num lugar muito melhor.

***

Ela abriu os olhos lentamente. Seu pijama estava empapado de suor, os cabelos quase brancos grudavam-se a seu rosto levemente corado e sua língua estava áspera. Kass estendeu o braço, ainda atordoada, para pegar o copo de água no chão ao seu lado. Tomou tudo em três longos goles.

O quarto estava parcialmente, iluminado apenas pelas luzes alaranjadas dos postes do pátio do colégio. Lya, na cama a seu lado, dormia agarrada a um travesseiro e tinha no rosto uma expressão serena.

Kass suspirou e se levantou do chão. Durante a noite, ela acordou por não conseguir mais dormir, então decidiu meditar um pouco porque faltavam longas horas até o início das atividades no colégio. Mas fora difícil se controlar durante a meditação.

Normalmente ela meditava num espaço mais aberto e seguro, longe de tudo e todos. Durante o exercício, ela entrava num transe profundo em que suas ações no mundo real não conseguiam ser controladas. Já atacara seus instrutores ou pessoas próximas por confundir a realidade com suas lembranças.

Uma vez partira uma enorme rocha ao meio com Noturna. Kass havia se lembrado da emboscada envolvendo os Protetores e que ocasionou a morte de uma pessoa muito especial para ela. Aquela era, de longe, sua lembrança mais dolorosa.

Silenciosamente, ela se aproximou da escrivaninha, vendo as fotos entregues por Brandon espalhadas em cima dela, e Kass sentou-se na cadeira para analisá-las atentamente. Capturou a primeira com a ponta dos dedos e leu a breve anotação no canto inferior da borda branca.

Rei Anthony Trewor Dominus II — Irmão mais velho do Rei Gallydus e Rei de Mhorvanna.

As semelhanças entre Gallydus e o irmão eram gritantes: Anthony possuía os mesmos olhos verdes, as sobrancelhas grossas, mas tinha mais cabelos grisalhos do que castanhos avermelhados e um semblante pesado. Era como uma versão obscura de Gallydus. Seria impossível não se lembrar dos traços dele, então pegou outra foto.

Príncipe Leon Dominus — Único herdeiro do Rei Anthony Trewor Dominus II

A primeira impressão de Kass ao observar a foto do primogênito de Anthony foi: que homem arrogante. O Príncipe Leon parecia ter herdado as características físicas da mãe, uma vez que não possuía os olhos verdes do pai e nem o cabelo castanho avermelhado. Suas íris eram de um azul opaco; os cabelos negros como piche estavam empapados de gel para sustentar o topete grande demais para seu rosto fino. Um sorrisinho debochado estava em seus lábios enquanto segurava uma taça.

Deve ser suco de uva, supôs Kass ao reparar melhor no líquido levemente roxo e muito escuro para ser vinho ou, talvez, licor.

Então seguiu para a terceira foto. Observou a cicatriz grande na sobrancelha esquerda do homem, os lábios finos formando um sorriso ameaçador e os olhos azuis escuros.

Petrus Courvin — Capitão da Guarda Real de Mhorvanna e braço direito de Anthony Trewor.

Procurou rapidamente algumas informações adicionais sobre Petrus na Tela Interativa antes de passar para última foto. Descobriu que trabalhara durante dez anos como um Federal, então saiu após receber um convite do Rei Anthony Trewor Dominus II para ser o Capitão do Exército Real de Mhorvanna.

Kass pegou a foto sem muito interesse, imaginando ser mais um homem tão carrancudo quanto o tal de Petrus, mas ao reconhecer quem estava na foto ela ficou paralisada por alguns segundos.

— Puta merda — xingou num sussurro.

Ele estava mais velho, com uma rala barba branca cobrindo todo o maxilar quadrado, algumas rugas mais acentuadas, cabelos grisalhos e o semblante aparentando cansaço. Porém os olhos castanhos amarelados e o sorriso leve com três pequenas cicatrizes marcando o lábio inferior não a enganavam: era seu tio. Kass aproximou a foto de seu rosto para ver melhor os detalhes, sentindo a nostalgia lhe atingir forte.

Zanur Mitchell era o irmão mais velho de Katherin. Governou Caullo por anos; um reino de terras férteis, rico em exportação de produtos alimentícios e agradável de se viver. Ele provavelmente fosse rei até hoje, mas seus planos mudaram com o casamento da irmã com o deus da morte. Não era segredo para ninguém o quão Zanur detestava Selletus, porém não impediu Katherin de se casar ao saber do amor verdadeiro que ela sentia pelo deus Ele deixou o reinado para seu braço direito, Peter Wing, e seguiu a irmã até o Reino de Selletus, virando o protetor e conselheiro da mesma.

Kass suspirou deixando as fotos de lado por alguns instantes, imaginando se ele a reconheceria — assim como ela o reconheceu — na festa de boas-vindas do colégio. Zanur desaparecera depois da invasão dos mascarados durante o julgamento de Roven, provavelmente seguindo, como sempre, a irmã mais nova. Depois, ele nunca mais foi visto.

Nem ele e nem sua mãe.

— Desgraçados.

Eles a haviam abandonado, deixando-a com aquele monstro chamado Selletus que, infelizmente, era seu pai. Nunca os perdoaria, mesmo se estivessem de joelhos implorando desesperadamente por seu perdão. Ela suportou sozinha as torturas, humilhações e abusos durante séculos até fugir.

— Kass — chamou Lya baixinho.

Kassandra bufou, se amaldiçoando por, provavelmente, ter acordado a princesa. Quando se virou para atender ao chamado, ela não conseguiu evitar de sorrir ao encontrar Lya ainda agarrada no travesseiro que Kass usara a noite inteira.

— Ainda é cedo. Pode voltar a dormir — avisou Kass sentando-se na beirada da cama.

— Mas você está acordada — retrucou a princesa.

— Sim.

Lyanna gemeu manhosa e agarrou ainda mais o travesseiro, afundando o rosto parcialmente nele.

— Não precisa ficar paranoica com a vinda do meu tio. Sei que você conseguirá me proteger se algo acontecer, então pode, por favor, voltar para cama?

Kass riu da voz sonolenta e autoritária da princesa. Ela pediu alguns minutos para tomar uma ducha rápida. Não queria deitar com o corpo suado.

Depois de cinco minutos, Kassandra voltou para a cama, com um pijama limpo, e se deitou ao lado da princesa.

— Mais alguma coisa, Alteza? — perguntou olhando-a atentamente.

— Só… durma. — disse se encolhendo perto de Kass.

Kassandra hesitou, mas logo envolveu o corpo da princesa com seus braços de maneira protetora, puxando-a contra si. Ela apoiou o queixo na cabeça de Lya, respirando profundamente. O sentimento de estar fazendo a escolha errada pesava cada vez mais. Já perdera pessoas demais em sua vida, e aproximar-se de Lyanna tão intimamente era perigoso demais.

Mas não conseguia mais imaginar ficar sem aquela humana por perto.

Fechou os olhos, aproveitando o perfeito encaixe dos seus corpos. Não demorou muito para embalar num sono profundo novamente.

Os braços estavam levemente doloridos. O suor fazia a regata branca colar-se a seu corpo e subir levemente elevava-se corpo acima da barra de aço pela vigésima — e última — vez. Ela soltou a barra, aterrissando sem problemas no tatame azul.

O Colégio Bhakans possuía salas de treinamento individual. Elas continham equipamentos de última geração para treinamentos com qualquer arma, sendo em simulações ou exercícios físicos. O lugar atendia a qualquer necessidade através de configurações no painel de controle, mudando o ambiente a cada tipo de treino.

Treinava há quase quatro horas, mas não demonstrava sinais de cansaço. Poderia estar suada, o cabelo levemente bagunçado, a respiração descompassada, mas sentia que tinha fôlego para permanecer se esforçando por mais algumas horas. O corpo de Kass era diferente do dos humanos: incansável e resistente.

Kass passou a mão pela nuca, tentando aliviar a tensão naquele ponto, quando ouviu um leve chiado. Olhou para os lados, procurando de onde vinha o som, então encontrou sua espada brilhando. Ela sorriu antes de questionar:

— Eu deixo você livre e ainda tem coragem de ficar reclamando? — indagou encarando Noturna que estava encostada num canto da sala.

A espada brilhou duas vezes rapidamente.

— Não é tão simples assim. — Kass pegou uma toalha do chão, ao lado da sua garrafa de água, e secou o suor da nuca. — Ainda preciso fazer a segurança de Lyanna e não posso deixar o colégio — explicou. Caminhou até outro equipamento de musculação e ajustou os pesos.

Com os pesos perfeitamente regulados, ela se posicionou entre os puxadores do equipamento — tirando a regata branca para ficar apenas com o top preto — e, então, os agarrou com força. Respirou profundamente e ergueu trezentos quilos facilmente. Seu corpo era perfeitamente definido. Via-se cada músculo trabalhando em conjunto para erguer os pesos e, então, soltá-los aos poucos, repetindo o processo sem parar durante longos minutos até ser interrompida.

Deuses.

O cheiro já muito bem conhecido e apreciado invadira seus pulmões. Ela soltou os puxadores com cuidado, e os pesos emitiram um baque surdo ao se encontrar. Ela virou-se para vislumbrar uma Lya desconcertada, com os lábios entreabertos e as sobrancelhas levemente arqueadas.

— Alteza — cumprimentou-a. Kass achava engraçado como o fato de estar apenas de top afetava a princesa. — Aconteceu alguma coisa?

— Eu só… Recebi uma mensagem da minha mãe pedindo que eu a encontrasse hoje, então vou precisar de você.

— Interessante — divagou. — Pelo que me lembre, vocês não são muito próximas.

— Ela deve estar preocupada com o que aconteceu comigo em Terhia.

— Claro. — Kass respirou fundo e olhou para Noturna. — Hora de voltar, querida.

A espada brilhou intensamente antes de desaparecer. Aos poucos a tatuagem foi aparecendo no antebraço de Kass, como se nunca houvesse saído de sua pele.

— Vou esperar com Yass no pátio. Nosso aerocarro chega dentro de meia-hora.

Kassandra assentiu.

— Estarei pronta para você em alguns minutos, Alteza — avisou.

A princesa não parecia ter ouvido. Ficou parada, analisando o corpo de Kassandra distraidamente como se não pudesse ser pega.

Mas fora notada. E, ao perceber, Kass tratou de se aproximar despretensiosamente. Queria atiçar um pouco mais a princesa, então, ao chegar perto o suficiente, inclinou-se até o ouvido dela.

— Mais alguma coisa, Lyanna? — questionou com a voz levemente rouca e provocante.

Kassandra precisou se concentrar muito para não sorrir ao ver a princesa sobressaltar, parecendo acordar de um profundo transe e perceber o quão perto estavam.

— Você está... fedendo. Precisa urgentemente tomar um banho.

— Imagino que sim. Mas seu cheiro, princesa, é sempre inebriante. Uma droga feita sob medida só para mim — confessou num murmúrio quase irritado.

— Eu…

— Encontro vocês em vinte minutos — falou, impedindo Lyanna de completar a frase e seguindo para fora da sala.

Por alguns instantes achou que perderia o controle. Colocaria a princesa contra a parede sem pensar duas vezes para ter o prazer de vê-la ofegar, ficar a mercê de seus toques e insinuações como nas escadas de emergência. Nunca desejou ou se preocupou tanto com uma humana. Já tivera inúmeros casos com homens e mulheres — humanos ou não —, mas aquela garota era completamente diferente. Única.

Em poucos minutos atravessara o pátio e entrara no prédio onde ficavam os dormitórios. Algumas alunas olhavam em sua direção, mas não a cumprimentavam como faziam com Lyanna. Pareciam admirá-la silenciosamente, olhando para cada detalhe de sua postura imponente enquanto caminhava pelo corredor até o seu dormitório.

Tocava na maçaneta quando ouviu alguém chamar seu nome. Ela respirou fundo antes de se virar para encontrar uma Presidente estranhamente sorridente.

— Rachel.

— Kass. Fico feliz em ver que fez proveito de nossa sala de treinamento.

— Sim. Gosto de ficar em forma. Precisa de alguma coisa?

— Oh, sim!

A Presidente retirou algo do bolso da calça. Ela não usava seu uniforme, apenas uma calça de linho preta agarrada, camisa branca social larga e o colar com o pingente de mariposa. Seus cabelos estavam soltos, caindo em seus ombros elegantemente. Ao longe estavam dois Uivantes, usando ternos pretos e gravatas douradas.

Estão descaracterizados, concluiu.

Quando Rachel estendeu um cartão na sua direção, Kass franziu a testa. Ela o pegou com a ponta dos dedos e considerou-o com curiosidade.

— Gostaria de ter a oportunidade de conversar melhor com você, Kass. Creio que na festa estará acompanhando a princesa, então podemos nos encontrar amanhã. Se você aceitar, é claro.

— Estou surpresa. Condessa? — indagou ao ler o nome.

— É um restaurante reservado — explicou sem tirar os olhos da novata.— Não irá se decepcionar com a comida, eu garanto.

Kassandra ergueu o olhar para a Presidente, tentando desvendar quais eram as reais intenções dela com aquele encontro.

Ela pôs o cartão em sua calça de moletom.

— Preciso conversar com Lya. Meu pai está confiando em mim para fazer a proteção dela e não me sinto confortável em deixá-la desacompanhada.

— Tenho certeza de que a Líder Esportiva consiga ficar com ela durante algumas horas — Rachel prendeu o cabelo num coque frouxo, deixando pescoço exposto para revelar uma trilha delicada de cinco pequenas pintas. — O que me diz?

— Preciso pensar. — Kass estava decidida a não respondê-la. Realmente queria conversar com Lyanna primeiro antes de tomar qualquer decisão.

— Entendo. — Ela olhou para trás, recebendo um aceno afirmativo do Uivante mais baixo. — Devo ir agora. Pense com carinho no meu convite. Posso garantir que não há pretensão alguma, apenas curiosidade de saber mais sobre você.

— Certo.

Parecendo satisfeita com a resposta, ao assentir com um sorriso nos lábios, Rachel deu as costas e caminhou na direção dos Uivantes. As alunas ao redor cochichavam baixinho umas com as outras, mas Kass não se importou; entrou no dormitório para tomar um banho rápido e se encontrar com Lyanna.

Tudo no dormitório era organizado. As camareiras do colégio arrumavam o lugar três vezes ao dia, deixando-o cheiroso e impecável. Talvez não fosse assim com as outras alunas, por não serem princesas para receber um tratamento especial, porém Kass apreciava a organização.

Ela olhou rapidamente o relógio em cima da escrivaninha antes de entrar no banheiro e tomar um rápido banho. Vestiu a primeira combinação de roupas que pensou — calça jeans e uma camisa azul com uma estampa qualquer -, então seguiu para o local de encontro combinado.

Kassandra atravessou o pátio tranquilamente, sabendo que estava alguns minutos adiantada. Ela avistou a princesa sentada na fonte com Yass ao seu lado.

Parecendo notar a aproximação de Kass, Lyanna virou o rosto em sua direção antes de checar o relógio integrado no Comunicador de pulso. — Pontual — comentou Lya.

— Sempre — Kass olhou para o robô ao lado da princesa arqueando as sobrancelhas. — Está tudo bem, Yass?

— C-claro, Senhorita Kass — respondeu como se estivesse nervoso ou amedrontado.

— Não parece — resmungou.

— Yass ficou com medo de você pelo que aconteceu — disse a princesa.

Kass olhou para o robô, então agachou na frente dele para ficar quase da mesma altura.

— Não estou brava, Yass. — Ela colocou a mão na cabeça dele. — Quando estou faminta ou com raiva, é como se outra pessoa tomasse controle do meu corpo e sua atitude foi muito importante. Não sei o que teria acontecido se não tivesse me apagado daquele jeito. Obrigada.

Os olhos de Yass brilharam ainda mais intensos — como se fosse possível — ao ouvir as palavras de Kass.

— Eu sabia que gostava dele — disse Lya parecendo conter uma risada.

Kass ficou de pé e deu de ombros.

— Um pouco. Mas podemos encontrar sua mãe logo? Ainda temos uma incrível festa para ir hoje e quero voltar o quanto antes para me preparar.

— Podemos.

O pequeno grupo seguiu pelo pátio até os fundos do colégio.

Quinze largas plataformas elevadas, dispostas numa grande área aberta externa do colégio, eram controladas pelos Federais. Aerocarros — veículos usados apenas para transitar nas Capitais — e pequenas naves passavam por uma rápida revista antes que fossem conduzidos às plataformas onde deixavam ou buscavam alunos.

Ao avistar o pequeno grupo da princesa, um dos Federais se aproximou para conduzi-los até a plataforma onde o aerocarro esperava por eles. Ele acenou para um dos seus parceiros que logo abriu a porta do veículo negro destinado a levar a princesa.

Yass foi colocado no porta-malas, onde havia um compartimento próprio para ele. Kass foi para o banco de trás, junto com a princesa, e cruzou os braços já impaciente. Não queria voar novamente, porém não tinha escolha.

— Bom dia. Para o Centro de Pesquisas Synol, por favor.

O motorista de cabelos grisalhos assentiu antes de manobrar o aerocarro e se misturar ao grande fluxo da avenida principal aérea.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar e até a próxima ;)