Noturna - A Maldição dos Criadores
2 Novo Começo
Notas iniciais
Com vocês mais um capítulo hahahaha
Bora Ler!
Lutando contra as alucinações, Kass ouviu uma voz rouca e tristonha comentar sobre seu estado. — Ela não está melhorando, Charles — disse o médico ainda olhando os papéis. O segundo médico, Charles, se aproximou da cama onde a Julgadora estava deitada — com os olhos febris encarando o vazio — e pressionou um pano úmido contra a testa dela. A expressão cansada dele revelava estar quase desistindo também. — Está além das nossas capacidades, Leroy. Além das nossas realidades. — Houve resmungos concordando com o comentário de Charles. Novamente, as forças de Kass acabaram, e a escuridão a engoliu. * Do lado de fora, a neve caía tranquila e mantinha as pessoas dentro de suas casas, próximas de suas lareiras. Não havia um único morador se aventurando nas ruas de paralelepípedos da famosa cidade de Terhia, Lanvhin. Só a fiel patrulha dos guardas-reais circulavam pelas ameias das muralhas que protegiam o castelo. A falta de moradores de rua se dava por conta da bondade do Rei. Sabendo das baixas temperaturas dessa época do ano, ele ordenou a construção de casarões para abrigar pessoas sem condições de ter uma casa em seu reino. Nenhum de seus quatro irmãos que comandavam os reinos mais ao norte e ao extremo sul se importava com quem não poderia gerar lucro para os cofres reais. Suas preocupações se voltavam para os nobres que pagavam impostos altíssimos. Neste sentido, Terhia tinha pensamentos revolucionários adotados apenas ali. O sol entre as grossas nuvens não esquentava o clima deprimente de paisagens montanhosas. Construído no meio de uma das maiores montanhas de Terhia, Skyfall nascia do meio das pedras como se a natureza o tivesse concebido. Uma cachoeira adormecida poucos metros do lado direito do castelo congelava-se nesses tempos mais frios e completava a bela combinação arquitetônica. Logo atrás das montanhas imponentes, ficava o Mar Desbravado com suas águas tão verdes quanto a esmeralda da espada de Kass. Nesses tempos, ninguém se atrevia a navegar em condições tempestuosas em que até os peixes se escondiam do frio intenso. Pela falta de oportunidade para pescadores que sempre voltavam com redes vazias ou peixes pequenos, a caça era preferida pelos comerciantes, uma vez que os ursos estavam hibernando. Em certos horários, era possível ver homens e mulheres carregando corças, porcos selvagens e cervos grandes nas costas ou em carroças, levando-os para suas casas ou para seus contratantes na esperança de conseguir algumas moedas de prata. Era noite estava quando Kass acordou. Estava sozinha no quarto, sem médicos ou qualquer pessoa para incomodá-la. Os grossos cobertores de lã carneiro pesavam sobre seu corpo. Ela os empurrou para o lado e colocou as pernas para fora da cama. Deixou o frio percorrer seu corpo e considerou a promessa que o Rei Gallydus fez. No entanto, era um erro ele achar que ajudaria alguém como ela. E um maior ainda Kass achar que teria uma segunda chance, sabendo que seu pai, o Rei de Selletus, arrancaria sua cabeça pela sua traição ao trono. Decidida a vagar eternamente sem um lugar para se chamar de lar novamente, Kass se ergueu com dificuldade. Ela procurou por Noturna, virando o rosto de um lado para outro, o ar preso nos pulmões. A espada se encontrava encostada próxima à cama. Kass respirou com alívio. Ela caminhou cambaleante. Ainda usava as mesmas roupas de quando saiu do reino quase dois ciclos de luas atrás, mas estava muito limpa de que quando eram lavadas pelas empregadas do castelo de seu pai. Ficar se lembrando da sua vida passada a deixava ainda mais ansiosa para ir embora, sabendo ser o certo. Ela segurou o cabo de Noturna com determinação e colocou-a em uma bainha de costas do tamanho exato da espada mortal. Naquele horário, o castelo estava desocupado. Todos os empregados deveriam estar na cozinha preparando o jantar real. Kass aproveitaria a oportunidade para escapar sem ser notada. Não era prisioneira; acordou numa cama macia com cobertores, não numa cela fria de pedra. Ganhara até uma bainha! Aquele lugar... aquelas pessoas eram boas demais para sofrer por sua causa. Depois de poucos passos, Kass chegou à porta do quarto, arfando pelo simples esforço. Seu corpo não estava recuperado ainda, mas bastaria para sair do castelo e de Terhia, até que achasse uma alma para consumir. Encostada à parede com a porta entreaberta, ela olhou para os dois lados do imenso corredor. Ele era iluminado por tochas presas às paredes de pedras lapidadas tão perfeitamente que Kass conseguia ver seu reflexo nelas. No final do corredor, do lado direito, havia uma porta aberta e sua possível saída.
A brisa noturna beijou seu rosto e a convidou a sair. Sua visão de caçadora noturna permitiu que seus olhos se ajustassem à escuridão quando espiou pela porta para ver onde ela daria. Era a parte da frente do castelo. Havia um pátio com tochas espalhadas em pontos estratégicos para proporcionar apenas a luz necessária, dificultando a locomoção de invasores ou fugitivos, pois os guardas tinham o mapa detalhado de Skyfall em suas cabeças. Havia no centro um jardim com um carvalho robusto e imponente; ao redor do largo tronco, flores de pétalas retorcidas e cores vívidas se misturavam, como se algum artista houvesse pintado cada uma à mão. Certamente, os soldados treinavam ali, e isso a deixava aliviada por nenhum deles estar ali agora. Passos firmes vieram de algum lugar do lado direito. Kass misturou-se com as sombras e apurou os ouvidos. Brandon marchava para o centro do pátio. Os punhos dele fechavam-se, e sua respiração se condensava no ar gelado, como um bisão raivoso. Kass continuaria a fuga assim que ele desparecesse, mas uma voz conhecida ao fundo chamou-o. Por instinto, seu corpo congelou. A princesa Lyanna atravessou o pátio numa corrida apressada. Ela usava uma calça de couro com uma adaga embainhada na cintura e uma camisa branca de linho um pouco larga em seus braços. Seus cabelos se entrelaçavam para acomodar a singela coroa dourada no topo da cabeça. Kass se pegou sorrindo das vestimentas da princesa, que iam contra as regras de etiqueta de todos os outros reinos. — É melhor voltar para o jantar, Lyanna. Seu pai vai sentir a sua falta — resmungou Brandon.Lyanna suspirou. — Sei sobre sua opinião em manter a Julgadora aqui, mas acredite em mim quando digo que ela é...diferente.Brandon bufou. — Ela pode muito bem ter salvado você para conseguir se infiltrar aqui.Lyanna negou com a cabeça. — Kass não está bem. Viu com seus próprios olhos. — Volte para o jantar. Estou no turno essa noite. — Brandon se curvou cordialmente e continuou seu caminho em direção aos muros do castelo. Como eram baixos, Kass imaginou que serviam para delimitar o espaço do castelo, pois, mais adiante, grandes muralhas surgiam imponentes onde vira os guardas patrulhando. Além disso, atrás da construção havia uma montanha que servia também como uma proteção, levando-os a se preocupar apenas com ataques frontais. Kass estava prestes a voltar ao seu curso de fuga. Contudo, seu pé escorregou na fissura da parede que iria escalar, e ela caiu de costas. A espada se aqueceu e causou um choque contra sua pele. Kass gemeu com a dor tanto da queda quanto do choque. Tentou levantar-se, mas o rosto da princesa apareceu no seu campo de visão. — Não era para você estar à beira da morte? — perguntou curiosamente.Kass se ergueu usando a parede como apoio. — Talvez — resmungou. — Não era para você estar voltando para o jantar? — Talvez — zombou. — Estava tentando fazer o que exatamente?Kass olhou para a parede e suspirou. — Agradeço por ter me trazido aqui, mas já se arriscaram demais. Preciso ir embora antes de algo ruim acontecer a vocês. Lyanna cruzou os braços com um sorriso travesso nos lábios vermelhos e carnudos. — Ao menos coma alguma coisa antes de ir.Kass precipitou-se para o lado, mas a mão pequena e quente da princesa a agarrou pelo braço. — Eu insisto. Não podia negar estar com fome. A comida não a satisfaria tanto quanto o sangue, mas diminuiria muito a sede maldita. Deixou-se ser guiada para dentro do castelo, sorrindo timidamente pela forma encantadora como Lyanna caminhava. Ninguém nunca se preocupara tanto com ela. Por alguma razão, ela tinha medo de sentir falta de Lyanna quando partisse. O castelo estava aquecido. Bacias acomodadas em suportes de ferro cheias de óleo de baleia, com fogo constante, se espalhavam pelas diversas áreas do castelo. Era um sistema de aquecimento bastante eficaz em tempos frios como aqueles. Kass distraiu-se tentando absorver cada detalhe do lugar e nem percebeu que Lyanna parara de frente para uma enorme porta de carvalho com o brasão do reino esculpido. Kass franziu a testa pela hesitação da princesa. — Aconteceu alguma coisa...? — sussurrou Kass. — Kass, não vá. Os braços trêmulos da princesa se envolveram ao redor de seu pescoço. O cheiro dela invadiu seus pulmões de maneira avassaladora. O corpo de Kass reagiu instantaneamente, e ela se curvou para sorver o perfume. Embora fosse um pouco mais alta, conseguiu enterrar o rosto na curva do pescoço de Lyanna. Poderia ficar ali para sempre. Seria o pequeno paraíso para ela. — Posso cuidar de você também. — Eu fico. — O que você está fazendo?, Kass gritou para si mesma. Não podia ficar. Era um erro, mas as palavras simplesmente saíram de sua boca diante daquela situação. — Se prometer parar de chorar. — Com muito esforço, deu um passo para trás. Um sorriso genuíno estampou-se nos lábios da princesa. A sala de jantar estava cheia. Na extensa mesa, não se encontravam apenas pessoas da realeza, mas os médicos e empregados do palácio comiam ali também. Alguns serviam as bebidas e voltavam aos seus lugares para continuar as conversas animadas.Qualquer monarca acharia a situação inimaginável, do mesmo jeito que Kass, que continuou andando de mãos dadas com Lyanna. Aos poucos, as conversas foram diminuindo até que cessaram. Todos se espantaram ao ver a Julgadora outrora quase morta andando confiante, sem sequelas, carregando a monstruosa espada nas costas. Os prováveis soldados que guardaram Noturna no coldre resmungavam irritados por uma mulher carregar aquela monstruosidade sem dificuldades. No final da mesa, o dono dos olhos gentis, barba salpicada com fios grisalhos e face bondosa conversava com um dos funcionários do castelo. Eles riam como melhores amigos, mas pararam ao ver as duas se aproximando. Kass parou de frente para o Rei Gallydus e não pensou duas vezes em curvar-se diante dele. Devia tudo a ele. Já tinha desistido da vida antes de ter encontrado Lyanna e ser acolhida por Gallydus. Seu agradecimento para com a princesa foi ficar no castelo ao menos por pouco tempo. Além disso, estava disposta a oferecer seus dons de Julgadora para qualquer coisa a qual o Rei precisasse. Ainda estava curvada, prestando a reverência, quando ouviu uma risada abafada ao seu lado. Ela ergueu o olhar, franziu a testa e encarou Lyanna de maneira irritada, sem entender onde estava a graça. Percebeu o singelo comando de mão para erguer o corpo vindo do Rei. Suas bochechas coraram, e ela compreendeu que aquele era outro costume que precisava deixar de lado ali. — Fico feliz em vê-la de pé tão rapidamente, Kass. — Gallydus sorriu indicando que as duas sentassem ao lado direito dele. Kass estava pronta para tomar seu lugar quando Lya se adiantou, sentando em sua cadeira. Ambas trocaram olhares, e Kass acomodou-se ao lado do seu salvador decidindo não começar qualquer tipo de conflito. — Meus médicos quase perderam a fé de suas habilidades. — Tenho certeza de que minha rápida recuperação foi por causa deles. Meu corpo funciona de um jeito diferente. Medicamentos humanos agem de maneira contrária em mim por seu ser...você sabe. A grande mão do monarca afagou seus cabelos com carinho. — Claro, querida; você é especial. — Amaldiçoada — resmungou baixo para ninguém ouvir. — Queria agradecer por tudo o que fez por mim. — Agradecer? Criança, quem deve agradecer aqui sou eu! Uma taça de vinho foi servida a Kass, e ela agradeceu ao empregado. Enquanto bebia, um empregado chamou Gallydus, e ele pediu licença. Para dar privacidade aos dois, Kass desviou o olhar para a princesa e a encontrou entretida numa conversa animada com uma das camareiras. Pareciam amigas, e isso, de algum modo, irritou Kass no fundo do peito. — Vai ficar, não é? Lya ficou temerosa pela sua partida, mas assegurei que você ficaria — comentou o Rei. Outro querendo a minha permanência. Estou delirando? Ainda era surreal pensar que pessoas desejavam sua presença por um longo período num lugar só. Às vezes, seus contratantes pediam para que ela ficasse para afastar mercenários, ladrões de galinha ou animais selvagens perigosos. Mas ali, rodeada por guardas-reais e muros, não encontrava outra resposta. Queriam-na por querer e não por precisar. — Majestade... — Gall. — Gall... Concordei em ficar, mas vou retribuir dando minha assistência aos guardas, se eles não se importarem.Ele bateu uma palma e se levantou.
— Vamos propor um brinde a Kass! — gritou ele. Era forte, grande, com algumas cicatrizes expostas nos braços largos como toras. Assim como a filha, tinha os cabelos castanho-avermelhados, embora os seus apresentassem alguns fios brancos, e olhos verdes. Pareciam cópias um do outro. Estava tentando entender se era alguma brincadeira, mas Lya chutou seu pé para chamar sua atenção. Kass viu todos esperando-a erguer a taça, e, com rapidez, levantou o braço. — A minha mais nova filha! Para um futuro promissor! — Saúde! — desejaram todos e tomaram suas bebidas com felicidade.Oficialmente, Kass de Terhia fazia parte do reino e era filha agregada do rei. ... — Finalmente! Não vou ficar com esse quarto só para mim! — exclamou a princesa e jogou-se na cama. Como um animal reconhecendo território novo, Kass entrou com cautela e olhou para todos os lados. Poderia estar sonhando com aquilo tudo. Poderia estar, na verdade, adormecida eternamente sob uma grossa camada de neve em algum lugar sem ninguém se importar com sua morte. O quarto era grande. Parecia uma casa dentro do castelo, com cozinha particular, banheiro e um cômodo só para as roupas. Havia uma sacada que dava vista para a cidade tranquila àquela hora. Os topos das casas e estabelecimentos pintavam-se de branco com a neve acumulada. A lua despontava no alto e iluminava com sua luz pálida as florestas afastadas. — Papai mandou avisar que suas roupas novas já foram providenciadas— comentou Lyanna num suspiro cansado. — Foi difícil tirar suas medidas enquanto estava instável naquele quarto de recuperação. Mais confortável, Kass deixou Noturna apoiada à parede e começou a explorar o lugar. Assim como a maior parte do castelo, o quarto de Lya transbordava a paixão pela história. Quadros e pequenas estátuas decoravam o ambiente e eram detalhados com anotações no canto inferior direito. Em todas as obras encontradas ali, havia uma pequena letra L numa assinatura singela. Uma mesa de madeira possuía vários materiais de estudo e desenhos.Kass não demorou muito para perceber que eram os mesmo traços das obras e esculturas. Lyanna fizera todas aquelas representações. Ela tinha o dom da arte. Estava absorta encarando os trabalhos quando a mão da princesa pousou num retrato do busto de uma mulher séria, com os olhos encarando um ponto fixo como se olhasse, na verdade, através de Kass. Se tivesse uma alma, poderia dizer que o desenho estava olhando diretamente para ela. — É assim que me lembro de minha mãe desde quando ela viajou para morar em uma das Capitais Emblemáticas. Kass franziu a testa e se virou para encará-la. — Sua mãe te abandonou? Como pôde?Lya sorriu e deu de ombros. — Acredito que ela estava pensando no próprio futuro acadêmico e no meu. Daqui dois dias minhas aulas voltam. Mesmo que a escola fique perto do trabalho dela, não a vejo tanto. — Gall não ficou chateado… — A paixão de meu pai é maior do que a tristeza da separação. De tempos em tempos eles se encontram, mas mantêm o contato pelo Comunicador — explicou. Ela indicou com a cabeça um aparelho circular, descansando em cima de um criado-mudo de madeira ao lado da cama. Ela se afastou da mesa em silêncio. — Já esteve em alguma das capitais? — Apenas a Capital Emblemática Kustron. Quando tentaram me prender por assassinato num reino próximo.Lyanna negou com a cabeça. — Fugiu? — Digamos que não havia corpo ou testemunhas para me declarar como culpada. Eu estava no lugar errado e na hora errada. Ambas riram da situação. Kass ser uma assassina e Julgadora não afetava a princesa. Isso tornava as coisas estranhas pela Kass. Era difícil de acreditar em ser querida por tantas pessoas num lugar só e no mesmo dia.As duas ficaram em silêncio por alguns instantes antes da curiosidade de Lyanna quebrá-lo: — Acho melhor descansarmos. Você dorme? — Não preciso, mas posso se quiser. — E o que você faz acordada? — Treinando na maioria das vezes. Ou caçando. A princesa prendeu o ar. Vê-la surpresa causou um sentimento de culpa em Kass. — Essa é a maldição da Noturna. Se eu não absorver almas suficientes, a sede de sangue cresce em mim, mas normalmente isso não acontece. — Está com sede agora?Um pouco, e isso é estranho. Ela negou com a cabeça. — Entendo. — Se depender de mim nunca verá isso acontecer. Lya a encarou com... pena? — Não é com isso que estou preocupada. Acho horrível sua natureza ser matar. Olhando para você é como se não fizesse sentido. Você é boa, Kass; sei disso. Boa. Isso é a última coisa que sou e que vou ser. — Descanse. Estarei aqui quando acordar. — Não demorou muito para a princesa se acomodar na cama e cair num sono tranquilo. Kass a observou pela noite inteira como se ela fosse a coisa mais bela do mundo. Talvez fosse para ela.
Notas finais
Erros ortográficos, comentários positivos e negativos são muito bem-vindos!
Até a próxima!
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