Notas iniciais
Mais um capítulo ahahaha espero que gostem! Bora ler!

Estava nevando naquela manhã. O sol tentava esquentar o clima, mas as grossas nuvens impediam que seus raios passassem. Para Kass, não fazia tanta diferença. Na verdade, gostava da paisagem branca, do sopro gelado contra seu rosto e do cheiro do mar preenchendo seus pulmões. Era nostálgico. Sempre sonhou em ser uma Desbravadora de Mares quando criança, morando num barco de madeira em busca de aventuras e histórias para contar, mas seu destino já era certo: ser uma matadora.

Ao ouvir alguém chamando seu nome desesperadamente, Kass abriu os olhos.

Lyanna.

De cima de Skyfall, no telhado de escorregadio pela neve, ela se inclinou no parapeito. A princesa apareceu no pátio, correndo desesperada procurando pela Julgadora e indo em direção aos portões de entrada do castelo, vestindo uma jaqueta e calças feitas de couro, reforçadas contra o frio. Usava uma bota com esporadas, a adaga de sempre em sua cintura e um chicote de montaria na sua mão direta. Não estava com a coroa, e seus cabelos foram amarrados num rabo-de-cavalo simples.

— Quem estava no turno da noite passada?! — perguntou, apontando o chicote na direção de um dos guardas responsáveis pela vigília dos portões naquele horário.

O rapaz, provavelmente um novato pela idade e insegurança em sua postura, engoliu em seco diante da reação adversa da princesa.

— Capitão Bran-Brandon, Alteza — gaguejou.

A Julgadora se divertia assistindo tudo. Podia aparecer lá e terminar a confusão, mas desejava ver o quão longe iria aquilo.

— Qual o problema, Lya? Por que está intimidando o garoto? — perguntou o Capitão chegando bem na hora para socorrer seu guarda. Ao ouvir a gritaria, havia saído do pequeno armazém onde ficavam os equipamentos do exército e chegou silenciosamente.

Lya ficou surpresa ao ouvir a voz do Capitão tão de repente, mas logo se lembrou da situação. Ela se aproximou dele — os rostos próximos — então empurrou seu peito com força.

— Você queria isso, não é? Que ela fosse embora! Está feliz agora?! – exclamou encarando-o sem se distanciar.

— Não faço ideia do que está falando — respondeu visivelmente segurando sua raiva ao cerrar os punhos.

Não gostando da aproximação de Brandon, Kass se apressou em contornar o telhado. Rápida, ela desceu para a parte mais baixa do muro sem provocar ruídos ou chamar a atenção dos dois. Seus pés não sentiam dificuldades em caminhar pelo solo escorregadio, como se estivessem colados às pedras lisas do muro. Sua mão direita agarrou o cabo da Noturna, na bainha em suas costas, e ela aterrissou bem no meio da princesa e do Capitão.

Antes de Noturna se fincada no chão, Brandon empurrou a princesa para trás ao ver uma sombra entre eles, fazendo-a cair de costas. Kass fingiu se preocupar com as unhas enquanto se equilibrava com o pé direito, sorrindo de maneira divertida.

— Me perdoem. Noturna escorregou da minha mão – falou num tom sarcástico.

Nem mesmo os mais treinados conseguiriam fincar qualquer outra espada no mínimo espaço onde Lya e Brandon se encaravam há poucos segundos.

Kass olhou para a princesa com diversão.

— Chamou, Alteza?

— Onde você estava?! Não a encontrei no quarto quando acordei!

— Fui tomar um ar – explicou tranquilamente. — Estava voltando quando ouvi você berrar meu nome. – Ela desceu de Noturna e, com um giro certeiro, guardou-a na bainha.

— Papai quer falar com você na Sala do Trono — avisou Lya.

Kass indicou o castelo com a cabeça.

— Você vem?

— Ah, não! Isso é particular e tenho treinamento agora.

De costas para os dois, Kass acenou, ignorando a formalidade.

— Julgadora! — chamou Brandon.

Kass paralisou e espiou por cima do ombro direito, mantendo uma expressão desinteressada.

— Estou de olho em você, caso tente alguma gracinha.

— Por mim tudo bem. Se ficar apaixonado saiba que você não faz o meu estilo.

Kass voltou a caminhar. Embora estivesse com um semblante tranquilo, ficava se perguntando qual o assunto que Gall queria falar com ela. Será que Selletus declarara um ataque? Será que os mercenários e assassinos descobriram onde ela estava? Só iria descobrir quando chegasse à sala.

*

Não tinha visto nada igual mesmo conhecendo inúmeros castelos, construídos com pedras lapidadas ou algum material mais caro para esbanjar riqueza, como mármore. A Sala do Trono era uma caverna natural da montanha onde Skyfall foi construído. As paredes e o teto quase não foram modificados pelos arquitetos, apenas alguns detalhes mínimos, diferente do chão que foi completamente substituído por mármore branco. Estalactites davam uma decoração peculiar, deixando um clima mais pesado e intimidador a quem entrava ali.

Mas Kass só conseguia ficar impaciente.

Estava sozinha desde que chegou meia hora atrás. Esperava encontrar Gallydus sentado imponente no trono de carvalho branco, com dragões esculpidos nos apoios para os braços, mas estava vazio. Não havia guardas ou empregados na sala para passar qualquer informação de onde o rei estaria. Será que Lya está se vingando de mim?

Kass olhou para baixo e encontrou um tapete feito à mão. Iria ignorá-lo, achando ser como qualquer outro, até reconhecer uma imagem costurada nele: a foice de Selletus. Ela demorou a raciocinar que era apenas uma obra de arte, como os quadros no quarto, retratando a história da criação de Linearth e não uma ameaça de seu pai contra Terhia.

Os cinco deuses da criação estavam representados no tapete, mostrando a criação dos reinos e suas divisões. Kellow, o deus da natureza, criou as florestas, trouxe a água e todos os animais; Tory, sua irmã, queria mostrar ter mais poder e criou algo novo, único: o humano; os pais dele, Karlinie e Tewyn, os mais poderosos de todos, criaram um planeta para que seus filhos usassem seus poderes de maneira infinita para criar mais planetas como Linearth.

Durante milhares de anos, a paz era abundante ali, mas os humanos se tornaram ambiciosos e vingativos. Independentes. Quando o primeiro humano morreu pela guerra, Tory se espantou, e uma lágrima escapou de seus olhos. Dela, surgiu Selletus, que trouxe o poder da justiça para julgar os indignos de viver em Linearth. Ele ainda separou pessoas com pensamentos parecidos, para evitar conflitos, em pedaços de terras gigantescos chamados, mais tarde, de Capitais Emblemáticas. Dele também surgiram guerreiros, os Julgadores, que tinham um controle maior sobre as atrocidades dos humanos. Mas ao criá-los, Selletus visava algo maior.

— Há muito tempo esperava alguém para dar uma opinião sincera sobre o Tapete dos Criadores. — A voz de Gallydus ecoou pela sala forte como um trovão. Ao ver que a Julgadora não se assustou, ele sorriu. — Acho que você é a pessoa certa.

Kass suspirou encarando a foice de Selletus e sentiu um arrepio em sua espinha.

— Está excelente. De verdade. — Ela desviou o olhar para não ouvir a voz do pai ecoando por sua cabeça. — Lya disse que precisava falar comigo.

Gallydus sorriu ao reparar no tom preocupado em que as palavras dela foram proferidas. Ele se sentou no trono acenando para Kass ficar tranquila. Era incrível quão grande ele era, um típico descendente dos Guerreiros do Sul, mas, ao mesmo tempo, gentil. Pelo menos com Kass.

— Queria contratar seus serviços, como você propôs.

Sentindo Noturna se aquecer nas suas costas Kass assentiu.

— Qualquer coisa. Depois de tudo o que fizeram por mim. — Imaginava não ser um serviço fácil como os outros. Talvez eliminar um rei vizinho ou um Chefe de Guerra inimigo. Não importava. Aceitaria o serviço sem hesitar.

— Depois de amanhã Lya voltará para o colégio. — Gallydus, pela primeira vez, estava sério e isso o deixava intimidador. — Ela não aceita que eu envie um dos meus guardas com ela, mas você é diferente.

— Tem alguma coisa haver com os Mercenários que eliminei? — perguntou realmente interessada ao se aproximar mais do altar onde estava o trono.

Respirando fundo, Gallydus esfregou a nuca.

— Sim. Eles foram contratados para sequestrar minha filha. Provavelmente um dos meus irmãos desejava me forçar a assinar os documentos de Terhia.

Kass cruzou os braços, apertando o maxilar, e se aproximou do trono.

— Seus próprios irmãos? E que documento é esse?

— Terhia sempre fora um dos melhores reinos para governar, mas nossos pais escolheram a mim para reinar aqui. O mais novo dentre os irmãos.

— A velha sede de poder.

— Sim. Por isso peço para você vigiar Lya. Sabe-se lá o que eles podem fazer com ela no colégio, longe de casa e sem proteção.

Kass assentiu. Não se importaria com um serviço assim, embora fosse precisar escapar para suprir a necessidade de almas de Noturna. Vigiaria perto o bastante para reagir caso necessário, a uma distância segura para não chamar a atenção de ninguém, muito menos da princesa.

— Ninguém encostará um dedo em Lya, Gall. Eu prometo.

Gallydus sorriu batendo uma palma em comemoração.

— Ótimo. Pedirei que Brandon prepare tudo. – Ele se levantou do trono, descendo os poucos degraus do altar, para dar um forte abraço na Julgadora. – Muito obrigado, filha. Você foi uma benção dos deuses para mim.

Kass poderia retrucar, dizer que ele estava totalmente errado, mas não conseguiu. Havia verdade nas palavras daquela montanha de músculos, então tudo o que fez foi retribuir aquele gesto de carinho inédito para ela.

— Não. Obrigada você, pai.

*

Na minha cabeça isso era totalmente diferente — resmungou enquanto a costureira do castelo e Lya davam os últimos ajustes no uniforme do Colégio Bhakans.

— Imagine como se fosse uma agente secreta ou algo do tipo — explicou Lya tentando não se divertir com toda aquela situação. Estava medindo-a dos pés à cabeça até encarar Noturna descansando na bainha. — O único problema será essa belezinha. É proibida a entrada de qualquer tipo de arma no colégio...

Kass encarou Lya ainda não acreditando nas palavras dela, esperando algum sinal de que aquilo era uma brincadeira. Deixar Noturna estava fora de cogitação. Ela estendeu a mão em direção à espada, murmurando um antigo encantamento dos Julgadores. A silhueta de Noturna começou a ser marcada em seu antebraço gradativamente ao mesmo tempo em que a espada sumia aos poucos. Uma tatuagem perfeita de sua arma.

— Pronto. Ela aparece quando eu quiser — resmungou.

A princesa segurou o braço de Kass com os olhos brilhando de admiração.

Kass iria comentar alguma coisa, mas a fina agulha da costureira perfurou sua pele. Ela rosnou por reflexo, não tinha doído tanto assim.

— Perdão — sussurrou a mulher. Apertando em alguns pontos do uniforme, para delinear o corpo definido da Julgadora, terminou seu excelente trabalho em alguns segundos.

Animada para mostrar a Kass como tinha ficado, Lya puxou-a pela mão até a frente de um enorme espelho localizado no cômodo para as roupas. O uniforme se resumia a uma camiseta azul marinha com a mariposa dourada costurada no lado esquerdo no peito, formando um B com as asas. Por fim, uma calça preta justa e um lenço branco ao redor do pescoço para um toque final.

Depois de alguns minutos tentando convencer Gall a mudar de ideia uma pequena nave pousou no jardim central para buscar as duas. Depois de alguns atentados terríveis, apenas veículos autorizados, com motoristas licenciados pelos Federais, podiam entrar e circular pelas Capitais Emblemáticas. Como o Colégio Bhakans era localizado na Capital Emblemática Losva, uma das mais importantes de Linearth, o transporte era necessário.

Parando alguns passos da porta, com receio de entrar naquela nave, Kass deixou Lya entrar primeiro. Já tivera experiências não tão agradáveis com coisas voadoras. Um robô rechonchudo se aproximou para pegar as malas, com sua lataria azul impecável e configurações de interações humanas de última linha. Ele pareceu confuso com a hesitação da Julgadora, alternando o olhar entre a nave e Kass para ver se tinha algo errado.

— Senhorita, queira entregar as malas, por favor? Está tudo certo para o embarque, posso assegurar.

Ela resmungou qualquer coisa e jogou a mochila com os materiais para as aulas no robô. Incrivelmente, ele pegou com muita facilidade. Iria investigar mais o empregado robótico quando foi impedida por Lya.

— Kass, vem logo e deixe ele em paz. – mandou escondendo a diversão ao morder os lábios.

A nave decolou tranquilamente. Gall acenava para as duas com uma expressão tristonha. As duas ficariam seis meses fora. A Capital Emblemática Losva ficava longe o suficiente para ser cansativo viajar todos os dias.

— Não vamos voltar tão cedo, não é? – perguntou Kass sem desviar o olhar de Gall.

Lya seguiu o olhar da Julgadora entendendo a pergunta.

— Não. Teremos um quarto para nós até acabar o ano letivo, mas vamos voltaremos nas férias como sempre faço.

Brandon estava ao lado do Rei com uma postura exemplar, a mão descansando no cabo da espada, como esperado de um Capitão da Guarda Real. Kass não teve a chance de conversar com Brandon, mas não fazia tanta questão. Ele não gostava dela por ser uma Julgadora, sendo assim, preferia manter distância para evitar qualquer situação desagradável.

*

Kass acordou com um leve solavanco da nave. Quando percebeu onde e com quem estava, seu corpo em alerta se acalmou. Lya dormia encolhida com a cabeça em no ombro e os braços enganchados com o seu num abraço, parecendo temer que a Julgadora sumisse como anteriormente. Tinha um semblante sereno, encantador para Kass que a observava com um sorriso torto nos lábios. Com cuidado para não acordá-la, começou a acariciar os cabelos da princesa.

Desviando o olhar, percebeu como a paisagem mudara. Flutuando milhares de metros em relação ao solo, com a ajuda de enormes propulsores, se encontrava a Losva. Já tinham passado pela revista obrigatória em solo — necessária para evitar a entrada de motoristas não autorizados ou com documentos falsificados — e as luzes dos veículos usados pelos Federais se tornavam cada vez mais distantes. A nave já se aproximava de uma das vias aéreas mais usadas do lugar, visível apenas no visor localizado no painel de controle da nave, para se misturar com o trânsito sempre agitado. Estava pensando em acordar Lya quando a princesa se espreguiçou calmamente. Sentindo as bochechas quentes, Kass desviou o olhar e ao ver um conjunto de construções, tão magníficas quanto o castelo de Terhia, se surpreendeu.

Sete imponentes prédios de tijolos brancos apareciam no horizonte. No maior deles, ficando ao centro, havia o brasão de uma mariposa dourada de asas abertas no topo da construção com “Emblemático Colégio Bhakans” escrito ao redor. Com o reflexo do sol diretamente no símbolo, os olhos de Kass foram ofuscados. Ouviu um risinho animado ao seu lado e, ao se virar na direção do som, percebeu estar sendo vigiada pelos belos olhos da princesa.

— Começaremos o procedimento de pouso. Coloquem os cintos, por favor, e BL-23 estará pronto para ajudá-las em caso de necessidade. – avisou o piloto através do alto-falante.

O robô saiu do seu compartimento, embutido na parede da nave para ficar próximo de onde as duas estavam.

— O Rei Gallydus me contratou como assistente pessoal de vocês. Ficarei honrado em lhes guiar pelo campus, embora Vossa Alteza o conheça bem. – explicou o robô.

— Claro que pode nos guiar. – Lya se esticou para acariciar a lataria impecável dele. – E, como vai ficar com a gente, vou te chamar de Yass.

— Que nome é esse? – perguntou Kass.

— A junção dos nossos nomes. – explicou dando de ombros.

Kass revirou os olhos.

— Ótimo.

A nave pousou numa área retangular demarcada, ao lado do prédio dos dormitórios. Kass desembarcou primeiro, pegou sua mochila e dispensando a ajuda do robô. O cheiro do lugar era algo novo. Sem o frescor das florestas, o vento frio de uma nevasca ou do mar, tudo se resumia a metal, tecnologia e pessoas. Ela entortou os lábios em desconforto, desejando voltar para Terhia, então, ao se virar, encontrou Lya a encarando com preocupação.

— Eu me acostumo rápido — tentou tranquilizá-la, mas viu que não foi o suficiente quando a princesa virou de costas para seguir o robô. – Muito bem, Kassandra. – murmurou para si mesma.

Yass liderou o caminho, contando um pouco da história do colégio e suas tradições.

— Apesar de não parecer, a Cerimônia de Iniciação é um marco fundamental para o início das aulas. Principalmente para os alunos novos. – explicava Yass seguindo por um caminho de paralelepípedos rosados.

— Que emocionante. – resmungou Kass para si mesma.

— Nessa cerimônia vocês terão a oportunidade de conhecer seus professores, os líderes de cada curso extra do colégio e, é claro, conhecer os novos integrantes do grupo Mariposas. – continuou Yass sem parar de seguir pelo caminho.

— Mariposas? Como assim? – perguntou Kass interessada de repente.

Lya suspirou.

— Eles são um grupo de alunos selecionados para participar do campeonato anual das Capitais Emblemáticas. – explicou. — Os ganhadores são escolhidos para servir os deuses como porta-vozes do planeta ou Protetores.

Kass bufou ao ouvir o nome “Protetores”. Eles se achavam superiores aos Julgadores por servirem aos deuses maiores que Selletus, mas não tinham tanto poder assim.

Terminando de seguir o caminho, chegaram ao prédio onde ficavam os dormitórios femininos. Yass continuou liderando as duas, desviando de algumas alunas que conversavam nos corredores por onde passaram e parou de frente para uma porta marrom clara com os dragões, símbolos de Terhia, esculpidos nela.

— Este é o dormitório de vocês. Deixarei a apresentação do ambiente com você, Alteza, para cuidar dos documentos referentes às suas matrículas. – Yass deixou as malas de Lya ao lado da porta. – Voltarei para levá-las ao templo onde a cerimônia ocorrerá. Podem me aguardar aqui.

Lya se curvou dando um beijo no topo de sua cabeça.

— Obrigada. Estaremos esperando por você, então. – Ela sorriu pegando suas coisas e tirando uma chave de sua bolsa que destrancava a porta do dormitório.

Kass observou o robô até ele sumir de vista, se embrenhando no meio do fluxo crescente de alunas ali e desaparecendo.

Entrando no dormitório, Kass se deparou com um quarto grande de poucos cômodos. Duas camas de solteiro, um armário grande com uma divisão no meio, um banheiro e uma escrivaninha com uma tela interativa para acessar a rede livremente.

Depois de Lya decidir ficar com a cama da direita, Kass jogou sua bolsa na outra, então caminhou para a janela para ter uma visão geral. Afastando as persianas brancas, Kass deparou-se com o amplo pátio do colégio. Tudo naquele lugar era grande e majestoso, com construções altas. Não parecia um ambiente certo para alguém como ela.

Inúmeros alunos estavam por ali, conversando animadamente sobre diversos assuntos causando um alto burburinho. Ela suspirou, imaginando como as coisas seriam no colégio enquanto se sentava na janela. Lya estava sentada de joelhos em cima do tapete macio com o símbolo do colégio. Seus olhos estavam fixos num ponto qualquer do teto, parecia estar longe.

— Kass… Minhas amigas vão perguntar sobre você — comentou timidamente.

— Quer que eu fique no armário? — zombou, mas no fundo não se importaria com a opção.

Lya riu e jogou uma blusa em sua direção, mas não foi nem um pouco difícil pegá-la antes de atingir seu rosto.

— Quanta agressividade, Alteza.

— Engraçadinha — brincou acenando as mãos para retomar o assunto. — Isso é sério.

— Quer que eu finja ser uma prima distante?

— Clichê demais. Que tal...

Kass suspirou, cruzou os braços e se ajeitou melhor na janela, enquanto Lya tomava um fôlego desnecessário.

— Encontrada em uma nave clandestina, por mim, depois de um acidente durante a nevasca enquanto era sequestrada? — sugeriu. — Foi acolhida pelo Rei Gallydus de Terhia, ao ser resgatada da morte certa, para virar a mais nova protegida do monarca.

— Vou ficar no armário — resmungou se dirigindo ao móvel.

— Kass! — exclamou Lya.

Ela riu da reação da princesa. Não acreditava que aquela história seria convincente para alguém, mas concordou no fim.

— Que seja. Se alguém perguntar eu apenas confirmo, pode ser? — Não queria ficar perdendo tempo com explicações falsas.

Lya bateu palmas.

— Combinado!

Depois de arrumar parcialmente as coisas no lugar, elas seguiram Yass depois de esperá-lo do lado de fora.

— Lya? Você não estuda aqui faz tempo? – perguntou Kass sem tirar os olhos do robô.

— Sim.

— Então qual o motivo dele estar aqui ainda?

Lya olhou na direção do robô e deu de ombros.

— Gostei dele e, além disso, foi um presente do meu pai.

Kass revirou os olhos aceitando a explicação. Não gostava de pensar na princesa criando laços afetivos com uma máquina, porém não podia negar que Yass era...diferente.

Tentando reparar a sua volta, ela viu algumas câmeras espalhadas em pontos estratégicos nos corredores por onde passaram.

— Estamos numa prisão? – perguntou para princesa chegando perto do ouvido dela.

— Não. De onde tirou isso? – Parecia irritada com a pergunta de Kass pelo tom de voz.

— Câmeras. Federais. Só está faltando os muros altos e torres de vigilância.

Lya bufou negando com a cabeça.

— Garotos são proibidos aqui, por isso as câmeras. E os Federais são contratados pelo colégio para a segurança de todos, ainda mais com a Cerimônia de Iniciação ocorrendo hoje.

Kass franziu a testa.

— Aconteceu alguma coisa de grave alguma vez nessa cerimônia?

A princesa esfregou a nuca ante de assentir.

— Um grupo de Julgadores invadiu a cerimônia em forma de protesto contra os Protetores. Perdemos três membros do Mariposas, desde então os Federais fazem a segurança do colégio.

Kass mordeu o lábio inferior, sem saber exatamente o que falar, então preferiu deixar o silêncio reinar naquele momento.

As alunas conversam em grupinhos espalhados pelos corredores. A maioria parava para reverenciar Lya, que se apressava para impedi-las com carisma.

— Por favor, não precisam fazer isso. – explicava com um sorriso amigável.

— Obrigada, Alteza. Tenha um ótimo dia. – agradeceu uma das alunas que a reverenciara.

Kass ficava ao lado dela como uma verdadeira protetora. Os olhos carmesins e os cabelos de cor única, loiros pálidos quase brancos, chamava muita atenção comparada aos meros mortais.

Estava pronta para sair do prédio e seguir pelo pátio até o lugar da cerimônia, mas sentiu o ar se agitando logo atrás e se preparou para uma possível luta. Pensando na segurança da princesa, Kass a colocou para trás antes de partir para cima. Uma aluna esticou os braços na direção de Lya, mas a Julgadora a impediu de concluir a agressão aparente, segurando a aluna pelos braços e a imobilizando contra a parede do corredor.

A aluna, vítima da sua reação, estava ofegante pelo medo. Seu peito subia e descia, como se o ar não fosse suficiente. Os cabelos presos numa trança longa davam um ar de maturidade a ela.

Ao ouvir Lya chamando pelo nome de Amanda, Kass afrouxou aos poucos as mãos ao redor dos pulsos da aluna. Instantaneamente um sorriso apareceu nos lábios da tal Amanda que olhou por cima do seu ombro, dando uma piscadela para a princesa.

Todas as alunas no corredor prestavam atenção naquele encontrão, estavam assustadas por ter sido tão de repente. Até as engrenagens de Yass pareciam tremer dentro de seu corpo rechonchudo.

— Kass, peça desculpas — advertiu Lyanna se aproximando para resgatar Amanda.

— Perdão, essa não era… — Antes de perceber, tinha se ajoelhado para implorar pelo perdão das duas. O tom de voz da princesa, autoritário, a levou para seu passado com Selletus, onde Kass se ajoelhava pedindo perdão pelos seus erros. – Desculpas. – pediu depois de se levantar.

— Você seria uma bela aquisição na minha equipe — comentou Amanda massageando os pulsos.

— Kass, essa é minha amiga e líder esportiva do colégio. Amanda, essa é a protegida de meu pai.

— Prazer — murmurou Kass a contragosto.

Amanda passou o braço pelos ombros de Lya, que franziu as sobrancelhas, e sorriu ao ver a Julgadora desviando o olhar, visivelmente desconfortável com aquilo.

— Interessante. — divagou liberando Lya depois de um abraço breve. Ela se apoiou no robô, sem se importar de quem era, e encarou Kass. — Vamos? As meninas guardaram nossos lugares e não queremos perder a cerimônia, não é? Kass?

— Não perderia por nada — respondeu sorrindo.

Elas seguiram para fora do prédio com a princesa comentando sobre o ocorrido. Kass a avaliava, querendo saber se era ou não uma ameaça em potencial. Aquilo seria, no mínimo, divertido de se descobrir.

Notas finais
Espero que tenham gostado e tentarei postar o mais breve possível. Até a próxima!