Noturna - A Maldição dos Criadores
19 Confusão
Notas iniciais
Ellisse estava sentada numa pedra no alto de um morro enquanto a bruxa arrumava um acampamento simples para passarem a noite. Ela observava com curiosidade uma movimentação de homens e mulheres no vasto campo logo depois do morro onde estava. Eles carregavam luzes estranhas as mãos, construíam ao grandioso e metálico. Nunca tinha visto nada daquele tipo na sua vida.
— Meredith? O que aqueles humanos estão fazendo? — resmungou impaciente.
A bruxa riu baixinho enquanto aproximava-se de onde a princesa, ou antiga princesa, estava para poder entender melhor aquela pergunta. Ela sabia que, depois de alguns anos, Ellisse havia desenvolvido certa empatia com relação aos humanos por seu trabalho envolver matá-los e absorver suas almas. Então Meredith achava engraçado o quão intrigada e curiosa a garota ficava com relação aos mortais. Mas, obviamente, Ellisse não gostava de admitir.
Depois de alguns momentos observando, a bruxa soube exatamente o que acontecia naquele campo.
— Ah! São os Estudiosos. Estão construindo mais uma Capital Emblemática.
— Ugh… Não entendo no que essas construções ajudarão. — disse perdendo o interesse em continuar observando a movimentação. — Para mim significa duas coisas: mais Protetores e Federais.
Meredith deu de ombros voltando-se para a tarefa de montar o acampamento, mas agora com ajuda da garota.
— Eles querem ser livres. A proposta das Capitais é incentivar as pessoas a seguirem seus sonhos e sem o medo do preconceito. Você sabe muito bem como a maioria dos reinos tratam essas pessoas — disse enquanto dava um nó firme num toco de madeira. — São taxados de loucos e, no pior dos casos, são expulsos de suas terras e acabam morrendo de fome ou de outras causas. — Meredith entregou o toco com a corda para Ellisse.
— Quero ser livre desde o dia em que nasci e ir para uma dessas Capitais não me faria alcançar esse objetivo. — rosnou antes de fincar o toco na terra com facilidade.
— Ellie…
— O que terá nessas Capitais de tão extraordinário? — murmurou para desviar o foco da conversa.
A bruxa sempre respeitava o jeito de Ellisse, então sorriu docemente pegando um outro toco.
— Tecnologia, ciência, música, pessoas de todos os lugares… — suspirou de maneira sonhadora. — As capitais serão lugares neutros e sem um líder. Todas as decisões tomadas partirão dos Estudiosos responsáveis pela fundação da Capital. O reino que desejar ter algo da Capital, passará por uma avaliação podendo ter seu pedido negado ou não.
— Oh! Por isso o vilarejo de Birdstorm possuía aqueles mastros com luzes ofuscantes! — exclamou maravilhada antes de pegar o outro toco e fincar na terra.
— Sim. Aquilo era energia elétrica — disse risonha. — O Rei de Birdstorm a solicitou para sua população e foi prontamente atendido. É um dos reinos mais evoluídos até agora.
— O vilarejo era realmente vivido. Tão iluminado! As pessoas pareciam gostar de morar ali.
— Terhia também tem fama de ser bem acolhedora. O Rei Gallydus é um excelente monarca, mas não gosta muito de tecnologias. Lá eles preferem a simplicidade.
— Alguém teve o pedido negado por alguma Capital?
— No reino de Rinus o monarca ficou tão obcecado pela tecnologia, pelo poder proporcionado por ela, que requisitou um estoque de armas variadas. Ao ter seu pedido negado, declarou guerra a Capital, mas os Protetores lidaram com isso antes mesmo de um ataque acontecer. — deu de ombros. — Além disso, as Capitais ficam muito distantes do solo e eles não possuíam transportes para alcançá-la.
— Imagino o meio como os Protetores lidaram.
Ellisse puxou uma corda com facilidade, então uma grande barraca de tecido se ergueu. Ela pegou a faca escondida em sua cintura e a fincou no chão junto com a corda. Meredith agradeceu antes de começar a ajeitar todas as suas coisas dentro da barraca. Enquanto isso Ellisse se encarregou de fazer uma fogueira. Elas precisavam descansar, pois no dia seguinte chegariam em Salanstina, Reino dos Refugiados, onde esperavam encontrar um lugar para morar.
…
Ela fitava seu reflexo no espelho, tentando acostumar-se com a armadura leve, de cor verde escura, fornecida pelo Comandante Bakir. Funcionaria como uma segunda pele, assim poderiam se disfarçar e continuarem protegidas. As meninas estavam adorando aquilo, mas Kassandra sentia-se enjoada. Sua vontade era rasgar aquela armadura, queimar e mandar todos os Federais irem a merda. Noturna também não estava satisfeita com a visão de sua portadora vestindo o uniforme inimigo. Ambas lembravam-se, muito bem, que mataram inúmeros Federais que usavam aquele mesmo conjunto de armadura na maldita emboscada.
Um solavanco leve a fez respirar fundo. Além do uniforme, Kassandra foi obrigada a aceitar que, para chegar até Yoskor, usariam uma nave enorme como transporte. Ela apoiou-se na pia e abriu a torneira deixando a água fluir antes de jogar em seu rosto. Muita coisa estava acontecendo em sua cabeça desde aquela conversa com Meredith. Conseguira alguns minutos sozinha no banheiro, mas logo teria de voltar.
Alguns segundos depois com os olhos fixos no espelho, encarando sua face molhada, ela puxou a toalha para se secar. Noturna queimou em seu braço bem fraco, como uma carícia, e Kass sorriu. Num sussurro baixo proferiu o encantamento reverso fazendo sua espada aparecer deitada na pia. As ranhuras verdes brilharam intensamente e Kassandra sorriu.
— Não precisa agradecer. Sei o quanto detesta ficar ainda mais presa a mim, porém é necessário. — ela passou sua mão pelo belo cabo com sua Jóia de Almas incrustada ali perfeitamente.
Mais um brilho fraco e uma voz sussurrada em sua cabeça.
— Sim. A possibilidade de encontrarmos algum Julgador naquele fim de muito é alta, mas vai dar tudo certo — garantiu com um sorriso. — Não se preocupe.
Houve um momento de silêncio repentino, mas a espada sussurrou-lhe outra pergunta.
— Eu… eu não sei — Kassandra sussurrou apoiando-se na pia. — Têm vezes que a vejo como June e outras não. E sendo Lyanna ou June… as duas me afetam da mesma maneira.
Um brilho fraco.
— Concordo. Estamos ferradas.
Kassandra soltou uma risada fraca, acompanhando Noturna em sua cabeça. As duas estavam tão ligadas que os conflitos, atrações e sentimentos — recentemente renascidos do seu profundo interior — eram compartilhados entre elas.
Mas aquele momento fora interrompido por três batidas fracas na porta, fazendo-a endireitar-se.
— Kass? Está tudo bem? — perguntou Lyanna com sua voz abafada.
Ela não respondeu, apenas abriu a porta e puxou a princesa para dentro. O lugar não era espaçoso, então seus corpos ficavam praticamente colados.
— Desculpe. Não quero os Federais ou alguém nos bisbilhotando.
Era mentira. Kassandra, pela primeira vez em muito tempo, tinha deixado seus impulsos dominá-la. E seu impulso, naquele momento, era ter a humana o mais perto que podia.
— Não tem...problema. — disse Lya um pouco desconcertada. — Você estava demorando, então lembrei sobre sua aversão a naves.
A protetora fez uma expressão de dor e a risada contida da princesa chamou sua atenção. Ficou admirando por alguns segundos aquele som, não percebendo o sorriso que aparecera em seus lábios.
— Ei, faz tempo que não vejo você! — exclamou inclinando um pouco para frente e tocando a lâmina escura de Noturna. — Está belíssima.
Um sussurro derretido reverberou nos pensamentos de Kassandra.
— E-ela agradeceu, mas não infle tanto o ego dela. — disse zombeteira e era uma clara tentativa de não mostrar-se afetada pela proximidade aumentada.
Lyanna revirou os olhos divertida e olhou para cima, direto nos olhos carmesins iluminados. Ficaram encarando uma a outra por alguns segundos até Kassandra tocar a bochecha da humana, que apreciou o toque fechando os olhos. Seu coração estava acelerado, assim como sua respiração, e Kass adorava saber que afetava a humana tanto quanto era afetada.
— Nós não conversamos sobre...nós — sussurrou a princesa.
A protetora arqueou as sobrancelhas.
— Precisamos?
— Acho que sim — Lya afastou-se um pouco, tirando a mão de Kassandra do seu rosto. — Papai pode ter regras e comportamentos diferentes dos demais monarcas, mas ainda continuo sendo a herdeira do trono.
Ah! É sobre isso.
— Lyanna, eu…
— Seria um escândalo para todos se alguém nos visse. Não posso ter envolvimentos ou romances como uma pessoa normal. — interrompeu-a rapidamente. — Tenho deveres e responsabilidades com o povo de Terhia, assim como você também têm.
Dor. Aquelas palavras causaram uma pontada desconfortável no meio do peito de Kassandra. Os conflitos em sua cabeça voltaram como um tornado, bagunçando tudo sem se importar com o estrago. Ela sabia que Lyanna estava certa. A humana era herdeira de um reino inteiro, não podia se dar ao luxo de ter aventuras; ainda mais com alguém como Kassandra. Mas outra parte dela queria gritar até os pulmões explodirem.
Qual motivo? Nem Kass sabia dizer.
— Você está certa — disse seriamente. — Serei apenas sua protetora como é o meu dever, Alteza.
Ela tocou em Noturna fazendo a espada voltar ao encantamento, então afastou Lyanna gentilmente para o lado. Abriu a porta e saiu sem esperar pela Princesa, mesmo ouvindo-a chamar seu nome. Seguiu por um corredor da nave onde tinham os quartos de cada um da equipe, atravessou outro corredor e alcançou uma ampla sala onde havia uma mapa holográfico no centro de uma mesa oval e dez poltronas confortáveis ao seu redor. Além disso o lugar tinha visão panorâmica, mostrando as infinitas estrelas que os rodeavam e Linearth mais abaixo. Kassandra bufou em desagrado ao ver o quão longe estavam do solo, apoiando-se numa das poltronas. Ela apertou o encosto com força.
Estava irritada consigo mesma. Tinha deixado um único beijo lhe tirar dos eixos, achando por um momento que aquilo era especial. Um riso debochado escapou dos seus lábios, então o aperto no encosto tornou-se ainda mais forte. A madeira estalou com a pressão até quebrar-se. Kass rosnou alto e arremessou a poltrona sem esforço contra a janela panorâmica resistente. Não se importava caso alguém ouvisse. Ela colocou a mão sobre o peito sentindo um incômodo forte, doloroso e conhecido.
Kassandra deu poucos passos para trás, cambaleando, até sentir a janela contra suas costas. Escorregou colada ali, atingindo o chão com calma e ficou encarando um ponto fixo qualquer. Um cheiro doce de amêndoas invadiu seus pulmões, sabia que estava sendo observada por alguém, mas permaneceu ali. Imóvel.
— Não tenho muito apego por coisas materiais, mas eu realmente gosto dessas poltronas. — comenta uma voz levemente rouca e melodiosa.
— Sinto muito. Posso pagar por uma nova, não se preocupe. — respondeu sem olhar diretamente para a dona da voz.
— Posso relevar essa atrocidade com a minha poltrona se me disser o motivo de ter destruído ela.
Ela suspirou e ergueu o olhar. Uma mulher de estatura mediana, cabelos castanhos ondulados e olhos do mesmo tom, quentes, a encarava com um singelo sorriso nos lábios bem desenhados. Sua pele tinha um bronzeado característico da Losva, mas sua beleza estonteante com traços marcantes revelavam que era, possivelmente, filha de estrangeiros. Além disso, a mulher usava um macacão branco com linhas verdes escuras nas laterais e tinha uma plaquinha dourada no peito identificando-a como “Capitã Muñoz”. E apesar da roupa ser larga em seu corpo, suas curvas acentuadas ainda eram visíveis.
— Eu só… me descontrolei. Não me dou bem em naves ou em qualquer lugar que me mantenha longe do solo.
Era uma meia verdade. Kassandra não poderia dizer para uma estranha seus problemas emocionais como se fossem velhas amigas, então aquela era sua melhor explicação no momento.
— A famosa novata de Bhakans tem medo de altura? Isso é interessante.
— Não tenho medo de altura. Apenas gosto de estar em terra firme onde tenho total controle. — deu de ombros. Ainda encarava a Capitã, tombando sua cabeça para o lado com um sorriso nos lábios.
Muñoz cruzou os braços suspirando.
— Se minha esposa estivesse aqui, iria implicar com você e esse seu sorrisinho.
— Por qual motivo? É proibido sorrir?
— Deveria ser para você.
— Está flertando comigo?
Elas ficaram em silêncio por alguns segundos, se encarando, quando riram simultaneamente. Kassandra encostou a cabeça contra o vidro, observando a Capitã puxar uma das poltronas para se sentar. A nave continuava seu curso em direção a Capital Emblemática Yoskor tranquilamente mesmo sem sua principal pilota.
— Quando me disseram que levaria alguns agentes de campo para a Capital Emblemática Yoskor, não imaginei que fossem crianças.
— Idade não é um problema. Sabemos nos cuidar muito bem, Capitã Muñoz.
— Camila. Pode me chamar de Camila. — ela ajeitou-se na poltrona, apoiando os cotovelos nas coxas e inclinando o corpo para frente. — Você pode ser corajosa, Senhorita Zaskov, mas Yoskor é bem diferente de qualquer outra Capital. Sabe o que vocês poderão encontrar?
Kassandra abriu a boca para responder quando um barulho chamou atenção. Olhou para trás encontrando uma Sarah sonolenta com os braços ao redor da própria cintura. Por um momento ficou em alerta, achando que poderia ter acontecido alguma coisa séria, mas ao ver a pequena fazer os sinais com a mão relaxou.
— Está tudo bem. Foi só um pesadelo. — disse com calma.
— Pode ficar um pouco comigo?
— Claro. Só vou arrumar essa bagunça ou a Capitã me joga pra fora da nave. — zombou enquanto se levantava do chão.
— Fique tranquila. Algum robô da limpeza vai cuidar disso — Camila deu um sorriso amigável. — Vá descansar um pouco e cuide dela. Temos mais algumas horas até pousar.
— Obrigada.
Estava pronta para sair quando sentiu uma mão segurar seu braço.
— Sobre seu descontrole — o tom era baixo para apenas elas escutarem. — Você pode superar o medo de lugares altos ou apenas conviver, seguindo sua vida normalmente, mas sem saber como seria caso conseguisse superá-lo. Não é fácil, mas se for muito importante para você, acho que lutar para superá-lo seria o melhor caminho.
Ela não estava falando sobre a aversão de Kassandra para com lugares altos. De alguma forma a Capitã Muñoz conseguiu identificar o verdadeiro motivo para que ela estivesse daquela maneira e usado uma poltrona para aliviar sua confusão interna. Ficaram se encarando por alguns segundos até receber um suspiro.
— Talvez eu já tenha tentado superar uma vez, mas acabei caindo e não quero me machucar de novo. A queda foi muito alta.
— Mas é nessas quedas que nos levantamos para tentar de novo e de novo. — Camila a soltou. — Tenham um bom descanso. Avisarei quando estivermos chegando.
Kassandra assentiu antes de seguir Sarah pelo corredor.
Os quartos eram iguais. Todos equipados com uma grande cama, uma janela ampla, um visor para pesquisas rápidas e equipamentos de primeiro-socorros. Nada muito espalhafatoso, mas era o suficiente para fornecer uma estadia confortável.
As coisas de Sarah estavam organizadas numa mochila encostada perto da bancada onde ficava o visor. A cama desarrumada confirmava que tinha acordado e seguido até a sala onde Kassandra e Camila estavam.
Sarah puxo-a pela mão até a cama onde deitaram. Kass não estava acostumada com aquele tipo de afeto ou amizade; não fazia ideia do que fazer. Deixou a garota acomodar-se, então colocou a mão em suas costas fazendo um carinho despretensioso.
— Do que se tratava o seu pesadelo, pequena?
— Julgadores. Julgadores levando você.
Kass suspirou.
— Não precisa se preocupar comigo. Vai ficar tudo bem, eu prometo. — Era uma promessa arriscada e, apesar de ter consciência disso, não podia dizer outra coisa. — Descanse que estarei aqui quando acordar.
— Será que teria espaço pra mais uma? — a voz de Amanda se fez presente.
Sarah encostou-se mais para o lado, puxando Kassandra junto, e a Líder Esportiva logo aproveitou o espaço extra. A dona dos olhos Carmesins revirou os olhos, nunca imaginando ser o porto-seguro de alguém e muito menos amiga. Mas lá estava ela no meio de duas pessoas importantes para sua mera existência, fazendo promessas silenciosas de que as protegeria a qualquer custo.
Mesmo que esse custo significasse voltar para o Reino Selletus.
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