Notas iniciais
hihihi Boa leitura ♥

A Sala do Trono estava mergulhada num silêncio profundo. Todos os serviçais estavam em seus afazeres nas outras partes do castelo, deixando-o sozinho com as paredes de pedras escuras, polidas, o rodeando. Nem mesmo os seus guardas se atreviam a entrar ali.

Não quando seu Rei estava meditando.

Ceifadora estava deitada sobre suas pernas cruzadas. A mão descansava na lâmina em arco perfeito e aço negro com ranhuras pulsantes na cor dourada. O cabo resistente, de madeira maciça, tinha runas antigas perfeitamente entalhadas que rodeavam a Jóia de Almas dourada. Era uma linda arma, temida por todos e muito poderosa. Anos e anos absorvendo almas de inúmeras pessoas a tornaram quase invencível… Se não fosse pelo reaparecimento da espada lendária, matadora de deuses: Noturna.

Naquele momento, navegando entre os pensamentos mais sombrios, duas lembranças o assombrava: O dia em que sua filha foi escolhida por Noturna e o dia de sua traição. Selletus tentava arduamente procurar onde havia errado. Seu plano era sólido e daria certo! Mas quando tudo se perdeu? Sentimentos? Influências? Desde pequena o deus-rei esculpiu a filha milimetricamente para a execução do seu plano, mostrou a face mais sombria dos humanos para odiá-los completa e totalmente para, no fim, ela os proteger. Contrariando a tudo.

“Eu odeio você!”

A dor. O som de Noturna cortando sua carne, atravessando seu abdômen, fez Selletus despertar da meditação. Ele ofegou assustado, a mão sobre a protuberante cicatriz esbranquiçada por estar com o tronco desnudo. Gotículas de suor escorriam por suas costas e peitos fortes, fazendo a pele morena brilhar intensamente. Os olhos estavam perdidos num ponto fixo conforme tentava se recuperar do estado de torpor.

Novamente tinha falhado. As ações de sua filha eram completamente desconhecidas e não sabia por onde procurar respostas. Precisava dela ali, na sua frente, para perguntar pessoalmente. De alguma forma a Princesa conseguira mascarar seu rastro durante anos, ninguém a vira. Selletus designou seus melhores Julgadores para caçá-la e trazê-la viva até seu reino novamente, mas nenhum deles obteve sucesso. Mas não esperava menos.
Ellisse era, de longe, sua melhor criação. Para o bem ou para o mal, ela tinha sangue de dois deuses correndo em suas veias. Possuía habilidades impressionantes comparadas aos outros Julgadores e dificilmente era derrotada. Seus mestres eram os melhores e sempre a levavam ao limite, mas até os mestres foram vencidos. Uma deusa completa com sua arma lendária.

Talvez Selletus estivesse cego com o poder da filha. Talvez a confiança do sucesso o fizera fraquejar, quase resultando em sua própria morte.

As grandes e pesadas portas da Sala do Trono foram abertas com um empurrão, causando um estrondo que ecoou pelo lugar. O deus-rei sabia quem era, pois ninguém seria corajoso o suficiente para entrar ali sem sua permissão.

— Amaldiçoo o dia em que dei liberdade a você — resmungou enquanto levantava-se usando Ceifadora como apoio.

Uma mulher alta, forte e vestindo uma armadura negra reluzente adentrou em passos firmes. O brasão do Reino Selletus, a foice do deus formando uma lua minguante, estava gravado no peitoral resistente. Os cabelos negros da mulher estavam trançados desde o topo de sua cabeça até a nuca, como uma espinha de peixe. Seu rosto, marcado por algumas cicatrizes de guerra, a deixavam temida por seus oponentes e seus olhos verdes translúcidos pareciam enxergar sua alma.

Talvez enxergassem.

— Desculpe, Senhor, mas a culpa é inteiramente sua por cultivar nossa amizade. — deu de ombros parando na sua frente, colocando as mãos nas costas ficando numa postura respeitosa. — A liberdade veio com o tempo.

— O que faz aqui, General Luna? — perguntou ao ignorar a explicação dela.

Luna respirou fundo buscando algo em sua bolsa de couro, localizada no cinto da armadura, e estendeu a mão aberta revelando cinco anéis conhecidos pelo deus.

— Perdemos cinco infiltrados. Os Federais estão mais espertos, sabem que estamos planejando algo grandioso. O sequestro dos dois oficiais de alta patente não foi um movimento muito ousado?

Selletus pegou os anéis com cuidado, sentindo a energia dos seu portadores concentrada ali. Murmurou palavras em uma língua antiga, esquecida, então eles viraram pó em sobre a sua palma.

— Precisamos tirar Ellisse da toca. — murmurou irritado.

— Encontraram ela?! — Luna aproximou-se visivelmente interessada, abandonando sua pose. — Onde?!

— São apenas hipóteses. Há rumores de que uma novata no Colégio Bhakans, filha de Brandon Zaskov, tem chamado atenção de pessoas importantes por suas incríveis habilidades. Ela é uma espécie de segurança da Princesa Lyanna.

— Zaskov tem uma filha?

O deus-rei riu debochadamente e deu de ombros.

— A não ser que ele tenha arranjado outra mulher, pois tive o prazer de matar ela e sua filha pessoalmente. Era um bom espião dos Federais, conseguiu nos enganar direitinho, mas falhou como todo humano prepotente.

Luna cruzou os braços para ajeitar-se melhor.

— Então o Senhor acredita que a filha dele seja…

— Ellisse. — ele estalou os dedos e uma camisa negra de linho começou a cobrir seu tronco. — Sabe como ela protege essas pragas.

— Não sei como consegue… Eles destruíram nosso Planeta por pura ganância!

Selletus fechou os olhos com pesar.

— Ellisse não existia quando os humanos destruíram o Planeta Terra, nossa casa, numa guerra pelo poder. E não só fizeram isso uma vez, mas várias. Eles são como pragas, se esgueiram de Planeta em Planeta para causar a destruição por meio dos seus instintos primitivos de sede pelo poder. — ele apertou o cabo da Ceifadora com raiva, fazendo-a reagir num pulsar dourado brilhante. — Tory não só ignorou minhas súplicas de punir a raça humana severamente, reduzi-la quase a zero, mas como também os defendeu ferozmente. Foi quando a confrontei com Ceifadora e conheci Noturna pessoalmente.

— O Julgamento.

Ele assentiu caminhando em direção ao seu trono.

— Eu queria lutar para expor as histórias não ditas. Lutar pelas vidas e espécies perdidas em tantos Planetas. Mas aquela espada era algo impressionantemente poderosa e foi ali que entendi de onde vinha a ganância e a sede de poder dos humanos. — Selletus sentou-se de maneira relaxada e olhou para os vitrais iluminados pelo sol da tarde. — Tory os havia infectado com sua própria ganância.

Selletus agitou as mãos e uma imagem dele lutando contra Tory apareceu como uma nuvem tremeluzindo no ar.

— Quando iria me matar… Minha mãe hesitou e, então, Noturna desapareceu diante dos meus olhos num simples estalar de dedos. Ela achou que um pedido de desculpas seria o suficiente, porém não era tão simples assim. Enquanto Tory e os outros deuses estão em seus palácios, longe daqui ou de um plano real, nós sofremos as perdas. Sofremos todos os longos, intermináveis, dias.

Luna o encarava com orgulho.

— Nós iremos vencer, Senhor. Faremos os humanos se ajoelharem diante de nós e nunca mais destruirão nossos lares. Nem Noturna será capaz de nos parar!

Ceifadora brilhou, sussurrando na cabeça do deus.

— Não subestime Noturna ou Ellisse, General. As duas juntas podem destruir a todos num piscar de olhos e, por isso, localizá-las é o nosso principal objetivo no momento.

A General assentiu, voltando a colocar suas mãos nas costas e ficando com a postura ereta.

— Bom, eu só vim para entregar os anéis e relatar o ocorrido. Voltarei para a vigília agora. — avisou e prestou uma reverência respeitosa ao seu deus-rei.

— Venha para o jantar. Tenho um convidado especial hoje e precisarei da sua presença.

— Será um prazer, Meu Senhor.

Ele acenou com a mão, avisando que a mesma estava liberada para ir. Seu olhar vagou por entre os vitrais vagarosamente, absorvendo todas as histórias contadas neles, então olhou para o lado. Para o trono de Ellisse. Selletus havia destruído o trono de sua esposa logo após sua traição, mas por algum motivo não tinha conseguido fazer o mesmo com o de sua filha.

Talvez ainda tinha esperanças de vê-la comandando ao seu lado.

A noite havia chegado e com ela o jantar. Selletus estava em seus aposentos, terminando de ter a roupa alinhada em seu corpo por suas servas, quando um jovem Julgador avisou que tudo estava pronto e o convidado também. Um sorriso sombrio apareceu nos lábios do deus-rei. Ele dispensou as servas, satisfeito com seu sobretudo cinza escuro, de couro, e o colete por baixo dele. Estava usando roupas elegantes, feitas sob medida e para uma ocasião especial como aquela.

Selletus acompanhou o Julgador em silêncio, segurando Ceifadora firme em sua mão direita. Todos os empregados presentes no corredor do castelo, por onde eles passavam, paravam suas tarefas para reverenciar o deus-rei.

Em poucos minutos chegaram até a Sala de Jantar. Além da General Luna, haviam Julgadores e Capitães dos Reinos aliados a Selletus. Mas nenhum deles era tão importante quanto seu convidado amarrado na cadeira localizada na ponta da enorme mesa retangular.

— Ah! Eu fico tão feliz que tenha aceitado meu convite para jantar conosco! — exclamou sentando-se na outra ponta da mesa. — Temos tanto o que conversar, Capitão Brandon Zaskov.

Notas finais
Até a próxima ♥