Notas iniciais
Yees! Capítulo novo pessoas! Espero que gostem! Bora Ler!

Embora todas as cadeiras estivessem ocupadas por alunos, o Templo de Lótus mergulhava-se em um silêncio absoluto. Um respeito assustador. Desde quando chegara, Kass sentia-se como uma intrusa naquele lugar e, agora, aquela sensação era ainda pior. Ela havia dito a Lya que iria se acostumar, mas temia estar errada.

A princesa encontrava-se em pé a sua frente, com a postura impecável e as mãos unidas à frente do corpo esguio. Parecia tão concentrada em captar tudo naquele momento que Kass não ousou interrompê-la. Ela ficou calada, esperando de pé, como todos.

Tudo estava praticamente pronto para o início da cerimônia. Os professores do Conselho Estudantil de Bhakans já haviam ido para seus lugares no lado direito do altar. Seus jalecos eram de tom bege e com a mariposa dourada bordada em seus braços no lado direito. Uma vestimenta simples comparada com a dos Mariposas com aquela armadura desnecessária.

— Não são poucos professores? — perguntou Kass ao contar vinte lecionadores no altar.

Lya desviou sua atenção para o altar, como se precisasse ter contato visual para entender melhor o questionamento de Kass.

— São os integrantes do Conselho Estudantil.Eles são responsáveis pelos outros duzentos professores do colégio. — A princesa pareceu pensar ao inclinar a cabeça para o lado antes de continuar a explicar. — Acho que é mais fácil para a Diretora Principal ter um controle sobre seus funcionários, entende?

— Então o Conselho Estudantil, além de composto de professores, não passa de um bando de fofoqueiros? — divagou olhando para cada um dos homens e mulheres austeros.

A princesa riu discretamente e deu de ombros.

— Basicamente.

Kass desviou sua atenção para a enorme cadeira douradaao centro, onde imaginava que a Diretora Principal se sentaria. Na extremidade esquerda do altar, sem chamar tanta atenção, estavam os líderes das atividades Extracurriculares. Kass só sabia disso porque Amanda as havia abandonado em seus lugares cantarolando sobre ser importante o bastante para ter um lugar ao lado da Diretora Principal. E lá estava ela, com um enorme sorriso nos lábios e acenando para alguns alunos como se fosse famosa.

Então, as portas principais do templo foram abertas com um ranger audível. A luz do sol ofuscou brevemente os olhos de Kass, fazendo-a esfregá-los para tentar enxergar quem passava pelo portal. Há muito tempo, desde que deixara o Reino de Selletus, não sentia seu corpo congelar com medo como naquele momento.

Dois Protetores ostentando longas capas brancas, armaduras azuis escuras impecáveis e estandartes do colégio atravessaram o corredor. Os alunos agitaram-se com a presença deles, comentando animadamente uns com os outros, enquanto Kass se controlava para não sair de seu lugar o mais rápido possível.

Todos enxergavam os enviados dos deuses como anjos ou semideuses, mas nemimaginavam a verdade podre por trás deles. Kass sabia. Quando ainda era Julgadora, foi a uma missão de reconhecimento que se mostrou uma grande cilada. Ela enfrentou um grupo de sete Protetores e perdeu a pessoa mais importante da sua vida na época porque descobriram a verdade.

Seus punhos fecharam-se com força, os nós dos dedos tornaram-se brancos e o maxilar tencionou-se. Noturna queimava seu braço como um alerta de perigo, parecendo temer, tanto quanto Kass, os Protetores. Apesar de dois não serem páreos para ela, eles conseguiriam atrasá-la tempo o suficiente até que mais chegassem.

— Kass? Está tudo bem?

A pergunta sussurrada de Lya a fez perder o foco dos Protetores posicionados no segundo degrau do altar. Ela se perdeu nos olhos verdes da princesa por alguns segundos antes de balançar a cabeça para recobrar a concentração.

— Sim. Só um pouco surpresa — comentou voltando-se para os Protetores.

Lya seguiu seu olhar e sorriu animadamente.

— Incrível, não é? Ano passado a Diretora Principal não conseguiu trazê-los, mas agora estão aqui!

Kass não respondeu. Queria repreender Lya pelo comentário, porém se controlou. A princesa também não sabia da verdade, e Kass não contaria naquele momento. Talvez nunca contasse; então, permaneceu em silêncio.

De repente as luzes do templo foram diminuindo aos poucos até se apagar por completo. Uma grande tela holográfica apareceu atrás do altar, transmitindo o frontão do Templo de Lótus onde uma mulher, usando um longo vestido branco e dourado, esperava para entrar. Não aparentava ter mais do que trinta anos, e isso deixou Kass confusa. Ela era ou não a tal Diretora Principal?, perguntou-se. Mas sua dúvida desapareceu ao ver os alunos se curvando cordialmente enquanto a mulher atravessava o corredor em direção ao altar.

Lya cutucou Kass com o cotovelo na base das costelas, fazendo-a se encolher por reflexo. Ela observou a princesa se curvar como todos e entendeu que era para fazer o mesmo, embora não quisesse.

Kass inclinou seu corpo com o olhar fixo na diretora. Por algum motivo parecia conhecê-la. A forma como caminhava, o olhar decidido e alguns traços em seu rosto lhe eram familiares.

Os Protetores estenderam suas mãos para conduzir a Diretora Principal até a grande cadeira dourada. Ela agradeceu com um simples aceno de cabeça e se virou para todos os alunos. Um drone transmitia tudo na tela holográfica através de sua câmera de alta-resolução, rondando a diretora numa distância respeitável e sem perder qualquer ângulo.

Ela sinalizou com as mãos para todos os presentes se sentassem. Seu pedido foi acatado sem hesitação, ainda que os Protetores não tivessem mexido um músculo sequer, parecendo perfeitas estátuas ao lado da cadeira dourada.

— Sejam todos bem-vindos a mais uma Cerimônia de Iniciação. Eu sou Meredith Owen, Diretora Principal do Colégio Bhakans. — Ela sorriu quando aplausos ecoaram pelo templo e esperou pacientemente pelo silêncio para continuar. — Muitosaqui estão começando uma nova jornada em nosso colégio, outros, caminhando para o fim. E, como de costume, quero chamar os Representantes dos formandos deste ano, acompanhados pela Presidente e Vice-Presidente dos Mariposas, para dar as boas-vindas aos novos alunos!

Rachel foi a primeira a passar pelas portas principais, escoltada pelos Uivantes. Logo atrás vinha Sophie, com uma expressão carrancuda, conduzindo um grupo de sete alunos pelo corredor. Então, quando Kass olhou para a Presidente, não teve dúvidas: ela era filha da Diretora Principal.

— Rachel é...

— Filha da Diretora Principal — completou Lya com um sorriso no rosto. — São bem parecidas, não é?

— Sim. — Kass respondeu enquanto observava Rachel chegar ao altar.

Meredith se curvou brevemente, cumprimentando sua filha com respeito. Rachel sorriu antes de seguir para uma das nove cadeiras localizadas atrás de onde sua mãe se sentava.Os Uivantes ficaram ao lado dos protetores, enquanto Sophie levava os Representantes para seus lugares rapidamente.

Kass olhou ao redor, percebendo alguns Federais circulando discretamente entre os alunos. Drones de Segurança pairavam pelo templo ajudando no monitoramento do lugar. Eram muitos alunos, mas a segurança estava visivelmente reforçada. Kass imaginava se, no ano em que o ataque ocorrera, havia tantos Federais e câmeras assim.

Meredith continuou o discurso de boas-vindas, dando recados rápidos de como seria o ano letivo. Kass ignorou-a. Nada daquilo importaria para ela no fim das contas. Estava ali por um pedido de Gall para cuidar da princesa depois do ataque na floresta com os Mercenários.

Ela ainda não conseguia entender como Lya fora parar na floresta. Mesmo Gall afirmando ter sido um sequestro comandado pelo seu irmão, algo ainda não fazia sentido. Brandon, ao encontrar a princesa, perguntou como ela tinha fugido daquele jeito. Fugira de onde? De seu tio ou do próprio castelo?

— Espero não estar deixando você desconfortável.

Kass se assustou inclinando o corpo levemente para trásao ouvir a voz da Presidente Rachel. Ela sorria amigavelmente segurando um colar de prata com um delicado pingente dourado em forma de mariposa. Sem entender muito bem o que estava acontecendo por ter ficado distraída, Kass tocou Lya em busca de ajuda. A princesa mordeu os lábios para não rir, então se abaixou levemente para mostrá-la a maneira correta de aceitar o colar.

Mesmo não querendo, Kass se curvou. Ela notou um largo sorriso surgir nos lábios de Rachel e sentiu os dedos da Presidente roçar em sua nuca enquanto o colar era colocado ao redor de seu pescoço.

— Seja bem-vinda ao Colégio Bhakans — desejou Rachel se afastando um pouco e analisando o colar. Talvez estivesse verificando se colocara corretamente. — Ficou bom em você.

— Obrigada, mas não precisava.

— Aceite isso como um pedido de desculpa pela confusão mais cedo.

— Certo — sussurrou Kass.

A Presidente se afastou lentamente de volta a seu lugar no altar.

Kass olhou ao redor, percebendo os rostos curiosos virados em sua direção. Outros alunos expunham o mesmo colar, então imaginou ser um presente de boas-vindas aos novos alunos. Mas, claramente, era uma surpresa Rachel ter saído de seu lugar para entregar a joia pessoalmente. Ainda mais para Kass.

...

Kass observava os Federais se preparando para o início da ronda na tarde depois da cerimônia. Lya estava ocupada verificando as aulas na tela interativa, e um silêncio desconfortável envolvia o dormitório das duas. Yass ainda não havia retornado do conserto, então alguém teria de começar a falar.

— Não é comum Rachel entregar o colar, é? — Foi a única primeira coisa que pensou para conseguir puxar algum assunto com Lya. Era como se a culpa do silêncio fosse de Kass ou de algo que houvesse feito.

A princesa suspirou profundamente.

— Não, mas foi legal da parte dela se desculpar pela Vice-Presidente. — Lya não tirou os olhos da tela ao responder. Parecia estar evitando contato visual.

— O que eu fiz dessa vez? — perguntou Kass desistindo da abordagem sutil.

Lya girou na cadeira da escrivaninha, encarando-a pela primeira vez naquele dormitório.

— Só estou preocupada com você. Está chamando muita atenção e, com essa atitude de Rachel, aposto que estão querendo você no grupo Mariposas. — As bochechas de Lya avermelharam-se como se fosse uma confissão vergonhosa para ela.

— Eu nunca vou fazer parte deles. Estou aqui por você e, até que me peçam para ir embora, continuarei servindo os desejos de seu pai e seus também. — Kass se afastou da janela e cruzou os braços. — Desculpa. Por todas as confusões. Não era minha intenção reagir daquele jeito contra Sophie e os outros...

Lia deu uma risada baixa, e Kass parou de falar. A princesa divertia-se sozinha, pois não havia entre as duas qualquer piada particular.

— Se desculpar não combina nada com você — explicou antes de rir um pouco mais alto. — Já fazia tempo que eles mereciam uma lição, então estou feliz. E você quis vingar Yass.

— Ele é importante para você.

— Admita que gosta dele também.

— Certo. Yass é interessante — resmungou derrotada.

As duas se entreolharam e, em um momento, riram. O ar parecia mais leve no dormitório, o silêncio desapareceu e aquele breve momento de felicidade pareceu afastar a insegurança que pairava sobre elas.

— Quais são as nossas aulas? — perguntou Kass com medo de ouvir a resposta.

— Venha ver. Acho que vai gostar. — Lya tocouuma vez ou outra no visor, dando rápidos comandos.

Kass estava pronta para se aproximar, mas suas pernas fraquejaram. Ela sentiu Noturna queimando em seu braço num aviso raivoso: estava faminta. A princesa se apressou para ajudá-la, mas Kass preferiu manter distância dela. Ela ergueu o braço ordenar Lya a ficar longe.

— Acho melhor não se aproximar demais.

— Eu não me importo. — Lya se agachou ao lado de Kass. Ela jogou o cabelo para o lado esquerdo, deixando o pescoço totalmente exposto do lado oposto. — Enquanto não encontramos um meio de você sair sem ser vista, isso ajudará um pouco.

— Não posso fazer isso. — Apesar das palavras, seu corpo reagia da maneira oposta. Kass fechou os olhos, deslizando a mão pelos ombros de Lya, passando pelo pescoço e parando em sua nuca. Ela se aproximou lentamente, a ponta do nariz roçando na pele exposta da princesa. — Merda...

Lya ofegou quando as presas de Kass perfuraram sua pele, mas não gritou de dor ou esperneou. Permaneceu imóvel enquanto tinha seu sangue sugado aos poucos.

Kass tinha perdido o controle. Não sabia como parar depois de sentir o gosto de sua droga favorita pela primeira vez. Ela puxou Lya para mais perto, querendo mais e mais, porém parou abruptamente. Kass ofegava, e um pequeno rastro do sangue escorria no canto de seus lábios enquanto seus olhos, acesos como se estivessem em chamas, deliciavam-se com uma Lya desnorteada e de lábios entreabertos. Kass gostaria de prová-los também, mas sabia como a princesa estava enfraquecida no momento.

— Não devia ter feito isso — sussurrou com os braços ao redor de Lya para que não desabasse.

— Kass...

Kassandra se levantou com Lya no colo. Ela a levou para cama, ajeitando a princesa com cuidado. Agora sua dívida havia aumentado. Lya colocara sua vida em risco e, se algo tivesse acontecido, Kass nunca se perdoaria.

— Descanse. — Ela beijou a testa de Lya demoradamente antes de se afastar.

Kass procurou um curativo simples no banheiro, abrindo as portas dos pequenos armários acima da pia. Ao encontrar, voltou para o lado de Lya e colocou em seu pescoço com cuidado. Ela permaneceu ali, sentada no chão ao lado da princesa tentando compreender que sentimento surgia entre as duas. O quanto estavam se arriscando ao ficar tão próximas assim e até onde chegariam. Kass desejava que a noite fosse longa para ter suas dúvidas solucionadas.

Notas finais
É isso! Comentem, por favor, pois me dá mais ânimo para escrever e ajuda muuuito também! Obrigada por tudo e por esperarem tanto tempo! Até a próxima!