- Posso falar com você?

- Claro, diga.

- Eu, hm, é que... Pára de me olhar assim.

- Eu sempre te olho assim.

- É que eu estou com vergonha. É que..

- Já entendi. Você quer ficar comigo, não é?

- É... Não! Não é isso. Eu não estou conseguindo falar com você direito agora.

- Você conversa comigo todo dia.

- Agora é diferente, e eu estou com vergonha.

- Vergonha pra qu-

- Eu gosto de você.

- ...

- ...

- Espera. Vem.

O mundo estava experimentando a lisergia que o atingia sempre quando o amor aparecia. Ele ficava lento e o ar tão mais leve que a respiração era quase imperceptível. Na situação atual Manabu até pensou que não respirava. O que na verdade foi o que aconteceu por um momento até seu pulmão o lembrar que o oxigênio não era algo opcional para o funcionamento do seu corpo.

Inspira e expira. Inspira e expira. Inspira e... Byou parou e se sentou.

Manabu parou e olhou para o espaço livre perto do garoto loiro e olhou para o lado de dentro da casa e depois para o céu escuro e seus olhos não paravam onde deviam estar focados porque a situação inteira era inesperadamente inusitada e oh Deus, Byou estava esperando pacientemente ele sentar.

E olhando novamente para a festa que continuava a uns metros de distância do ponto escuro em que estavam sozinhos, Manabu suspirou e se sentou e tinha certeza que não deveria ter vindo essa noite.

- O que você está fazendo? Espera espera esper-

- Não era isso o que você queria?

- Não, eu só queria te dizer o que eu já disse e ...

- Então você não quer?

- Eu quero mas não sei e.. Pára de ficar em cima de mim!

- Pára de me empurrar.

Byou era um maldito garoto idiota e bonito e otário e gentil e ridiculamente injusto. Injusto por não gostar dele como ele queria que gostasse. Injusto porque, infelizmente, Byou, apesar de todo o lado afetado e homossexual da vida, ainda era muito homem e esse mesmo Byou-muito-masculino fez o que todo ser humano com um pênis faz. Foi guiado por algo que é comumente chamado de instinto da oportunidade. E era isso mesmo o que Manabu estava o oferecendo naquele instante e desde ontem e anteontem e ano passado.

E era mais injusto ainda por não pensar na hora de beijar e abraçar e posicionar uma de suas mãos entre os cabelos morenos de Manabu. Apertava e ofegava e atacava e sentia o gosto de bala de melancia e queria mais do contato mas ao mesmo tempo não queria nada.

- Espera.

- Vai fugir agora que já aconteceu?

- ... ah...

O segundo beijo teve a duração de três apertos, um arrepio na nuca e uma mordida. Quando tudo acabou, Manabu tremia como alguém que nunca tinha feito aquilo antes. O pior era que ele já tinha feito aquilo antes e odiava a sensação de ser um idiota que nunca havia trocado saliva com outra pessoa antes, como sua irmãzinha conceituava o ato de um beijo.

Sua mão foi entrelaçada com outra levemente maior que o guiava para a movimentação e vozes e luzes e para a realidade que agora sufocava não só Manabu, mas apresentava seus sintomas em Byou quando algo em sua mente o espetava e ele tinha quase certeza que esse algo era o arrependimento.

- Eu vou lá falar com os meus .. hm.. amigos agora...

- Ah, ok então...

Byou se afastava com a culpa que só quem ilude os outros sente.

Manabu ficava imóvel pensando na ironia que era ser dispensado com um beijo.

Notas finais
Eu = Manabu.