Nothingness
1 Story 1
- Posso falar com você?
- Claro, diga.
- Eu, hm, é que... Pára de me olhar assim.
- Eu sempre te olho assim.
- É que eu estou com vergonha. É que..
- Já entendi. Você quer ficar comigo, não é?
- É... Não! Não é isso. Eu não estou conseguindo falar com você direito agora.
- Você conversa comigo todo dia.
- Agora é diferente, e eu estou com vergonha.
- Vergonha pra qu-
- Eu gosto de você.
- ...
- ...
- Espera. Vem.
O mundo estava experimentando a lisergia que o atingia sempre quando o amor aparecia. Ele ficava lento e o ar tão mais leve que a respiração era quase imperceptível. Na situação atual Manabu até pensou que não respirava. O que na verdade foi o que aconteceu por um momento até seu pulmão o lembrar que o oxigênio não era algo opcional para o funcionamento do seu corpo.
Inspira e expira. Inspira e expira. Inspira e... Byou parou e se sentou.
Manabu parou e olhou para o espaço livre perto do garoto loiro e olhou para o lado de dentro da casa e depois para o céu escuro e seus olhos não paravam onde deviam estar focados porque a situação inteira era inesperadamente inusitada e oh Deus, Byou estava esperando pacientemente ele sentar.
E olhando novamente para a festa que continuava a uns metros de distância do ponto escuro em que estavam sozinhos, Manabu suspirou e se sentou e tinha certeza que não deveria ter vindo essa noite.
- O que você está fazendo? Espera espera esper-
- Não era isso o que você queria?
- Não, eu só queria te dizer o que eu já disse e ...
- Então você não quer?
- Eu quero mas não sei e.. Pára de ficar em cima de mim!
- Pára de me empurrar.
Byou era um maldito garoto idiota e bonito e otário e gentil e ridiculamente injusto. Injusto por não gostar dele como ele queria que gostasse. Injusto porque, infelizmente, Byou, apesar de todo o lado afetado e homossexual da vida, ainda era muito homem e esse mesmo Byou-muito-masculino fez o que todo ser humano com um pênis faz. Foi guiado por algo que é comumente chamado de instinto da oportunidade. E era isso mesmo o que Manabu estava o oferecendo naquele instante e desde ontem e anteontem e ano passado.
E era mais injusto ainda por não pensar na hora de beijar e abraçar e posicionar uma de suas mãos entre os cabelos morenos de Manabu. Apertava e ofegava e atacava e sentia o gosto de bala de melancia e queria mais do contato mas ao mesmo tempo não queria nada.
- Espera.
- Vai fugir agora que já aconteceu?
- ... ah...
O segundo beijo teve a duração de três apertos, um arrepio na nuca e uma mordida. Quando tudo acabou, Manabu tremia como alguém que nunca tinha feito aquilo antes. O pior era que ele já tinha feito aquilo antes e odiava a sensação de ser um idiota que nunca havia trocado saliva com outra pessoa antes, como sua irmãzinha conceituava o ato de um beijo.
Sua mão foi entrelaçada com outra levemente maior que o guiava para a movimentação e vozes e luzes e para a realidade que agora sufocava não só Manabu, mas apresentava seus sintomas em Byou quando algo em sua mente o espetava e ele tinha quase certeza que esse algo era o arrependimento.
- Eu vou lá falar com os meus .. hm.. amigos agora...
- Ah, ok então...
Byou se afastava com a culpa que só quem ilude os outros sente.
Manabu ficava imóvel pensando na ironia que era ser dispensado com um beijo.
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