Notas iniciais
Gente, como não ficar com o feedback que eu recebi do capítulo anterior? Minha caixa de email lotada e em cada comentário, uma carta que me deixava como boba lendo cada coisinha que vocês se dispuseram a escrever! Cara, até hoje de manhã ainda tava recebendo review... Estou tão besta que nem tenho palavras suficientes para agradecer... Muito obrigada parece pouco para mim! :´´´´)
Enfim, o fato é que foi tanto incentivo, me empolguei e acabei postando antes do esperado! Agradeço a Renata por betar e a Luciana por ser a pre-reader. Sem elas, isso aqui não estaria nem na metade ainda!
Vamo deixar de lero-lero?
Boa leitura!

As nuvens pesadas que cobriam o céu de Forks pareciam externar a forma que eu estava me sentindo naquele instante; sobre carregada e prestes a desabar a qualquer momento. Assim como o céu nublado e cheio de nuvens roxas, era um milagre a tempestade que se encontrava dentro de mim ainda não tivesse vindo à tona. Eu me sentia como se a mais simples brisa fosse capaz de me derrubar a qualquer minuto, aguardando apenas o quando eu iria finalmente explodir.

Nunca fui alguém que apoiasse atitudes extremas e sempre achei que qualquer decisão deveria ser pensada e repensada antes de ser executada. Foi assim durante quase toda a minha vida e me orgulhava de dizer que somente existiam duas atitudes feitas completamente por impulso em todo o meu histórico. A primeira tinha sido o meu casamento em Las Vegas, quando ainda era somente uma jovem apaixonada pelo homem que conhecia desde minha infância. Já a segunda, tinha me levado até aqui, me trazendo de volta para os limites de minha cidade natal depois de tantos anos.

Não me escapou a ironia da situação; algo que começou em um ímpeto, movido pela paixão, agora terminava tão repentinamente quanto, porém abastecido por um rancor que já não podia mais suportar sozinha dentro do meu peito.

Quando liguei para o meu pai, implorando que ele me trouxesse de volta para casa, não imaginei que ele fosse agir de forma tão rápido. Só tive tempo de me recompor um pouco, arrumar uma muda de roupas para mim e para Richie, enfiando-as de todo jeito na mala até que ele me ligasse de volta, dizendo que tinha reservado o primeiro voo da tarde saindo de Chigaco em direção a Seattle. Quando me perguntou se tinha certeza do que estava fazendo, relembrei dos últimos meses dentro daquela casa, em especial as acusações feitas por Edward com tamanha frieza que me feriram tanto. Ao pensar nisso tudo, apenas confirmei que o esperaria no aeroporto ainda naquela noite. Estava cansada de sofrer; era hora de começar a agir e parar de lamentar.

Tirei todos os cartões de crédito e o dinheiro que ainda me restava na carteira e os guardei dentro de um envelope. Poderia ser infantil e dramático ao extremo, contudo meu orgulho estava ferido demais. A partir de então, decidi que não gastaria mais um centavo sequer do dinheiro que fosse dele com nada relacionado aos meus filhos. Nunca tive medo do trabalho e não eram alguns anos sendo uma "esposa-troféu" que iriam me impedir de batalhar por aquilo que precisasse. Agora, deixaria de ser submissa a ele e começaria de alguma forma a me virar, só para não ter que ouvir esse tipo de coisa outra vez.

Ainda no meu quarto, fui até uma das gavetas do meu closet e abri meu velho porta-joias, pegando a única peça ali dentro que não havia sido me dada por Edward. A gargantilha de ouro com um camafeu do século XIX em forma de pingente continuava guardada dentro de um saquinho de veludo bordô desde que eu tinha recebido. Aquele adereço pertencera a Renee, que ganhara de sua avò e tinha me repassado logo após o nascimento do Richard. Nunca a usei por achar um tanto ultrapassada, porém tinha plena consciência que aquilo me ajudaria muito a partir de agora, já que fazia questão de não aceitar mais um centavo sequer que viesse do bolso de Edward.

Desci bagagem e escrevi um bilhete rápido para ele, dizendo-lhe que havia viajado para Forks com Richie e afirmando que entraria em contato o quanto antes. Era uma atitude absurda, muito embora, essa era a última coisa que se passava em minha mente devido a ânsia de correr dali o quanto antes. Era irresponsável, imaturo e egoísta agir desta maneira, praticamente fugindo com nossa criança, mas eu tinha bons motivos para evitar mais um conflito. Estava cansada de tanto brigar.

Protelei um pouco se deveria chamar ou não um táxi, e por fim acabei optando por levar o Volvo. Afinal, precisei fazer uma parada de alguma loja de antiguidade para vender a gargantilha, em troca de algum dinheiro para me manter por algum tempo. O preço não foi exatamente o quanto esperava, mas o valor garantiria minhas necessidades e a de Richie por uns dias, sem atrapalhar tanto a vida dos meus pais. Dalí sai direto para a escola do meu filho, pegando-o algumas horas antes do término do horário escolar e tendo que escutar as milhares de perguntas dele até chegarmos ao aeroporto.

Assim que percebeu o que eu estava prestes a fazer, Richard aprontou uma das maiores birras que já havia presenciado, chorando copiosamente se recusando a entrar no avião. Queria de todo o jeito falar com o pai dele antes de viajar, coisa que seria impossível naquele momento, chamando a atenção de algumas pessoas espalhadas na sala de espera. Tentei me controlar ao máximo para não acabar descontando todo o meu rancor em cima dele, afinal, Richie era a maior vítima daquele guerra eterna entre o pai dele e eu. Não podia culpá-lo por exigir a presença de Edward, uma vez que era quase tangível – até mesmo para ele que era só uma criança – que a relação entre nós dois estava insuportável. Meu filho poderia até ser inocente em vários aspectos, mas não tinha nada de bobo.

Depois de um vôo relativamente tranquilo, a não ser pelos ocasionais fungados do menino machucado ao meu lado, nós pousamos no final da tarde daquele mesmo dia. Meu pai que tinha ido nós pegar, apenas nos deu um abraço afetuoso e respeitou o meu necessário silêncio, sem acrescentar conversas bobas sobre o clima ou algo parecido. Apesar de calado, Charlie era um homem bastante perceptivo e notou de cara que tanto eu quanto meu filho não estávamos para muito papo. O trajeto de três horas feito com uma taciturnidade sepulcral alimentada meus demônios interiores, fazendo com que eu inquirisse a mim mesma se estava fazendo a coisa correta.

Fiquei devaneando por tanto tempo que só percebi que finalmente tínhamos parado o velho carro do meu pai rente a calçada, quando escutei-o abrir a porta e se dirigir para o porta-malas em busca de nossas coisas. Olhei para o banco traseiro e meu coração se apertou mais um pouco ao ver que Richie tinha dormido todo encolhido, seu rostinho úmido pelas lágrimas silenciosas. Ele não tinha proferido uma palavra comigo desde que decolamos, e isso estava começando a me incomodar e eu não sabia dizer se preferia o escândalo no saguão ou essa mudez repentina. Não fazia ideia do que se passava naquela cabecinha, e tal coisa só me deixava ainda mais apreensiva e me perguntar qual era o sentido nisso tudo.

Resolvi sair do veículo e fui assombrada pela memória da última vez que estive aqui, tendo Edward ao meu lado. A lembrança do beijo tórrido compartilhado dentro do carro, a alegria em anunciar uma nova gravidez, a felicidade evidente em cada sorriso trocado... Tudo isso parecia uma memória distante quase como se fosse há anos atrás e não apenas alguns meses. Era possível que tudo pudesse mudar tanto em tão pouco tempo? Que duas pessoas pudessem ter seu amor abalado por conta de uma divergência de opiniões? Será que o passado que construímos juntos não significava absolutamente nada diante dos desafios que teríamos pela frente?

Senti uma mão sobre o meu ombro e isso fez com que eu saltasse um pouco e olhasse para Charlie que me fitava de um jeito preocupado. – Quer que eu pegue o Richie? Eu deixo isso aqui bem rápido lá dentro e volto para apanhá-lo.

Meneei minha cabeça negativamente – Não é necessário, pai. Eu vou acordá-lo. Ele realmente precisa se alimentar, já que não comeu nada desde que saiu do colégio.

Charlie assentiu e aproveitei o momento para abrir a porta de trás do veiculo, balançando levemente o menino adormecido lá dentro em um gesto suave. Richie se acordou com um sobressalto, apesar de minha tentativa de ser o mais sutil possível e piscou algumas vezes, quase como se estivessem se situando onde estava. Um pequeno bocejo escapou de seus lábios e eu sorri para isso, muito embora não fui correspondida. Ele saiu do carro com um salto e por um momento imaginei-o correndo disparado, se afastando de mim, no entanto para o meu alívio ele me deu sua mão, fazendo com que nós três caminhássemos devagar até o patamar da entrada. Notei seu olhar vazio e cabisbaixo e outra vez a culpa roeu minhas entranhas por está fazendo-o passar por uma situação tão estarrecedora. Ele era só uma criança que não merecia lidar com os problemas dos pais dele.

Charlie colou uma das mochilas no chão e tirou as chaves do bolso, abrindo a porta para nós. O cheiro de pinho foi imediatamente percebido, antes mesmo que meus olhos fossem por hábito até o patamar da escada, onde uma árvore de Natal mediana estava devidamente decorada. Reconheci os enfeites de vários anos, acrescido apenas por algumas fitas que provavelmente Renee havia comprado este ano. A simples mistura desconexa e multicolorida que minha mãe costumava fazer todos os anos me fez sorrir, me enchendo daquela sensação reconfortante de estar finalmente em casa.

Contudo, antes que minha postura se relaxasse por completo, notei minha mãe vindo para a sala com o telefone no ouvido, uma postura tensa, assentido firmemente enquanto mordia o lábio Bastou apenas um olhar dela em minha direção para saber quem era a pessoa do outro lado da linha e pela simples postura corporal dela, cheguei na conclusão que a conversa não era uma das mais agradáveis.

- Sim, sim, eu sei. Ela acabou de chegar aqui... – murmurou e olhando de soslaio e dando as costas – Só me dê um instante que irei passar.

- Richie, querido, — disse, me agachando com um pouco de dificuldade para olhá-lo melhor — por quê você não vai com o vovô lá no quarto e troca de roupa? Enquanto isso eu preparo um chocolate quentinho, para você comer com alguns biscoitos da vovó, huh?

Apesar da desanimação, ele concordou e pegou na mão do avô que o escoltou até o andar superior. Tomei uma respiração profunda e voltei a ficar de pé, me aproximando de Renee que visivelmente estava atordoada. Estiquei meu braço, solicitando que ela me passasse o aparelho, porém ela vacilou.

- Tem certeza, Bella? Eu posso pedir para que ele ligue mais tarde... – retrucou receosa.

Balancei minha cabeça veementemente e tomei delicadamente o telefone de sem fio das mãos dela. – Não se preocupe, mamãe. Eu posso lidar com isso, e quanto antes melhor. — Pegando o restante de coragem que ainda me sobrava, levei o aparelho até meus próprios ouvidos a medida em que voltava para a varanda da frente – Oi Edward.

- Que porra você pensa que está fazendo, Isabella? Como é que você resolve simplesmente sair de casa e não dizer merda nenhuma? Você é maluca?

Por um momento, pensei em afastar o aparelho e deixa-lo falando sozinho, porém, em certo ponto entendia sua revolta. Pensando bem, também ficaria da mesma forma caso voltasse para casa e a encontrasse absolutamente vazia. – Eu te expliquei onde estaria, Edward. Você sabia que eu queria passar o Natal aqui Forks, por isso não finja que você não sabia de nada.

- Então só porque eu não queria ir, você arruma suas coisas, sequestra nosso filho e vai para o outro lado do país? Você tem ideia de como eu estou aqui?

- Não finja preocupação, Edward! – disparei indignada, enquanto a chuva finalmente caia pesadamente, acompanhada de um alto trovão.

- Fingir? Você está insinuando que eu não preocupo nem com você e nem com Richard?

- Suas atitudes são as maiores provas disto. — rebati secamente

- Você não faz ideia de nada, Isabella! Se eu estou ausente é porque eu trabalho para manter você e o nosso filho! – ele praticamente gritou.

- Ótimo, eu vou te poupar de tanto esforço. Não precisa de sacrificar tanto por nossa causa. Nós vamos dar um jeito para não atrapalhar tanto sua vida. – alfinetei, expondo a raiva que sentia todas as vezes em que ele fazia questão de ressaltar o quanto ele era afetado por trabalhar tanto.

- Não seja estupida, ok? Eu vou te reservar o próximo voo amanhã e...

- Eu não irei para Chicago, Edward. – interrompi-o com convicção – Vou ficar aqui com meus pais enquanto achar necessário.

- Você não pode fazer isso! Você é minha mulher e o Richie também é meu filho, Não vou aceitar de forma alguma que você aja dessa maneira. Se você não quer vir por bem, amanhã mesmo eu estarei aí para te trazer de volta.

- E por acaso você vai me obrigar? Me forçando a fazer algo que eu não quero?

- Se for preciso, sim!

- Edward, por favor, – eu supliquei, – Você sabe melhor do que eu que nós precisamos desse tempo. Eu não suporto mais viver desta forma, brigando a cada cinco minutos. Não quero que as coisas se tornem piores do que já estão e isso acabar destruindo o que ainda resta de sentimento entre nós dois. Eu te peço, na verdade lhe imploro por esse tempo, Edward. Por tudo o que você mais ama, me deixe em paz só por esses dias.

Você não pode fazer isso comigo, Bella. Não pode me impedir de ver você e nosso filho.

Sem mais argumentos e nem forças suficientes eu só pude rogar – Por favor, Edward... Apenas por favor.

Nós ficamos em silêncio, escutando somente o som da tempestade e a respiração entrecortada um do outro através da linha telefônica. De forma alguma iria ceder ao meu desejo de ficar, porém não queria mais discutir tão intensamente pelo telefone. Eu estava física e emocionalmente esgotada, e tudo o que mais desejava naquele instante era me afundar em uma cama e esquecer tudo o que eu havia passado neste dia. Estava cansada demais e tudo o que mais necessitava era de um pouco de paz antes que minha cabeça explodisse tamanha era minha enxaqueca.

Depois do que pareceram ser horas, eu o escutei tomar um fôlego profundo antes de voltar a falar – Eu posso pelo menos falar com o Richie?

- Eu não acho que seja o melhor momento, Edward. Ele está confuso e muito cansado por conta da tudo o que aconteceu.

Edward riu sarcástico – Ele não queria ir, não foi?

Não consegui mentir para isso – É, ele não queria. Só que eu não podia vir até aqui sem trazê-lo comigo. Ele, mais do que eu ou até você mesmo, é quem mais precisa ficar longe dessas brigas entre nós. Ele é apenas uma criança e não merece presenciar essa indiferença entre os pais.

- Você acha que eu não sou capaz de cuidar dele sozinho? É isso que você está insinuando?

- Você passa mais de doze horas dentro do escritório, Edward. Como é que você poderia cuidar do Richie?

Ele grunhiu – Eu daria um jeito. Meu família vem em primeiro lugar!

- Mesmo? Então porque você se negou a vir até aqui quando eu te perguntei de manhã? – revidei o deixando sem resposta. – Olha, Edward, eu não vou sequestrar o nosso filho. Nós estaremos aqui enquanto for necessário e amanhã a primeira coisa que farei é te ligar pra que você fale com o Richie, tudo bem?

Ele suspirou pesadamente. – Tudo bem, Bella. Vou respeitar a sua decisão. – antes que eu pudesse me sentir totalmente aliviada, ele completou – Mas nem ache que eu irei desistir tão facilmente, entendeu? Eu não vou permiti que vocês fiquem longe de mim.

Não tive nem a chance de replicar porque imediatamente a ligação foi interrompida bruscamente. Não creio que tenha sido algum problema na linha ou algo parecido. Edward simplesmente havia passado sua mensagem e não se importou mais com qualquer comentário que eu poderia ter acrescentado. Queria ter raiva da prepotência dele, porém estava esgotada demais para sentir qualquer outra coisa, então afundei-me contra o balanço do alpendre, enterrando minha cabeça entre as mãos ao mesmo tempo em que refletia tudo o que tinha me levado até ali; sozinha e devastada, tão sem rumo quanto um barco sem vela no meio do oceano.

Não demorou muito para escutar a velha porta de madeira rangendo, sinalizando que alguém estava se aproximando, entretanto não me dei ao trabalho de reconhecer a pessoa, preferindo permanecer daquele mesmo jeito, envolvida em meus próprios problemas. Mas, bastou poucos segundos para sentir aquela presença ao meu lado e com um afago maternal, senti meu corpo sendo puxado calmamente para o seu ombro. Encolhi-me contra ela, sentido o cheiro suave da colônia de flores em sua pele e me sentindo outra vez apenas uma menina, que só se encontrava a salvo nos braços de sua mãe.

Não foram preciso palavras; apesar de Renee ser sempre falante, nesse momentos ela sabia que nada precisava ser dito ou comentado, afinal só o carinho de suas mãos em minhas costas e a suave ascensão de seu peito enquanto respirava, eram suficientes para que me acalmasse. Não precisava nada além disso: um abraço sincero e nenhum julgamento dos meus recentes atos, fossem eles corretos ou não. Enquanto eu estivesse ali confortada pelo apoio de minha mãe, não existia tormenta – seja esta no céu ou dentro do meu casamento – que fosse capaz de me amedrontar.

- Sente-se melhor? – Ela inquiriu, afagando meu cabelo.

- Um pouco. – murmurei, esticando meu corpo dolorido depois de ficar algum tempo naquela posição desconfortável para alguém que tinha uma barriga de 27 semanas de gravidez.

- Bom. Agora faça exatamente a mesma coisa que eu fiz. Lá em cima tem um garotinho que precisa muito de você, meu bem.

Sorri-lhe discretamente e deixei um beijo em sua bochecha. – Obrigada, mãe. Por tudo.

- Às vezes eu mesma me surpreendo comigo mesma. – murmurou ao se levantar e oferecer a sua mão para me puxar. — Tem momentos que eu consigo de verdade ser maternal.

Eu ri enquanto ficava de pé a abraçava pela cintura, começando a caminhar de volta lá para dentro. – Me fazer rir depois do dia que eu tive hoje, só prova o quanto você é uma ótima mãe, Renee Swan. A melhor de todas.

[...]

Aquela madrugada não foi uma das mais calmas. Eu havia me esquecido como era incômodo dormir no meu quarto durante os meses de inverno, onde o assobio do vento gelado contra a janela provocava um som tenebroso, digno de um filme de terror. Agradeci aos céus por Richard ter um sono pesado, não se mexendo um minuto sequer durante a tempestade que se seguiu durante a noite. Vigiar seu sono tranquilo era quase que um calmante para mim, que de forma alguma consegui pregar os olhos durante a longa noite.

Era complicado desligar, quando havia tantas coisas em minha cabeça. Pensamentos sobre o meu futuro daqui para frente, que tipo de atitudes eu iria tomar de tal forma que nem meus filhos e nem minha auto-estima fossem ainda mais massacrados. Meu peito apertava quando eu imaginava como seria minha vida sem o meu Edward; o homem romântico, pai perfeito e companheiro fiel que costumava ser meu equilíbrio Não tinha ideia do que havia acontecido com aquela pessoa, que tinha sido substituído por alguém frio e preconceituoso e que em nada se parecia com o cara que me apaixonei.

Apenas um pouco depois das 4h da manhã, foi que o cansaço me consumiu por completo e pude finalmente cair na letargia, muito embora o meu sono não tivesse sido um dos mais tranquilos. Minha mente repassava como um filme tudo o que se passou no dia anterior, desde a briga no meio da manhã, a viagem cansativa cruzando o país até a chegada na casa de meus pais, como se tentasse assimilar que tais coisas tivessem de fato acontecido. Eram memórias que de forma alguma gostaria de relembrar, porém meu cérebro insistia em gravá-las para sempre em meu subconsciente.

Ao acordar, poucas horas depois, eu pisquei várias vezes até me situar onde me encontrava, e aos poucos as lembranças do dia anterior me tomaram, provando que não estava em um pesadelo. Suspirei pesadamente, me sentindo fadigada demais para quem tinha recém levantado da cama. Sem contar que meu braço estava dormente por ter dormido com a cabeça em cima dele e meus pés pareciam duas laranjas, tamanho era o inchaço.

De imediato, notei que meu filho não se encontrava mais no quarto e me apressei em me levantar e a descer para o térreo, onde o encontrei na sala ao lado de Charlie. Meu pai parecia entretido com as notícias matinais enquanto Richard cutucava alguns fiapos perdidos do forro do sofá, tão apático quanto no dia anterior. Com o coração um pouco mais tranquilo, mas embora um tanto que apertado também, fiz meu caminho até ele deixando um beijo em sua testa.

- Você dormiu bem, docinho? – perguntei levemente.

Ele apenas deu de ombros, continuando a enrolar a linha solta em um dos seus dedinhos. – Não. Gosto mais de dormir no meu quarto.

- Hmmm. Eu lembro que uma vez você me disse que gostava de dormir no mesmo quarto que eu... Não gosta mais?

Ele finalmente levantou seus orbes verdes para mim, me fitando de uma maneira indignada que chegava a ser desconcertante perante a semelhança com Edward. — Eu gosto. Mas lá em casa, com você e com o papai também.

Para minha sorte, Charlie se intrometeu – Isso é porque você ainda não acampou com o vovô Swan – ele disse com um sorriso, afagando o cabelo dele.

Em resposta, Richie rolou os olhos, como se o avô tivesse lhe contado o maior absurdo do mundo. – Não dá pra fazer acampamento aqui, Vô. Só tem chuva o tempo todo, como é que a gente ia fazer a fogueira?

Charlie coçou seu bigode, parecendo estar fazendo uma reflexão profunda – É talvez você tenha razão. Não dá para fazer nada disso por aqui. Sem contar que a terra molhada por conta da chuva, só traria muito sapos para o acampamento.

- Sapos? – Richie perguntou.

- Sim, sim. E salamandras, rãs, lagartos.

- Legal... – ele murmurou, praticamente em reverência.

Charlie me deu uma piscadela, que a retribui com um sorriso. Ele soube direitinho como distrair o meu menino apenas ao mencionar aqueles bichos repugnantes. Ele limpou a garganta e voltou a falar. – Lembra daquela vez em que fomos pescar com o Tio Billy?

- Quando você comprou aquele montão de vermes como isca? – Richie perguntou com o principio de um sorriso na face.

Satisfeita por ele já não estar tão deprimido, me levantei. – Bem, eu não vou ficar aqui escutado vocês falando dessas coisas nojentas. – Deixei um beijo na testa de cada um deles e parti para a cozinha, onde já podia escutar Renee remexendo em alguns dos utensílios.

Juntas, começamos a preparar algumas panquecas a medida que ela me apresentava todos os novos eletrodomésticos que havia comprado na última Black Friday em Port Angeles. Eu me diverti escutando-a relatar mais uma vez toda a briga contra duas velhinhas em busca de sua tão sonhada máquina de wafflers. Por mais que eu já tivesse escutado todo o relato pelo telefone, foi muito mais engraçado vê-la gesticulando para cada mínimo detalhe que ocorrera e enchendo a paciência do meu pai ao dizer no final de cada sentença a expressão "foi ou não foi verdade, Charlie?"

Tínhamos acabado de por a mesa quando o telefone tocou. Antes que qualquer um pudesse pegar a ligação, Richie alcançou o aparelho para atendê-lo. Meu coração virou um bloco de gelo ao escutar a saudação animada que meu filho tinha feito para a outra pessoa na linha.

- Pai! – ele gritou empolgado

No mesmo instante, larguei a caixa de leite de qualquer jeito em cima da mesa e partir apressada em direção a sala, no entanto, uma mão segurando com firmeza o meu pulso. Virei-me e encarei com certa raiva Renee, que bloqueava o meu movimento.

- Mãe, eu preciso pegar o telefone! Edward vai falar alguma besteira para o Richie! – sibilei aturdida, tentando soltar a pressão que ela exercia sobre o meu braço.

– Ele não irá fazer nada, Isabella – minha mãe falou, usando meu nome por completo exatamente quando eu era criança – Ele é adulto, ele não vai envenenar seu próprio filho contra você. Ele pode estar ressentido com sua atitude, com seu casamento, mas tenho certeza de que ele não iria fazer com que o próprio filho tivesse que escolher entre um de vocês.

Mordi meu lábio inferior com força, pensando naquilo em que ela havia dito. Em certo ponto, até achei que ela tivesse razão, contudo eu não reconhecia mais o homem com quem estava convivendo. Eram tantas atitudes diferentes nos últimos meses, que foi inevitável questionar até que ponto chegaria a capacidade de Edward.

Parecendo adivinhar meus pensamentos, Renee completou — Seu pai está lá na sala. Tenho certeza de que se ele perceber qualquer coisa diferente, ele irá tomar o telefone do Richie, meu bem.

Por mais que estivesse apreensiva, tive que concordar com minha mãe, afinal Edward ainda era o pai dele e de forma alguma eu poderia impedir o contato entre os dois. Apenas me afundei em uma das cadeiras da cozinha e fiquei alerta a cada gargalhada que Richard soltava lá na sala. Uma parte de mim se sentia aliviada por ele – mesmo que momentaneamente – ter superado o trauma do dia anterior, no entanto não podia negar que em certo ponto eu me sentia culpada pelo fato de separar Richard do pai às vésperas do Natal.

Olhei para a porção das apetitosas panquecas que Renee acabara de por sobre a mesa, porém, eu mal tinha vontade de comê-las, uma vez que meu estômago parecia estar embrulhado. Eu sabia que precisava me alimentar direito pelo bem do bebê, contudo não sentia a menor vontade de fazer isso. Osdesejos tão relacionados a gestação eram raros em mim e nas poucas vezes que aconteceram, eu tinha corrido até o banheiro logo em seguida e colocado tudo para fora poucos minutos depois.

Era inevitável comparar a minha atual gravidez com a do meu primeiro filho. Com Richie, apesar de todas a dificuldades financeiras eu pude curtir muito mais cada instante de carregar um bebê em meu ventre por nove meses. Mas agora, tendo essa frágil garotinha dentro de mim, me sentia... cansada. Como se eu já tivesse ultrapassado os limites finais da gestação, quando na verdade ainda faltava um pouco mais de dois meses até tê-la em meus braços. Acho que isso se deve a avalanche de emoções que eu passei desde que descobri que estava grávida novamente A alegria, empolgação, raiva, rancor, negação... parecia exatamente como uma montanha-russa cheia de loopings a cada semana que se passava.

A ligação foi encerrada pouco tempo depois e Richie entrou na cozinha com um sorriso enorme, totalmente diferente daquele garoto abatido que vi assim que acordei. Era injusto, mas sentia inveja daquela empolgação toda que ele demonstrava depois de ter falado com o pai. Mesmo sabendo que Richard ainda era apenas uma criança, sentia raiva por provavelmente imaginar que a grande vilã naquela situação era eu quando na verdade era tão vítima quanto ele.

Dei uma desculpa qualquer e saí dali, voltando para o quarto onde me embrulhei de volta no edredom e fiquei encarando, sem realmente ver, a janela minha frente. Minha mente estava ocupada demais imaginando coisas que não deveria, coisas que deveria repudiar por simplesmente estar se passando em minha cabeça, no entanto era impossível não cogitá-las. Naquele instante, não pude evitar de pensar em como minha vida estaria agora se esta fosse uma gravidez como qualquer outra. Se a menina que estava em minha barriga fosse simplesmente normal.

Não podia apagar facilmente o misto de emoções que se passou no rosto de Edward quando lhe contei que estava esperando uma garotinha. Por um momento, seu olhos ficaram tão aflitos quando eu disparei aleatoriamente essa frase no meio de outra briga, que eu cheguei a pensar que a partir daquele momento tudo seria diferente. Entretanto, antes que a esperança pudesse se infiltrar totalmente em meu peito, ele virou o rosto e retaliou com mais uma de suas acusações gélidas.

"Não importa se é uma menina ou não, Bella. O que interessa é que essa criança é doente e nada poderá mudar isso." ele havia dito, saindo da sala e me deixando outra vez sem a chance de defender a nós duas mais uma vez.

Era em momentos como esse, quando eu me via completamente sozinha que eu começava a me perguntar se, de fato, estava fazendo a coisa correta. Nunca tive contato algum com crianças com Sindrome de Down e agora teria uma filha desse jeito. Alguém que exigiria cuidados a mais, sem contar que eu não tinha a mínima noção de qual seria o grau de dependência que ela teria no futuro. Sabia que, graças aos Céus, ela não seria cardíaca, como o último exame que tinha feito havia comprovado, porém isso não influenciava muito no que dizia respeito ao desenvolvimento dela.

Além de carinho, a bebê precisaria de estímulo e dedicação desde muito cedo para poder progredir e eu não sabia se era capaz de oferecer tudo isto para ela. Tinha plena consciência de que só o meu amor pela garota que se mexia vagarosamente em meu estômago não seria suficiente. Exigiria de mim esforço, insistência, abdicação total e muita paciência, coisa que eu não tinha certeza se seria capaz.

As lágrimas desciam por minha face enquanto refletia sobre tudo isso. Era tão confuso porque ao mesmo tempo em que me sentia insegura, também tinha plena certeza que tinha feito a coisa certa ao manter aquela minha bebê. No entanto, era inegável que não podia deixar de me questionar se acaso valia a pena ter pedido o meu casamento em prol dessa garotinha.

Meu celular tocou e eu enxuguei o rosto antes de pegar o aparelho e ver no visor o nome de Alice. Um discreto sorriso apareceu em meus lábios por que certas vezes minha melhor amiga parecia ter o dom da vidência, sempre ao meu lado nos momentos em que eu mais necessitava.

- Oi, Allie. – atendi, tentando fazer com que ela não percebesse o tom sem ânimo de minha voz.

- Isabella Masen, será que custa tanto dar uma resposta para a minha mãe? Você sabe como ela fica nessa época do ano com essas frescuras de ceia e tal. Ela precisa da sua confirmação para poder comprar a porcaria do peru e o restante das... Bella, você está chorando?

Não conseguia esconder nada daquela mulher que era como uma irmã para mim. Naquele momento, tudo o que eu mais precisava era de minha melhor amiga, para poder desabafar todo esse sentimento amargurado preso em meu peito.

- Bella, aconteceu alguma coisa? – ela inquiriu, seu tom esbanjando preocupação a cada nova palavra proferida. – Onde está o Edward? E o Richie? Deus, foi alguma coisa com a bebê? Por favor, Bella, você está me assustando!

Fungando um pouco, eu comecei a balbuciar – Alice, você poderia vir até aqui em casa?

- Ir agora para Chicago? Bem, acho que vai ser complicado mas...

- Não em Chicago. – e antes que ela pudesse perguntar mais qualquer coisa, acrescentei. – Eu estou em Forks, Alice. Minha casa ,por enquanto, é aqui em Forks.

[...]

Naquele mesmo dia, no final da manhã, Alice e eu estávamos na varanda da casa dos meus país vendo os pingos da tempestade que cessara há pouco caindo das calhas ao redor da varanda. No momento em que estava me ligando, ela também se preparava para entrar no carro em Seattle para vir para a cidade em que crescemos com o intuito de passar os dias que antecipavam o feriado de Natal com os pais. Ao notar o quanto precisava de seu apoio naquele momento, ela tinha dirigido como um Às no volante e chegou em Forks com um tempo recorde. Não tinha sequer parado na casa dos pais para deixar suas coisas, vindo direto até aqui trazendo seu namorado Jasper à tiracolo, o que no caso foi perfeito, porque ele conseguiu distrair facilmente meu filho enquanto conversava com ela.

Tinha passado a última meia hora contando cada mísero detalhe das últimas semanas para minha melhor amiga, que escutava tudo com atenção, não me interrompendo em minuto algum. Falei sobre a última discussão com Edward pelo telefone e como estava apreensiva em relação ao meu futuro, já que não tinha perspectiva de nada.

- Então, deixa ver se entendi, — ela disse, com a sobrancelha franzida em concentração ao mesmo tempo em que me fitava intensamente – Tanto Edward quanto o Richard rejeitam o novo bebê com Down. Um por achar que essa menina não passa de um peso morto na vida de vocês. Enquanto o outro pensa que ela é a responsável pelos pais deles estarem se afastando.

- É, basicamente isso. – murmurei, enrolando mais um bolinha de papel entre a pequena pilha de lenços usados. Uma cena que seria até cômica se não fosse tão trágica.

- E sua vida está tão confusa ultimamente que você não tem nem noção mais se você tomou a atitude certa ao manter essa menina. É isso mesmo?

- Você não pode me julgar por isso, Alice. – retruquei na defensiva ao perceber o tom de acusação em sua última afirmação – Ninguém faz ideia do quanto minha vida tem sido um inferno desde que descobri que minha filha tem essa maldita doença. Eu me sinto impotente, sabe? É como se eu tivesse que escolher entre ela e o restante de minha família.

– Eu imagino como deve ser difícil, Bella.

– Não, você não tem nem noção! – sibilei exasperada, me levantando com dificuldade do balanço e começando a caminhar na frente dela. – Não sabe o que é ouvir o homem que você ama rejeitando alguém que ele deveria adorar. Não faz ideia do quanto machuca escutar seu próprio filho dizendo que queria essa menina morta. Isso me cansa tanto, Alice! Eu não sei mais o que é certo ou errado nisso t; não sei se só estou sendo teimosa como sempre ou se de fato eu tenho razão por fazer questão de não abrir mão dela.

Alice se levantou do banco e veio parar a minha frente – Bella, eu não estou te julgando. – murmurou calmamente, impedindo que eu continuasse a me movimentar. – Você tem razão, eu não poderia nunca mensurar o que você vem passando, Bella. Deve ser foda passar por tudo isso sozinha. Porque você não me contou antes? Eu teria dado um jeito e ido até Chicago. Nem que fosse para dar alguns murros na cara imbecil do Edward!

Sorri fracamente antes de me virar e encarar o asfalto molhado da rua e a pequena corredeira de água que se formava entre ele e a calçada. – Foi por isso mesmo que não quis te incomodar. Sabia que você ficaria preocupada e nunca cheguei a cogitar que as coisas fossem tomar proporções tão grandes. Além disso, eu tive Rosalie que está me ajudando bastante desde então.

– Eu não sei se gosto muito disso... Ser substituída por alguém que sem sal como a minha cunhada...

Aquilo fez com que abrisse um pequeno sorriso por conta daquela bobagem. — Rose é uma pessoa maravilhosa, Alice. Ela é um pouco reservada no começo, mas com a convivência você acaba descobrindo o quanto ela é altruísta.

– Reservada é eufemismo. Nesses quase seis anos de casamento entre ela e meu irmão, acho que nunca troquei mais do que algumas frases durante esse tempo todo. Ela é sempre tão pragmática e fria...

Balancei minha cabeça negativamente. – Rose é uma mulher de coração enorme. Não sei se teria chegado até aqui se não fosse por ela. – Alice fez uma careta e eu acrescentei – se vocês se permitissem serem mais próximas, tenho certeza de que seriam ótimas parceiras de compras. Ela pode ser tão compulsiva quanto você. — comentei, me lembrando das nossas aventuras lojas de bebês.

– Ok, ok... Mas isso não vem ao caso agora. O ponto aqui é que você não deveria encontrar apoio de uma pessoa de fora. A primeira pessoa que deveria estar ao seu lado era Edward. Pelo amor de Deus, ele é o seu marido! Não acredito que meu primo pudesse ser tão... idiota! E ignorante e covarde, para dizer no mínimo. Ele acha que é fácil para você?

Suspirei pesadamente, enquanto olhava a ponta das minhas unhas, cutucando de leve as pontas do esmalte descascado. – Não é nem um pouco fácil. Mas acontece que agora, eu chego a me perguntar se no fundo ele não tem razão.

– Você está arrependida de ter optado ter esse bebê especial? – Alice me perguntou gentilmente, afagando o meu ombro.

– Não é arrependimento. Acho que é mais insegurança, sabe? Tipo, eu me pergunto se no final tudo isso terá valido a pena. – murmurei, não conseguindo segurar a lágrima teimosa que rolou por minha face naquele momento. – Será que eu sou uma pessoa horrível por não ter mais tanta certeza de que fiz a coisa certa? Será que existe um propósito nisso tudo, afinal?

– Eu não sei se vou poder suportar esse bebê em minhas costas sozinha... – continuei, aproveitando o momento para desabafar todas as minhas inseguranças – E se ela tiver alguma outra doença assossiada? Quase 40% dos Downs tem problemas cardiacos. e se a minha filha tiver isso também? Sem contar as chances de ela ter que tomar milhares de remédios, ter dificuldades de visão, de se locomover... São tantas coisas que tem momentos em que me desespero, entende? Simplesmente não seu mais o que fazer.

Voltei-me para Alice e me surpreendi ao ver seus próprios olhos úmidos nos cantos. Aquilo me deixou bastante curiosa, afinal eu conhecia ela há séculos e sabia que ataques emotivos eram raríssimos naquela pessoa. Porém antes que pudesse sequer lhe questionar qualquer coisa, ela segurou minha mão e começou a me levar em direção à sala.

-Para onde estamos indo? – perguntei curiosa enquanto ela abria a porta, passando como um flash até a cozinha, onde Renne, Jasper e Richie estavam terminando de preparar o almoço.

Ela não se deu ao trabalho de responder, dirigindo total atenção para a minha mãe, que desviou a atenção do molho que preparava para nós duas – Renee, você se importaria muito se nós duas saíssemos agora? Bella precisa resolver algo importante comigo o quanto antes.

Confusa, olhei para minha mãe que fez exatamente a mesma pergunta que estava presa em minha língua. – Agora? Mas nosso almoço está quase pronto, querida!

Ela soltou um sorrisinho um pouco forçado — Eu sei, Renee e eu peço desculpas de verdade por isso, mas acontece que é algo de certa urgência, por isso, só iremos Bella e eu. Jasper e Richie poderão ficar para lhe fazer companhia e mais tarde, todos vocês poderão ir lá para casa.

Richie desconcentrou do tabuleiro de damas com que jogava com Jasper e me fitou de forma suplicante. — Eu não posso ir também?

Abri minha boca para responder, no entanto minha amiga misteriosa foi bem mais rápida. Ao se abaixar e cochichar ao ouvido dele. – Eu preciso terminar minha surpresa para você, gordinho. Juro que quanto estiver tudo pronto, a mamãe e eu te ligamos mais tarde.

- Sem contar que se formos com elas, você não vai poder ver o novo Play III que eu tenho aqui na minha mochila.

Richard mordeu o lábio por um segundo, e finalmente deu de ombros — Pode ir então, mamãe. A gente se vê mais tarde.

- Bem, já que eu terei companhia desses adoráveis cavalheiros, não vejo problema algum em vê-las mais tarde. — minha mãe falou solenemente — Mas faça com que ela coma alguma coisa, Alice! Eu não vi a Bella comendo nada desde que chegou aqui ontem à noite.

- Eu irei sim, Renee. E obrigada por compreender.

Só tive tempo de deixar um beijo no alto da cabeça do meu filho e um breve aceno para os outros presentes na sala, pois Alice com toda força intrigante de seus 1,55m começou a me puxar em direção ao seu carro.

- Alice, para onde diabos nós estamos indo?

- Para a casa dos meus pais – ela respondeu de pronto, destravando o alarme do seu carro e entrando com graça no veículo.

Dei a volta e segui seu exemplo, prendendo o cinto com força a medida que ela dava partida para fazer a volta, seguindo na direção norte de Forks. Curiosa não pude deixar de questionar mais uma vez — E qual é a razão dessa pressa toda?

De pronto, ela retrucou. – Bem, eu não tenho as respostas para todas as suas dúvidas, mas acho que minha mãe pode ter.

- E o que Esme tem a ver com isso?

- Você vai entender quando chegarmos.

Nos dez minutos que passamos dentro daquele carro, Alice não comentou absolutamente nada sobre o que a mãe dela tinha relacionado as minhas indecisões. Tentei a todo custo com que ela me desse alguma pista, entretanto, foi impossível fazer com que de sua boca saísse alguma afirmação que me desse alguma pista. Minha curiosidade estava inflamada e durante todo o caminho eu cogitava qual era a relação da tia de Edward naquela história toda.

Era possível que mesmo de tão longe, ela soubesse de algo que estivesse acontecendo com o sobrinho? Será que ela sabia os motivos para que ele agisse tão secamente em relação a mim nos últimos tempos? Ou talvez ela conhecesse a tal Tanya e pudesse me dizer com certeza qual era a relação dela com o meu marido.

Quanto mais perto eu ficava da residência dos Cullen, mais rápido o meu coração trovejava em meu peito. A curiosidade me corroía e a cada metro mais próximo, mas ansiosa ficava para descobrir que motivo nos levava até lá.

Ao chegarmos lá, Alice não estacionou na grande garagem anexa nas proximidades da casa. Preferiu parar bem em frente a majestosa mansão branca encravada no meio de um belo bosque, em uma das áreas mais ricas da cidade. Ainda me deslumbrava ver a fachada característica dos anos 20 completamente restaurada, apesar de toda modernidade que o interior emanava. O requinte de Esme Cullen deveria ser característico de família, uma vez que sua irmã, Elizabeth Masen, também era elogiadíssima pelo seu bom gosto.

Fomos até o alpendre, onde Alice retirou uma chave reserva escondida atrás de um vaso e destrancou a enorme porta feita de carvalho trabalhado. Mal entramos no hall e minha amiga foi imediatamente gritando. – Mãe? Cadê você?

Nem um segundo depois, Esme – como somente ela conseguia – saiu da cozinha usando um avental estampado, segurando uma enorme forma entre suas mãos. – Alice, você já chegou? Eu pensei que você ficaria na casa da... Bella!

Ela livrou-se dos utensílios, deixando-os em cima da uma passadeira próxima e veio abraçar a nós duas ao mesmo tempo. Apesar do contato um pouco estranho, era reconfortante estar ali, sendo cuidada por alguém que exalava tanto esse espírito maternal como ela.

- Eu pensei que vocês só viriam mais tarde, eu ainda estou terminando de preparar o almoço. — ela divagou depois de me soltar e colocar suas mãos em minha barriga. – Você está linda, Bella! A gravidez sempre combinou muito com você.

Senti minhas bochechas esquentarem, até porque me sentir bonita era a última coisa que eu me sentia naquele momento – Obrigada, Esme. Você é muito gentil.

- Então, onde estão o Edward e o Richie? Parecem séculos que eu não vejo o meu sobrinho e meu quase neto!

Não consegui fazer com que o sorriso educado em meu rosto permanecesse, se esvaindo no mesmo instante em que ele foi citado, — Richie está na casa de minha mãe, mas Edward quis ficar em Chicago. – murmurei fracamente ao fitar o chão, sem ter coragem de ver a piedade nos olhos dela quando percebesse o quão devastada estava minha situação.

Alice percebendo que eu voltara a me retrair, decidiu interferir – Mãe, eu trouxe a Bella até aqui porque acho que ela precisa falar com você. Sobre aquilo que me contou na semana passada, lembra?

- Ah, sim. É claro. – a voz de Esme de repente ficou muito mais séria, deixando de lado o tom receptivo no qual ela me recebera. Aquilo despertou minha curiosidade no mesmo instante, fazendo com que levantasse a cabeça a tempo de vê-la recolhendo a enorme travessa — Porque você não a leva até a sala, Alice. Só irei colocar isso no forno e logo, logo me encontro com vocês.

Enquanto Esme voltava para a cozinha, Alice segurou minha mão me puxando até o local que Esme indicara. Fiquei inquieta para saber o que diabos estava acontecendo, tudo girando em torno desse grande mistério que Esme parecia carregar consigo. Sentei-me no enorme sofá claro que minha amiga tinha me indicado e levei uma de minhas mãos à boca e comecei a roer a unha do dedão direito, enquanto sentia a bebê se revirar agitadamente em meu ventre.

- Não precisa ficar nervosa, Bella. Essa conversa com a minha mãe só te fará bem, você vai ver.

- Sobre o que ela quer falar comigo, Allie? Tem alguma coisa a ver com o Edward? Com o Richie? Com esse bebê?

Alice veio ficar ao meu lado, e puxou a minha mão livre e a afagou gentilmente. – Bem, pelo que percebi, Esme pode ter algumas respostas que você precisa, Bella. Ela é a única pessoa que eu conheço que pode entender por tudo o que você está passando.

- E porque justo Esme entenderia? – não pude deixar de inquiri, me sentindo mais confusa a cada minuto.

- Porque eu entendo muito bem como você se sente, querida. –, A voz de Esme me interrompeu ao entrar no ambiente de uma forma segura, sem mais o ar de dona-de-casa que trazia anteriormente. De alguma forma, sua postura parecia muito mais forte, confiante e com uma sabedoria que resplandecia em seu ser. Ela carregava consigo um porta-retrato, carregando-o junto ao peito com muito carinho e veio se sentar à minha frente.

- Desculpe, Esme... mas de que forma você sabe como é que eu me sinto? – perguntei, parecendo de certa forma muito rude.

Ela não pareceu se importar e a única coisa que fez foi me estender a fotografia em que segurava. – Porque eu sei exatamente o que é ser mãe de uma criança excepcional.

Não estava preparada para ver o que havia naquela imagem. Ali, estava a mesma mulher sentada agora a poucos metros de mim, porém algumas décadas mais jovem, como mostrava a foto em preto-e-branco. Mas a minha grande surpresa era ver que ela não estava sozinha naquela imagem; havia um bebê em seu colo com certas feições que ainda me assustavam ao ver. Olhos levemente estrábicos e amendoados, rosto rechonchudo e uma boquinha minúscula que não era capaz de conter a língua dentro. Um bebê com todas as características físicas de um portador de Síndrome de Down.

Levantei meu rosto e me deparei com Esme que tinha um sorriso saudoso em sua face. Ela percebeu minha incapacidade de expressar qualquer coisa, no entanto, notou as milhares de perguntas que eu tinha em minha mente. Tomou uma respiração profunda e olhou brevemente para Alice que segurava com um pouco mais de força a minha mão.

Mesmo com a voz levemente embargada, ela conseguiu anunciar com firmeza e doçura algo que me deixou mais do que surpresa – Bella, este era meu filho Joseph. O meu bebê mais do que especial.

[...]

Notas finais
Posso fugir agora ou eu deixo pra corre mais tarde?
Enfim, mais perguntas e quem sabe um spoilerzinho você pode consegui através do meu twitter (arroba)linelins ou do meu Forms www(.)formspringme(.)com(/l)inelinss.
E lembrem-se do que eu falei lá em cima: Comentários são mais do que importantes para mim!
A gente se vê dia 25/02!
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