Notas do Passado
6 Visita matinal
Eu apertava os braços ao redor do próprio corpo, sentindo um frio que nada tinha a ver com a temperatura do saguão do meu prédio. Era tarde, e tudo que eu queria era tomar um banho quente e esquecer o dia exaustivo. Mas, ao sair do elevador, minha tranquilidade foi despedaçada.
— Quem te deu carona hoje, Renesmee?
A voz de Alec soou atrás de mim, carregada de desconfiança. Fechei os olhos por um breve instante antes de me virar lentamente para encará-lo. Ele estava ali, parado perto da entrada, os olhos escuros fixos em mim.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, cruzando os braços.
— Responde minha pergunta. Quem era?
Bufei, balançando a cabeça.
— Isso não é da sua conta, Alec.
Ele riu sem humor e deu um passo à frente.
— Foi ele, não foi? O cara que aparece toda noite pra te ver tocar?
Senti meu estômago revirar de raiva.
— Você está me vigiando agora?
— Eu só presto atenção. — Ele apertou os punhos ao lado do corpo. — E todo mundo percebe. Ele te olha como se fosse dono de você.
Cruzei os braços com mais força.
— Você perdeu o direito de opinar sobre a minha vida no momento em que terminamos, Alec. Isso foi há seis meses.
Ele passou as mãos pelos cabelos, claramente frustrado.
— Eu só não quero que você se machuque.
Soltei uma risada sarcástica.
— Engraçado… porque você não parecia se importar com isso quando foi você quem me machucou.
A mandíbula dele enrijeceu, e por um momento, achei que ele fosse rebater. Mas ele apenas me encarou, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e algo que não consegui identificar.
— Você precisa seguir em frente, Alec. Eu segui.
Por um instante, ele ficou imóvel. Então, sem dizer mais nada, virou as costas e saiu pela porta do prédio.
Fiquei ali, observando-o desaparecer na rua escura, sentindo uma mistura de alívio e inquietação.
Eu queria acreditar que aquela tinha sido a última vez.
.....
O som insistente da campainha me despertou. Bocejei e me espreguicei, os olhos ainda pesados de sono. Quem poderia ser tão cedo? Caminhei até a porta, ajeitando o roupão ao redor do corpo, e a abri sem pensar muito.
— Mãe?
A senhora Cloe Sullivan entrou apressada, passando por mim sem esperar um convite.
— Precisamos conversar, Renesmee.
Pisquei algumas vezes, tentando despertar por completo.
— O que você está fazendo aqui tão cedo?
Ela se virou para mim, o rosto sério, os olhos avaliando cada detalhe meu.
— Você precisa voltar para casa.
Soltei um suspiro, já prevendo onde essa conversa iria parar. Fechei a porta e me encostei nela, cruzando os braços.
— Mãe, já conversamos sobre isso. Eu não vou voltar.
— Você pertence à nossa família, querida. Esse seu orgulho só está nos afastando.
— Não é orgulho, mãe. Eu só… quero viver a minha vida do meu jeito.
Cloe fechou os olhos por um instante e respirou fundo antes de me encarar novamente.
— Eu não tenho muito tempo, Renesmee.
Franzi a testa, sentindo um frio repentino percorrer minha espinha.
— O que você quer dizer com isso?
Ela desviou o olhar por um segundo, como se escolhesse as palavras certas.
— Estou doente. E não há cura.
O chão pareceu desaparecer sob meus pés.
— O quê? — minha voz saiu num sussurro.
— Tenho uma doença degenerativa… — Sua voz vacilou, mas ela continuou. — E não sei quanto tempo me resta.
Um nó se formou na minha garganta.
— Por que… por que não me disse antes?
— Porque eu queria que você voltasse por conta própria, não por pena.
Minha mente girava, incapaz de processar tudo de uma vez. O choque e a dor me atingiram como uma onda forte, me deixando sem palavras.
— Eu só quero passar o tempo que me resta com minha única filha — ela disse suavemente.
Engoli em seco, sentindo meus olhos arderem. Eu ainda não sabia como reagir. Tudo que eu achava que era certo estava desmoronando.
Minha mãe começou a chorar, e, por mais confusa e abalada que eu estivesse, não consegui ignorar sua dor. Dei um passo à frente e a abracei, sentindo seu corpo trêmulo em meus braços.
— Eu não queria te contar assim… — ela sussurrou contra meu ombro.
Apertei os olhos, tentando segurar as lágrimas. Sempre tive minhas desavenças com os Sullivan, principalmente com meu pai, mas nunca duvidei que minha mãe me amasse.
Ela se afastou levemente e segurou meu rosto entre as mãos.
— Volte para casa, Nessie. Quero você perto de mim, como antes.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso da decisão. Eu amava minha independência, meu espaço, minha vida simples, mas também sentia que devia muito aos Sullivan. Eles me criaram, me deram um lar quando eu não tinha nada.
Soltei um longo suspiro.
— Eu volto, mas com algumas condições.
Mamãe assentiu rapidamente, secando as lágrimas.
— Quais?
— Primeiro, eu vou continuar trabalhando. Não quero viver trancada naquela casa.
Ela hesitou por um momento, mas acabou concordando.
— Tudo bem.
— E… — Respirei fundo, reunindo coragem. — Eu não vou me casar com aquele homem.
O silêncio caiu entre nós. O olhar dela se tornou preocupado, mas depois suavizou.
— Eu entendo.
Pisquei surpresa.
— Entende?
— Seu pai não vai gostar, mas eu só quero que você seja feliz, Nessie.
Uma parte de mim ainda estava apreensiva, mas outra sentia um enorme alívio.
— Obrigada, mãe.
Ela sorriu entre as lágrimas e me puxou para um abraço apertado. Eu não sabia no que estava me metendo ao aceitar voltar para a mansão Sullivan, mas uma coisa era certa: minha vida estava prestes a mudar completamente.
....
A viagem até a mansão Sullivan, localizada no coração do Upper East Side, foi silenciosa. Eu observava as ruas luxuosas de Nova York passando pela janela do carro, sentindo um peso no peito. Eu cresci naquele mundo de riquezas e aparências, mas nunca realmente pertenci a ele.
Ao chegarmos aos portões da propriedade, inspirei fundo, tentando me preparar para o que vinha a seguir. O motorista nos conduziu pela longa entrada de pedras, ladeada por jardins perfeitamente aparados, até a escadaria principal da mansão.
Minha mãe desceu primeiro, e eu a segui. Para minha surpresa, meu pai já estava à nossa espera no topo da escadaria. Ele vestia um terno impecável, como sempre, e exibia um sorriso satisfeito ao me ver.
— Minha filha… — Ele desceu os degraus com passos firmes e, sem hesitar, me puxou para um abraço.
Fiquei rígida por um momento, surpresa com a recepção calorosa, mas acabei cedendo, dando-lhe um breve abraço antes de me afastar.
— Voltei por causa da mamãe. — Minha voz saiu firme.
Ele me olhou por um instante, mas manteve o sorriso.
— E eu estou feliz mesmo assim.
Cruzei os braços, sem desviar o olhar.
— Mas quero deixar claro que minha volta tem algumas objeções.
Minha mãe se aproximou de meu pai e tocou seu braço de forma delicada. Ele virou o rosto para ela e envolveu-a pela cintura com um gesto protetor.
— Cloe já me informou por mensagem. — Ele olhou para mim novamente. — Não estou completamente satisfeito, mas não vou discutir agora. O importante é que você está em casa.
Soltei um suspiro discreto. Eu sabia que ele não desistiria tão fácil de seus planos para mim, mas, pelo menos por ora, ele estava disposto a manter a paz.
— Seja bem-vinda de volta, Renesmee. — Ele abriu caminho, indicando a entrada da mansão.
Olhei para o grande hall de entrada e senti um frio na barriga. Eu estava de volta, mas nada me dizia que seria fácil.
Subi as escadas com passos lentos, sentindo a nostalgia pesar em meus ombros. Ao abrir a porta do meu quarto, meu coração acelerou. Tudo estava exatamente como eu havia deixado. Nenhum móvel fora movido, nenhum objeto estava fora do lugar. As cortinas claras ainda balançavam suavemente com a brisa da manhã, e o perfume sutil de lavanda preenchia o ambiente.
Caminhei até a cama e me joguei sobre o colchão macio, afundando nele como se pudesse me esconder da realidade.
Minha mente vagou involuntariamente até a noite anterior. O bar, a música, os olhares trocados… Jacob.
Suspirei e virei o rosto para o travesseiro, sentindo uma onda de ansiedade tomar conta de mim.
— Sábado… — sussurrei para mim mesma.
O pensamento do nosso encontro fez meu coração disparar. Eu não sabia ao certo o que esperar, mas uma parte de mim ansiava por aquele momento mais do que deveria.
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