Notas do Passado
7 Pasta preta
Narrado por Jacob
Cheguei cedo à Black Enterprises, o sol mal havia despontado no horizonte quando estacionei meu carro na garagem privativa. Ao entrar no edifício, fui recebido pelo habitual murmúrio de funcionários apressados e telefones tocando. A recepção me cumprimentou com acenos respeitosos enquanto eu seguia direto para os elevadores.
Assim que saí no andar da presidência, encontrei Seth Clearwater, que já estava à minha espera com uma pasta de documentos em mãos.
— Bom dia, chefe — ele disse com um meio sorriso. — A reunião com a Sullivan Corporation está confirmada. O homem estará aqui em uma hora.
Assenti, sentindo um peso familiar ao ouvir aquele nome.
— Ótimo. Vou esperar por ele na minha sala.
Seth fez um gesto de aprovação e saiu pelo corredor. Segui para minha sala, empurrei a porta e entrei. O ambiente era amplo e minimalista, com janelas de vidro que proporcionavam uma vista panorâmica de Nova York. Liguei meu notebook e me sentei, rolando os dedos sobre o tampo da mesa enquanto revisava mentalmente o que precisava ser discutido na reunião.
O som da porta se abrindo interrompeu meus pensamentos.
— Que enfim o senhor presidente lembrou da própria empresa — Leah Clearwater entrou sem cerimônia, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha com ironia.
Soltei um riso nasalado e recostei na cadeira.
— E que bom que minha vice-presidente ainda encontra tempo pra me alfinetar em horário de expediente.
Ela bufou, fechando a porta atrás de si e caminhando até minha mesa.
— Você some por dias e espera que eu não diga nada?
— Eu não sumi, Leah. Só estava... ocupado.
— Ah, claro. Deve ser um tipo novo de "ocupação" que inclui noites frequentes no Lennox Lounge.
A encarei com um meio sorriso.
— Você anda me espionando agora?
— Por favor — ela revirou os olhos e cruzou os braços. — A cidade inteira sabe que Jacob Black tem um novo passatempo noturno.
Minha expressão permaneceu inalterada, mas por dentro eu sabia exatamente a que Leah estava se referindo. Renesmee.
— Algum problema nisso? — desafiei.
Ela soltou um suspiro, jogando a pasta de documentos sobre minha mesa.
— Só não deixe que seu "passatempo" atrapalhe os negócios. Hoje você tem uma reunião com Robert Sullivan.
Meus olhos se estreitaram levemente.
— Eu sei disso.
— Ótimo — Leah deu um meio sorriso e se virou para sair. — Não se atrase.
Observei enquanto ela deixava a sala, fechando a porta atrás de si. Respirei fundo, passando a mão pelos cabelos.
Robert Sullivan.
De todos os empresários da cidade, ele era um dos poucos que realmente sabiam jogar o jogo. Mas o que realmente me intrigava agora era sua filha.
Estava revisando os últimos detalhes do contrato quando o interfone da minha mesa tocou.
— Senhor Black, o senhor Sullivan chegou — a voz profissional da minha secretária ecoou pelo aparelho.
Soltei um suspiro discreto e apertei o botão para responder.
— Pode deixá-lo entrar.
A porta se abriu e Robert Sullivan entrou com sua postura imponente, trajando um terno impecável e um sorriso calculado nos lábios. Levantei-me e estendi a mão para cumprimentá-lo.
— Senhor Sullivan.
— Senhor Black — ele retribuiu o aperto de mão com firmeza.
— Por favor, sente-se — indiquei a cadeira diante da minha mesa.
Robert ajeitou o paletó antes de se acomodar. Eu fiz o mesmo, cruzando os dedos sobre a mesa enquanto o observava.
— Sabe, Jacob — ele começou, apoiando-se no braço da cadeira —, essa reunião não é apenas sobre negócios.
Eu já esperava por isso.
— Imagino que não — mantive meu tom neutro.
— Quero falar sobre minha filha, Renesmee.
Seu olhar era analítico, estudando minhas reações. Mantive-me impassível, mas por dentro sentia uma leve tensão no ar.
— Se para Renesmee o amor for essencial para um casamento — comecei, com um meio sorriso —, então eu conquistarei o coração dela. Nós temos um encontro no sábado.
Robert sorriu, parecendo satisfeito.
— Pelo jeito, a união de ambas as corporações realmente vai acontecer.
— Farei o possível para isso — respondi sem desviar o olhar.
O empresário assentiu, claramente satisfeito com minha resposta. Então, acrescentou com um tom casual:
— Renesmee voltou para casa esta manhã.
Uma onda de alívio percorreu meu peito. Brooklyn não era um lugar seguro para uma jovem sozinha, ainda mais alguém como ela.
— Fico feliz em saber disso — admiti.
Robert sorriu, inclinando-se um pouco para frente.
— Espero que consiga o que deseja, Jacob.
Mantive meu olhar fixo no dele.
— O senhor também, Sullivan.
A reunião estava apenas começando, mas uma coisa era certa: eu não tinha intenção de perder esse jogo.
...
Dirigia pelas ruas movimentadas de Nova York a caminho do The Capital Grille, um dos meus restaurantes favoritos para reuniões mais formais. O Juiz Carter já me esperava para o almoço, mas antes que eu chegasse, meu celular vibrou no painel do carro, mostrando o nome da minha filha: Lola.
— Oi, princesa — atendi, já imaginando o motivo da ligação.
— Pai! Você pode me mandar um dinheirinho pra almoçar com as meninas? — A voz manhosa dela soou do outro lado da linha.
Soltei um riso baixo.
— O que aconteceu com a sua mesada?
— Ah… bem… eu meio que já gastei — ela hesitou.
— Em quê?
— Coisas importantes.
— Lola…
— Tá bom, pai! Eu comprei umas roupas novas. Mas era uma emergência fashion, juro!
Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso.
— Isso vai ter um preço.
— Sabia que tinha um porém! — Ela resmungou. — O que é dessa vez?
— Quero que me faça um favor.
— Lá vem…
— Você vai passar o final de semana comigo. Sem desculpas.
Ela bufou dramaticamente.
— Ditador!
— Ditador que paga suas contas — rebati, rindo.
— Aff… tá bom. Mas você vai me levar para jantar em um lugar legal.
— Fechado.
Estacionei o carro diante do The Capital Grille e desbloqueei o celular para fazer a transferência.
— Pronto, já pode almoçar com as amigas.
— Você é o melhor, pai! Te amo!
— Te amo, princesa. Se comporta.
Desliguei o telefone, ainda sorrindo. Apesar das reclamações, Lola sempre cedia no final. Saí do carro ajustando o paletó e segui para o restaurante, pronto para encontrar Carter.
Entrei no The Capital Grille, escaneando o ambiente até encontrar Carter em uma mesa perto da janela. Ele falava ao celular, mas assim que me viu, acenou com a mão livre. Caminhei até ele e nos cumprimentamos com um aperto de mão firme.
— Finalmente resolveu almoçar comigo, Black — Carter brincou, encerrando a ligação. — Pensei que só me procuraria na próxima festa da promotoria.
Ri enquanto me sentava.
— Você sabe que tenho um fraco por open bar.
— E eu tenho um fraco por te ver derrubar políticos arrogantes em debates regados a uísque — ele provocou.
Soltei uma risada curta, lembrando da última festa em que havíamos nos encontrado. Carter era um dos poucos juízes com quem eu realmente gostava de conversar, e nossas interações sempre eram leves e cheias de sarcasmo.
— Falando nisso, você ainda deve um jogo de sinuca depois da humilhação que sofreu daquela vez — acrescentei.
Ele bufou, pegando o cardápio.
— Você trapaceou, eu juro!
— Meu talento é natural, meu amigo.
O garçom se aproximou para anotar nossos pedidos. Fiz questão de escolher um filé ao ponto com batatas trufadas, enquanto Carter, sempre metódico, pediu um risoto de camarão. Assim que ficamos a sós novamente, deixei o tom descontraído de lado e fui direto ao ponto.
— E então, fez o favor que te pedi?
Carter me encarou por um instante, depois suspirou, inclinando-se um pouco sobre a mesa.
— Fiz. Mas antes de te entregar, preciso que me prometa uma coisa.
— O quê?
Ele pegou sua bolsa de couro, abriu o zíper e puxou uma pasta preta. Segurou-a com firmeza antes de continuar:
— Se alguém perguntar, você nunca conseguiu isso comigo. Nunca.
Sustentei seu olhar por um momento antes de assentir.
— Você tem minha palavra.
Ele deslizou a pasta pela mesa em minha direção.
— Aí dentro está tudo sobre a adoção da filha de Isabella Swan. Todos os registros, documentos e, claro, quem a adotou.
Minha mão apertou a borda da pasta, sentindo a tensão crescer no peito. Carter se recostou na cadeira, pegou seu copo d’água e me observou.
— Espero que saiba no que está se metendo, Black.
Eu sabia. E não havia mais volta.
O almoço transcorreu sem pressa, apesar do peso da pasta preta ao meu lado. Carter manteve a conversa fluindo entre amenidades e casos curiosos que ele julgava, mas minha mente vagava. Por mais que tentasse me concentrar no momento, sabia que aquela pasta poderia mudar tudo.
Depois de um café forte para encerrar a refeição, nos levantamos. Carter apertou minha mão com firmeza.
— Boa sorte com isso, Black. E lembra do que eu disse.
— Pode deixar — respondi.
Ele assentiu antes de se afastar, e eu segui para o meu carro.
Ao me sentar ao volante, joguei a pasta no banco do passageiro e a encarei por alguns segundos. Poderia abrir ali mesmo. Poderia acabar com qualquer dúvida naquele instante. Mas algo me segurou. Isso era algo que Bella precisava saber primeiro.
Peguei o celular e disquei o número dela.
Depois de alguns toques, Bella atendeu.
— Oi, Jacob.
— Oi, Bells. Você tem uma hora para conversarmos?
Houve um breve silêncio do outro lado da linha antes de ela perguntar, a voz carregada de uma suspeita tensa:
— É sobre o que estou pensando?
Fechei os olhos e assenti, mesmo sabendo que ela não podia me ver.
— Sim.
Ela respirou fundo.
— Te espero no hospital.
A ligação foi encerrada, e eu dei a partida no carro, sentindo o peso daquela conversa que estava por vir.
Fale com o autor