Notas do Passado

8 Perturbação do sossego



Ao entrar no hospital, cumprimentei algumas enfermeiras pelo caminho e segui para o consultório de Bella. Ela já me esperava de pé, visivelmente tensa. Assim que fechei a porta atrás de mim, entreguei a pasta a ela.

Bella pegou o objeto com cuidado, mas suas mãos tremiam levemente.

— Você já viu o que tem aqui? — perguntou, a voz carregada de emoção.

— Não. — Balancei a cabeça. — Essa história é sua, Bella.

Ela assentiu e, respirando fundo, abriu a pasta. Seus olhos se moveram rapidamente pelos documentos, e então pararam em uma folha específica.

Seu rosto ficou pálido.

— A criança foi adotada por uma advogada representante dos pais adotivos. — Ela leu em voz alta. — O nome dela é... Lívia Jhones.

Minha expressão endureceu no mesmo instante.

— O quê?

Bella ergueu os olhos para mim, surpresa com minha reação.

— Lívia Jhones... Não é aquela mulher com quem você teve um caso?

Engoli em seco.

— Sim, é ela.

Bella arregalou os olhos, e o consultório ficou em silêncio por alguns segundos. Eu sentia minha mente trabalhando a mil. Lívia? Como ela estava envolvida nisso?

Bella fechou os olhos por um momento, tentando processar.

— Isso significa que você pode ter informações sobre minha filha que nem imagina, Jacob.

Passei as mãos pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos.

— Bella, eu não tenho notícias da Lívia há mais de um ano.

Ela me olhou com expectativa.

— Mas você pode encontrá-la, não pode?

Suspirei.

— Posso tentar, mas não vai ser fácil. Ela não aceitou muito bem quando terminei com ela.

Bella arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços.

— Ah, então você partiu o coração da mulher que pode ter adotado minha filha? Isso vai ajudar muito.

Bufei e dei um meio sorriso.

— Se serve de consolo, ela sobreviveu.

Bella soltou um risinho rápido, mas logo seu rosto suavizou. Ela olhou novamente para os papéis em suas mãos, seus dedos traçando o nome de Lívia.

— Jacob… se essa mulher estava envolvida, significa que estou mais perto do que nunca de encontrar minha filha.

A voz dela vacilou, e vi seus olhos marejados.

Engoli em seco. Eu conhecia Bella o suficiente para saber que ela raramente se permitia demonstrar vulnerabilidade.

— Eu vou ajudar você, Bella. — prometi.

Ela assentiu, tentando conter a emoção.

— Obrigada. Você não imagina o que isso significa para mim.

Eu imaginava. E era por isso que eu não descansaria até encontrar essa garota.

Ao sair do hospital, minha mente estava em um turbilhão. Lívia Jhones. Esse nome não surgia na minha vida há muito tempo, e agora parecia ser a peça-chave para Bella encontrar sua filha.

Mas, por mais que isso me preocupasse, outro nome dominava meus pensamentos. Renesmee.

Eu não conseguia evitar. Desde o primeiro momento em que pus os olhos nela, tudo mudou. O que era apenas curiosidade se tornou algo muito mais intenso.

Dirigi direto para o Lennox Lounge. Assim que entrei, encontrei Benjamin organizando algumas cadeiras perto do palco. Ele ergueu o olhar e franziu a testa ao me ver.

— Ainda está muito cedo, Jacob. Renesmee não chegou.

Parei diante dele, sem rodeios.

— Preciso do número dela.

Benjamin largou a cadeira e cruzou os braços, me encarando como se tentasse me ler.

— Já te ajudei muito, cara. — Ele suspirou. — Mas antes de qualquer coisa, me responde uma coisa: o que você realmente quer da Renesmee? Ela é uma boa moça.

Segurei seu olhar. Não adiantava mentir, então fui direto ao ponto.

— No início, era apenas curiosidade. Queria conhecer minha prometida, entender quem era a filha de Sullivan.

Benjamin arqueou uma sobrancelha.

— E agora?

Passei uma mão pelos cabelos, soltando um suspiro pesado.

— Agora… me apaixonei por ela.

Ele ficou me analisando por alguns instantes, como se ponderasse minhas palavras. Então, sem dizer nada, pegou o celular do bolso, digitou algo e, segundos depois, meu telefone vibrou no bolso.

— Está feito. — disse ele, sério. — Mas, Jacob, se for para machucar Renesmee, suma da vida dela agora. Porque ela já sofreu demais.

Eu assenti.

— Eu sei. E não é isso que quero.

Benjamin me estudou por mais um segundo, depois voltou ao que estava fazendo. Peguei meu telefone e olhei o número na tela.

Renesmee Sullivan.

Sorri de canto.

Agora, eu só precisava descobrir o que dizer para ela.


Saí do Lennox Lounge e entrei no carro, ainda segurando o celular. Olhei para o número de Renesmee na tela por alguns instantes antes de apertar o botão para ligar.

Após o terceiro toque, sua voz suave preencheu a linha.

— Alô?

Sorri.

— Boa tarde, Renesmee.

Houve um pequeno silêncio antes de sua resposta, e pude imaginar sua expressão surpresa do outro lado.

— Jacob? — Sua voz carregava um tom de incredulidade. — Como você conseguiu meu número?

Soltei uma risada baixa.

— Tenho meus meios.

Ela bufou levemente, mas parecia divertida.

— Devo me preocupar?

— Definitivamente.

Ela riu do outro lado, e o som foi suficiente para suavizar qualquer tensão.

A que devo a honra da ligação, senhor Black?

— Quero te ver hoje à noite.

— Hoje? — Ela hesitou. — Mas ainda não é sábado.

— Eu sei.

— Então por que o adiantamento?

— Porque estou impaciente.

Renesmee riu de novo, mas notei que ela estava considerando minha proposta.

— Você sempre consegue o que quer, Jacob?

— Quase sempre.

E se eu disser não?

— Aí vou ter que esperar até sábado. Mas prefiro não esperar.

Ela suspirou de forma dramática.

Você é insistente.

— E você gosta disso.

— Nem um pouco.

— Mentira.

Dessa vez, ela riu de verdade.

Tudo bem, Black. Mas só porque estou entediada.

— Claro. Só por isso.

Exatamente.

Sorri, satisfeito.

— Te busco às nove.

— Eu te mando o endereço.

Aproveitei a oportunidade.

— Mudou de endereço? — Perguntei casualmente, sem demonstrar que já sabia muito mais do que deveria.

Ela ficou em silêncio por um instante antes de responder.

— É uma longa história.

— Tenho tempo para ouvir, quando quiser contar.

Renesmee não respondeu de imediato, mas sua voz veio mais suave na despedida.

— Vejo você às nove, Jacob.

— Até logo, Renesmee.

Desliguei a ligação, um sorriso no rosto.

Hoje à noite, ela era só minha.


...


Ajeitei o colarinho da minha camisa no espelho, observando meu reflexo com atenção. Escolhi uma camisa social preta, bem ajustada ao corpo, combinada com uma calça jeans escura e sapatos de couro. O relógio de pulso completava o visual, discreto, mas elegante. Queria estar apresentável para o jantar com Renesmee, mas sem parecer formal demais.

Enquanto terminava de abotoar os punhos, um som alto atravessou as paredes do quarto, fazendo-me suspirar. Lola.

Saí do quarto e fui direto até a sala. Como esperado, Lola estava no meio do cômodo, dançando sem a menor preocupação.

Caminhei até a mesa e apertei o botão para desligar o som. O silêncio repentino fez com que minha filha parasse no meio do movimento e olhasse para mim, indignada.

— Pai! O que foi isso?!

— Foi eu evitando pagar uma multa por perturbação do sossego. — Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha.

Ela bufou, mas logo correu até mim e me abraçou.

— Desculpa, vai... Eu me empolguei.

— Sempre se empolga.

Ela sorriu e se afastou, me olhando com atenção.

— Você tá arrumado. Vai sair?

— Vou.

Lola inclinou a cabeça, desconfiada.

— Com quem?

Ri da curiosidade dela.

— Você vai conhecê-la em breve.

Os olhos de Lola se arregalaram e um sorriso malicioso surgiu em seu rosto.

— Espera... Você tá saindo com alguém?!

— Boa noite, Lola. — Desviei dela e segui para a porta, ouvindo sua risada divertida atrás de mim.