Notas do Passado
4 Não vou viver sob suas regras
Narrado por Renesmee
A luz fraca da manhã entrava pela cortina da janela quando abri os olhos. Demorei alguns segundos para me situar, sentindo a preguiça pesar sobre meu corpo.
Levantei-me devagar e fui até a cozinha preparar um café forte. As últimas noites no Lennox Lounge haviam sido intensas, mas minha mente estava ocupada com outra coisa. Ou melhor, com outra pessoa.
Jacob Black.
Suspirei, balançando a cabeça para afastar o pensamento. Ainda era cedo para entender o que estava acontecendo entre nós—se é que realmente havia algo além da estranha conexão que sentia quando ele me olhava daquela forma intensa.
Peguei o celular para conferir as horas e vi uma mensagem de meu pai adotivo, Robert Sullivan:
"Renesmee, sua mãe está muito abalada. Precisamos conversar. Me liga assim que puder."
Revirei os olhos e soltei um suspiro pesado. Sempre a mesma estratégia. Robert sabia que a única forma de me fazer responder era mencionando minha mãe.
Mas eu não ia cair nessa.
Bloqueei a tela do celular sem responder e fui me trocar. O café onde eu trabalhava durante o dia não ficava longe dali, e eu não queria me atrasar. Vesti uma calça jeans surrada e uma blusa leve, calcei meus tênis e amarrei os cabelos ruivos em um coque bagunçado.
Quando me preparava para sair, a campainha tocou.
Franzi o cenho. Quem poderia ser tão cedo?
Fui até a porta e, ao abri-la, nem tive tempo de reagir.
— Oi, Nessie.
Antes que eu pudesse sequer piscar, Alec entrou abruptamente no apartamento, fechando a porta atrás de si.
Meu coração disparou.
Fiquei paralisada por um instante, mas logo recuei um passo, cruzando os braços.
— O que você está fazendo aqui, Alec?
Ele me encarou, os olhos escuros carregados de algo entre frustração e determinação. Vestia o mesmo casaco de couro que eu costumava segurar nos dias frios quando estávamos juntos, mas agora sua presença me causava mais incômodo do que qualquer outra coisa.
— Precisamos conversar.
— Não, não precisamos — rebati, bufando. — Terminamos há seis meses, Alec. O que mais há para dizer?
Ele riu, mas não havia humor em seu tom.
— Seis meses e você já seguiu em frente?
— Você também deveria.
Alec passou a mão pelos cabelos e me encarou de um jeito que costumava me desestabilizar, mas que agora só me irritava.
— Quem é o cara?
Franzi o cenho.
— Que cara?
— Não se faça de desentendida, Nessie. Eu vi a maneira como você olha para ele.
Cruzei os braços, sentindo o estômago revirar.
— Eu não sei do que você está falando.
Ele riu de novo, mais seco dessa vez.
— Sabe, sim. Mas tudo bem. Só espero que ele saiba o que está fazendo, porque eu não vou simplesmente sumir.
Aquilo foi a gota d’água.
— Já chega, Alec! Eu segui em frente, e você deveria fazer o mesmo. Agora, saia do meu apartamento.
Ele me olhou por um longo momento, como se esperasse que eu voltasse atrás, como se ainda tivesse alguma influência sobre mim.
Mas não tinha.
Alec finalmente bufou e caminhou até a porta, abrindo-a com força. Antes de sair, se virou uma última vez.
— Isso não acabou.
E então se foi.
Soltei um suspiro trêmulo e fechei a porta, encostando a testa contra a madeira enquanto tentava recuperar o fôlego. Meu coração estava acelerado, não de saudade ou qualquer coisa parecida, mas de pura irritação.
Alec sempre odiou não ter o controle.
Mas ele precisava entender que eu não era mais dele.
...
O dia seguiu como qualquer outro. Depois do encontro desagradável com Alec, eu tentei me concentrar no trabalho e esquecer o que havia acontecido.
O Ground Central Coffee Company, um dos cafés mais aconchegantes da cidade, já estava movimentado quando cheguei. Coloquei meu avental e fui direto atender algumas mesas, anotando pedidos e servindo cafés para os clientes apressados. O aroma de grãos moídos e pão recém-assado preenchia o ambiente, trazendo uma sensação familiar e reconfortante.
— Ei, Renesmee! — Jane apareceu ao meu lado enquanto eu limpava uma mesa.
Virei-me para encará-la. Jane era minha amiga há anos, e mesmo sendo irmã de Alec, nunca permitimos que a relação complicada entre mim e ele interferisse na nossa amizade. Mas pelo olhar preocupado dela, eu já sabia que a conversa ia girar em torno disso.
— Meu irmão apareceu na sua casa, não foi? — Ela perguntou, cruzando os braços.
Suspirei, apoiando o pano sobre a mesa.
— Sim, e passou dos limites. Ele entrou sem ser convidado e começou a questionar minha vida como se ainda tivesse algum direito sobre ela.
Jane mordeu o lábio, claramente frustrada.
— Eu sabia… Ele anda estranho ultimamente, mais impulsivo do que o normal. Está obcecado com você, Ness. Eu estou preocupada.
— Eu também — admiti. — Mas ele precisa entender que acabou. Eu segui em frente, e ele deveria fazer o mesmo.
Jane assentiu, mas seu olhar demonstrava que não estava convencida de que Alec desistiria tão fácil.
Depois de mais algumas horas de trabalho, terminei meu turno, fui ao vestiário e troquei o uniforme por roupas casuais.
— Nos vemos amanhã, Jane — despedi-me, lançando-lhe um sorriso antes de sair do café.
— Até amanhã, Ness. E se Alec te incomodar de novo, me avise.
Acenei para ela e saí, respirando fundo o ar fresco da cidade. Caminhei alguns passos em direção ao metrô, pronta para ir dar aula para as crianças, quando um veículo luxuoso parou ao meu lado.
O vidro escurecido abaixou lentamente, e meu estômago revirou ao ver quem estava ali.
A porta se abriu, e meu pai adotivo, Robert Sullivan, saiu do carro.
— Precisamos conversar, Renesmee. Agora.
...
Eu sabia que discutir com Robert Sullivan em plena calçada de Nova York não me levaria a lugar nenhum. Ele era um homem influente, acostumado a conseguir o que queria. Se eu não aceitasse entrar no carro, ele insistiria até conseguir. Então, suspirei pesadamente e entrei no banco de trás do veículo.
O motorista deu partida, e enquanto as ruas movimentadas da cidade passavam pela janela, meu pai adotivo me analisava com aquele olhar calculista que sempre me irritava.
— Você realmente me deixa confuso, Renesmee — ele começou, cruzando os braços. — Você tem tudo. Uma vida confortável, um nome respeitado… E insiste em desperdiçar seu tempo servindo café num lugar qualquer.
Revirei os olhos. O mesmo discurso de sempre.
— Eu já te disse, Robert. Eu não quero o seu dinheiro.
Ele soltou um riso seco, claramente frustrado.
— Isso é ridículo. Você não entende o privilégio que tem. Se continuar com essa teimosia infantil, vai acabar sem nada.
— Ótimo. — Cruzei os braços e encarei a paisagem pela janela. — Se o preço para ser a senhorita Sullivan é casar com um homem que eu nunca vi na vida, prefiro ficar sem nada.
Robert suspirou profundamente, esfregando a testa como se eu fosse um fardo pesado demais para carregar.
— Você acha que estou fazendo isso por mim? Tudo o que quero é garantir seu futuro.
Ri, sem humor, e finalmente o encarei.
— Não, Robert. Você quer garantir o seu império. Não tem nada a ver comigo. Se realmente se preocupasse com o meu futuro, me ouviria quando digo que não quero viver a vida que você planejou pra mim.
Ele me lançou um olhar gelado.
— Você vai se arrepender disso.
— Talvez. Mas pelo menos será uma escolha minha.
O carro diminuiu a velocidade em um sinal vermelho, e aproveitei a chance.
— Pare o carro — ordenei ao motorista.
— Renesmee, não seja irracional — Robert disse entredentes.
— Pare o carro agora.
O motorista me lançou um olhar hesitante pelo retrovisor, mas obedeceu. Assim que o veículo parou, abri a porta e saí antes que Robert tentasse me impedir.
— Eu sou grata pelo que você e minha mãe fizeram por mim — disse, olhando diretamente para ele. — Mas não vou viver sob suas regras.
Bati a porta e me afastei sem olhar para trás. Meu coração batia acelerado, mas no fundo, eu sabia que tinha feito a coisa certa.
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