Notas do Passado

5 Big Girls dont Cry


Narrado por Renesmee


A tensão acumulada ao longo do dia finalmente começou a se dissipar assim que me sentei no pequeno banco do palco, o violão repousando confortavelmente sobre minha perna. O Lennox Lounge estava com uma iluminação suave, criando a atmosfera perfeita para uma música mais intimista.

A melodia suave de Lover preenchia o Lennox Lounge, envolvendo o ambiente com uma aura intimista. Meus dedos deslizavam pelo violão, e minha voz saía delicada, quase como um sussurro apaixonado.

Meus olhos, no entanto, tinham um destino certo.

Jacob Black.

Ele estava sentado na mesma mesa de sempre, os antebraços apoiados no tampo de madeira enquanto me observava com aquela intensidade que sempre me desarmava. Eu sabia que ele viria esta noite. De algum jeito, eu sempre sabia.

Cantava cada verso como se minha alma estivesse exposta, e ele não desviava o olhar.

Então, tudo mudou.

No meio da canção, vi uma mulher entrar no bar e se aproximar da mesa dele. Ela tinha cabelos escuros e longos, usava um vestido elegante e um sorriso confiante. Antes que eu pudesse reagir, ela se inclinou e o abraçou.

Meu coração deu um solavanco inesperado.

Minha voz não falhou, mas por um instante, senti algo que não conseguia descrever. Um incômodo estranho, quase uma pontada no peito.

Jacob desviou o olhar de mim por um momento para cumprimentá-la, mas logo seus olhos voltaram a me encontrar. Dessa vez, fui eu quem desviou.

O restante da música foi apenas um reflexo automático—meus dedos tocavam, minha voz seguia o ritmo, mas minha mente estava distante.

Assim que finalizei a última nota, um breve aplauso ecoou pelo lounge, mas eu não fiquei para ver a reação dele.

Levantei-me do banco, pendurei o violão no suporte e saí do palco sem olhar para trás.

No camarim, soltei um suspiro pesado e me apoiei contra a penteadeira, sentindo a necessidade urgente de me recompor.

O que diabos foi isso?

Dulce entrou no camarim sem bater, como sempre, e me olhou com um sorriso de canto.

— Tá tudo bem?

Assenti enquanto ajustava meu vestido diante do espelho.

— Sim, por quê?

Ela cruzou os braços e inclinou a cabeça, me analisando com curiosidade.

— Porque eu vi o moreno bonitão das gorjetas acompanhado.

Meu coração deu um salto idiota, mas mantive a expressão impassível enquanto pegava o batom na penteadeira.

— Ele é só um cliente como qualquer outro.

Dulce arqueou a sobrancelha, divertida.

— Sei. Mas ele não parece ser qualquer um.

Revirei os olhos e me levantei.

— É melhor voltarmos antes que o chefe reclame.

Ela suspirou dramaticamente, mas me seguiu. Assim que saímos do camarim, Dulce foi para as mesas enquanto eu me dirigia ao piano.

A luz baixa iluminava o salão de maneira suave, criando sombras nas paredes e refletindo os brilhos do meu vestido. Sentei-me no banco acolchoado e deslizei os dedos pelas teclas antes de começar a tocar.

A melodia de Big Girls Don’t Cry preencheu o ambiente, e conforme minha voz ecoava, senti um aperto no peito.

"I hope you know, I hope you know

That this has nothing to do with you..."

Meus olhos, como se tivessem vontade própria, buscaram os dele. Jacob me observava da mesma forma intensa de sempre, mas desta vez havia algo diferente. Algo que me fez querer desviar o olhar.

"It's personal, myself and I

We've got some straightening out to do..."

Virei o rosto e foquei no piano, sentindo uma estranha frustração se acumular em meu peito. Por que ele estava aqui? E por que estava acompanhado? Isso não deveria me incomodar, mas incomodava.

"And I'm gonna miss you like a child misses their blanket..."

Fechei os olhos por um instante, deixando a música me guiar. Eu não deveria sentir nada além de indiferença. Ele era só um cliente. Apenas um cliente.

Mas então por que parecia tão errado vê-lo ali com outra pessoa?

Minha voz se dissolveu nas últimas notas da canção, e um silêncio momentâneo pairou no salão antes que os aplausos preenchessem o ambiente. Mantive os dedos sobre as teclas por mais alguns segundos, ainda absorvendo a melodia, até que senti um olhar fixo sobre mim.

Levantei o rosto sutilmente, esperando encontrar novamente os olhos de Jacob, mas, dessa vez, era a mulher ao seu lado que me observava. Seu olhar era intenso, avaliador, como se tentasse me decifrar.

Continuei dedilhando as teclas, mantendo um ritmo suave enquanto a encarei de volta. Algo nela me causava uma sensação estranha, um incômodo familiar. Era como se eu a conhecesse de algum lugar, mas não conseguia lembrar de onde.

Jacob murmurou algo para ela, e ela desviou o olhar, assentindo. Meu peito se apertou sem motivo aparente quando os vi se levantarem. Jacob ajeitou o paletó e seguiu em direção à saída com ela ao seu lado.

Respirei fundo e encerrei os últimos acordes, erguendo-me do banco e fazendo uma leve reverência ao público em agradecimento pelos aplausos.

Mas minha mente já não estava ali. Ainda tentava entender por que aquela mulher me parecia tão familiar.

Fui até o balcão, onde meu chefe contava algumas notas, e esperei pacientemente até que ele erguesse o olhar para mim.

— Como sempre, um ótimo show, Renesmee — disse ele, entregando-me o envelope com meu cachê.

— Obrigada, senhor Benjamin — respondi, guardando o envelope na bolsa.

Ele assentiu e voltou à contagem, indicando que nossa conversa terminara ali.

Olhei ao redor à procura de Dulce e a encontrei encostada no balcão, rindo de algo que um cliente lhe dizia. Quando me aproximei, ela se virou para mim.

— Já indo?

— Sim, vou aproveitar que terminei cedo hoje.

Dulce sorriu.

— Certo. Mas amanhã quero saber tudo sobre o moreno bonitão que claramente não é um cliente qualquer.

Revirei os olhos e lhe dei um leve empurrão no ombro.

— Boa noite, Dulce.

Ela riu.

— Boa noite, estrela.

Saí do Lennox Lounge, sentindo o ar frio da noite envolver minha pele. Cruzei os braços, esfregando-os levemente enquanto me preparava para caminhar até o metrô. Mas antes que eu desse um passo, uma silhueta familiar se destacou na calçada à minha frente.

Jacob.

Ele se aproximou com aquele andar tranquilo, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

— Está tarde — disse, a voz baixa e firme. — Posso te dar uma carona?

Senti meu rosto queimar com a proximidade. A lembrança da mulher que estava com ele ainda pairava em minha mente, me fazendo hesitar.

— Eu... não sei se deveria.

Jacob arqueou uma sobrancelha, um pequeno sorriso surgindo no canto de seus lábios.

— É só uma carona, Renesmee.

Eu deveria recusar. Mas havia uma parte de mim — aquela parte curiosa e teimosa — que queria aceitar. Queria saber quem era aquela mulher e por que seu olhar me causava uma sensação tão estranha.

Respirei fundo e assenti.

— Tudo bem.

Jacob abriu a porta do carro para mim, e quando entrei, senti meu coração acelerar de um jeito irritante.

Essa noite ainda ia me trazer problemas. Eu podia sentir.

Após alguns minutos de silêncio confortável, Jacob estacionou o carro diante do prédio onde eu morava, em Bushwick.

Soltei um suspiro discreto. Por alguma razão, meu coração estava tranquilo em saber que a mulher que o acompanhava naquela noite não era sua namorada. Eu não deveria me importar, mas...

Afastei esse pensamento e soltei o cinto.

— Então... — comecei, sem saber exatamente como encerrar a noite.

Jacob virou-se para mim, os olhos escuros brilhando sob a fraca iluminação do poste da rua.

— Eu estava pensando... O que acha de sair comigo no sábado?

Pisquei, surpresa, mas rapidamente me recompus. Não podia demonstrar ser fácil.

Cruzei os braços, inclinando a cabeça levemente.

— Depende... É um encontro?

Ele sorriu de canto, como se já esperasse essa pergunta.

— Se você quiser que seja.

Fingi ponderar por um momento, mantendo meu olhar firme no dele.

— Então acho que posso considerar.

Jacob soltou uma risada baixa.

— Isso soa como um sim.

Inclinei a cabeça.

— Talvez.

Antes que eu pudesse me mover para sair do carro, Jacob se inclinou de repente, e antes que eu pudesse reagir, senti o calor dos lábios dele pressionando minha bochecha... próximo demais dos meus lábios.

Meu rosto ardeu na mesma hora, e minha respiração ficou presa na garganta.

— Boa noite, Jacob — murmurei apressadamente, abrindo a porta do carro e saindo quase em fuga.

Caminhei rapidamente até o portão do prédio sem olhar para trás, mas quando o fiz, vi o carro dele se afastando.

Soltei um suspiro e, sem perceber, um tímido sorriso surgiu nos meus lábios. Mas a sensação boa se desfez instantaneamente ao ouvir uma voz familiar atrás de mim.

— Quem era aquele cara que te deu carona?

Meu corpo enrijeceu antes mesmo de me virar para encarar Alec.