Notas do Passado
2 Lennox Lounge
Narrado por Jacob Black
O apartamento estava silencioso, exceto pelo som do uísque girando no copo que eu segurava. A vista da minha sala, no alto de um arranha-céu no Upper East Side, mostrava a cidade brilhando sob a noite nova-iorquina. Eu deveria estar aproveitando o momento de descanso depois de uma semana cheia no escritório, mas minha cabeça estava a quilômetros daqui, perdida em lembranças que pareciam cada vez mais insistentes.
— Pai, isso não é justo! — A voz indignada de Lola quebrou meu devaneio.
Suspirei antes mesmo de me virar. Minha filha de dezesseis anos estava parada na entrada da sala, os braços cruzados e uma expressão teimosa que me lembrava muito alguém... a mim mesmo.
— O que foi agora, Lo? — perguntei, apoiando o copo na mesa de centro.
— Eu não quero passar o fim de semana com a minha mãe — ela disse, bufando. — Você sabe que ela não liga pra mim de verdade.
Fiz um gesto para que ela se sentasse ao meu lado no sofá, mas ela se jogou na poltrona em frente, ainda emburrada.
— Lola... — comecei com calma. — Faz parte do acordo do divórcio. Você sabe disso.
— Mas que tipo de mãe some a semana inteira e só lembra que tem uma filha quando é obrigada? — ela rebateu, os olhos castanhos ardendo de frustração.
Entendi o que ela queria dizer. Lucy nunca foi uma mãe presente. Sempre ocupada, sempre com mil compromissos, sempre deixando Lola em segundo plano. Mas eu não podia mudar a realidade do nosso acordo.
— Eu sei que não é fácil, Lo — disse, inclinando-me para a frente. — Mas ela ainda é sua mãe.
Ela desviou o olhar para a janela, mordendo o lábio.
— Ela nem tenta, pai — murmurou. — Nem ao menos pergunta como foi minha semana.
Meu peito apertou. Eu odiava vê-la se sentindo assim.
— Olha, eu sei que você preferia ficar aqui — falei suavemente. — Mas me promete que vai tentar? Se não por ela, por você?
Ela revirou os olhos, mas o brilho irritado já estava se dissipando.
— Tá. Mas eu quero compensação.
Soltei uma risada curta.
— Sabia que isso ia acontecer.
— Quero um jantar no Carbone quando eu voltar — ela declarou, finalmente me olhando com um meio sorriso.
— Fechado — concordei, estendendo a mão.
Ela apertou minha mão com firmeza, antes de se levantar e ir até a porta. Mas antes de sair, hesitou por um segundo.
— Pai?
— O que foi?
— Obrigada por sempre estar aqui.
Meu coração apertou, mas apenas sorri.
— Sempre, Lo. Sempre.
...
Fechei o notebook após resolver os últimos assuntos pendentes da Black Enterprises. A noite em Nova York seguia vibrante do lado de fora, mas aqui dentro, no silêncio do meu apartamento, minha mente estava em outro lugar.
Ou melhor, em outra pessoa.
A jovem ruiva do Lennox Lounge, um bar minimalista no coração do SoHo, onde eu costumava encerrar minhas noites. Havia algo nela que me prendia—não apenas sua voz doce e melancólica, mas a forma como parecia pertencer à música de um jeito que poucas pessoas pertencem a algo.
Seus cabelos tinham um tom ruivo profundo, como folhas de bordo no outono, e caíam em ondas soltas sobre seus ombros. Os olhos eram cor de chocolate quente, grandes e expressivos, sempre carregados de um mistério que me fazia querer desvendar cada pensamento escondido ali. Seu corpo esbelto e delicado denunciava sua juventude—e era exatamente isso que tornava tudo mais complicado.
Ela era jovem demais.
E eu? Eu era apenas um homem marcado pelo tempo, pela vida e por decisões que me fizeram ser quem sou. Meu interesse por ela era irracional, quase desconfortável, mas impossível de ignorar.
E então, havia sua voz.
Suave como veludo, melancólica como um dia de chuva, e tão hipnotizante quanto o canto de um rouxinol ao amanhecer. Sempre que ela cantava, o bar inteiro parecia parar para ouvi-la, mas eu sabia que ninguém prestava tanta atenção quanto eu.
Meu devaneio foi interrompido pelo toque do celular. Quando olhei o visor, um sorriso familiar surgiu.
Bells.
Atendi no segundo toque.
— Fala, Swan.
— Black! Você sumiu — a voz de Bella soou divertida. — Finalmente fechou esse notebook ou ainda está fingindo que tem uma vida além do trabalho?
Soltei uma risada curta.
— Acabei de fechar. Alguma coisa me diz que você não ligou só pra me lembrar do meu vício em trabalho.
— Você me conhece bem demais — ela brincou. — E então? Está livre para um jantar ou vai me dar uma desculpa péssima?
Recostei-me no sofá, relaxando pela primeira vez naquela noite.
— Se eu disser que já tenho um compromisso com um drink e um piano, você aceita ir comigo?
Bella riu.
— Lennox Lounge de novo?
— Sempre.
— Então eu aceito. Mas você paga.
Balancei a cabeça, sorrindo.
— Como sempre, Swan. Como sempre.
...
O motor do meu Aston Martin DB11 ronronou suavemente quando estacionei em frente ao Lennox Lounge. O bar era discreto, aconchegante e sofisticado na medida certa, com uma iluminação suave que criava a atmosfera perfeita para uma noite de música e bons drinks.
Ao empurrar a porta de vidro e entrar, fui imediatamente envolvido pelo som suave do violão e pela voz que eu conhecia bem demais.
"Can I go where you go?
Can we always be this close forever and ever?"
Ela estava lá, sentada no pequeno palco, os dedos delicados deslizando sobre as cordas do violão. A melodia era doce, envolvente, e sua voz carregava uma sinceridade que fazia parecer que cada palavra era cantada para alguém especial.
Meu olhar encontrou o dela.
Olhos castanhos quentes, brilhando sob a luz âmbar do bar.
Ela cantava olhando diretamente para mim.
Minha garganta secou, e meu peito se apertou com algo que eu não sabia nomear. Um convite silencioso? Um desafio? Ou apenas o acaso?
Caminhei até minha mesa habitual, perto do palco, e me sentei sem desviar o olhar. Peguei o celular, vendo a notificação de Bella.
Bells: A caminho. Se pedir meu drink errado de novo, eu te mato.
Sorri, digitando uma resposta rápida.
Eu gosto de viver perigosamente.
Guardei o celular e voltei minha atenção para o palco.
"You're my, my, my, my lover..."
Ela finalizou a música com um sorriso discreto, como se soubesse exatamente o efeito que tinha sobre o ambiente – e, mais do que ninguém, sobre mim.
A jovem ruiva se levantou do banco do palco, deixando o violão apoiado ao lado. Meus olhos a seguiram enquanto ela caminhava com leveza pelo salão, os cabelos ruivos balançando suavemente com o movimento. Ela desapareceu por uma pequena porta nos fundos, e, por um breve momento, o bar pareceu perder um pouco do brilho.
— Então essa é a misteriosa ruiva?
A voz familiar de Bella me trouxe de volta à realidade. Virei o rosto e a encontrei parada ao meu lado, um sorriso divertido nos lábios e os braços cruzados.
— Finalmente vou conhecer a mulher que faz você vir aqui todas as noites? — Ela arqueou uma sobrancelha.
Soltei uma risada curta e me levantei, puxando-a para um abraço apertado. Bella sempre foi assim: direta, provocadora, e minha melhor amiga desde sempre.
— É bom te ver, Swan — murmurei, sentindo o cheiro familiar de lavanda no seu cabelo.
— Você também, Black — ela respondeu, se afastando e sentando-se à minha frente. — Mas não fugiu da pergunta.
— Não sei do que você tá falando.
— Ah, não se faz de idiota — ela riu, pegando o cardápio. — Você está obcecado por essa garota.
Revirei os olhos, chamando o garçom com um aceno.
— Eu gosto da música, só isso.
— Sei… — ela brincou, pegando o drink que o garçom acabou de trazer. — Então, como andam as coisas na Black Enterprises?
— No controle, como sempre. Mas a pergunta certa seria: como andam as coisas no hospital, doutora Swan?
Bella sorriu de lado, brincando com o gelo no copo.
— Cansativas, mas gratificantes. Trabalhar na ala pediátrica é uma montanha-russa emocional, mas eu amo cada segundo.
— E você sempre teve talento pra isso — comentei, sincero. — Mas algo me diz que você não me chamou aqui pra falar da sua carreira médica.
Ela apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se levemente para frente. Seus olhos brilharam com aquele misto de excitação e mistério.
— Você me conhece bem demais.
— Então fala logo — incentivei.
Bella respirou fundo e então soltou:
— Eu tenho uma pista sobre a adoção.
Meu corpo ficou tenso.
— A Adoção da menina?
— Sim, Jacob. Eu consegui uma.pista sobre a adoção da minha filha.
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