Nosso Nome Na Lista.
24 Capítulo 24 – Facada de Traição.
Notas iniciais
Capítulo 24 – Facada de Traição.
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Era segunda-feira.
Com o mesmo ânimo de um condenado indo para a cadeira elétrica, eu me arrastei para fora do meu carro e andei em direção ao prédio principal do colégio St. Justine. Sem me importar se Quentin havia me mandado uma mensagem incrível de bom-dia, ou se ontem houvesse sido maravilhoso, meu humor não melhorou... Muito. Afinal, hoje é segunda-feira. Hoje sai uma nova lista.
Fui até o meu armário, peguei o meu material de Literatura Estrangeira e caminhei sem ansiedade nenhuma até o banheiro feminino. Encostei-me à parede ao lado da porta e esperei por algum sinal de Olivia e Paloma. Sempre víamos “a lista” juntas, afinal.
Esperei cinco minutos antes de ver a cabeleira escura de Paloma e os cabelos recém-tingidos de ruivo de Olivia. Sorri e acenei, mas para a minha surpresa, elas não retribuíram. Estavam sérias.
– Ei... O que foi? – eu perguntei quando elas chegaram.
Olivia balançou a cabeça e percebi que seus olhos começaram a ficar marejados. Olhei para Paloma, esperando uma explicação para esse humor de enterro em plena segunda-feira. O dia da semana não podia ser tão ruim assim. Mas a morena desviou o olhar do meu como se... estivesse com culpa?
– V- vocês estão me assustando – eu confessei. – O que aconteceu?
Nem Paloma e nem Olivia responderam. A morena segurou o braço da sua melhor amiga e depois o meu e nos guiou para dentro do banheiro. Um grupinho de garotas estava se arrumando e fofocando efusivamente sobre “a lista”, elas nos olharam e ficaram imediatamente caladas... Antes de saírem (super discretas) e soltarem risinhos.
Há algo errado. Sem dúvida.
Um soluço chamou a minha atenção.
Olivia estava se desfazendo em lágrimas e não sei por que até ver “a lista”: o nome dela não está lá. Quentin em primeiro, eu havia sumido dela (graças a Deus). Isso não é surpresa. O nome de Olivia nunca apareceu na “lista legal”. Todavia, foi a primeira vez que o nome dela apareceu em primeiro lugar na outra lista. A pior delas. A gêmea ignorada. A minha companheira.
Olhei para Paloma. Ela não está surpresa. Ela já esperava.
– Olivia... O que aconteceu? – eu perguntei, abraçando-a.
Para a minha surpresa, ela me empurrou. Como se não quisesse o meu abraço ou como se eu tivesse feito alguma coisa para ser alvo de sua raiva.
– Por que não pergunta para o seu amiguinho?! – ela respondeu, me olhando com muita raiva. Como se eu tivesse culpa de alguma coisa.
E então ela saiu correndo. Chorando. Com Paloma logo atrás.
E eu fiquei parada. Sentindo como se meus pés estivessem presos ao chão.
...
Quando eu cheguei na minha aula de Literatura Estrangeira, ainda cedo, pronta para pôr Quentin na parede (quem mais seria o meu amiguinho?) ele estava justamente se fazendo de gostoso. Não que Quentin soubesse quando ele estava “se fazendo de gostoso”, provavelmente ele fazia isso inconscientemente, todavia, ele estava maravilhoso e esbanjando charme como sempre.
Quando me viu, ele sorriu e se levantou. Veio me receber com um beijo, mas antes que ele pudesse se inclinar e me dar aquele beijo (porque Quentin parecia ser incapaz de dar “um beijo de gente decente” em público), eu coloquei minha mão entre nossos lábios.
– Olivia era a garota que estava saindo com Helena? – perguntei antes que perdesse a raiva e a coragem.
Quentin ergueu uma sobrancelha, pareceu chateado e decepcionado, então tirou a minha mão de seus lábios e a abaixou. Mas não a soltou.
– Ela te contou? – a pergunta saiu num suspiro.
Eu revirei os olhos.
– Não, mas eu tenho mais de dois neurônios. Liguei os pontos – eu respondi, cruzando os braços. – Quer dizer, acho que não pensei nisso porque eu estava pensando só em mim esse fim de semana... Mas hoje o nome da Olivia apareceu na “lista dos odiados” e aí ela mandou que eu te perguntasse o que havia acontecido... Lembrei-me do anuário com a assinatura dela... O anuário era de Helena, não era? E ela provavelmente parou na lista porque alguém te ouviu a confrontando com Helena na festa do fim de semana...
Parei para respirar e esperar alguma confirmação de Quentin... Mas ele não disse nada. E seu silêncio foi pior do que qualquer frase.
– Cara... Como eu sou uma péssima amiga!
Joguei-me na minha cadeira e fitei minhas mãos. Eu não conseguia olhar para o Quentin, pois estava me sentindo um lixo como amiga. Quer dizer, Olivia é lésbica (ou bissexual, quem sabe?) e eu não percebi. Ou melhor, ela nunca me contou. Mas mesmo assim... Quando sua amiga gosta de garotas (ou ao menos fica com uma garota) não é algo que passe despercebido, é? Eu me senti tão excluída... Aposto que Paloma sabia de tudo. Porque Paloma é observadora. Paloma deve ter percebido que algo rolava entre Olivia e Helena no semestre passado.
– Péssima amiga? Você? – Quentin perguntou estupefato. Sua estupefação me pegou de surpresa. Olhei para ele, confusa. Para a minha surpresa, Quentin estava sério. – Escuta, não é a sua obrigação saber da vida das suas melhores amigas, tá? Você não tem que perguntar e nem bancar a detetive para elas te contarem o que estava rolando. A questão é que você sempre estava lá se elas precisassem. Elas escolheram não precisar.
Eu não entendi o porquê ele estava irritado. Quentin nem explicou também. Ele passa os dedos pelos cabelos escuros, que ficam arrumados por um tempo até se bagunçarem novamente, e se senta no seu lugar. Ao meu lado.
– Aposto que elas não te contaram também que são um casal... – ele acrescentou cruzando os braços. Arregalei os olhos e pisquei sem entender. Ele bufou. – Sabia...
– Espera, quem é um casal? – perguntei confusa.
– Olivia e Paloma – ele respondeu. – Por isso elas são tão grudadas...
Pisquei. Sem entender ainda. Olivia... Estava com Paloma...?
Eu franzi o cenho e senti como se eu tivesse levado uma facada no peito. Elas nunca me contaram nada disso. Tudo bem que eu também nunca havia contado sobre a minha bulimia até que eu tivesse que parar no hospital... Mas eu ao menos havia contado. Elas não. Eu estava sabendo por Quentin. Um cara que supostamente não tinha nada haver com essa história.
Isso era doloroso. Parecia que elas nunca haviam confiado em mim.
Elas nunca me viram como amiga? Eu era o quê então?
– Letty... – Quentin me chamou mais calmo e delicado. Acho que ele percebeu que por dentro eu estava destruída. – Letty... Eu não devia ter contado, mas...
Eu neguei com a cabeça.
– O que há errado com as pessoas? – eu perguntei, sem reconhecer a minha voz. – Por que... Elas escondem tantas coisas? Primeiro a minha mãe... Depois as garotas...
– O lance das garotas não é da nossa conta – ele disse de repente. – Eu me meti porque sou intrometido. Elas não te contaram porque provavelmente queriam manter segredo de todo mundo... Assim como você também não soube da Olivia e da Helena.
Eu concordei com a cabeça, mesmo assim. Meu peito ainda dói.
Acho que Quentin percebeu isso, pois me puxou para um abraço desajeitado. Como se ele quisesse tomar o peso em meus ombros ou arrancar a faca de traição do meu peito. Fiquei pensando no por que de elas esconderem isso de mim. Se elas não confiavam em mim para manter segredo ou se simplesmente tinham medo que eu não aceitasse, se achavam que eu não fosse entender.
Penso assim até fechar os olhos e respirar fundo.
Pronto. Simples assim, os pensamentos sobre elas desapareceram. O perfume de Quentin parecia uma droga que nublava os meus pensamentos. Graças ao seu cheiro, criei um mundo em que só existia ele e isso me ajudou a superar a mágoa das pessoas. Ele tinha razão, o lance delas não era da nossa conta. Mas seria bom se elas tivessem confiado em mim e aberto o jogo...
Afastei-me dele e sorri, antes de lhe dar o beijo que estava lhe devendo.
Só encostei meus lábios de leve nos dele, porque estávamos numa sala de aula afinal, mas só isso fez com que ele me olhasse de um jeito de quem quer mais. Fiquei constrangida, mas não desviei o olhar.
– Não achei que você estivesse falando sério – ele confessou.
– Sobre? – perguntei franzindo o cenho.
– Me agarrar quando Yvonne e estivesse perto – ele respondeu, apontando a cabeça para a porta.
Eu congelei por um momento, até me virar e perceber a maravilhosa morena que saía da porta e ia para o seu lugar pisando com tanta força que parecia querer quebrar o chão. Ela parecia um dinossauro andando daquele jeito.
– Timing perfeito – eu disse malignamente, Quentin riu. – Foi sem querer... Mas, como eu me importo com os sentimentos de Yvonne, não vou te beijar na frente dela.
Quentin me olhou de modo suspeito, e então sorriu.
– Que ótimo, Letty. Isso é muito bonito. Mesmo...
Eu sorri e olhei para ela. O.K. Ela estava de costas. Dei mais um beijo em Quentin e, como eles estavam entreabertos (fazendo um discurso inspirador sobre “amar nossos inimigos”), nossos lábios se encaixaram em um beijo mais profundo que um selinho. Mesmo assim, não prolonguei. Eu dou um sorriso triunfante.
Quentin estava sorrindo, mas, ao mesmo tempo, me reprovando.
– O quê? Ela está de costas – sussurrei-lhe divertida.
Ele revirou os olhos, mas não voltamos aos sermões porque o sinal tocou e o professor se levantou da sua mesa para começar a dar aula. Quentin e eu assistimos em silêncio e compenetrados. Como era difícil um casal de adolescente fazer. Pelo incrível que pareça havia casais sem-vergonhas que ficavam se agarrando em tudo quanto era canto pela escola.
Quando a aula terminou, Yvonne olhou para nós dois, Quentin e eu, e lançou um sorriso debochado. Todavia, ela não me provocou. Passou direto.
– Você viu isso, não viu? – perguntei para o meu namorado maravilhoso.
Quentin deu de ombros e perguntou:
– Se eu vi o sorriso de “não-dou-a-mínima-para-vocês-dois” da Yvonne?
Olhei para ele em dúvida.
– Onde você viu esse sorriso? Eu vi um sorriso debochado estilo “não-acredito-que-vocês-durem-muito” – retruquei.
Quentin revirou os olhos e não teimou. Pegou-me pela mão e me conduziu para fora da sala de aula. Dei uma rápida olhada para o meu professor preferido e percebi que ele estava sorrindo para mim. Fiquei constrangida (era o meu professor, cara), mas ao mesmo tempo fiquei feliz.
– Yvonne!
Olhei assombrada para Quentin, o que ele estava fazendo?!
A morena de cabelos cacheados e pele bronzeada parou no meio do corredor e olhou para nós dois. Olhou para nossas mãos dadas e revirou os olhos.
– O que foi? – ela perguntou para Quentin.
Virei-me para ele com vontade de perguntar a mesma coisa: o que foi? Por que ele estava chamando Yvonne no meio do corredor? E do jeito que ela me olhava... Fez com que eu me aprumasse toda e abraçasse o braço de Quentin, não me conformando somente com sua mão segurando a minha com força.
– O seu sorriso de agora foi do tipo “não-dou-a-mínima-para-vocês-dois”, do tipo “não-acredito-que-vocês-durem-muito” ou do tipo “não-sabe-o-que-está-perdendo” ? – ele perguntou assim, na cara dura. – Letty está teimando que você está desprezando a força do nosso amor!
Ele abraçou meus ombros com força.
Yvonne olhou para ele com uma sobrancelha erguida. Eu também.
– “A força do nosso amor”? – repeti com incredulidade. – Sério?
– Ei, eu posso falar besteiras às vezes e você não é ninguém para me censurar! – ele retrucou na defensiva. – Devo te lembrar das besteiras que você deixa escapar às vezes? Tipo, quando você pediu para eu provar a sua língua?
– E você se arrependeu? – desafiei divertida.
Por um instante, eu me esqueci que Yvonne estava ali.
– Argh, casais – ela disse encolhendo-se e estremecendo. – Bem, meu sorriso foi de deboche sim. Mas porque vocês dois se merecem... – Ela respondeu, cruzando os braços. – Quem sabe Quentin consegue dar um jeito nessa sua mania de perseguição?
Ela riu com maldade, deu as costas e saiu andando.
Olhei para ela com incredulidade. Yvonne acabou de dizer que eu e Quentin nos merecemos? Mesmo depois de ter me enchido a porra do saco dizendo que não era para ele e que ele era demais para mim? Pisquei sem entender, começando a achar que Yvonne não era uma pessoa tão má assim.
E foi quando ela se virou e disse:
– Mas, lindinho, quando se cansar dessa garota aí, me liga! Você tem meu número!
Ela deu uma piscadela e continuou rebolando. Por um instante, ouvi meus batimentos ecoarem no ouvido e toda minha visão ficou em vermelho. Que vontade de ir até aquela garota morena e arrancar os seus cachos.
Quentin me segurou.
Ergui o olhar e ele estava sorrindo.
– Posso perguntar como começou o seu ódio por ela? – ele perguntou.
Eu bufei, respirei fundo e me encostei num armário.
– Não sei... Quando nos conhecemos ela começou a implicar comigo – eu expliquei dando de ombros. – Começou com um moletom do “Nightmare Before Christmas” que eu usava no primeiro ano. Ela olhou e debochou. Foi a primeira vez que nos falamos e começou assim... Depois ela se juntou às nojentas líderes de torcida e se tornou ainda mais nojenta e maldosa...
Quentin cruzou os braços com um sorriso divertido.
– O que ela disse do seu casaco? – ele perguntou.
Franzi o cenho.
– Ela disse “Belo casaco” – eu respondi. Quentin ergueu uma sobrancelha divertida. – Ah, ah! Não me olhe assim! Foi aquele tom de “Belo casaco” que quer dizer “não acredito que você está usando essa coisa horrível”. Todo mundo conhece esse tom!
Quentin sorriu, debruçando-se sobre mim e se apoiando no armário. Ele ficou bem próximo e a diversão dançava em seus olhos claros. Quase tive vontade de rir também.
– Você viu o que eu fiz ainda agora? – ele perguntou. – Você achou que viu uma coisa, eu vi outra e fomos tirar satisfação para sabermos como interpretar... Quando você achar que alguém tem problemas com você, é isso o que você faz. Entendeu?
Assenti com a cabeça, totalmente hipnotizada por seus olhos.
Quentin acariciou os meus cabelos.
– Uma história sempre tem mais de dois lados – ele comentou reflexivamente. – E você tem que tirar algumas satisfações com Yvonne. Pode ser que todo esse desentendimento entre vocês seja um mal entendido.
Eu ouvi o que ele disse, mas suas palavras só me davam mais vontade de agarrá-lo ali mesmo. No meio do corredor. Faltando cinco minutos para a nossa próxima aula. Seu sermão me deixou excitada. Não sei por quê. Talvez eu tenha gostado de sua faceta madura. A mesma faceta que me pediu para não mexer no porta-luvas do seu carro.
Olhei para ele, incerta, antes de agarrá-lo pelos ombros e lhe dar um beijão. Não suportando a proximidade e o seu sermão. Suas palavras martelavam na minha cabeça tal como meu coração martelava no meu peito. De repente, era eu quem o estava prensando contra os armários e beijando-o como se tivesse fome.
Quentin abraçou minha cintura e retribuiu o beijo com a mesma intensidade que a minha. Enfiando sua língua na minha boca e mexendo-a afoita. Tinham pessoas que diziam um modo “certo” de se beijar, mas para Quentin tanto faz se sua língua se mexia demais, se mexia de menos, se mal se encostava com a minha, ou se encostava demais na minha... Sempre era perfeito.
– Er... Com licença... ? – chamou uma voz doce.
Paramos de nos beijar e olhamos para uma garota do primeiro ano, totalmente corada e sem graça, que estava nos olhando completamente envergonhada.
– Vocês estão se comendo na frente do meu armário... – ela avisou.
Ai, Deus! Que vergonha!
– Ai. Deus. Desculpa. Mesmo! – eu disse, saindo de cima de Quentin e ele se afastou. – Deus, que vergonha! Ai meu Deus!
– Desculpa – Quentin pediu ficando vermelho também. – Bora, Letty. Bora. Antes que Deus apareça para reclamar que você está usando seu nome em vão.
Ele pegou a minha mão e me puxou pelo corredor.
– Nunca mais fale daquele jeito comigo, tá? Eu perco a cabeça! – avisei.
Quentin confirmou com a sua cabeça e deu um sorriso malicioso.
– Hum... Bom saber. Você vai pirar quando me vir de óculos!
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