Nosso Nome Na Lista.
56 Capítulo 56 - O "fácil" não dá histórias
Notas iniciais
Capítulo 56 — O "fácil" não dá histórias
.
.
De algum modo, paramos no mirante novamente.
Quando chegamos lá em cima, estamos ofegantes, com as pernas cansadas (fazendo-me lembrar de que, de carro, havia sido mais rápido e mais cômodo), todavia, há algo na atmosfera lá em cima que parece sussurrar em meu ouvido: “esse esforço vale a pena”.
O vento está mais forte e mais frio do que na cidade, mas gosto da sensação. Parece que a qualquer momento, o vento pode me carregar para longe e eu gosto mais do que deveria dessa ideia. Tanto que (apesar do formigamento nas pernas) me afasto de Quentin e vou até o guarda-corpo que impede os visitantes de caírem.
Observo a cidade e me lembro, como se fosse ontem, do que pensei ao pisar ali pela primeira vez, no nosso aniversário de um mês. “Somos pequenos e muito insignificantes”, esse pensamento, me conforta. Diferente do quanto me perturbou quando o tive pela primeira vez. Ele parece ser a resposta para tudo o que vim sentindo.
– Quando se olha de cima, tudo parece insignificante, né? – Quentin diz como se lesse meus pensamentos.
Olho por sobre o ombro e concordo com a cabeça, sorrindo.
Quentin sorri também e está absurdamente bonito. Meu lado debochado teria revirado os olhos e dito: “E quando ele não está?”. O vento mexe em seus cabelos e os bagunça para todos os lados, mas há algo na constância dos seus olhos claros – tão fixos em mim – que me hipnotiza. Que parece me prender a ele.
E ele nem deve se dar conta de que parece ter saído de um comercial de shampoo.
De repente, ele ri e se aproxima.
– Você tá parecendo a Cara Delevigne na capa de “Cidades de Papel” – ele diz, tirando meus cabelos do meu rosto e tentando colocá-los atrás de minhas orelhas.
“O que seria engraçado, porque o nome dele era Quentin, como do principal” eu penso, rindo comigo mesma. Mesmo que ele esteja mais para a Margo, com todo seu jeito de quem gosta de mistérios.
Faço uma careta, de repente.
– Espero que isso seja um elogio – eu ameaço.
– Claro que é! – ele responde, passando seus braços em volta de mim. – Ela é uma modelo super estilosa! O que mais tem são fotos dela no Tumblr.
– Ela é estranha – eu o lembro.
Quentin dá de ombros, como se não desse para negar este fato. Tendo ganhado, me encolho em seu abraço... E novamente me sinto engolida por aquele sentimento que ao mesmo tempo me assusta e me conforta: “Quero ficar aqui para sempre”. Eu nunca fui de pensar coisas assim. Nem quando meu pai me defendia da minha mãe.
É tão forte, que me sinto lacrimejar.
– Por que a vida não pode ter só momentos assim? – eu pergunto, mais pra mim do que pra ele.
Odeio o como minha voz sai embargada. Como se eu já estivesse chorando, quando não estou. Não vou chorar. Não vou chorar pelas merdas que estão acontecendo. Já chorei demais. Chorar não vai resolver nada: não vai curar minha mãe, não vai fazer as pessoas se comoverem... Só vai me deixar mais fraca e vulnerável.
Quentin finge que não ouviu meu tom choroso. E, mesmo sabendo que a pergunta não foi para ele, faz questão de responder:
– Por que seria fácil.
Eu reviro os olhos com a resposta muito simples e que, ao mesmo tempo, parecia esconder algo. Ele provavelmente queria que eu perguntasse. Queria me instigar a discutir, questionar, conversar.
– E o que há de errado com o “fácil”? – questiono, com o tom controlado.
Quentin ri. Sinto o som em seu peito como se fosse um ronronar de um gato.
– O fácil não dá histórias para contar – ele sussurra pra mim como se fosse um segredo. Algo para guardar para sempre. – Como disse um de nossos ex-presidentes: “Nós escolhemos ir à lua não porque era fácil, mas porque era difícil”.
Eu acabo rindo e isso é mais fácil do que deveria ser. Quase me sinto culpada.
– Agora sim! Um progresso! – Quentin exclama, jogando as mãos para o céu.
Dramático.
Eu reviro os olhos e lhe dou um tapa no peito, quase quebrando minha mão no processo. Ele ri e me beija, apertando-me tanto contra si, que parece querer me fundir ao corpo dele. A ideia não é má. Agrada-me lembrar das vezes em que isso quase pareceu fisicamente possível.
– Obrigada – eu digo em seu ouvido.
– Você não parece agradecida – ele provoca.
Eu rio novamente, antes de puxá-lo pelo colarinho da camiseta para um beijo que o deixou, pela primeira vez, visivelmente tonto e sem fôlego. Percebi, quando me afastei, seus olhos desnorteados e meio perdidos. Como se, por um segundo, ele houvesse perdido o fio de algum pensamento e entrado em pane.
Isso sempre acontece comigo, mas não lembro de já ter visto com ele.
– Nossa... – é tudo o que ele diz.
– Sei como é – eu respondo, sorrido como quem diz: “eu entendo”: — “Nossa...”.
Quentin ri e apoia o queixo no topo da minha cabeça. Ficamos em silêncio. Sentindo o vento forte bater em nós, mas não sinto frio. Na verdade, dentro do abraço e Quentin faz calor. Um calor aconchegante do qual eu sentia falta. Minhas mãos entram por debaixo da sua camiseta e ele ri. Sinto seu abdômen contraindo sob minhas mãos.
– Você tá fria – ele diz, entre risadas.
– Uhum, e você tá quente – eu digo. Então provoco: – Tem lugar melhor pra descongelar minhas mãos?
Ele fica em silêncio, o que diz mais do que ele ousaria verbalizar.
Encosto minha cabeça em seu peito e antes que eu dê por mim, digo:
– Minha mãe tá doente, Q.
Há, pelo menos, uns três segundos de silêncio contado, até eu ouvir o seu suspiro e sentir seus braços me envolverem com mais força. Ele pareceu demorar em absorver a informação. Tudo bem, eu também demorei. Acredito que eu ainda não a tenha absorvido até agora.
– Meu deus – ele solta, incrédulo. – É grave?
Não respondo verbalmente. Me encolho ainda mais e confirmo com a cabeça.
Penso em dizer-lhe que ela tem câncer... Mas não sei como. A palavra simplesmente não me sobe a garganta, por mais que minha boca tente. Parece pesada e presa ali até o ponto de ser sufocante. Talvez seja a falta de ar que esteja me fazendo chorar, eu justifico para mim mesma o acúmulo inesperado de lágrimas em meus olhos.
– Eu sinto muito – ele sussurra contra meus cabelos, beijando-os.
– Eu também – eu digo. Odeio como minha voz falseia. – É meio injusto, sabe? Agora que ela resolveu ser legal... Ele pode ser tirada de mim. Não parece algo... certo. – Dou uma risada meio irônica, e lhe admito: – Na verdade, nos últimos dias, tenho tido a sensação de que há algo de muito errado e injusto nesse mundo.
Quentin me afasta de seu corpo. O meu, reclama pela falta do calor e do contato gostoso, mas tudo bem, porque ele afasta meus cabelos do meu rosto novamente e diz me olhando nos olhos:
– Eu sinto muito. Queria poder ser capaz de dizer mais... mas é só o que eu posso te dizer para confortar.
Eu aceno com a cabeça, pois sei que é verdade.
Quentin pode parecer, mas não é um Deus. Não pode dar um jeito nisso e muito menos curar a minha mãe, mesmo assim, de algum jeito, me sinto um pouco melhor só por ter lhe contado. Há um conforto agradável quando ele beija meu rosto, minhas lágrimas, e no como envolve o meu corpo num abraço caloroso e seguro.
“Nada aqui dentro vai desmoronar” seu corpo parece me dizer “não vou deixar”.
Gostaria de ficar lá, no seu abraço, para sempre. Congelar o momento ali.
Mas está começando a ficar tarde e somos obrigados a voltar ao mundo real.
.
Está anoitecendo quando volto à frente do Teatro Municipal com Quentin. Do lado de fora, uma mulher alta e forte parece esperar por alguém. Reconheço-a vagamente como uma das atrizes que contracenam com Quentin (não me lembro o seu nome, mas ela ainda parece um homem). No canto de sua boca coberta com batom vermelho pende um cigarro aceso.
– Mas olha só... – ela comentou quando viu Quentin. – Se perdeu, Q? Tinha que está no ensaio há duas horas.
A mulher me encarou como se me culpasse pelo atraso, parecendo brava.
Não vamos negar que era verdade.
– Desculpa, foi minha culpa-...
– Mia, você faltou ontem porque estava de ressaca – Quentin me interrompe como se a estivesse provocando. Rindo, ele continua: — Eu tenho um crédito com você né?
A raiva da mulher (Mia) sumiu num instante e ela mostrou um sorriso radiante. Perguntei-me se a raiva dela era somente um fingimento e me dei conta do quão boa atriz ela devia ser. Quase fiquei assustada.
– Tô só brincando, gato. Eu e Nat te perdoamos só porque você é um exemplo de pontualidade e puxa-saquismo – ela responde, dando uma piscadela. – Olá, Letty. Há quanto tempo... Quentin te mostrou a foto?
– Que foto? – pergunto confusa. Não sei do que ela está falando.
– A foto que Nat tirou de vocês na reunião na casa da Ginie – ela responde tirando o cigarro da boca e o mantendo entre os dedos. – Vocês estão tão fofos... Que imprimimos e pedimos pro Quentin te entregar... Coisa que ele não fez, aparentemente.
Olho para o meu namorado, que está coçando a nuca como se aceitasse a sua responsabilidade e completo esquecimento.
– Desculpa, Letty. Deixei-a no meu caderno, em casa – ele confirma.
Sorrio e concordo com a cabeça.
– Ok, você me mostra outro dia – eu concordo, aceitando de bom agrado o beijo que ele me da na testa. Seus lábios parecem emitir calor por todo o meu corpo, causando um arrepio bem-vindo.
– Então, nos vemos outro dia – ele diz.
– Ok, outro dia – eu respondo, ainda meio desnorteada.
Pensando em nada. Ou em tudo.
Ele me beija nos lábios, e ai fica realmente difícil pensar em alguma coisa. Fico fora do ar até mesmo depois que Mia limpa a garganta, em desconforto, e ele se afasta. Observo-o entrar no teatro e mesmo assim, continuo ali, parada. Observando... Até me lembrar que, puta merda, eu devia estar em casa há duas horas!
Saio quase correndo pela rua, me sentindo a pior pessoa do mundo.
Perdi o tempo com Quentin, chorando porque minha mãe estava doente e acabo esquecendo que há duas horas ela devia estar sozinha em casa porque a filha irresponsável estava na rua. Tenho certeza de que ela vai acabar comigo quando eu chegar a casa. Como eu ousava fazer isso com ela?!
Todavia, quando chego desesperada e com uma desculpa na ponta da língua, me deparo com ela deitada no sofá, assistindo televisão. Parece muito calma para alguém que ficou esquecida por duas horas. Ela levanta o olhar para mim e mostra o que seria considerado (nos padrões dela) um sorriso simpático.
Para os outros, poderia parecer uma careta.
– Está tudo bem? – ela pergunta.
O momento fica muito estranho de repente.
– Hã... tá – eu respondo sem graça. “Cadê o esporro? Cadê o drama?” me pergunto, tirando o casaco com calma e pendurando no armário. – Er... Sinto muito. Estou atrasada. Eu estava com Quentin... E acabei perdendo a hora.
Lá está aquele sorriso estranho de novo. Simpático?
– Ele está bem? – ela pergunta. Então comenta em tom nostálgico: – Eu cansei de ficar perdendo a hora com os namorados quando tinha a sua idade. – Ela ri. – Gosto do Quentin. É um bom garoto. Muito simpático.
– É o filho que você não teve – eu comentei revirando os olhos.
Seu sorriso some e ela suspira.
– É mesmo – responde. – Não que isso importe agora... a essa altura do campeonato. – Franzo o cenho. – Já gastei muito tempo inconformada com a minha vida.
Pergunto-me se devo me sentir ofendida por ter sido um dos fatores que a fizeram ficar “inconformada com a vida”, todavia, não tenho coragem de perguntar. Nem preciso, ela dá play no que quer que estivesse assistindo e pergunta:
– Você já viu essa tal de “Pretty Little Liars”?
– Hum... Mais ou menos. Não gostei – respondo.
Parece que estou de frente para alguma pegadinha.
– Bem... Quero só que alguém me diga como uma pessoa consegue fazer tudo isso e não haver uma pessoa que tenha visto. Quer dizer, deixar só a letra A no cereal de uma das garotas? E ninguém viu? – minha mãe comentou, meneando com a cabeça. – Me assusta o que as garotas da sua idade são capazes de fazer...
Eu acabo rindo, um pouco nervosa.
– Essas séries deixam tudo mais louco – respondo. – Eu não perderia meu tempo catando letras num cereal. Isso não é vingança, é castigo.
Minha mãe concorda com a cabeça.
– Bem, já que você chegou atrasada, o que acha de fazer o jantar? Não estou com disposição para cozinhar – ela sugeremanda, mostrando resquícios daquela personalidade que conheço desde sempre. – Chame isso de castigo por me deixar te esperando por duas horas assistindo essa série ruim.
Quase solto um “obrigada” quando vou andando para a cozinha. É estranho agirmos assim e me pergunto se um dia vou me acostumar.
Fale com o autor