Nossas Vidas no Acampamento Meio-Sangue
1 Começando pelo começo!
Notas iniciais
Reviews...
beijos
– Mãe... – eu comecei a choramingar no pé da minha mãe.
– Filha, você vai pra escola e ponto final nesse assunto! – ela disse docemente, mas séria.
Era a oitava vez em quatro anos que eu me mudava de escola a cada seis meses, e a lista de escolas da cidade já tinha se esgotado, restando apenas uma escola pública, mal cuidada, fedorenta e cheia de pessoas nojentas lá. Eu realmente não queria ir, por que, graças a minha falta de atenção com as coisas, eu era muito lerdinha.
Então minha mãe se abaixou a altura do meu rosto e me abraçou.
– Vá lá se arrumar querida – ela disse me soltando, então subi as escadas para o meu quarto, meio que arrastando os pés – Anda filha! – minha mãe me chamou a atenção e então eu corri pelas escadas e cheguei ao meu quarto.
Bem, quando você tem dez anos, o mundo todo é diferente pra você. Sem palavrões, contos de fadas... mas eu não. Sendo motivo de chacota em todas as escolas me trouxe a um universo um pouco mais maduro, mesmo eu sendo bem infantil. Mesmo com meu transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, eu conseguia ler pelo menos meia página por dia de um livro sobre mitologia grega. Um livro que me chamava muito a atenção. Naquele momento, eu estava lendo no meu livro, algo sobre heróis, semideuses... filhos de deuses com mortais. Eu e minha mãe brincávamos disso, mas com o passar do tempo, ela já não aceitou mais essas brincadeiras, e eu fui desistindo disso com o tempo.
Cheguei perto da minha cômoda branca e abri a gaveta de shorts. Peguei um short azul marinho, uma blusa branca e a minha sapatilha branca com detalhes beges de florzinhas e arrumei meus cabelos castanhos e cacheados com uma pequena mecha verde nele, que dava voltinhas junto com os cachos. Nunca tinha me lembrado de como aquilo foi aparecer nos meus cabelos, mas eu nunca liguei.
Peguei minha mochila cinza e coloquei-a nas costas, descendo a escada correndo.
Minha mãe olhou para mim apreensiva, mas logo em volta de seus olhos as ruguinhas apareceram para me dizer que ela estava sorrindo.
– Que linda meu amor! Vem dar um beijinho na mãe? – ela perguntou, e nós saímos correndo. Minha mãe conseguiu me alcançar e me lascou um beijo na bochecha.
– Ah!, mamãe! – gritei rindo e saindo do apartamento de onde morávamos. Dei tchau para a minha mãe e desci a única escada que dava acesso à verdadeira saída do prédio. O ônibus parava todos os dias o mesmo horário na frente do prédio. Engoli o seco e entrei nele.
– Como vai Constancy? – ele me perguntou. Sorri.
– Muito bem. Mas acho que hoje faremos um caminho diferente – eu lhe disse. Seu olhar confuso me custou uma explicação sobre uma nova escola... no mesmo ano.
– Ah!, sim, mas é claro – ele disse, pedindo para eu me sentar. Fui correndo para o “banco alto”, por que de lá dava para ver o ônibus inteiro, e eu adorava a sensação de me sentir mais alta, por que, afinal de contas... eu parecia ter sete anos em altura do que dez.
Dez minutos depois o ônibus incrivelmente vazio parou em frente à escola onde eu iria estudar. Realmente, a escola parecia bem pior do que antes.
Relutante, me despedi do motorista (o qual eu sempre esquecia o nome mesmo tendo conhecido-o a um ano naquela época) e desci do ônibus.
Bem, nem preciso dizer o que aconteceu. O dia foi uma porcaria que só. Bolinhas de papel e cuspi no cabelo, tapas na cabeça, brincadeiras de mal gosto, apelidos de mal gosto também... mais o cúmulo do dia foi na hora da saída, onde três meninas disseram que iam me “pegar”, por que eu não tinha dado o meu dinheiro do lanche para elas. Fui a última a sair da sala. Meus olhos já estavam cheios de lágrimas quando eu sai da sala, e minha visão estava tão embaçada que eu não percebi que havia alguém vindo à minha direção.
Caímos e assim que eu pisquei, consegui ver que era uma garota. Um pouco mais alta que eu, só um pouquinho, com cabelos ondulados louros, quase dourados, e olhos cinza azulados. Ela tinha uma cara de durona que só...
Pedi desculpas e quando eu ia me afastando ela correu atrás de mim. Sua mão incrivelmente pesada caiu sobre o meu ombro, fazendo eu derrubar meu livro de mitologia grega. Ela se abaixou para pegá-lo e eu consegui inspecionar suas roupas. Uma blusa do Slipknot preta, calça jeans escura e rasgada e um All-Star preto.
Assim que ela se levantou, ela ficou um minuto tentando descobrir o que estava escrito na capa.
– Mitologia grega? Legal – ela disse me entregando. Agradeci – E posso saber por que você estava chorando? – ela perguntou.
– Eu não estava chorando! – disse quase que imediatamente, provocando um sorriso dela.
– Vamos lá... seus olhos estão vermelhos. Sou Laura. E você é...?
– Constancy.
– Bem, Corsi, aqui...
– É Constancy – eu insisti.
– Ah!, foi mal. Mas goste de Corsi. Posso te chamar assim né? Claro que posso.
E então ela passou um braço por cima dos meus ombros e nós fomos andando e conversando até o lado de fora da escola. E esse foi o dia em como eu conheci minha melhor amiga no mundo. Mas se você acha que depois desse dia tudo melhorou... você está enganado.
Acostumar-me com Laura não foi fácil. Essa garota é estranhamente legal. Ela gosta de músicas de rock bem pesado, assim como um garoto na nossa escola chamado Felipe. Ele tinha cabelos e olhos escuros, usava aparelho e era bem mais alto que eu, mas estávamos na mesma sala. Mas, afinal, quem não é maior que eu? Bem, mas falando nas coisas piorarem, eu vou contar o que aconteceu. Eu consegui passar um ano dentro daquele colégio. Sem ser expulsa por coisas que eu não gostaria de ter feito, como empurrar uma garota em um chafariz em uma excursão, dizer que eu vi um pássaro gigante, brincar com uma menininha e depois sei lá como quebrar o dedo dela... nada disso aconteceu aquele ano.
Eu e minha mãe convidamos Laura para passar o natal conosco, e Laura tinha se aproximado bem de mim, como eu dela. Eu não mudei nem um pouco meu jeito birutinha e doce de ser, e nem ela mudou o jeito durão e sínica dela. Mas nós éramos melhores amigas, com piadinhas internas, planos malvados que gostaríamos de colocar em ação... mas até hoje, eu me culpo por algo que aconteceu. Minha mãe insistia em não me deixar ir visitar o orfanato de Laura, mas eu queria tanto ir...
– Vamos mamãe, só hoje... – eu pedi com minha voz mais manhosa possível. Minha mãe acabou cedendo aquela tarde. Ela me levou até o orfanato onde Laura morava e nós ficamos conversando a tarde inteira. Quando era lá pelas sete horas da noite, o horário que minha mãe tinha marcado para me buscar, eu desci com Laura até a portaria. E nós esperamos. Esperamos. E esperamos... mas o que nós não sabíamos naquela noite, é que a minha mãe nunca mais voltaria.
Ligações, mensagens... tudo fora mandado para a minha casa, para o celular da minha mãe, e então eu tive de dormir no orfanato onde Laura morava. No dia seguinte, na manchete do jornal, estava escrito: “Mulher assassinada perto de edifícios...”, e eu pulei o resto dessa parte, mais meu mundo desabou quando eu li: “Informações nos dizem que o nome dessa mulher é Escarllate La Torche.”. Sim.
Essa mulher era a minha mãe – pensei. Desde esse dia, tive de viver no orfanato da minha amiga, por que eu não tinha parentes. Fui me tornando mais vazia, vazia... nunca deixei de sorrir, mas ninguém disse que esses sorrisos eram totalmente felizes. Em uma época, tive de tomar medicamentos antidepressivos, mas logo os larguei. O problema foi que eu fui me metendo em mais confusões em que devia. Se alguém olhasse para mim, eu já partia pra cima, e se não fosse Laura pra me apoiar, com certeza não estaria viva hoje.
E quando eu fiz quatorze anos, eu e Laura estávamos conversando pelas ruas quando um enorme cachorro nos atacou. Lembro-me de poucas partes, já que eu e Laura fomos arremessadas contra uma parede pelo cão, mas sei que foi nesse dia em que descobrimos ser semideusas.
– Hey, Constancy! Tá viajando de novo? – me perguntou Laura, que estava sentada ao meu lado na areia da praia do Acampamento Meio-Sangue, lugar para semideuses passarem as férias ou o ano todo. Sim, filhos de deuses.
– Estou só pensando – disse rapidamente, enquanto Syrah – filha de Dionísio – e seu irmão, Salles, se aproximava.
– Oi Mini Cabeça de Algas – Salles me cumprimentou, e eu acenei com a cabeça.
– Oi cacho de uvas. Oi Syrah – eu os cumprimentei e comecei a me levantar – Gente, acho que eu vou dar uma cochilada OK?
– Tá bom – ela disse, e eu fui me virando. Escutei Syrah dizer:
– É aquela época, certo?
E depois disso eu sai correndo para o chalé de Poseidon. Sim, eu era filha de Poseidon, melhor amiga de Laura, que é filha de Ares. Sou irmã de Percy Jackson – o grande herói, que era namorado de Annabeth, irmã de Lilith, melhor amiga de Dimitria, filha de Zeus, que não gostava de Katy, que mal suportava Paul, filho de Hermes, que era melhor amigo de Marcel, filho de Apolo, que era irmão de Felipe, Melanie e Emma, que recebera uma benção de Athena, e ela se divertia conosco em caçoar de Robert, filho de Íris, que atormentava LG, filho de Hipnos, que nem percebia quando dormia na fogueira quando Connie, uma insuportável filha de Hefesto, com sua irmãzinha chamada Domenick, que ficavam se achando para os filhos de Hermes chamados Squirrel e Antonio, que eram irmãos das cobras Naja e Aaminah – mais conhecida como Minah.
Quase ninguém ali se suportava, e, principalmente agora nas férias que quase todos os campistas tinham ido embora e só tinham sobrado uns trinta e cinco, trinta e seis...
Assim que cheguei ao chalé de Poseindon, me atirei sobre minha cama de solteiro e enterrei minha cabeça no travesseiro branco azulado. Nem havia percebido que Percy estava ali, e nem teria percebido se ele não tivesse tossido.
– O que aconteceu? – ele me perguntou.
– Nada bobão... eu... acho que eu tenho que superar o fato de minha mãe ter ido embora – eu disse com minha voz vacilando aos poucos.
Senti Percy se sentar ao pé da minha cama.
– Eu também acho mais saudável você ser mais... Mini Cabeça de Alga e menos Carinha de Cachorrinho Molhado que Caiu do Caminhão de Mudança – ele disse. Ter um irmão como Percy era engraçado demais. Mas ele me entendia, já que ambos éramos avoados e bobões.
– OK Percy. Eu vou dormir – eu disse, empurrando ele pra fora da minha cama.
– Ai!, que delicadeza maninha... durma bem! – ele disse fitando o nada, e ficou ali, olhando pra parede.
– Ér, Percy... – pigarreei – Agora é a hora em que você diz: “Ah, eu não vou te incomodar e nem vou olhar pro nada!”, e ai você sai pela porta e eu durmo!
– OK, então... se é assim que minha maninha quer... – ele resmungou, saindo do quarto. Sorri pra porta que nem uma bobona, e de repente meu chalé foi invadido pela filha de Apolo mais feliz do mundo.
– Oi Stell – eu disse, e ela abriu um sorrisão. Sentei-me na cama e ela pulou do meu lado e... bem, a cama quebrou.
– Vish... eu vou chamar os filhos de Hefesto daqui a pouco – e ela começou a rir. Olhei com uma cara do tipo: “Hein?” e ela fez um: “Oh!!!”.
– Eu esqueci de contar a piada primeiro! – e ela começou a rir de novo. Eu fiquei ali, encarando aquela louca, tentando achar qual era o problema dela. Ela simplesmente se levantou e foi embora, me deixando no vácuo e com uma cama quebrada.
Então desisti de dormir, até por que eu tinha que dar um jeito na cama depois, e eu não estava a fim naquele momento, então fiquei com o meu short jeans tirei meus chinelos verdes e coloquei a parte de cima de um biquíni azul, com as bordinhas enfeitadas por florzinhas verdes. Soltei meu cabelo do rabo de cavalo em que ele estava preso e balancei a cabeça, como o minha pégaso faz. Ela é num tom cor caramelo e sua crina, assim como os pelos do seu rabo, é num tom de marrom.
Sai do meu chalé e alguns garotos de Apolo começaram a assoviar, outros a me chamar de “Gatinha...”, mas eu nem me importei. Corri para a água da praia e quando menos percebi, um monte de pessoas já estavam dentro dela. Foi a maior confusão, por que era gente molhando um, enterrando o outro na areia, um nadando aqui, puxando meu pé acolá... a parte mais engraçada foi quando, sem querer mesmo, foi quando Charlie e Marcel estavam brincando de jogar areia um no outro, e sem querer foi parar bem. No cabelo. Da Laura. Então, dá pra imaginar o que aconteceu. A Laura se levantou, tirou toda a areia do seu corpo, rasgou a blusa básica que usava e ficou só de biquíni preto com a sua calça jeans. Ela tirou os All-Star do pé e andou em direção a Charlie primeiro. Ele sabia que nem adiantava correr, por que ela iria pegar ele de qualquer jeito.
Ela o puxou pela orelha e todo mundo que estava em silêncio assistindo a cena começou a rir. Nem eu pude aguentar. Meus cabelos estavam molhados por que eu queria que eles estivessem, por que se eu quisesse, eles não estariam molhados. Fui um pouco mais para o fundo da água e comecei a brincar com peixes que passavam por ali, de boa. Sorri bobamente e depois submergi. Senti que aquele era o meu lugar.
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