Nossa Primavera - Short Fic
3 Crescendo
Notas iniciais
Acordei de um sonho com a minha mãe, encontrando a cama vazia. Meu coração disparou em um claro sinal de pânico. Sempre tinha uma sensação ruim ao acordar sem ela na cama.
—Isa?- Chamei baixinho.
Andei pé ante pé pelo apartamento, tentando ouvir algum movimento. Quando estava passando pela porta do quarto da nossa filha, vi uma luz suave vindo da porta entreaberta. Abri a porta devagar, e me deparei com uma cena que me fez ficar parado por longos minutos no umbral da porta. Ela estava sentada na cadeira de balanço no canto do quarto, enquanto acariciava a barriga de sete meses e cantava baixinho.
Dorme menina
Que eu tenho o que fazer
Lavar e engomar
A roupinha pra você
Desce Tutu
De cima do telhado
Vem ver se essa menina
Dorme um sono sossegado
(Bia Bedran)
—Amor? – Ela virou o rosto em minha direção. –Você não consegue dormir?- Ela negou com a cabeça.
—Não acho uma posição confortável, e eu não queria te acordar. – Andei até ela, cheirando seus cabelos.
—Vem, eu vou te aconchegar.
—Está tão bonito não está? – Olhei ao redor do quarto, que tinha sido pensado em cada detalhe por ela. As paredes pintadas de azul céu com toques de cor de rosa e amarelo. Pequenas nuvens desenhas por mim em uma das paredes. Nuvens com grandes sorrisos, derramando pequenas gotas de água. A cortinha de um branco suave, que ondulava levemente com a brisa. O berço centralizado, com uma roupinha de cama combinando. As luzinhas penduradas no teto. Aquele quarto nos refletia. Lembro bem de quando montei o berço, ouvindo suas risadas sempre que parafusava algo errado. Da tarde em que pintamos as paredes, e como ela me observava desenhar as nuvens sentada nesta mesma cadeira. De sairmos para escolher roupinhas, e eu só conseguir me imaginar com ela nos braços.
—Está! Não vejo a hora de ela chegar. – Acariciei sua barriga. — Ela está inquieta hoje. -Me abaixei, encostando a boca em sua barriga- Filha, vamos deixar a mamãe dormir? – Senti suas mãos em meus cabelos. – Ela está cansada, e já está na hora de você dormir mocinha. Vem, vamos colocar você na cama.
Ela levantou da cadeira, me oferecendo a mão. Caminhamos juntos até nosso quarto. Coloquei-a deitada na cama, colocando travesseiros para apoiar suas costas.
—Está melhor assim?
—Sim! – Ela suspirou, enquanto se afundava naquela montanha de travesseiros. Beijei sua testa, enquanto acariciava seus braços. Logo ouvi o barulho suave, que indicava que ela tinha caído no sono.
Cantei baixinho:
Pra você eu espero ser uma voz
Uma luz
Um momento de paz
Pra velar seu sono
De você eu vou receber
A razão de viver
(Roupa Nova)
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—Cheguei! – Ouvi seus passos pelo corredor. –Como foi seu dia?- Ela perguntou enquanto adentrava a cozinha e beijava minha nuca.
— Terminei de pintar um quadro que tinha sido encomendado, fui até o centro cultural, depois dei uma passada na tecelagem, e voltei para a casa. E o seu?
—Cansativo. Minha barriga está pesando e tenho sentido dor nas costas. — Senti suas mãos adentrarem minha camiseta, e suas unhas curtas arranhando minha barriga. Desvencilhei-me do seu abraço, com a desculpa de ir até a geladeira.
—Por que você não toma um banho, enquanto eu termino o jantar? – Ela me olhou com olhos semicerrados, o semblante magoado.
—OK. – Enquanto ela ia em direção ao banheiro, eu parei o que estava fazendo e respirei fundo. Estava difícil me controlar.
Enquanto punha a mesa, estranhei sua demora. Ela nunca levava tanto tempo assim no banho. Andei até o banheiro. Ao chegar à porta, notei um choro baixinho. Meu coração disparou.
—Isa? Ta tudo bem? A dor nas costas piorou? – Ela me deu as costas.
—Está- Me respondeu com a voz embargada.
— O que foi? Por que você está chorando?
—Não é nada, já vou sair do banho. – Todas as vezes que eu a via chorando, meu coração sempre se apertava. Por menor que fosse o motivo, ver ela triste sempre me despedaçava. No começo da gravidez, seus choros eram recorrentes. Seja por que ela não conseguia mais colocar seu vestido preferido, ou por que estava assistindo um desenho animado, ou por eu me recusar a fazer pipoca doce em uma madrugada qualquer. Suas lagrimas sempre agitavam um pedacinho de mim. Sem me importar, adentrei o Box do chuveiro, pegando seu rosto nas mãos.
—Me diz o porquê você está assim? – Ela abaixou os olhos para o chão.
—Você não me toca mais... — Olhei para ela sem entender. Seu rosto corou e ela desviou o olhar. -Você não me procura mais, não me beija mais. Isso tem me agoniado. Eu sei que meu corpo mudou muito com a gravidez, e eu não me sinto atraente. Mais eu sinto sua falta. Sinto falta dos nossos momentos juntos, de fazer amor com você. – Seus olhos estavam pesados de lagrimas.
—Você é a coisa mais linda Isabela! Para mim, saber que você carrega nosso anjo, é mais um motivo, fora os outros milhões para eu te admirar. Eu tenho te negligenciado, por que eu não quero te pressionar, ou te machucar.
—Você não vai me machucar!
— Faz muito tempo que eu não toco você e minha fome só cresce cada dia mais. –Beijei seus lábios, roubando seu fôlego. – Eu amo você, eu queimo por você. Você sempre foi à única mulher que mexeu comigo. Eu desejo você, independente do seu corpo. Você sempre vai ser a mulher mais linda para mim.
—Eu quero você Tiago. Muito! Não consigo mais pensar em nada, que não seja nos dois juntos de novo. Só que quando eu tento você me rejeita!
—Amor eu só não quero passar do limite com você!
—Mais eu quero! Quero! – Duas lagrimas grossas rolaram pelo seu rosto.
—Vem vamos nos secar. Não quero você pegando friagem. –Me enxuguei, tirando as roupas molhadas e jogando no cesto. Ajudei-a se secar, e á envolvi em um roupão. — Vamos para a cama.
Ao chegar a nosso quarto, fiz com que ela se deitasse na cama, ajudei ela a tirar o roupão e me juntei a ela. Beijei seus lábios famintos por seu gosto, toquei seu rosto, fiz carinho em sua barriga. Beijei seus seios, entre suas coxas, deixando de lado toda a minha preocupação, eu só queria ama-la.
Suspirei em quanto aninhava seu rosto no meu pescoço.
—Senti muito a sua falta.
— Eu sei, eu também senti demais a sua.
“O amor calcula as horas por meses, e os dias por anos; e cada pequena ausência é uma eternidade”. John Dryden
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