Nossa Música
14 Eu aprendi a viver sem você
Notas iniciais
“EMMA”
Como havia prometido a Regina, voltei a Storybrooke na semana seguinte para vê-la. Mas vejam que surpresa, ela não estava lá. Ruby me contou que elas mal haviam conversado esses dias, sabia apenas que tinha viajado com Cora e não teve a oportunidade de se explicar melhor. Não demorei muito e logo voltei para casa, já que o motivo da minha vinda não estava.
Nas três semanas que se seguiram eu fiz o mesmo percurso, esperei na pensão tentando não pensar no pior, ate que em uma dessas tentativas acabei esbarrando com Cora. Ela me perguntou o que eu estava fazendo ali, mas seu olhar não era de curiosidade, ou de raiva, ela carregava junto à pergunta um pequeno sorriso, como se aquele gesto dissesse “Eu ganhei”. Não consegui formular uma resposta concreta e tudo o que eu me lembro foi da sua frase, a frase que demoraria a sair da minha cabeça, a mesma frase que tanto me tiraria noites de sono, trazendo consigo os pesadelos, o medo que nunca tive, a insegurança de seguir em frente sem quem eu tanto prezava, quem tanto amava.
“Você não vê que depois de todas essas semanas ela não voltará? Ela não quer se prender a ninguém, ela quer ter um futuro, um futuro com um marido, filhos, uma família típica, coisa que você não pode dar. Ela preferiu ficar onde viajamos, assim concluiria o ensino médio com mais foco, sem você pra atrapalhar. Garota trouxa, você só foi um brinquedinho Swan, um brinquedo descartável, digamos assim. Ela te usou, enjôo e jogou fora. Por que é tão difícil de você entender?”
“Porque eu não acredito. Isso não passa de uma mentira, tudo o que sai da sua boca não passa de mentira, você é uma mentira, Cora. O que eu e Regina falamos uma pra outra era verdade, a pura verdade, eu via isso em seus olhos, do mesmo jeito que vejo você blefando aqui, agora.” Foi tudo o que eu precisei dizer para lhe irritar, ela continuou retrucando, mas não dei ouvido, deixei-a falando sozinha e me retirei.
Depois de todas aquelas sílabas pronunciadas, depois de todas aquelas palavras fixarem no meu subconsciente, eu continuei firme, continuei esperando-a todos os sábados no mesmo quarto onde havíamos dado nosso primeiro beijo, no quarto em que tantas lembranças boas vinham à tona.
Por cinco meses eu fiz aquele percurso. Cinco meses foi o que precisei para acabar o estoque de forças do meu corpo. A última vez que pisei naquele quarto foi exatamente a última semana de novembro. Como todas as outras vezes eu observava atentamente as ruas, o movimento de carros, as pessoas caminhando sem pressa, sem pensar no amanhã. Vi Mulan e Aurora passeando de mãos dadas, pareciam tão felizes juntas, percebi pelo brilho nos olhos que cada uma possuía quando se olhavam, era como se o amanhã não importasse para elas, era como eu queria está naquele momento, junta de quem eu tanto ansiava.
Sem perceber eu estava com a cabeça encostada na lateral da janela com o rosto molhado. Chorava. Não só por sua ausência, mas por eu não ter sido forte o suficiente para esperá-la, pois eu sei que não foi sua escolha ir embora, eu sei que não foi sua escolha me abandonar, eu sabia disso, mesmo não sabendo o porquê, eu estava ciente. Eu precisava de respostas, de explicações, mas a única pessoa que poderia responder minhas perguntas era quem mais me odiava, mais me desprezava, era o motivo da sua ida. Eu não tinha nada que fortalecesse-nos, nada que me fizesse ficar de pé, eu queria desmoronar, me esconder, evaporar ou simplesmente dormir.
Ruby aproximou-se e me abraçou. Um abraço acolhedor, como se dissesse “Vai ficar tudo bem”. Meu rosto caiu sem pestanejar sobre seu ombro nu, encharcando-o em cerca de segundos. Ela acariciou meu cabelo, esperou me acalmar para perguntar se eu gostaria de dormir lá, já estava tarde, mas eu não podia aceitar, eu não conseguia. Aquele era o último lugar que queria passar a noite. Logo eu me despedi, agradeci imensamente por ela e Granny ter me recebido todos esses fins de semana de braços abertos. Peguei um taxi e voltei para casa.
No fim do ensino médio prestei vestibular para direito, acabei me saindo muito bem nos resultados, recebi uma carta de aprovação da Universidade de Nova York e não pensei duas vezes em fazer a matrícula. Meus pais ficaram muito felizes, principalmente meu pai, pois eu estaria realizando o nosso sonho.
Colbie Caillat — I Never Told You ♪♫♪
O tempo foi passando e eu não tive notícias da minha Gina, da minha Gi. Já estava na faculdade, eu estava tão contente por ter conseguido conquistar aquilo, mas não o suficiente. Eu queria está comemorando com ela, queria saber se havia conseguido fazer o que tanto queria. Ficaria feliz apenas em saber como estava, apenas de ouvir sua voz, a mesma voz que tantas vezes discutiu comigo, discussões que só fizeram aumentar mais ainda o que sentíamos uma pela outra, pois juntas éramos maiores do que qualquer um, éramos mais fortes do que qualquer ameaça, eu sentia falta disso e como sentia...
Quantas e quantas vezes eu deitei na cama, me virava de um lado para o outro sem conseguir dormir e tudo que eu conseguia pensar, tudo que eu conseguia sentir era seus beijos no meu pescoço, sua mão acariciando a minha barriga e dizendo o quanto é definida, sua boca encontrando a minha, nossas línguas duelando, nossos corpos se encaixando perfeitamente, seus olhos encontrando os meus, sentia falta ate de sua respiração cruzando com a minha. Quando ela disse que me amava foi como ouvir Once Upon a Dream da Lana Del Rey, uma voz de anjo no corpo de uma garota, uma voz que irradiava qualquer lugar, que encantava qualquer um.
Só conseguia dormir quando vestia seu moletom, o mesmo que fora de Henry, pai de Regina. Ele de alguma forma acalmava meus soluços e me confortava. Quando eu o vestia era como se ela ainda estivesse ali comigo, seu cheirinho permanecia lá, as maçãs permaneciam vivas na roupa, aquele tecido era como sua pele lisinha roçando na minha, como se estivéssemos a um passo do reencontro, mas esse passo nunca foi dado.
Por que ela não me ligou? Por que ela não deu ao menos um sinal de vida em todos esses anos? Como ela conseguiu me esquecer tão rápido? As coisas que Cora me falara tornaram-se as respostas das minhas perguntas, era o mais próximo que eu possuía de uma justificativa e era nisso que começaria a acreditar.
Pensei que essa dor duraria alguns dias, quem sabe meses, mas não, durou cinco anos. Cinco anos de pura tortura. Eu havia mudado, minha própria mãe falou isso pra mim e eu sabia. Fiquei distante, minha facilidade de fazer amigos havia acabado, daqueles cinco anos de faculdade a única pessoa com quem eu conversava era com a minha colega de quarto, Megan. Falávamos o essencial, sobre a faculdade, festas, às vezes eu perguntava algo sobre seu curso e ela sobre o meu, mas nada demais.
Fiquei com vários garotos e garotas nesse período. Pode ter certeza que não fazia isso por prazer, fazia isso por necessidade, por precisar achar alguém capaz de me fazer esquecê-la, alguém que conseguisse ao menos me confortar.
Megan me convidou à uma festa, normalmente eu não iria, mas eu precisava relaxar um pouco, já faziam alguns meses que não saía do quarto a não ser para assistir as aulas. Foi nessa festa que eu conheci alguém que me despertou interesse depois de tanto tempo.
Seu nome era Joana, era uma morena da minha altura, magra e ao mesmo tempo bem feita, o rosto bem afilado, nariz arrebitado, seu cabelo castanho batia no meio das costas. Eu estava atacando a comida quando ela se aproximou. Começou a puxar vários assuntos diferentes, não podia negar que ela sabia conduzir uma boa conversa, não demorou muito para me chamar a um canto mais reservado. Foi no jardim onde aconteceu nosso primeiro beijo, não esperava sentir algo, mas eu senti. Foi como se saísse faísca no meio da escuridão, no meio de uma caverna totalmente escura onde não sabíamos onde pisar, com medo das próprias paredes e da própria sombra.
Joana foi a pessoa que me colocou nos eixos, foi quem me ajudou naquele momento crítico, que conversou, que me aconselhou, foi quem me ajudou a voltar a ser quem eu era, foi para ela que contei meus problemas, pois além de ser minha namorada há quase quatro anos, ela era acima de tudo minha amiga, uma grande amiga. Eu estava feliz com ela, eu estou feliz com ela, Joana me faz sentir bem, me faz sentir amada e ter Regina de volta já não é mais uma questão considerável, já está fora de cogitação.
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