Nossa Música
23 De volta ao passado
Notas iniciais
Emma e Regina passaram o restante daqueles dias se organizando para a viagem que fariam no fim de semana. A morena não queria passar mais que dois dias na cidade, não queria que de alguma forma sua mãe fosse capaz de interferir na sua felicidade mais uma vez. Podia ser loucura da sua parte pensar assim, já que Regina é uma mulher com a vida feita e com uma família ao seu lado, mesmo assim continuava temendo o que sua mãe era capaz de fazer.
Se ela pode ter mudado? Sim, ela pode. Depois de todos esses anos o mínimo que a mulher deveria fazer era mudar, dar uma chance para si mesma, rever todos os erros e tentar concertá-los.
O maior erro de Cora não foi colocar medo na cidade, ameaçar as pessoas, mas sim proibir a filha de ser feliz. Proibir Regina de ter uma vida como a de uma adolescente normal, proibir a morena ter a companhia de quem tanto a amava, de quem tanto ela amava.
Regina evitava pensar no que poderia acontecer nesse curto período em que estaria na cidade, mas evitar esse pensamento era praticamente inevitável.
Os quatro se encontravam na sala de embarque: Emma, Regina, Joseph e Addison. A ruiva já sabia toda a história da amiga, sobre a relação entre ela e sua mãe, sobre sua mãe e Emma e sobre tudo que Regina teve que enfrentar. Addison sempre mostrou interesse de conhecer a cidade da amiga, já que o máximo que havia chegado fora em Nova York, aproveitando a oportunidade Regina a convidou para ir junto. Joseph ainda não sabia ao certo o motivo daquela viagem, só sabia que iria visitar a cidade onde sua mãe crescera.
Não demorou muito para que a chamada do voo fosse feita. Ambos se encaminharam para o avião e tomaram seus respectivos lugares. Um senhor estava sentado na janela, Emma sentada ao seu lado e Addison ao lado da loira, Regina estava na fileira ao lado da sua, exatamente uma poltrona mais a frente com Joseph.
Emma e Regina mal haviam se cumprimentado devidamente, apenas se abraçaram quando a loira chegou e as encontrou na sala. Nenhum beijo foi selado, os olhares que se cruzavam era uma mistura de ansiedade com medo.
— Você parece nervosa – falou Addison.
— Um pouco – respondeu Emma olhando para a morena que conversava com seu filho.
— Você gosta muito dela – a ruiva falara enquanto acompanhava o olhar da loira que apenas confirmou com a cabeça.
— Eu gosto muito dela pra vê-la passar por isso mais uma vez – completa – Regina não está preparada.
— E você está? – pergunta.
— Não – respondeu desviando o olhar para suas próprias mãos.
— Mas você desistiria dela?
— Jamais – olhou para a ruiva – Principalmente agora que eu sei onde posso encontrá-la, sei onde fica sua casa, sei onde fica seu trabalho, onde fica a escola de Joseph... Agora estou nutrida de informações – sorriu.
— Você acha que isso é momentâneo?
— O quê?
— Isso entre vocês duas – Emma a olha confusa – Que talvez vocês só estejam recuperando o tempo perdido, que vocês sentem mais saudade uma da outra do que propriamente sentimento.
— Você – a loira tenta criar coragem para perguntar – Você é afim dela?
— Por Deus Emma, não! – responde de imediato – Só estou te perguntando isso porque já aconteceu algo parecido comigo – a loira continuava olhando-a como se esperasse por uma continuação – Eu tive um namorado na faculdade, nós nos gostávamos muito, ate que no período de férias ele desapareceu. Eu achei que ele tivesse mudado de campus, talvez tivesse com outra e não tinha coragem pra falar, mas Regina sempre discordou, achava que tinha um bom motivo para esse sumiço – olhou para a pequena janela do avião observando a paisagem – Quando voltamos de férias, os professores se lamentaram pela morte de um dos seus alunos e quando eles falaram o nome do Mark, eu realmente não consegui acreditar. As pessoas me olhavam com dó, eu fiquei sem saber o que fazer – voltou o olhar pra Emma – E desde então eu sinto muita falta dele, talvez o amor tenha ido, mas a saudade ficou e continua aqui.
— Eu sinto muito – a loira fala percebendo o quanto entrar naquele assunto afetou Addison.
— O que eu quero dizer é: talvez vocês sintam mais falta uma da outra do que propriamente amor.
— Não – Emma balança a cabeça sorrindo – O que eu sinto por ela é a única certeza que eu tive em anos – conclui – Eu confesso que desisti dela. Eu desisti porque pra mim era mais fácil seguir em frente, mas eu estava errada, eu estava completamente errada. Quanto mais eu tentava esquecê-la, mais eu lembrava e aquilo estava me matando – voltou seu olhar para a morena que ainda conversava com seu filho – Você soube o que aconteceu com ele, eu não sabia de nada, não sabia onde ela estava. Doía saber que eu nunca teria uma resposta, doía saber que eu jamais a veria, jamais tocaria nela novamente – continuou – Talvez a diferença entre nossa situação seja que você aceitou e compreendeu a perda, enquanto eu me remoí por muito tempo.
Addison não falara mais nada. A partir daquela resposta a ruiva teve a certeza que Emma amava sua amiga, amava da mesma forma ou ate mais que Regina. Aquilo não era apenas saudade, não era remorso do que não teve, aquilo era exatamente respostas das perguntas que tanto fez a si mesma, perguntas que tanto a martirizou.
Emma e Regina eram como um livro de romance, a cada página era descoberto algo novo, a cada capitulo a história se intensificava e conforme o final se aproximasse, as incertezas surgiriam e junto com elas a certeza que foram feitas uma para a outra.
Ambas afivelaram os cintos conforme a aeromoça instruía, não demorou muito para que o avião decolasse.
Emma endireitou o banco de forma que ficasse confortável para descansar, olhou uma ultima vez para Regina que tinha Joseph encostado em seu corpo, fechou os olhos e acabou sendo vencida pelo sono.
A loira acordou com o toque que sentiu sobre seu rosto. Abriu os olhos lentamente e viu Regina sentada no lugar da amiga. Ambas sorriram.
— Oi, dorminhoca – falou depositando um beijo no canto de sua boca.
— Eu não sou dorminhoca – falou com a voz sonolenta – Eu só estava cansada.
— Eu sei – respondeu ainda sorrindo – Como você está?
— Estou bem e você? – perguntou se virando para olhar melhor sua namorada.
— Estou bem – respondeu – Está com medo?
— Medo? – Regina assente confirmando a pergunta – Nem um pouco, você está?
— Talvez – responde desviando o olhar dos olhos verdes da outra.
— Por quê? – Emma pergunta.
— Porque eu tenho medo de Cora fazer algo com você.
— Isso não vai acontecer – a loira pousa gentilmente sua mão no rosto da morena fazendo com que seus olhares se cruzassem novamente.
— Você não pode prometer isso – segura a mão de Emma e leva ate seus lábios depositando um beijo.
— Eu não posso prometer, mas posso fazer o possível pra evitar ela ou o que ela possa fazer, certo?
— Certo – Regina responde olhando-a e arrumando o cabelo loiro que estava bagunçado.
— Cadê o garoto?
— Está dormindo – responde – pedi pra Addie trocar de lugar por um instante antes de aterrissar, já que não nos falamos direito.
— Já estamos perto?
— Sim – disse – Ruby estará nos esperando no aeroporto.
— Vai ser tão bom vê-la, ver Granny, comer na lanchonete...
— Lanchonete? – Emma assentiu e Regina riu – A lanchonete se transformou em um restaurante, você não sabia?
— Não – balançou a cabeça surpresa – Agora está explicado porque Ruby voltou pra Storybrooke.
— Os negócios vão indo bem.
— Isso é bom, principalmente por ela ter ajudado sua vó a chegar aonde chegou – Emma completa.
— Sim, isso é muito bom – concluiu enquanto encarava os lábios da loira a sua frente.
— Você quer fazer alguma coisa, Srta. Mills? – perguntou percebendo seu olhar castanho direcionado à sua boca.
— Eu quero te beijar desde o momento que eu te vi chegando à sala de embarque – respondeu.
— Eu entendo, tem o Joseph, têm todas essas pessoas – a loira olhou ao seu redor.
— Eu não me importo com essas pessoas, Emma – interrompe – Eu realmente não me importo com o que elas acham e como nós seríamos vistas. Eu só me importo com você e com meu filho, e acho que ele ainda não está preparado pra isso.
— Você tem toda razão – Emma levou sua mão à nuca da mulher e aproximou seus lábios do seu rosto pousando um beijo calmo em sua testa – Não quero que você se preocupe com isso, tudo tem seu tempo.
— Obrigada – aproxima-se da loira segurando seu rosto com uma das mãos e a beija calmamente, mas o contato não demora tanto quanto ambas gostariam que durasse – A gente não pode passar disso – adverte. A loira se afasta e assente em resposta.
Emma levanta o descanso do braço e envolve a morena em um abraço trazendo-a para si. Regina descansa seu corpo no da loira, abraça sua cintura e encosta a cabeça no ombro da outra.
— A gente precisa ir à praia – interrompe o silêncio fazendo a morena sorrir.
— Você lembra da última vez que fomos lá? – pergunta.
— Como eu poderia esquecer? Foi um dos melhores dias que eu tive na minha adolescência – Emma responde.
— Pra mim também – Regina concorda levantando a cabeça e encarando a loira – Só perde para o dia em que você invadiu minha casa.
— Eu não invadi sua casa – adverte – Eu só entrei de mansinho – reformula a frase fazendo a morena rir.
— Se “entrar de mansinho” você quer dizer: ir ate minha casa tarde da noite sem fazer nenhum barulho e quase me matar de susto, ok.
— Tudo bem, talvez eu tenha invadido um pouquinho.
— Um pouquinho seria se você tivesse ido apenas ate o jardim – retrucou.
— Ok, eu invadi sua casa – por fim concordou – mas a invasão valeu a pena, não valeu?
— Você não imagina o quanto – respondeu.
— Ah, eu imagino sim – fechou os olhos deixando as lembranças daquele dia vir à tona – Eu passei muito tempo pensando naquela noite e no quanto valeu a pena cada pergunta que meus pais fizeram e o risco de sermos pegas pela sua mãe.
— Queria ter passado mais tempo com você – disse com tom de tristeza na voz – Aqueles meses que ficamos juntas se passaram tão rápido e acabaram de uma forma tão...
— Não acabou ainda, Regina – interrompeu – Estamos aqui novamente – encarou a mulher que ainda estava em seus braços – Vamos fazer novas lembranças, talvez ate melhor do que o passado poderia nos dar – a morena assentiu concordando com o que Emma falara.
Regina sabia que caso nada daquilo tivesse acontecido elas provavelmente teriam muitas memórias, muitas lembranças boas durante esses dez anos, mas preferiu não supor nada para a namorada. Sabia que a loira falara aquilo para confortar Regina, mas sabia que falara principalmente para se confortar, porque no fundo Emma ainda guardava ressentimento, um fio de tristeza, de abandono, solidão e seja lá mais o que seu desaparecimento causara aquela garota.
A morena observava Emma que agora olhava para um ponto qualquer perdida em pensamentos. Pelo semblante triste que a mulher demonstrava Regina tinha certeza não ser de lembranças boas e sim da decepção que um dia lhe causou. A morena se sentia culpada, mesmo sabendo que nada daquilo fosse sua culpa.
Regina levou suas mãos ao rosto branco da loira, fazendo com que a mesma voltasse sua atenção para a morena.
— Eu estou aqui, Emma – falou.
— Eu sei que está – concordou com o óbvio.
— Não dessa forma – disse – Eu realmente estou aqui e não tenho a mínima intenção de sair ou te deixar ir. Às vezes parece que você espera que a qualquer momento eu suma de novo, mas eu não vou, você não vai se livrar de mim tão rápido quanto pensa – mantinha firmemente seu olhar nos olhos verdes da loira.
— Eu sei que não e eu agradeço todos os dias por isso – sorriu – Mas se fosse você eu não falaria isso senhorita Mills, porque quando você tentar escapar, eu vou te segurar firme. Se você tentar fugir, eu vou te amarrar no pé da cama e farei você lembrar tudo que um dia nós vivemos. Você vai se arrepender de ter cogitado em me deixar e pra se desculpar, você vai me beijar e me amar de um jeito inesquecível, de um jeito que só Regina Mills sabe fazer.
A morena abriu um largo sorriso e com as mãos que ainda pousavam sobre o rosto da loira, Regina a puxou para selar seus lábios.
— Regina, você disse que...
— Foda-se – interrompeu antes de voltar a beijá-la.
O senhor que estava no lugar ao lado das duas próximas a janela, nada falou, afinal estava dormindo praticamente desde quando o avião levantou voo. Regina encaixou seus lábios carnudos nos finos da loira. Beijou seu lábio superior e logo voltou para o inferior, mordendo-o em seguida. As duas se beijavam sem se preocupar com quem quer que estivesse olhando-as. Emma segurava em sua cintura com uma das mãos e com a outra afagou seus cabelos puxando-a mais para si, dando inicio a um beijo que travava uma guerra com suas próprias línguas.
Ambas estavam sentadas em suas poltronas, porém, bastante próximas. A vontade que Regina tinha era de jogar suas pernas por cima das da namorada, quem sabe ate sentar em seu colo, mas não podia, não ali naquele avião no meio de toda aquela gente.
Emma percebendo o quanto o beijo se tornara urgente, resolveu tomar frente da situação deixando aos poucos a calma se estabelecer entre elas. Afastou-se um pouco para olhar a morena que se encontrava ofegante. Quando seus olhares se encontraram ambas riram chamando atenção de algumas pessoas.
Regina aproximou-se novamente da loira e deu inicio a um beijo mais calmo envolvendo apenas lábios, beijo esse que não durou muito tempo. Ambas pararam quando perceberam uma silhueta parada ao lado delas. Era Addison.
— Acho melhor vocês pararem – chamou atenção e deu espaço para que Regina olhasse a sua frente.
Joseph estava olhando as duas, mas logo sua atenção foi dirigida para a aeromoça que avisara para voltar aos seus respectivos lugares, pois logo o avião aterrissaria.
A morena não soube identificar a expressão de seu filho. Se ele tinha visto elas se beijando? Ela tinha certeza disso. Mas e agora? A conversa que havia decidido adiar com o garoto teria que acontecer antes do esperado. E quando seria o esperado? Nem ela sabia responder isso.
Regina entrou no modo automático, levantou-se sem dizer uma palavra, se dirigiu ao seu lugar ao lado do filho, sentou-se e olhou para o garoto que estava com semblante calmo.
— Está tudo bem? – perguntou recebendo um sorriso e um sonoro sim.
Por mais que o garoto não houvesse demonstrado nada preocupante, Regina se manteve tensa, mas preferiu ter uma conversa quando estivessem apenas os dois, em um lugar mais calmo. Aproximou seu rosto da criança e depositou um beijo em seus cabelos, fazendo-o abrir um sorriso ainda maior, ato que amenizou sua preocupação naquele momento. Afivelou seu cinto e ajustou o do garoto. Respirou fundo ao perceber que o avião logo aterrissaria naquela cidade. Na sua cidade.
♫♫♫
Ambas andaram em direção à sala de desembarque. Emma nada falou sobre a saída repentina da morena da poltrona. Foram de encontro à longa esteira que se encontrava cheia de bagagens. Regina não demorou muito para pegar sua mala. Voltou seus olhos para a multidão que se encontrava atrás do corrimão, buscou a amiga pelos olhares e expressões. Teve a certeza que encontrara Ruby no momento em que seus olhos fixaram o cartaz mais desbocado que já lera “REGINA E SUA BUNDA”. A morena abriu um largo sorriso ao ver a mulher que segurava o cartaz.
Ruby de agora ainda a lembrava muito da Ruby de anos atrás. Seus cabelos ainda continuavam longos, mas suas poucas mexas vermelhas haviam desaparecido. Suas roupas estavam de certa forma mais civilizadas, seu batom cor de sangue ainda continuava em seus lábios, seu sorriso continuava radiante.
Emma se virou a tempo de ver a morena andar rapidamente de encontro a amiga que a envolvera em um abraço cheio de saudade.
— Regina e sua bunda, sério? – perguntou incrédula.
— Regina, você sabe muito bem que essa parte do seu corpo é tão grande que é capaz de ter vida própria – respondeu.
— Você continua louca – a apertou mais entre seus braços.
— E você continua gata – retrucou.
— Interrompo? – Emma aproximou-se.
— Loira?! – Ruby quase gritou desviando sua atenção para Emma – Isso é sério? Está tendo encontro de ex-alunos e não me avisaram ou é exatamente o que estou pensando?
— E o que a senhorita Lucas está pensando? – Emma retruca abraçando a amiga que quase pulou em seu pescoço.
— Que vocês continuam juntas – falou sorrindo se afastando da loira e encarando as duas – Acertei não acetei? – Regina assente em resposta causando alvoroço na amiga – Finalmente meu otp é endgame – conclui. Emma faz um olhar de quem não entendeu para Regina e a mesma da de ombros em resposta – Cadê seu filho? Eu estou louca para conhecê-lo!
— Aqui está – ouve uma voz atrás de si chamando sua atenção. Ruby prende seus olhos por alguns segundos na ruiva que parou próxima de si segurando a mão da criança.
— Iiiiihhh, quem não conhece pensa ate que mudou de opção sexual – Emma interrompe o quase clima que se estabeleceu.
— Tem muitas coisas que eu preciso colocar em dia com vocês – virou-se para encarar o casal – e vocês igualmente – continuou.
— Prazer, Addison Montgomery – a ruiva estendeu a mão para a morena – mais conhecida como Ruby substituta – completou – Sou amiga de Regina desde o ensino médio e ela sempre me falava da Emma, de Storybrooke, de você – sorriu – Então você é a famosa Ruby?
— Sim, Ruby Lucas. Fico feliz em te conhecer, já o prazer, bem, só vem depois.
— Ruby! – ouviu as amigas falarem em uníssono fazendo-as rirem.
Ruby deu uma ultima olhada para a ruiva e voltou seu olhar para o garoto.
— Então você é o pequeno grande homem da família – fala fazendo o garoto sorrir – Você é lindo, quando alcançar a maioridade ligue para mim, sua mãe tem meu número.
— Ruby, ele é uma criança – Regina advertiu.
— E daí? Uma hora ele vai crescer, não é? – perguntou olhando para o garoto que assente em resposta fazendo-as rir – Qual seu nome, menino bonito?
— Joseph – falou estendendo a mão como a mulher fez a pouco para a ruiva. Ruby sorriu com a iniciativa do garoto – e o seu?
— Ruby – respondeu – No momento é tia Ruby pra você.
— Eu gostei! – falou – Tipo tia Addie.
— Exatamente – voltou os olhos para a ruiva que a observava – Tipo tia Addie.
— Acho melhor nós irmos antes que vocês comecem a fazer coisas indevidas – Regina interrompera os olhares das amigas.
— Concordo – Emma afirma.
— Mamãe – Joseph chamara atenção da morena – o que são coisas individidas? – perguntou tirando risos de Ruby e Addison, enquanto Regina calmamente abaixou-se a altura de seu filho.
— Coisas indevidas, querido – respondeu tentando levar a pergunta a sério.
— São coisas que não se pode fazer na frente dos outros – Emma completa abaixando-se ao lado de Regina.
— Tipo fazer coco? – queria uma resposta mais completa.
— Tipo fazer coco – a loira afirma – Você não pode fazer essas coisas na frente dos outros, não é mesmo? – Joseph assentiu.
— Titia Addie e titia Ruby queriam fazer coco na nossa frente? – perguntou com as sobrancelhas arqueadas como a mãe, mais uma vez tirando gargalhadas das duas, dessa vez nem Regina conseguiu segurar.
— Espero que não – Emma responde – mas que elas são maluquinhas elas são – conclui tirando um riso da criança.
Ainda sorrindo, Ruby se vira e pede para que as mulheres a acompanhassem ate o estacionamento onde se encontrava seu ecosport 2014 vermelho. Guardaram as bagagens no porta-malas, se acomodaram em seus lugares e seguiram viagem.
Storybrooke estava situada no interior do Maine, cerca de vinte minutos de distância da capital, não demorou muito para Ruby estacionar em frente a pensão da avó. Tanto Emma quanto Regina conhecia bem aquele lugar, mas as diferenças eram nítidas. O lugar estava mais despojado, mais elegante, a fachada já não parecia mais com uma pensão e sim com um hotel.
Adentraram o local e se depararam com Granny na recepção. A senhora já havia sido avisada da visita que teria, mas não acreditava que Regina realmente voltasse. Não conseguia crer que depois de tudo aquilo, a morena ainda fosse pisar naquela cidade, mas não só estava pisando como havia trazido alguém muito especial junto a ela. Emma.
A senhora deu seu mais sincero sorriso e andou rapidamente em direção a Regina, aquela mulher foi por muito tempo mais do que apenas uma hóspede. Regina era quase da família, era como uma neta, uma filha. Não ia muito longe pra descrever com as mesmas palavras a loira. Granny viu de perto o começo daquele romance que não dava um mês para terminar apenas como uma paixão passageira, mas estava errada, completamente errada.
Granny não só presenciou o inicio da relação entre as duas como também o sofrimento que passaram. Pôde sentir orgulho da forma como ambas se defendiam e enfrentavam Cora, pouquíssimas vezes fraquejaram, mas nunca demoravam para se reerguerem.
A mulher abraçava forte as duas, sorria e balbuciava algo como “eu não acredito que são vocês mesmas”, “não acredito que vieram”, “pensei que vocês fossem as últimas pessoas que eu veria na vida”. Dizia que queria saber de tudo que havia acontecido nesses últimos anos, elogiou ambas por estarem tão lindas e radiantes. Apaixonou-se por Joseph, fazendo Regina rolar os olhos como se tivesse a absoluta certeza que o garoto seria mimado ate o dia que fossem embora e não pôde negar uma pontada de ciúmes que teve ao ser de certa forma “trocada” pelo filho, pensamento que fez ela mesma rir.
Ruby chamou ambas para mostrar os quartos, mas antes que Regina seguisse caminho, Granny segurou seu braço a impedindo de ir. Emma e Addison acompanharam Ruby, ambas segurando a mão de Joseph. A loira estava tão encantada com as mudanças da pensão que nem notou a ausência da namorada.
Granny esperou uma distância significativa das mulheres para que pudesse falar com Regina em particular, assunto ao qual a morena fora tratar ali.
— Regina – a senhora soltara seu braço – você sabe que eu fui o mais próxima que sua mãe teve de uma amiga, não sabe? – a morena assente sem entender onde Granny queria chegar – Por muito tempo esse termo “amiga” não vinha com o real significado para nós, sua mãe e eu nos afastamos quando seu poder subiu a cabeça. Desse tempo em diante a única coisa que fiz foi dar bronca nela e por algum motivo ela me escutava, ate que chegou um momento que ela não o fez. Cora só escutava sua própria voz e seu próprio pensamento. Sua mãe chegou ao ápice da loucura, Regina – a morena mantinha seus olhos e seus ouvidos atentos ao que a senhora falava – aconteceu muitas coisas, coisas ruins, coisas de certa forma boa. Parece que depois de todos esses anos ela voltou a si.
— Eu duvido muito isso ter acontecido – interrompe.
— Eu também duvidaria se não a tivesse visto e nem ouvido tudo o que me contara – retrucou – ela me pediu, na verdade implorou para que você fosse vê-la ainda hoje.
— Não me leve a mal, mas eu acabei de chegar, são cinco horas da tarde, um voo de Seattle pra cá não é menos de seis horas e eu estou exausta, cansada demais pra discutir com ela.
— Você não precisa discutir. A única coisa que precisa é ouvi-la, acredite – continuou – Aproveite que o horário de visita termina às nove da noite.
— E desde quando precisa marcar horário pra ir à mansão? Ou ela está enfiada na prefeitura?
— Nem um, nem outro – respondeu – Sua mãe não é mais prefeita de Storybrooke e ela não esta em casa.
— E onde está?
— Está na ala psiquiátrica do hospital.
— Ala psiquiátrica? – perguntou incrédula – E você ainda me diz que ela voltou a si – disse com desdém.
— Você precisa vê-la – insistiu – Deixe que de Emma e Joseph eu cuido, já sua amiga pode deixar que Ruby toma conta dela.
Se o momento não tivesse instalado tanta pressão na morena, provavelmente teria rido do que a mulher falara da própria neta, mas manteve seu olhar pensativo e antes que pudesse dizer sua resposta, Ruby, Emma, Addison e Joseph haviam voltado.
— Está tudo tão magnifico! – Emma falou se aproximando da morena – você deveria ver.
— Eu vou, você pode me mostrar? – a loira assentiu em resposta. Regina olhou para a senhora como se pedisse licença e subiu as escadas com Emma.
Quando chegaram em frente ao quarto, Regina segurou a mão da loira entrelaçando seus dedos. Aquele quarto foi o mesmo que a morena passara meses se recuperando do acontecido, foi nele que beijou Emma pela primeira vez, mais precisamente contra aquela porta.
Ao adentrar percebeu que a cama com uma cabeceira simples havia se tornado em uma cama box de casal repleta de travesseiros, a simples cômoda fora substituída por um guarda roupa embutido, e uma estante contendo uma TV de plasma. As cortinas que se encontravam sobre a janela chamaram sua atenção, soltou a mão de Emma e foi em direção a mesma, afastando-as e dando luz ao cômodo.
— Eu amo essa vista – falou enquanto a loira andava de encontro à janela.
— Da pra ver quase toda a rua daqui – disse.
— Sim – confirmou – Às vezes eu ficava a tarde toda aqui na esperança de te ver passar só pra te olhar.
— Me olhar? – Regina afirma com a cabeça – Sério?
— Sim, mas depois que descobri seus horários não precisei mais ficar de plantão – completa fazendo a loira rir – Segunda, terça e quinta você aparecia exatamente às seis e meia da manhã chamando por Ruby, dizendo que estava morrendo de fome e não conseguiria sobreviver por mais um minuto sem comida. Na quarta e na sexta, bom, eu não sei, você não aparecia, talvez não sentisse fome.
— Quarta e sexta eram os únicos dias que minha mãe estava menos atarefada e fazia um maravilhoso café da manhã – respondeu.
— Agora está explicado – sorriu olhando a rua – Se eu desse sorte, eu via você a noite com Mulan, Aurora e Ruby – completou.
— Como você sabia de tudo isso?
— Eu te amei antes de admitir pra mim mesma que te amava – respondeu.
Emma se aproximou da morena e a envolveu em um abraço forte, o qual transmitia muito mais sentimento do que o próprio contato. Pousou um beijo na cabeça da morena, afrouxou seus braços sem perder o contato.
— Eu te amei mesmo você namorando o cara mais idiota da escola – Regina riu ao lembrar-se do primeiro dia da loira no colégio e na sua cisma com Killian – Eu bati os olhos em você no primeiro momento que te vi e confesso que puxei aquela mini briga pra ver se você me notava. Eu pensava que o que eu sentia era vontade ter uma amiga, eu queria apenas ser sua amiga. Pelo menos era isso que eu achava – conclui.
— Você nunca me contou isso – falou em um tom de indignação.
— Não contei porque não achei que fosse importante você saber – respondeu – A única coisa que importa é que deu certo, viramos amigas, viramos mais que amigas e chegamos aqui.
— Convencida – deu um leve tapa no braço da loira.
— Eu não sou convencida – falou se fingindo de ofendida.
— É sim – Regina confirmou.
— Só um pouquinho – respondeu puxando a morena, deixando seus corpos colados – Sabe, pensei que eu não ficaria muito bem ao chegar em Storybrooke, mas estou feliz por está aqui com você – beijou a bochecha da namorada.
— Também estou muito feliz – concordou aproximando seu nariz do nariz da loira e acariciando-o – queria ficar no mesmo quarto que você, mas acho que não vai ser possível – sussurrou.
— Você vai ficar aqui com Joseph, eu e Addie vamos ficar no quarto vizinho – explicou – mas depois converso com ela pra trocar de quarto com você depois que Jo dormir – formou um sorriso cafajeste nos lábios – No nosso quarto são duas camas de solteiro, você foi a sorteada com o último quarto de casal, as outras suítes estão ocupadas, se não fosse por Ruby não teríamos mais lugar pra dormir, teria que caber os quatro aqui dentro – passou os olhos pela extensão do quarto
— Isso não seria uma má ideia – retrucou tirando um riso de Emma.
— Não seria má ideia se fossemos só nós duas, mas teríamos publico e isso não me alegra muito.
— Então vamos ter que nos virar em uma cama de solteiro.
— Exatamente – concordou – caso você ache pequeno o espaço, podemos ir pro chão, tem um tapete maravilhoso no nosso quarto – concluiu.
— Você não presta, Emma Swan – riu.
— Pode ter certeza que eu presto e muito Regina Mills – depositou um beijo sobre os lábios da morena.
— Desculpa interromper o momento love de vocês, mas o filho e a amiga gostosa de vocês estão esperando – Ruby adentrara entreabrindo a porta do quarto interrompendo-as.
— Já estamos indo – a morena respondeu sorrindo e em troca recebeu um “anda logo” da amiga. Voltou seu olhar pra encarar a loira que ainda segurava sua cintura – Eu vou precisar sair hoje a noite.
— Mas acabamos de chegar – falou – ainda temos amanhã, deixe pra fazer o que quer que seja pra depois.
— Eu não posso esperar ate amanhã, Emma – retrucou.
— Isso tem alguma coisa a ver com Cora? – recebeu um sim em resposta – E não da pra esperar?
— Eu preciso saber o que ela quer e quero que acabe logo com isso, porque eu não vou conseguir fazer qualquer coisa sem pensar em como será essa conversa.
— Da mesma forma que você não vai conseguir se concentrar em nada pensando em tudo que conversaram.
— Emma...
— Tudo bem, Regina – interrompeu – Você vai ter que vê-la de qualquer jeito, certo? – a morena assentiu – Enquanto você vai falar com ela, eu vou ficar aqui cuidando do garoto e dando uma ajuda a Ruby conquistar Addie, porque pelo que estou percebendo ela está afim e eu quero saber de onde todo esse couro está vindo – Regina gargalhou ouvindo tal observação da namorada e ficou feliz por Emma não ter insistido para que ela ficasse, ao contrário, a loira entendeu.
— Acho melhor nós irmos antes que a intrometida apareça novamente – advertiu dando um último beijo em Emma, segurou sua mão e saiu quarto a fora em direção a recepção, onde seu filho e as amigas as esperavam.
♫♫♫
As horas que passara na cidade ate aquele momento, Regina fez o que tanto tinha saudade de fazer: comer no Granny’s. Emma, Addie, Joseph e Ruby a acompanharam. A loira estava com tanta ansiedade pela comida quanto a morena. Quando seus respectivos lanches chegaram Emma e Regina só faltaram saltar ao ver suas comidas preferidas, ato que fez as outras rir.
Encontraram várias pessoas conhecidas, entre elas Mulan, que abraçou as mulheres com toda saudade que sentia e ficou completamente incrédula quando viu que elas ainda estavam juntas, Emma e Regina preferiam não comentar sobre o tempo que passaram separadas, apenas sorriram e não deixaram de perguntar sobre aurora, pergunta que a fez imediatamente sumir com o sorriso que trazia no rosto.
Aurora havia terminado o relacionamento assim quando o ensino médio chegou ao fim, deu preferencia a faculdade do que o namoro. Por mais que aquela decisão tivesse a deixado triste, Mulan compreendeu. A morena fez faculdade na cidade mesmo, não queria deixar os pais e nem Storybrooke, que apesar de tudo sentia que ali era seu lugar. Aurora voltara todas as férias para rever os pais e não deixava de cruzar o caminho da morena, fazendo tudo o que sentiu reaparecer novamente.
A loira, como todo fim de férias, voltara para a faculdade e depois de alguns meses Mulan recebeu a notícia que aurora engravidara e casaria com o pai de seu filho. Aquilo a deixou completamente decepcionada, as mulheres podiam sentir a tristeza só em olhar a mulher. Mulan resolveu seguir em frente, atualmente namorava com uma garota que a fazia bem. A amiga percebendo o quanto havia tomado do tempo das mulheres resolveu se despedir e desejou que a vissem no outro dia e caso isso não acontecesse, pediu para que elas aparecessem mais pela cidade e lhe dessem noticias. Ambas se despediram com outro abraço, enfim deixando a amiga ir.
Pouco depois, Emma deixou as mulheres conversando enquanto segurou na mão do garoto o levando para fora do restaurante. Sentaram-se no banco do jardim que agora rodeava o local. Apontou para a rua da frente falando que a alguns metros ficava sua antiga casa, a algumas quadras a direita do restaurante chegariam ao seu antigo colégio onde conheceu sua mãe, e se seguisse reto a rua a sua esquerda eles acabariam encontrando o mar. Tal observação deixou o garoto eufórico, pedindo para ir ver o local, Emma respondeu que já estava tarde para isso, mas que no outro dia o levaria para conhecer a tão famosa praia, a praia que tanto trouxe lembranças boas para a mulher.
Quando voltaram para o restaurante deu de cara com Regina abraçando nada mais nada menos que seu ex-namorado, Killian Jones. Imediatamente Emma fechou seu semblante ficando séria, Joseph chamou sua atenção da loira perguntando quem era, a mesma se segurou para não responder “é apenas um idiota qualquer” e trocou por “um antigo amigo de sua mãe”.
Emma ouviu um sonoro “Swan” vindo do homem que como algumas pessoas que reencontraram estavam surpresas ao vê-las juntas. A loira respondeu um “Jones” em resposta sem da muita importância, o homem compreendeu a indiferença da mulher e não demorou muito para sair com a esposa e seus dois filhos.
Regina chamou a atenção da loira dizendo que não precisava ter tratado o homem com tanta indiferença, Emma retrucou dizendo que ela não precisava ter o tratado com tanta simpatia, como se eles tivessem sido grandes amigos. Regina riu da forma ciumenta que a namorada estava agindo, a loira continuou de cara fechada ate a morena arrumar qualquer desculpa para as duas saírem da mesa. Foram em direção ao banheiro e não demorou muito para Regina beijar a mulher que em um passe de mágica – ou beijos – trocou o semblante sério por um largo sorriso, que ao chegar a mesa Ruby não deixou de notar a mudança de humor da loira fazendo com que as mulheres tirassem proveito das duas.
♫♫♫
Era cerca de oito horas da noite. Storybrooke continuava sendo aquela cidade pacata, pouquíssimas pessoas se encontravam nas ruas e esquinas.
Ruby dirigia em direção ao hospital, o lugar que Regina passou a conhecer muito bem na sua adolescência. Apesar da quantidade de casas, apartamentos e comércios terem aumentado, ela ainda reconhecia aquele caminho.
Passaram em frente a sua antiga escola que estava bem maior do que se lembrava, segundo Ruby, o colégio havia crescido e estava sendo cada vez mais reconhecido entre as instituições do estado. Regina ficou feliz ao ouvir aquilo, Neal era um ótimo diretor, sempre fez o melhor para os alunos e profissionais que trabalhara com ele, porém, não podia dizer o mesmo de sua esposa, Zelena.
Aquela “cisma” com a mulher do diretor não era apenas pela ruiva ter chamado sua mãe quando foi vista beijando Emma, sabia e compreendia que o que fez foi errado e que infligiu leis da escola. Mas o azul daqueles olhos nunca a enganou.
Regina conseguia ver no seu o olhar o desejo que tinha pelo poder, de como por diversas vezes tentava passar por cima do marido, por cima das suas regras. Criara leis que os alunos nem se quer sabiam, Zelena buscava prejudicar quem quer que se opusera contra ela seu suposto “reinado” no colégio, ato que muitas vezes lhe lembrava a própria mãe.
Seus pensamentos foram interrompidos no momento em que a amiga avisou que chegara ao seu destino, o hospital. Regina desceu do carro e ficou observando a fachada do lugar, que ate onde ela lembrava não havia mudado muita coisa. Olhou para trás e agradeceu Ruby pela carona, disse que não precisaria esperar por ela, pois não sabia quanto tempo passaria ali. Ruby concordou e disse para a amiga ligar para ela assim quando estivesse de saída, Regina apenas assentiu como resposta e a agradeceu novamente.
Entrou no local. O hospital parecia estar vazio se não fosse pelas enfermeiras de plantão e alguns médicos olhando seus prontuários, um dos que lhe chamou atenção fora o medico que sempre a recebia, Dr. Whale.
O homem estava aparentemente mais velho, seus cabelos que um dia fora repleto de fios loiros, agora os mesmo estavam misturados com fios brancos. O doutor não teve tanta surpresa ao vê-la como os outros, provavelmente já estava a sua espera. Aproximou-se da mulher e a abraçara, elogiou e disse o quanto ela havia crescido e o quão ficou bonita. Regina apenas agradeceu e disse que era um prazer reencontrá-lo.
Whale a acompanhou ate um dos quartos mais afastados da recepção e dos demais leitos. O homem disse que ali seria melhor para ambas conversarem. Regina pôde perceber que ali não era a ala psiquiátrica, mas antes que a morena questionasse o medico, ele explicou que Regina não se sentiria bem indo para lá e que não conseguiria ter uma conversa concreta com a mãe, haveria pacientes interrompendo-as constantemente, falando e ate mesmo gritando. Não precisava ser muito inteligente pra constar que psiquiatria não era para qualquer pessoa e para quem não é acostumado aquilo provavelmente se assustaria.
O que o homem falara a deixou com medo de onde a mãe atualmente vivia, suas palavras fizera sentir um calafrio passar por sua espinha. Por mais que Regina trabalhasse em um hospital muito maior que aquele, ela nunca teve um real contato com a ala psiquiátrica, ate porque caso precisasse operar algum paciente de lá, normalmente já estava anestesiado e deitado pronto para ser operado.
Whale parou de andar assim que avistou o local que a senhora se encontrava, apontou mostrando qual porta abrir. Antes de sair o homem pediu para a morena ter paciência com a mãe, por mais que quisesse brigar, tentasse segurar aquele rancor e a escutasse, por mais que soubesse que a filha tinha mil motivos para isso.
Regina parou em frente à porta buscando coragem para abri-la. Havia perdido a conta de quantos anos não via a mãe. Depois que entrou na faculdade, Cora a visitou anualmente nos três primeiros anos, uma vez em todas as férias de fim de ano, trazendo roupas, calçados, coisa que para Regina não tinha a mínima importância.
Sua mãe passava o menor período possível ali, e a morena agradecia, não queria, não conseguia ter um contato maior com a mulher. Ate que na sua última visita Cora estava fora de si, por mais que a morena não soubesse o motivo, por mais que ela não fosse o motivo, Cora fez o que sempre fazia: jogar toda sua frustação na garota e acabou tocando na maior ferida de Regina: Emma.
A morena lembrava-se bem daquela briga. Cora contou que estava a ponto de enlouquecer e que aquelas viagens que fazia anualmente para ver a filha só fazia lhe atrasar, disse que se a morena não tivesse tido aquele “relacionamento de merda” nada daquilo estaria acontecendo e que provavelmente ela estaria na prefeitura resolvendo o que precisava resolver ao invés de se preocupar com voo.
Falou que já estava mais do que na hora de Regina se recompor, de virar mulher e encarar a realidade, que sua adolescência já havia terminado e que qualquer pessoa que tivesse feito parte daquela época deveria ser esquecido, deletado. “Onde já se viu uma mulher sofrer por outra mulher? Só você mesmo pra ter um sofrimento tão ridículo, Regina!” a voz da mulher ecoou por dias em seus pensamentos, mas não deixou aquelas palavras passarem despercebidas.
Regina gritou de volta, disse vagarosamente e com todas as letras que não queria que a mãe voltasse, não queria que fizesse mais parte de sua vida, que ela vivia melhor sozinha, sem Cora por perto. Disse para não se preocupar, ela tinha seu emprego e que podia muito bem sobreviver daquilo, que por mais que tivesse uma vida financeiramente boa, nunca cogitou na ideia de trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro e se sustentar dele.
Cora ficou perplexa quando ouviu tudo aquilo da garota, nunca a tinha visto com tanta raiva no olhar como aquele dia. Quando Regina percebeu o quanto estava alterada, respirou fundo, procurou pela jaqueta vermelha de Emma e a vestiu, de alguma forma aquela peça de roupa a fazia se acalmar, de alguma forma fazia sentir a loira próxima de si e a calma não demorava muito a aparecer.
Saiu do quarto deixando em alto e bom tom que quando voltasse não queria mais vê-la ali e que ela fizesse um grande favor para ambas e não voltasse, e assim fez. A mulher se afastou completamente da filha, mas continuou mantendo contato com pessoas da faculdade que lhe informava de qualquer coisa que quisesse saber.
Os anos se passaram e Cora ficou sabendo da gravidez da filha. Tentou manter contato, mas foi em vão. Regina definidamente não a queria por perto, percebeu que o sentimento materno que por mais que fosse pouco, havia sido substituído por medo. A morena possuía um instinto materno muito forte e temia a mãe tirar a sua segunda chance de ser feliz.
Regina teve certeza que tal decisão não doeu tanto quanto doeu nela mesma e no filho. Partia-lhe o coração ver Joseph crescendo e se perguntando pelo papai, pela vovó, pelo vovô, titios e tentar explicar para ele que nenhum deles faria parte de sua vida a fazia se sentir egoísta, fazia se sentir a pior mãe do mundo. De alguma forma Joseph não insistia mais, percebia o quanto sua mãe ficava triste ao tocar no assunto, ele tentava da melhor forma tentar entender a resposta da mãe as suas perguntas.
Olhou de relance para os corredores vazios que lhe cercavam e voltou a atenção para a porta. Pousou sua mão sobre a maçaneta, respirou fundo e a girou. Abriu vagarosamente a porta e se deparou com uma senhora de costa para a mesma. Era magra e pálida, parecia pesar uns 15kg a menos que Cora, se encontrava encolhida sobre cama. Parecia estar com frio, mas não entendeu o porquê de não ter se coberto.
Regina pensou ter errado o quarto, mas a mulher se virou ao sentir a presença de outra pessoa no quarto. Seus cabelos bagunçados escondia a metade do rosto, mas não demorou muito para Regina identificá-la. Quando percebeu o castanho dos olhos e o sorriso quase sempre irônico estampados em seu rosto, Regina teve a plena certeza que era ela, era Cora, sua mãe.
Fale com o autor