Nossa História De Amor.
39 A cidade dos escritores.
Notas iniciais
Terça Feira, 10 de Fevereiro de 1990.
Annabeth dava mais um gole em sua garrafa de água gelada.
A última coisa que Londres estava era quente… E seca. Mas ainda sim, a loira ejetava litros de água como se estivesse nos trópicos. Olhou para cima e para os lados. Ela não havia ficado tão nervosa daquela forma nem na exclusiva de Nova York. Se ela conseguiu passar pelo lugar mais mal humorado do mundo, não era possível que não conseguiria fazer o mesmo na capital da Inglaterra.
Mas infelizmente os acontecimentos não foram lá muito bons para Annabeth Chase. Primeiramente o ódio esquisito da imprensa britânica pela loira era algo meio chato. Pelo que parecia, eles já haviam comprado o “Perseu ama Calipso” e o fato que isto já havia sido ultrapassado de fato… Talvez, os incomodasse.
Mesmo assim Annabeth estava divagando, este não era o motivo principal: O motivo principal era o estranho comportamento forçado de Percy em frente às câmeras. Comportamento este que aumentou 100% desde que haviam posto os pés em terra britânica.
Annabeth respirou fundo, lá atrás Leslie e Phill conversavam, não pareciam felizes nem zangados em se verem. E ao ver aquela morena com os olhos dinâmicos por baixo da armação… Annabeth não conseguiu não desconfiar da editora da Inglaterra de ter algo a ver com o comportamento de Percy.
Mal a loira sabia que nunca esteve tão perto da verdade.
Perseu saiu andando sem nem ao menos cumprimenta-la, sentou-se na cadeira atrás da bancada. Annabeth suspirou, indo atrás dele.
A chuva piorava fora do prédio, uma pancada daquelas não fazia o clima melhorar, muito pelo contrário: Parecia set para filme de terror.
Annabeth se sentou ao lado de Percy, sem fingir sorrisos apaixonados nem nada. Parecia inútil tentar fingir qualquer coisa por ali. O primeiro jornalista a perguntar tinha óculos de grau e um sorriso petulante, como se fosse mais inteligente que todos ali juntos.
–Olá a vocês dois primeiramente — começou ele, os dois escritores responderam em uníssono — Minha pergunta é direcionada a Annabeth Chase.
“Pronto, começou” — pensou Annabeth, e ela não estava errada.
–Você achou que este novo livro romântico foi um bom jeito de voltar ao mundo das letras como escritora respeitada? Pois, os livros dramáticos já estavam ficando insonsos e repetitivos. Percy Jackson ter claramente lhe segurado as costas neste novo livro foi o impulso necessário para pôr sua carreira no topo mais uma vez?
Alguns risinhos foram feitos ao redor da sala, ao seu lado, Percy continuava indiferente. Ela pigarreou.
–O livro foi uma boa forma de descobrir lados que ainda não conhecia da minha escrita, me sinto muito confortável e sou
bem sucedida no drama. Mas acredito que é sempre bom tentar e aprender coisas novas.
Ele se sentou, feliz com a resposta. Era óbvio que para um jornalista era melhor o escritor ser recatado e ele poder pôr aquela pergunta no jornal do que Annabeth ter um ataque medonho e tudo ser jogado por água a baixo.
Foi tudo extremamente ruim para Annabeth a partir daquele momento, as pessoas praticamente não perguntavam nada para Percy, os jornalistas estavam usando aquilo tudo para agredir a loira da pior forma do tipo.
Ela era forte, o mais forte que podia, mas ao ver e ouvir a última pergunta chegar, ela praticamente chorou.
–Como é reconhecer que alguns namoros falsos para promover novos produtos seja uma apelação para aquilo que não é bom? Ou seja, você acredita, Annabeth Chase, que forçar qualquer pessoa a um relacionamento possa ser a definição para o desesperada?
Todos riram, mais alto que a educação permitia. A loira olhou mais uma vez para Percy, mas mesmo depois de todas aquelas bombas ele continuava indiferente.
Ao fim de tudo aquilo, Annabeth ficou com tanta raiva de Perseu que nem queria ouvir ou ver seu rosto. Ela pegou seu sobretudo preto no camarim e foi embora pela porta dos fundos, a pancada de chuva deixando sua pele arrepiar-se totalmente.
As gotas de chuva caíram com mais frequência, junto com as lágrimas no rosto de Annabeth: Ela se sentia humilhada, tão humilhada como nunca havia sido.
Mas não era isto que a incomodava, jornalistas ridículos não faziam parte do seu grupo de “pessoas com quem me importo” mas definitivamente Perseu Jackson estava nesta lista, então definitivamente foi a pior coisa que poderia ter acontecido ver Percy a ignorar
naquela entrevista. Olhando fixamente para frente, mas precisamente na direção de Leslie, que sorria de lado.
Ela chorou tanto que sua cabeça começou a doer, Annabeth não fazia ideia de onde seus pés estavam a levando, mas ficou mentalmente agradecida quando viu o prédio da casa de Percy a sua frente.
Ela mordeu o lábio inferior, pensando: A última coisa que queria era encarar Perseu naquele momento, mas parecia que Annabeth não tinha o direito de escolher mais nada há muito tempo.
Apertou insanamente o botão do elevador, ficando com raiva de si mesmo pela demora do elevador chegar.
Quando finalmente abriu, a loira sentiu que não estava sozinha no elevador. A sua frente, Percy parecia confuso e preocupado, de uma forma que Annabeth nunca havia visto antes.
–Você está bem? — perguntou ele cruzando os braços — Saiu correndo dali e está toda molhada. O que aconteceu com você na entrevista? Parecia travada.
Annabeth quis gritar com ele de todas as maneiras, bater nele com tanta força que começaria a doer. Então viu que Leslie e Phill estavam no fim do corredor, conversando nada amigavelmente e com expressões estranhamente sérias.
Ela decidiu não ligar para nada daquilo, abriu a porta do apartamento de Percy e foi direto para o chuveiro de água quente, tentando não pegar um resfriado. Olhou para frente, pensando se deveria ou não continuar com toda aquela bosta.
Mas então pensou na garota que deu duro lá no Havaí para escrever aquele livro, a garota que ficou presa dentro de uma casa com o garoto que amava só que tinha medo desde sempre de mostrar seus sentimentos. Ela não desistiria de tudo tão fácil assim.
Começou então a focar em coisas pequenas, como o quão maravilhoso era aquela pintura azul no banheiro de Percy, e o quão legal era a porta de madeira sem trava e pesada demais para qualquer pessoa com menos de 50 quilos conseguir empurra-la.
Respirou fundo e pegou uma toalha branca, enxugando seu cabelo, com a outra, enrolou seu corpo no fofo e gostoso pano.
Girou a maçaneta para abrir a porta, mas se assustou quando outro alguém também a girou, abrindo-a e fechando rapidamente antes que alguém o visse.
–Ei — Percy acabou dizendo, Annabeth ficou quieta, fazendo um bico digno de uma garota de 13 anos de idade — A entrevista foi horrível, eu sinto muito.
Annabeth mordeu o lábio inferior, quis perguntar porque ele foi tão insensível alguns minutos atrás, mas provavelmente fazia parte do seu grande plano. Ele foi em sua direção, sorrindo de lado.
–Acho que Paris vai ser bem melhor — ele pensou um pouco — Na realidade, eu tenho certeza disto.
–Eu fui humilhada por aqui, da pior forma possível. Sério, você nem olhou na minha cara na entrevista. Isto foi tão triste e feio. Eu estou com muita raiva de você agora.
Percy abriu os braços.
–Eu sei, me desculpa por isto — infelizmente ele ainda era frio, quase que suas palavras não pareciam verdadeiras, ele começou a tirar a blusa e a calça. E só então Annabeth percebeu uma toalha em seu ombro. Ela abriu a porta, olhando para o corpo dentro do box e ficando com raiva de si mesmo. Foi embora e dormiu, tendo a certeza que nunca mais teria Percy Jackson todo para si.
Quinta Feira, 12 de Fevereiro de 1990.
O coração de Annabeth bateu mais forte quando ela começou a ver a cidade dentro do avião. Ela nunca, em toda sua vida, havia ido para Paris. Era tipo… O ápice da sua vida saber onde Fitzgerald havia escrito e outros trilhões de autores que ela gostava.
Paris era a cidade dos escritores. Onde as garotas cortavam o cabelo e começavam a escrever, e os homens usavam ternos e começavam a escrever. Era o local dos locais, se você quer ser um escritor, você tem que dar uma passada em Paris.
Annabeth agora estava dando esta passada em Paris.
Até porque, Percy nasceu em Nova York mas a primeira cidade que morou foi Paris, ele ficou seus primeiros nove anos de idade na capital francesa e era por isto que era bilingue. Às vezes, muito raramente, Percy começava a falar em francês sem nem ao menos perceber. Annabeth adorava quando isto acontecia: A língua francesa é sexy por si só e saindo da voz rouca de Perseu era ainda mais sexy.
Infelizmente a primeira coisa que lhes aconteceu foi o hotel ser bem perto do aeroporto, de forma que não conseguiram apreciar a vista do local mais lindo de todos. Quando eles abriram o quarto do hotel, a primeira coisa que Annabeth viu foi a varanda escancarada que dava a mais bela visão da cidade luz. Ela foi diretamente para a varanda, sorrindo ao ver bem ao longe a Torre Eiffel.
Percy sorriu ao seu lado, seu rosto contorcia nostalgia e Annabeth ficou com um pouco de inveja dele, ela nunca havia saído de Nova York, em toda sua vida. Percy já havia morado em Paris, em Londres, em Nova York e em Los Angeles.
Annabeth mais que rapidamente saiu dali, pegando sua máquina de escrever dentro da mala e colocando-a numa mesinha. Lembrou-se do Havaí na hora, sorriu de lado e começou a escrever.
Percy franziu o cenho.
–O que você está escrevendo?- seus braços estavam cruzados. Annabeth sorriu de lado e olhou para ele.
–Eu estou com uma ideia martelando na minha cabeça desde que chegamos em Londres, e aqui… Parece o lugar apropriado para pô-las no papel.
Ela começou a escrever fervorosamente, estava tão ligada naquela escrita que Percy se sentou do outro lado da varandinha, olhando-a escrever e sorrindo de lado automaticamente. Ela era linda concentrada, os olhos semicerrados, a boca formando um leve bico, os dedos agéis dando aquele barulho da máquina de escrever que ele particularmente adorava.
Pegou um cigarro, olhando para a sua cidade praticamente natal e fumando lentamente. Riu quando viu seu cigarro sendo roubado e Annabeth dando uma longa tragada, devolvendo a ele.
Ele viu a fumaça saindo lentamente da sua boca, acabou arqueando a sobrancelha.
–Eu achei que você tinha parado.
–Eu parei.
–E..?
–Eu estou escrevendo, ver você aí com este cigarro me fez ter que fumar, faz parte da minha escrita com você por perto.
Percy riu, o que não estava nos seus planos de ser frio.
–Desculpe-me por ser uma má influência.
–Desculpe-se com a minha mãe pelos 20 anos de má influência, Percy — ela continuou olhando para o papel.
Eles ouviram a porta ser batida, os dois se entreolharam e o moreno se levantou para atender a porta, ajeitando sua gravata que estava frouxa e puxando a sua blusa social branca até seus cotovelos. Quando abriu a porta, ficou tão surpreso e confuso que sua expressão saiu do feliz ao assustado.
–Hayley? — ele perguntou só para confirmar. Era óbvio que aquela era Hayley. Claro, ela estava agora bem maior até porque tinha quase um ano que ela havia ficado com eles no Havaí. Mas ainda sim, era uma pequena nostalgia vê-la novamente.
–Oi, Percy — ela disse com um sorriso de lado, abraçando-o e sorrindo ainda mais. Ele acabou arqueando a sobrancelha ao ver um garoto ao seu lado.
–Quem é este? — apontou ele, Percy sentia que o conhecia de algum lugar. Hayley olhou para os lados e depois para Annabeth na varanda, que continuava concentrada em escrever.
–Nós podemos entrar?
(...)
–Isto é lindo! Uma história de amor jovem e proibida. Como Romeu e Julieta — exclamou Annabeth sorrindo largamente. As bochechas de Hayley ficaram da cor dos seus cabelos ruivos. Percy olhava com um pouco de ciúmes para o loiro Dylan Lancaster. Ele estava namorando a garotinha que ele havia cuidado nas férias de verão.
–Vocês estão ferrados, sabiam? Seus pais se odeiam, se odeiam de verdade. Se eles pensarem em ver vocês juntos… Uau, boa sorte Mr. Lancaster — Dylan olhava para as próprias mãos.
–É por isto que eles ainda não sabem — Annabeth acabou sentando-se a sua frente, enérgica. Ela parecia inspirada.
–E nem precisam saber. Vocês namoram escondido, simples.
–Uau, que responsável você — admitiu Percy, revirando os olhos. Annabeth acabou revirando os olhos também.
–Mas vocês tem esta aposta de ficarem juntos na premiação, então… Uau, que furada vocês se meteram, hein?
Hayley expirou fundo.
–Nem me diga.
–Nós vamos acobertar vocês, tentar ser o centro das atenções. Vocês ficam juntos, tiram a maldita foto para todos saberem que é verdade. E tã-dãn, seus pais continuarão sem saber de nada. Vai ser sensacional.
Percy olhou para Annabeth, a mulher de 29 anos mais irresponsável que ele havia visto na vida. Hayley sorriu para a loira, batendo palminhas animadas.
–Obrigada, Annie. Eu sabia que podia contar com você — ela a abraçou fervorosamente. Com todo o cuidado, ela e Dylan foram embora.
Annabeth fechou a porta e olhou para Percy, que tinha o olhar sério e os braços cruzados.
–Você é doida. Isto é caso de morte, sabia?
Ela acabou sorrindo, não levando-o a sério.
–Esta premiação vai ser muito emocionante.
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