Nossa Família

49 Capítulo Quarenta e Oito — Preconceito


Notas iniciais
Olá, babys! Mil desculpas pela demora, mas os últimos meses foram terríveis para mim. Sério, tudo que pode acontecer com uma pessoa aconteceu comigo, gente. Zero vontade de escrever, vontade de largar de mão as histórias, estresse por mil e um motivos pessoais, mais choro e tudo que podem imaginar hahah Mas, tô de volta, tentando recolocar Nossa Família em ordem e as outras histórias também. Eu tinha preparado um cronograma para as histórias, assim como colocado outras em hiatos, mas não sei como isso vai funcionar depois desse tempo sem conseguir escrever e com a vida toda bagunçada. Então, apenas peço que sejam pacientes e fiquem de olho no meu perfil, ou no grupo do Facebook — link no meu perfil aqui do Nyah —, também espero que curtam o capítulo. Esse capítulo é dedicado a Eloisa htinha que recomendou a fic, muito obrigada, flor ♥ Boa leitura!

— Capítulo Quarenta e Oito —

— Preconceito

Edward Cullen

Deixei o elevador no andar da presidência, estava levando alguns documentos para Carlisle assinar e me esclarecer algumas coisas. Aquela quinta-feira estava sendo movimentada no trabalho, eu mal via a hora de ir para casa descansar um pouco.

— Olá, posso falar com Carlisle? — perguntei para a assistente do meu pai, antes que ela pudesse responder ouvimos a porta da sala dele bater com força.

Olhei em direção a sala, vendo que meu tio, Caius, estava deixando o lugar. Sua expressão não era nada contente, ele estava visivelmente furioso com algo.

— Algum problema? — perguntei para ele.

— Pergunte para o idiota do seu pai — foi tudo que ele disse antes de seguir até o elevador e desaparecer lá dentro.

— Ok — murmurei, temendo o que poderia ter acontecido entre aqueles dois. — Então, posso entrar? — tornei a perguntar para a assistente de Carlisle, até ela estava assustada com a explosão de Caius.

— Eu vou checar — ela disse, pegando o telefone e discando para meu pai. — Senhor Cullen, seu filho está aqui querendo falar com o senhor — me anunciou. — Certo, certo — concordou, desligou a chamada e se voltou para mim. — Ele pediu para você voltar mais tarde, não quer falar com ninguém agora.

Revirei os olhos.

— Bom, eu terei de passar por cima da ordem dele — declarei.

— Senhor Cullen, não... — Ela não teve tempo de conseguir me impedir, fui mais rápido e logo estava entrando na sala do meu pai.

Carlisle estava sentado em sua cadeira, com as mãos cobrindo o rosto. Porém, assim que notou minha presença tirou as mãos do rosto, encarando-me.

— Eu acabei de falar que não queria conversar com ninguém — esbravejou.

— Sinto muito, mas preciso que fale comigo sobre alguns documentos — falei de volta, me aproximando da mesa dele e lhe entregando a pasta que carregava comigo.

— Você não tem jeito — reclamou, pegando seus óculos para ler os documentos. — Não consegue respeitar regras.

— Pois é. — Sentei em uma cadeira. — Qual o problema entre você e tio Caius? — indaguei meu pai.

— Não é da sua conta — respondeu de forma rude.

— Ei, calma ai — pedi. — Só fiz uma pergunta.

— E a resposta não te diz respeito nenhum — ele proclamou lendo os documentos.

— É algo sobre a empresa? — Carlisle ergueu o rosto para mim.

— Falei que não é da sua conta, Edward — disse com seriedade, encarando-me. — Se eu falei que não é da sua conta espero que aceite isso e fique quieto, você me entendeu agora?

— Sim, senhor! — Engoli em seco.

— Excelente! — Ele voltou a olhar. — Então, você precisa... — Sua fala foi interrompida por meu celular tocando. — Se você veio até mim para trabalho o mínimo que pode fazer é colocar a porcaria do seu celular no silencioso.

Puta que pariu, algo tinha mesmo tirado meu pai do sério aquele dia!

— Desculpe — pedi, pegando o celular, era Bella ligando. Mesmo que eu quisesse atender, não queria tirar meu pai ainda mais do sério, sendo assim recusei sua chamada e coloquei o aparelho apenas para vibrar e o devolvi para meu bolso. — Pronto.

— Como eu ia dizendo, você precisa colocar os gráficos de todos os meses nesses... — meu pai ia falando, enquanto eu sentia meu celular vibrando sem parar no bolso da minha calça, Bella aparentemente queria mesmo falar comigo, o que me deixou nervoso. Minha esposa sabia muito bem que eu não podia ficar batendo papo no meio do trabalho, ela só ligava quando precisava falar algo importante.

Dois minutos depois que meu celular parou de vibrar, o do meu pai sobre sua mesa começou, eu pude ver o nome da Bella na tela antes de ele pegar o aparelho e recusar a chamada, continuando a falar de trabalho comigo. Mas, ela insistiu mais ligando para ele.

— Está acontecendo alguma coisa? — ele me indagou.

— Eu não sei — confessei.

Ele bufou, pegando o celular e atendendo a ligação dela.

— Oi, Isabella. — Ele suspirou, estendendo seu celular para mim. — Ela disse que é muito importante.

Peguei o celular, falando com minha esposa.

— Olá, querida.

— Por que você não atendeu a porra do seu celular antes? — ela indagou furiosa.

— Ei, eu estava ocupado — me defendi. — O que aconteceu?

— Me ligaram da escola das crianças, Renesmee entrou em uma briga.

— Ela o que? — gritei, colocando-me de pé no mesmo instante, papai olhou para mim preocupado.

— Nossa filha entrou em uma briga — Isabella repetiu.

— Por quê? Como assim? O que aconteceu? — questionei.

— A diretora não deu detalhes — Bella guinchou. — Venha me encontrar aqui embaixo para irmos até lá, agora. — Desligou, joguei o celular para meu pai, já saindo em direção à porta.

— O que aconteceu? — ele indagou, me seguindo.

— Renesmee entrou em uma briga na escola, preciso ir até lá com Isabella — expliquei. — Nós voltamos para esses documentos depois.

— Claro — concordou. — Me avise se precisar de alguma ajuda.

— Valeu, pai.

Logo eu estava saindo do prédio, entrando no carro onde Bella já se encontrava. Eu mal tinha fechado a porta e minha esposa ordenou que nosso motorista fosse de uma vez até a escola das crianças, então Bella olhou para mim.

— Ela nunca entrou em uma briga antes — disparou. — Já aprontou, mas uma briga? Nunca!

— Você tem certeza de que escutou direito?

— Claro que eu tenho certeza, Edward! — gritou.

— Foi só uma pergunta.

— Não faça perguntas estúpidas — resmungou.

— Não é de mim que está com raiva, Isabella.

Ela suspirou, esfregando sua testa.

— Você falou com a diretora? Sabe se aconteceu algum ataque físico? — Estremeci ao pensar que minha filha poderia estar machucada.

— Ela não disse muito, apenas falou que Renesmee tinha se envolvido em uma briga, quer conversar pessoalmente. — Franzi o cenho, o que fez Bella perguntar. — O que está pensando?

— Nada, mas acredito que a diretora teria dito se ela estivesse machucada.

— Espera, então ela é quem agrediu?

— Aparentemente sim e não apanhou de volta. Puta merda! — Passei as mãos por meus cabelos.

— O que foi agora?

— A escola tem tolerância zero em casos de agressão, Bella. Se Renesmee agrediu alguém ela é expulsa.

Minha esposa arregalou seus olhos.

— Não!

— Querida...

— Não minha filha — Bella disse enfática. — Ela não será expulsa porra nenhuma.

— Não sabemos o motivo que a levou bater em alguém.

— Não tô nem ai — Bella rebateu. — Chame isso como quiser, mas se eu tiver que passar a mão na cabeça de Renesmee para manter o histórico dela limpo, eu farei.

Não falamos mais nada pelo resto do caminho até a escola das crianças, um percurso que pareceu durar mais do que o comum. Assim que chegamos lá deixamos o carro dirigido por Felix e seguimos até a sala da diretoria, a secretária da diretora estava visivelmente apreensiva com algo.

— Olá, vocês...

Bella e eu não esperamos ela falar mais nada, entrando na sala da diretora Hanson. Minha filha estava sentada em uma das cadeiras diante da grande mesa, ela tinha seus braços cruzados na frente do corpo e um olhar furioso que parecia muito com o da mãe.

— Senhor e Senhora Cullen...

— O que você fez? — Bella ignorou a diretora, perguntando diretamente para Renesmee.

— Eu dei um soco na cara de Theodore Rowell — Renesmee contou, sem aparentar estar arrependida. — Ele falou mal do Matthew, mereceu o soco, merecia até mais — proclamou, revirando seus olhos verdes.

— O que ele disse do seu irmão? — questionei, mil alertas se acendendo em minha mente ao ouvir sua fala.

— Disse que o Matthew por ser negro era um ladrãozinho, isso é muito errado, papai — declarou. — Por isso dei um soco na cara dele, deveria ter dado dois, no mínimo.

— Theodore Rowell não falou isso — a diretora disse, fazendo com que Renesmee, Isabella e eu a encarássemos.

— Ele falou sim! — Renesmee gritou com ela, soando ultrajada. — Mamãe, eu juro que ele falou, não estou mentindo — disse para Bella, que se colocou atrás de Renesmee, apoiando suas mãos nos ombros da ruivinha.

— Por que você não acredita na palavra da minha filha, diretora? — minha esposa indagou, tentando se manter calma.

— Senhora Cullen, Theodore Rowell é um garoto exemplar, ele é o melhor da classe e nunca faria isso. A professora me relatou que na última aula antes do intervalo para o almoço, quando a agressão aconteceu, Renesmee tinha errado uma pergunta feita por ela e Theodore respondeu certo, nós acreditamos que sua filha bateu nele como retaliação por isso.

— Eu não tô nem ai para aquele menino idiota ter acertado aquela droga de pergunta! — Renesmee esbravejou, Bella apertou ainda mais seus ombros. — Eu bati nele porque Theodore falou que meu irmão era um ladrão, ele apanhou por ser um babaca, não um nerd!

— Senhorita Cullen, vou pedir que espere lá fora enquanto converso com seus pais — a diretora falou em um tom de voz firme.

— Mamãe...

— Espere lá fora, pequena — Bella falou para ela, afagando os cabelos de Renesmee, que resmungou e saiu da sala pisando firme no chão.

— Não sei porque está acobertando esse garoto, diretora, mas isso é muito errado e terá consequências — esbravejei no momento que Renesmee deixou a sala.

— Não estou acobertando Theodore, senhor Cullen — a diretora falou ao se colocar de pé. — Mas, Renesmee não tem ninguém que confirme sua versão da história. Tudo que sabemos é que Theodore passou perto dela no corredor e a filha de vocês acertou um soco no rosto do pobre garoto, que por acaso é um menino que sofre de asma e que ficou em pânico com o acontecido, o coitadinho está na enfermaria se recuperando de toda a confusão.

— Espera, qual o sobrenome dele mesmo? — Bella questionou.

— Rowell.

— Como o banco Rowell? — indaguei, ela deu de ombros.

— Isso não faz parte dessa conversa, senhor Cullen.

— Faz sim se você está protegendo um aluno só por ele ser herdeiro de um banco.

— Não estou protegendo Theodore, só estou do lado da justiça. Renesmee se sentiu intimidada por ele na sala, depois revidou fora dela e agora precisa ser punida.

— O que quer dizer com isso? — Bella agarrou meu braço ao perguntar.

— Ela está sendo formalmente expulsa, senhora Cullen — anunciou. — Não é a primeira passagem de Renesmee pela diretoria, mas isso multiplica as faltas dela com as regras da instituição em um número gigantesco, por isso está sendo expulsa. É a política da escola, qualquer um que comete alguma agressão física é imediatamente expulso.

— E o que acontece com um aluno preconceituoso e claramente racista? — questionei entre dentes.

— Não há prova alguma que comprove que Theodore disse o que Renesmee alega, senhor Cullen.

— Aham, sabemos muito bem — debochei.

— Seu deboche não é bem-vindo aqui, estamos tratando de um assunto sério — alegou.

— Claro, aquele que você acoberta um racista filho da puta e minha filha que agiu errado, mas agiu defendendo a honra do irmão é a única punida.

— Peço que controle seu linguajar, ou terei de chamar um dos seguranças para tirá-lo daqui, senhor Cullen — alertou.

— Faça o que quiser, pode até mesmo expulsar Renesmee, mas seja justa e expulse esse maldito garoto também! — exclamei, dando um passo para a frente, mas Bella me freou.

— Calma — pediu baixinho.

— Não vou ficar calmo — falei alto com ela também. — Não saio daqui até aquele menino ser expulso também, Renesmee não será a única prejudicada.

— Ela não será — Bella disse, se voltando para a diretora. — O quanto você quer para se manter quieta sobre isso?

— Isso é você tentando me subornar, senhora Cullen?

Bella deu de ombros.

— Aposto que os Rowell já passaram por aqui e deram o valor deles, qual o nosso? Nós pagamos o dobro para esse garoto ser gentilmente expulso da instituição e essa história toda ficar longe da ficha escolar da minha filha.

A diretora riu.

— Eu não estou aqui para ser subornada, senhora Cullen — afirmou. — E isso me mostra que nesse caso é ainda melhor que Renesmee seja expulsa, ela claramente não está recebendo bons exemplos em casa e sua permanência nessa escola seria prejudicial para a instituição.

— E que bom exemplo essa escola oferece ao manter entre seus alunos um garoto racista?

— Pare de bater nessa tecla — a diretora pediu ao ouvir minha fala, ela mexeu em sua mesa, pegando alguns papeis em mãos. — Agora, é melhor que assinem a documentação da expulsão de Renesmee o quanto antes, sugiro que entrem em um acordo amigável com os Rowell sobre isso também. — Ela olhou para minha esposa. — Eles já estão com o filho na enfermaria e não estão nada contentes, com certeza irão querer entrar com um processo.

Eu gargalhei ao escutar aquilo.

— Eu vou processar você e essa maldita escola! — gritei. — E processarei qualquer Rowell que cruzar na minha frente!

Arranquei os papeis da mão dela, Bella fez uma careta.

— Edward, se nós assinarmos isso vai direto para o histórico escolar da Ness — disse apavorada. — Ela vai ter problemas pelo resto da vida acadêmica por isso.

— Não se preocupe, os advogados irão fazer isso sair da ficha dela depois de processarmos os responsáveis por esse erro — falei, tirando uma caneta do bolso do meu paletó e assinando tudo, passando para Bella, que hesitou. — Confia em mim, isso não vai afetar ela no futuro e a grana que ganharemos no processo garantirá a ela dinheiro para pagar Harvard ou qualquer outra faculdade de renome.

Ela inspirou fundo, antes de assinar tudo.

— Você é um babaca! — Bella tinha acabado de assinar a documentação quando escutamos o grito de Renesmee do lado de fora.

Nós dois, assim como a diretora, rapidamente deixamos seu escritório. Na sala de espera encontramos a secretária da senhora Hanson segurando Renesmee, enquanto um casal que devia ter por volta dos seus quarenta anos estavam junto de um garoto da idade da minha filha, que tinha o nariz roxo, óculos quebrados em frente aos seus olhos e uma expressão amedrontada.

— Ei, ei, pare! — Puxei Renesmee para mim. — Não torne isso pior — exigi para ela, que me olhou indignada.

— Ele falou aquilo do Matthew e eu sou punida?

— Sua mãe e eu resolveremos isso, não você, Renesmee!

— Seu babaca! — ela me ignorou, tornando a gritar para Theodore.

— Controle essa garota, ou a situação ficará ainda pior para vocês! — o pai de Theodore alertou. — Talvez ela tenha que ser enviada diretamente para um reformatório.

— Não fale da minha filha, seu filho da puta! — gritei com ele, soltando Renesmee, tentei chegar até o cara, mas Bella se enfiou na minha frente, segurando em meu peito.

— Não posso deixar você ser preso por agressão — disse enfaticamente. — Vamos pegar Matthew e Renesmee e ir atrás de um advogado, agora!

— Escute sua esposinha — o homem disse. — É melhor que arranjem um bom advogado, vão precisar para tentar livrar essa menina sem educação alguma do reformatório.

— Você não ouviu o que meu marido falou? — Bella me soltou e se virou para o homem. — Não fale da minha filha, Rowell. Se preocupe com seu filho, porque ele também precisará de um bom advogado.

— Olhe o que sua filha fez com meu garoto — a mãe de Theodore disse afetada. — Ela é quem está com problemas aqui.

— Isso é o que você...

— É melhor vocês irem embora agora — a diretora Hanson me interrompeu.

— Vamos buscar meu filho — Bella alertou.

— Com certeza — a mulher concordou. — Acompanhe eles até a sala de Matthew e diga a professora que ele está dispensado — ela disse para sua secretária, que concordou.

Eu me voltei para Renesmee, que ainda estava furiosa, sem dar tempo de ouvi-la dizer mais nada a segurei pela mão, fazendo com que ela saísse junto de mim e da sua mãe. Eu disse para Bella ir buscar Matt, preferindo ir de uma vez para o carro com Renesmee.

Paramos perto da Mercedes, eu me agachei diante dela, que tinha lágrimas em seus olhos. Segurei em suas mãos, que estavam tremendo.

— Eu confio na sua palavra, Renesmee — assegurei, uma lágrima rolou por seu rosto. — Não concordo com você tendo agredido aquele garoto, mesmo pelo o que ele tenha dito, mas confio na sua palavra, princesa.

— Ele não deveria ter dito aquilo do Matthew.

— Eu sei, concordo com você, foi muito errado e nós faremos ele pagar por isso, certo? — Ela fungou, assentindo. — Você pode me dizer se há a possibilidade de mais alguém ter escutado o que ele falou para você?

Ela negou com um aceno de cabeça.

— Estávamos só nós dois no corredor, eu sai mais tarde da sala porque estava organizando meu material e ele é sempre o último a sair. Theodore chegou atrás de mim e disse “seu irmão é um negro e por isso deve ser um ladrãozinho”. Pai, o Matthew não é um ladrão!

— Não, ele com certeza não é, princesa. — Limpei mais uma lágrima do seu rosto. — Nós conversaremos mais em casa, certo? — falei quando vi Bella se aproximar com Matthew, que parecia muito confuso por estar saindo da escola antes do horário. — Não fale nada disso para seu irmão, ok?

— Tá bom.

— Filho! — Forcei um sorriso para Matthew, já que naquele momento nada era capaz de me animar. — E ai? Vamos para casa mais cedo?

— Eu não posso ficar? — ele reclamou. — Estava no meio da aula de geografia e tava legal.

— Realmente precisamos ir para casa agora, Matt — Bella falou, afagando a mão dele na sua, enquanto eu pegava as mochilas dele e de Renesmee, que alguém lá dentro deveria ter entregue a minha esposa, e colocava no porta malas.

— Você tava chorando? — ele perguntou para Renesmee, que negou.

— Não, tô bem — ela disse.

— Vamos, todos para dentro do carro — continuei falando com falsa animação.

Ajudei Bella a acomodar as crianças no banco de trás, deixando com que ela fosse lá com eles. Entrei no banco do carona, pedindo que Felix dirigisse até nosso apartamento, enquanto isso já digitava uma mensagem para Jenks, uma para meu pai, mãe e com certeza uma para minha irmã, Rosalie precisava tirar as meninas daquela escola dos infernos o quanto antes.

Jenks, para meu alivio, não demorou a responder minha mensagem. Ele achou melhor não assumir o caso, mas indicou um dos melhores advogados que conhecia para nos representar, pedi que ele falasse com seu amigo e o mandasse para nosso apartamento o quanto antes.

Antes de chegarmos a casa também mandei uma mensagem para Nelly, já querendo a deixar por dentro de tudo quando chegássemos lá e pudesse nos ajudar a lidar melhor com a situação. Foi o que aconteceu, ela não fez qualquer pergunta na frente de Matthew e sugeriu o levar para a casa dos meus pais pelo resto da tarde para que ele estivesse fora quando o advogado chegasse para falar conosco.

— Você está de castigo por um mês! — Bella anunciou quando eles saíram e ficamos sozinhos com Renesmee, que estava sentadinha no sofá, com nossos cachorros deitados aos seus pés, para onde a garota olhava. — Sem televisão, sem internet, sem os livros do Harry Potter, sem videogame, sem passeios. A sua única folga será ir para o casamento do seu avô no próximo fim de semana e a festa do presidente no começo de junho. Você me ouviu?

— Sim, mamãe.

— Olhe para mim!

Renesmee ergueu o olhar para ela.

— Você poderia ter feito a coisa certa que seria ter contado para nós o que Theodore disse sem agredi-lo, mas preferiu partir para a violência, quando já conversamos sobre isso com você durante toda sua vida. Agora foi expulsa da escola e se colocou em gigantescos problemas, menina, entende no que está metida?

— Mais ou menos.

— Pois é, você só tem dez anos e moverão um processo contra você por agressão. — Bella sentou do lado de Renesmee. — Nós entendemos o porque de ter feito isso, Renesmee, mas precisamos ser duros com você agora também. Mas, nós somos seus pais e vamos te ajudar a sair dessa, entretanto espero que eu nunca mais te veja agredindo ninguém, ou eu juro que deixo com que se vire só da próxima vez.

Renesmee estremeceu, mas assentiu.

— Desculpa, mãe — murmurou, olhou para mim. — Desculpa, pai.

Sentei do outro lado dela.

— Você não pode resolver nada agredindo outra pessoa, Renesmee. — Segurei sua mão, ela voltou a chorar. — Theodore falou algo muito grave sobre seu irmão, mas você não poderia ter reagido de volta dessa forma.

— Eu vou presa? — ela perguntou apavorada.

— Não, pequena, claro que não! — Bella falou rapidamente, segurando a outra mão de Renesmee entre as suas. — Nós provavelmente teremos de dar algum dinheiro para os Rowell por isso, dinheiro que sairá direto das suas próximas mesadas.

Renesmee suspirou.

— Eu tenho que pedir desculpas ao Theodore? Não sei se consigo, eu não paro de pensar nele chamando o Matthew de ladrão.

— Vamos falar sobre isso melhor depois — Bella alegou quando o interfone tocou.

— Deve ser o advogado mandado pelo Jenks — falei, ficando de pé e indo até a cozinha o atender.

Como esperado era o advogado, que se chamava Hunter Michaels. Era um homem por volta dos seus cinquenta anos, magro, baixinho, negro, de cabelos já grisalhos.

Nos apresentamos rapidamente, então eu logo o levei para sala e o apresentei a minha filha e esposa. Passamos cerca de duas horas conversando com Hunter, Renesmee contou tudo para ele e nós acrescentamos com nossas partes da história, então começamos a traçar estratégias.

Bella e eu queríamos Theodore fora da escola, assim como respondendo por racismo e que a ficha de Renesmee fosse limpa. Ainda que aquela altura estivesse claro que nós tiraríamos Matthew da escola também e nunca mais recolocaríamos Renesmee lá quando ela tivesse sua expulsão retirada do seu histórico, nós queríamos que Theodore também pagasse junto ao colégio por seu erro.

— Eu posso ir tomar banho e dormir um pouco? — Renesmee perguntou exausta quando o advogado foi embora.

— Não está com fome? — Bella perguntou para ela.

— Não — negou. — Só estou muito cansada.

— Tudo bem, você pode ir — Bella liberou. — Quando acordar pode comer algo.

— Obrigada, mãe — Renesmee agradeceu antes de seguir para seu quarto no segundo andar.

— O que você acha? — Bella se voltou para mim. — Acha que conseguiremos ganhar?

— Eu espero que sim, mas tenho uma carta na manga.

Ela franziu o cenho.

— O quê?

— Vou ligar para Simon Fincher amanhã — falei.

— O editor chefe do Chicago Tribune? — perguntou se referindo a um dos maiores jornais da cidade.

— O próprio — confirmei.

— O que você pretende com isso, Edward? — Ela parou diante de mim, que estava sentado no sofá.

— Irei contar toda a história para ele e o farei publicar no seu jornal, quero ver aquela escola e os Rowell na merda.

— Eu não concordo em nada com isso, Edward! — Bella disse com firmeza.

— Não estava pedindo sua opinião — alertei, ela assumiu uma pose defensiva, cruzando os braços na frente do corpo. — Farei isso com ou sem a sua benção.

— Isso só nos colocará em mais problemas, Edward — alertou. — Pode inclusive nos fazer perder o processo.

— Não se os nomes forem omitidos, depois revelados em uma nova matéria quando ganharmos o caso.

Bella negou com um aceno de cabeça.

— Isso é uma idiotice, Edward — acusou. — Você está sendo irracional, sendo movido pelo ódio.

— Eu estou protegendo nossa família.

— Nos expondo? — inquiriu. — Acha mesmo que o pessoal que cuida da adoção vai gostar de ver nossa família estampando uma reportagem desse tipo? Deixa eu dar uma dica, não, eles não vão gostar. Já não vão gostar de saber que Renesmee agrediu um garoto, que estamos envolvidos em mais um processo, não pode nos colocar em mais destaque, Edward.

— Eu quero aquela escola e aquela família expostos, quero que eles paguem.

— Nós seremos atingidos também, Edward! — ela gritou comigo. — Não só nossa família, mas o Grupo Cullen igualmente. Você acha que já não temos peso demais em nossas costas? Quer saber, que seja, se você quer ser inconsequente pode ser, mas não me envolva nisso. — Dito isso ela me deixou para trás, subindo para o segundo andar do nosso apartamento, seus saltos fazendo sons altos nos degraus da escada.

Fechei meus olhos, percorrendo minhas mãos por meus cabelos repetidamente. Só parei com aquilo quando meu celular tocou, o peguei rapidamente, era meu pai.

— Você precisa da minha ajuda para algo? — ele indagou assim que atendi.

— Não por enquanto — falei.

— Falou com o advogado?

— Sim.

— Como foi?

— Não sei, ele não parecia muito confiante — confessei para meu pai e para mim mesmo. — Por isso pensei em um pouco de confronto público.

— O que quer dizer com isso, Edward Cullen?

— Pensei em ligar para o editor chefe do Chicago Tribune, pedir que ele publique algo sobre o caso.

— Antes de sequer sentar com a outra parte para discutir um acordo?

— É — murmurei.

— Você andou usando a porra de alguma droga? — ele gritou comigo, fazendo com que eu me encolhesse. — Se usou é bom que me diga logo.

— Pai...

— Você não pode atacar assim, Edward. Não sem antes ter certeza de que perdeu todas as possibilidades de ganhar pela justiça, isso só colocaria vocês em mais problemas.

— Seria uma matéria sem citar nomes dos envolvidos.

— Edward, sei que você deve estar à flor da pele com tudo isso, mas não pode perder a cabeça agora. Não faça uma burrice como fez quando pediu demissão, você precisa parar de agir por impulso, ou eu juro que te demito e te mando para a porra de um spa na Europa para que você controle seus nervos, me ouviu?

— Sim, senhor — sussurrei.

— Ótimo, se eu sonhar que você ligou para o editor do Chicago Tribune, ou para qualquer outro jornal, ou sei lá, publicou sobre o caso de alguma forma que seja, eu irei te demitir. Quer perder seu cargo?

— Não, pai, claro que não.

— Excelente, agora vai tentar relaxar um pouco, sua família precisa de você. Eu estou voltando mais cedo para casa, irei jantar com Matthew, sua mãe e Nelly, depois levo os dois para o apartamento de vocês.

— Tá ok — concordei. — Pai?

— Sim?

— Por que você e o tio Caius brigaram?

— Continua não sendo da sua conta. — Ele desligou na minha cara, fazendo com que eu ficasse em choque.

Sai do sofá, deixando os cachorros para trás. Tomaria um banho quente e tentaria dormir algo também, precisava mesmo relaxar, antes que fizesse alguma merda que deixasse toda minha família revoltada comigo.

Segui direto para meu quarto e de Bella, a ouvi no closet. Fui para o banheiro e tomei um banho rápido, mas demorei algum tempo fazendo a barba, antes de ir buscar roupas para me vestir.

Entrei no closet e me deparei com Isabella colocando roupas suas dentro de uma mala, paralisei no lugar, mas consegui perguntar:

— Para onde você vai com essa mala, Isabella?

Ela ergueu o olhar para mim, parecia indignada.

— Você não está achando que eu estou arrumando uma mala para ir embora de casa, está?

— Não sei, eu ultimamente só tenho falhado com você — murmurei constrangido.

— É, você tem sido bem idiota ultimamente. — Ela jogou mais uma camiseta dentro da sua mala. — No momento estou tão puta com você que eu bem que queria atirar essa mala na sua cara. — Eu ri, mas parei quando ela continuou séria.

— Desculpa, querida.

— Não depois do que você falou na sala, sendo tão grosso comigo, pelo menos não hoje — resmungou. — Vou precisar de ao menos uma noite para te perdoar, quem sabe mais de um mês para digerir sua ideia de levar o caso ao público.

— Eu não vou — falei apressadamente. — Meu pai ligou e colocou minha mente no lugar.

Ela pareceu traída ao ouvir isso.

— Sério, Edward? Você tem quase trinta e um anos, é pai de dois filhos e casado, mas precisa do seu pai te dizendo o que é certo ou errado? Não estou bancando a sabe tudo, mas sou a sua esposa, merda, você podia ao menos escutar a minha opinião? — Ela inspirou fundo. — Nós estamos brigando demais, Edward. Eu sei que casais brigam, não sou tola, mas não posso ficar brigando com você toda semana, isso está me desgastando, preciso de paz.

— Por isso a mala?

Bella revirou os olhos.

— Para de ser idiota, Edward! — exclamou. — Não estou indo passar um dia que seja fora, quem foge aqui é você. — Doeu mais que um tapa tendo ela me lembrando de quando eu me demiti e passei boa parte de um dia desaparecido, aquilo tinha mesmo sido uma grande palhaçada com toda minha família, principalmente Bella. — Foi mal — ela murmurou. — Eu não devia ficar jogando isso na sua cara.

— Você pode fazer isso, foi mesmo uma idiotice minha.

— Quando digo que preciso de paz é com você do meu lado, Edward Cullen. Por isso preciso que você pare de tomar decisões precipitadas, por isso que estou te implorando para me ajudar, porque eu também estou exausta. — Ela fungou. — A situação que passamos no trabalho, lidar com a adoção, ser mãe de dois e brigar com você está me matando! — Ela fez uma careta. — Não quis dizer que ser mãe...

— Eu entendi, eu sei o que quis dizer.

Ela suspirou.

— Por favor, não trave uma batalha entre nós dois também — implorou. — E se eu travar uma me faça perceber que isso não é a saída que precisamos.

— Eu farei isso — prometi, me aproximando dela e segurando em suas mãos.

— A mala é para Forks — falou. — Sei que só vamos na sexta-feira da semana que vem, mas preciso distrair minha cabeça do caso de Renesmee.

— Bella? Eu posso ser sincero com você?

— Sempre, querido — ela pediu, apertando minhas mãos de volta.

— Não acho que nós ganharemos nada em cima desse caso. — Ela apertou seus lábios. — Eu acho que estamos entrando em uma batalha que já está perdida, por isso eu queria fazer a publicação.

Bella se aproximou mais de mim, colocando seu rosto contra meu peito.

— Eu também acredito que já perdemos, Edward. Mas, por favor, não faça isso ir a público.

— Não farei. — Beijei o topo da sua cabeça. — Vamos tomar banho?

— Você acabou de sair do banheiro — ela falou, me olhando confusa.

Dei de ombros.

— Nunca é demais ficar limpo.

Bella deu um sorriso pequeno.

— E nunca é demais fazer sexo de reconciliação?

— É a única parte boa das brigas, querida, não quebre o protocolo. — Bella gargalhou, mas sua risada logo morreu.

— Nós vamos perder — disse, voltando ao assunto anterior. — Ontem perdemos a votação, hoje nossa filha foi expulsa e nosso filho ofendido da pior forma possível. — Lágrimas deslizaram por seu rosto, eu beijei sua face, limpando cada uma das suas lágrimas. — E James, o novo namorado de Irina Denali é o maior investidor dessa maldita escola.

— Nós também já injetamos dinheiro naquela escola — lembrei. — Quem sabe no fim das contas estejamos errados, nós também temos um nome de peso.

— Nós não somos mais bem-vindos, Edward. Não com Matthew ao nosso lado, para todas essas pessoas ele não está no lugar que merece. Quando isso chegar ao fim você pode ir a todos os jornais do país contar nossa história.

— Tem certeza?

— Sim, no momento que perdemos iremos gastar uma fortuna pagando por matérias de capa, mas que seja, iremos pagar para todos os grandes jornais do país contarem como Matthew sofreu racismo ali dentro e foi acobertado.

Assenti, concordando com ela.

— Você entende por que não pode ir antes, certo?

— Claro, eu entendo agora, Bella. Além do mais, eu gosto da sua benção no fim das contas — brinquei.

Ela se soltou de mim.

— É melhor você começar a não depender dela — disse irritada. — Vai que eu infarto com todo esse estresse de merda.

— Porra, Bella, não! — chamei sua atenção. — Não brinca com algo assim.

— Vamos tomar aquele banho!

***

Depois do nosso banho, assim como do sexo, Bella e eu decidimos entrar em alinhamento. Na segunda-feira buscaríamos por uma escola nova para Matthew e Renesmee, na manhã seguinte contaríamos ao nosso filho sobre o acontecido no colégio antigo e falamos com Rosalie — que estava furiosa com a situação também —, para que ela mantivesse Lucy e Anne onde estavam, para que as garotas não fossem prejudicas por estarem mudando de escola no fim do semestre. Minha irmã reclamou disso, mas se viu obrigada a concordar.

Bella acordou Renesmee na hora do jantar, nós três comemos em silêncio e depois de comermos vimos nossa filha colocar umas boas notas de um dólar no pote de palavrões.

— Eu falei muitas palavras feias hoje — confessou envergonhada.

— É, acho que todos nós estamos devendo um grande dinheiro para o pote — Bella confessou também. — Renesmee, senta aqui. — Apontou para a cadeira dela de volta, fazendo a garota voltar para a mesa. — Seu pai e eu achamos que nós não ganharemos o seu caso, isso quer dizer que Theodore não pagará pelo o que falou de Matt, nem sairá da escola também, assim como você continuará com a expulsão em seu histórico escolar.

Ela fez uma careta.

— E isso é terrível, como você bem sabe — Bella continuou. — Vai dificultar sua vida, principalmente quando você buscar por uma faculdade. E preciso ser franca com você, faculdade para mim é muito importante e mesmo que no futuro eu vá deixar você tomar suas decisões, eu estava esperando te ver em um lugar de renome como Harvard, Yale ou Stanford, mas não acho que isso será possível agora com sua expulsão.

— Desculpa te desapontar, mamãe.

— É, estou mesmo desapontada, mas agora quero e preciso que você seja forte, pequena. — Renesmee começou a chorar ao ouvir a fala da mãe. — Nós todos estamos com muitos problemas, por isso quero que fique firme, mas se você precisar chorar, desabafar ou qualquer outra coisa, seu pai e eu estamos aqui por você.

Renesmee concordou com um aceno de cabeça, se levantando e se jogando nos braços da mãe.

— Princesa? — chamei por ela, que olhou para mim. — Onde você aprendeu a bater daquele jeito?

Bella não conteve uma risada, apertando mais Renesmee contra si.

— Não sei, pai. Eu acho que estava com tanta raiva que consegui colocar toda minha força no soco. Estou me sentindo um pouquinho mal por Theodore agora.

— É, você não devia ter batido nele, mas ele também foi um grande filho da puta — Bella disse entre dentes. — Ah, olha só, mais um dólar para o pote.

***

Naquela noite, depois de Nelly e Matt voltarem da casa dos meus pais, Bella e eu colocamos Renesmee para dormir. Então, logo estávamos no nosso quarto, com Matthew junto da gente, já que minha mãe continuava reformando seu quarto e de qualquer forma ele queria dormir conosco.

— Hoje na aula de geografia eu tava aprendendo os nomes das capitais do país — Matthew contava para Isabella e eu, quando alguém bateu na porta.

Bella se levantou, indo até lá. Voltou logo, com Renesmee junto de só.

— Adivinha só, Ness quer dormir com a gente hoje.

— Não quero dormir só — ela falou triste, subindo na cama com a ajuda da mãe. — Posso dormir aqui, papai?

— Claro, Princesa. Mas, vamos ter de nos apertar. — Coloquei Matt mais perto de mim, deixando Renesmee se acomodar ao lado do irmão e Bella se unir a gente.

— Ué, você não disse que dormir com os pais era coisa de criancinha? — Matt perguntou para Renesmee, sorri ao ouvir a pergunta, Bella tinha me contado sobre aquele desentendimento dos dois dias antes. Entretanto, sorri ainda mais porque mesmo não me chamando diretamente de pai, Matthew me colocou no pacote.

— Aparentemente sou uma criancinha — Renesmee falou.

— Ótimo e as criancinhas precisam dormir agora! — Bella alegou. — Chega de papo, todo mundo em silêncio.

— Tá bom, mãe — Renesmee e Matthew falaram em conjunto.

O silêncio recaiu sobre o quarto depois de nós quatro desejarmos boa noite. Vi Bella colocando Renesmee protetoramente sobre seu braço, enquanto Matt se virava para mim e apoiava sua cabeça perto do meu ombro.

— Edward, posso te contar um segredo? — perguntou baixinho depois de um tempo.

— Todos, filho.

— O cheiro do perfume da mamãe é ruim — sussurrou, mas não me contive e ri.

— Eu escutei isso, Matthew! — Bella disse do outro lado da cama.

— Não é ruim — Renesmee disse em defesa da mãe.

— Talvez seja doce demais — falei.

— Você também não gosta do meu perfume, Edward? — Bella indagou perplexa.

— Eu não disse isso! — Eu obviamente gostava, pra caramba.

— Que bom que você e Matt ai desse lado da cama não precisam sentir meu cheiro ruim — dramatizou e mesmo que eu não pudesse ver seu rosto sabia que naquele momento ela estava sorrindo.

Matthew e eu rimos, então o senti se aproximar mais de mim.

— Edward?

— Sim, filho?

— Você sabe todas as capitais do país?

— Confesso que não — admiti.

— Você quer que eu te diga todas elas?

— Você tem que dormir, Matt! — Bella voltou a falar.

— Mãe, preciso ir ao banheiro — Renesmee falou se remexendo na cama.

— Edward, quero ir também — Matt falou comigo.

— Ok, aparentemente ninguém vai dormir hoje. — Eu sai da cama dando espaço para Matt sair, enquanto Bella fazia o mesmo com Renesmee. Nossa filha correu para fora do nosso quarto, Matt foi para nosso banheiro.

— Querido. — Bella se voltou para mim. — Quando tivermos o terceiro filho precisaremos de uma cama maior.

Sorri para ela.

— Vamos esperar que esse goste do seu perfume.

Ela me atirou um travesseiro, mas errou a pontaria.

— E que não herde sua péssima mira.

— Mais uma piadinha e você vai dormir na sala com George e Fred. — Ela mal tinha acabado de falar e a porta do quarto se abriu, para nossa surpresa eram os filhotes invadindo o cômodo. — Isso só pode ser brincadeira!

Bella me encarou em choque.

— Eles aprenderam a subir as escadas?

Eu gargalhei, pegando Fred em meus braços.

— Vocês são tão espertos, aprenderam rapidinho.

— Você os ensinou?

— Claro, sempre que os levo para passear os faço descerem e subirem por ai.

Bella bufou.

— Ótimo, agora eles vão ficar invadindo o segundo andar.

— Fred, George! — Matt gritou ao vê-los quando saiu do banheiro. — Edward, eles já sabem subir as escadas, que legal.

— Não é? Eles são muito espertos. — Matt pegou George em seus braços.

— Filho, não, você já vai dormir, para de se agarrar ao cachorro — Bella pediu.

— Os filhotes! — Renesmee voltou para o quarto novamente, tirando Fred de mim, Bella suspirou frustrada.

— Que seja, vocês que durmam cheios de pelo. — Ela deitou na cama, mas logo se levantou e foi para o banheiro. — Agora quem precisa fazer xixi sou eu.

— Edward, os filhotes podem dormir aqui? — Matt me perguntou.

— No chão.

Ele e Renesmee tentaram protestar, mas com um olhar severo meu pararam rapidamente. Acomodamos os filhotes no canto do quarto, em uma camiseta antiga minha que estava em uma poltrona ali perto. Então, recoloquei as crianças na cama e logo Bella voltou.

Minha esposa protestou sobre os cachorros, mas não se demorou muito nisso. Estava quase dormindo quando Fred e George começaram a choramingar, eu sequer pensei em levantar, mas ouvi Bella levantar e quando senti os filhotes também estavam na cama conosco.

É, nós definitivamente precisávamos de uma maior.

***

Na manhã seguinte, depois de todos nos reunirmos para o café, deixamos Renesmee ajudando Nelly com a louça e levamos Matthew para a sala, assim poderíamos conversar com ele sobre o acontecido no dia anterior na escola. Ele já estava confuso pelo fato de não estarmos o levando para o colégio, então sabíamos que precisávamos contar a situação.

— Ontem Renesmee se envolveu em um problema na escola, Matthew — Bella contou, indo direto ao ponto. Ela estava sentada ao lado dele no sofá, enquanto eu no chão, apoiando os pés de Matt em minhas pernas. — Ela agrediu um garoto da turma dela.

Matthew arregalou seus olhos escuros para a mãe.

— Ela matou ele?

— Não, com certeza não! — me apressei em responder. — Mas, machucou o nariz do menino — falei. — Bom, a escola não aceita agressões, por isso Renesmee foi expulsa.

— Ela não vai mais estudar?

— Não mais naquela escola — Bella respondeu para ele. — Você também não.

— Eu também fui expulso? — perguntou assustado. — Não bati em ninguém, mãe, juro.

— Ei, sabemos disso, pequeno. — Bella afagou suas costas. — Mas, não podemos deixar você continuar naquela escola. É um lugar muito preconceituoso, talvez seu pai e eu erramos muito insistindo em te manter lá.

— Matthew? — chamei por ele. — Renesmee não agrediu o outro garoto por qualquer coisa, apesar do que ela fez ter sido muito errado, ela só fez querendo te defender. — Matthew franziu a testa, segui explicando. — Esse garoto ofendeu você, ele te chamou de ladrão.

Matthew se encolheu debaixo do braço de Bella.

— Não roubei ninguém, Edward.

— Nós também sabemos disso, filho — Bella e eu falamos juntos. — O que esse garoto falou foi horrível, Matthew — continuei. — Ele chamou você assim por conta da sua cor de pele. — Peguei seu braço em minhas mãos. — Disse que só por você ser negro era um ladrão, o que é um absurdo, entendeu?

— Isso se chama racismo, já ouviu essa palavra por ai, não? — Bella falou com ele.

— Você disse ela naquele dia que estávamos fazendo os cartazes para a escola, mãe. Ah, o tio Oscar também vivia falando ela, mas ele nunca me disse o que era.

— Quem é Oscar? — perguntei a ele.

— É um amigo do meu pai — Matthew contou. — Ele morava com a gente, também foi pra rua quando fomos.

Bella inspirou alto, enquanto eu mordia a ponta da minha língua, aquele assunto de Matthew morando na rua era algo muito delicado para nós, com certeza ainda mais para ele.

— O que racismo quer dizer?

— Racismo é um tipo de preconceito e preconceito é quando julgamos algo ou alguém, no caso do racismo ocorre, por exemplo, quando pessoas brancas são preconceituosas com os negros só por eles serem negros. É exatamente o que o garoto da escola fez, ele lhe chamou de... Ladrão, por você ser negro, só porque na nossa sociedade as pessoas tendem a taxar pessoas negras como marginais e por um monte de outros nomes feios — expliquei o melhor que pude.

— Você gostou de estudar história, né? — Bella perguntou para ele, que assentiu. — Bom, no passado os negros foram escravizados, Matt. Eles eram tirados de suas casas e enviados para outros lugares por pessoas brancas, então, esses negros trabalhavam em condições terríveis e eram desprezados pela sociedade. Isso afeta os negros ainda hoje, pois mesmo que tenham se passado muitos anos, ainda há por ai pessoas más e preconceituosas como esses brancos do passado que escravizaram os negros, pessoas que acreditam que os negros deveriam continuar no cantinho da cidade apenas os servindo.

— E isso é muito errado — completei a fala de Bella. — Você ser negro não dá direito a ninguém para lhe desprezar, Matthew — declarei. — Você merece ter tudo que todos os outros meninos da sua idade tem, sejam eles descendentes de tribos indígenas, brancos, asiáticos. Sua cor de pele não pode ser um impedimento para nada, filho. Sei que você só tem oito anos, que não deveria estar se preocupando com algo tão sério, mas infelizmente sua mãe e eu precisamos te dizer o quão agressivo o mundo pode ser.

Ele assentiu.

— Você sabe disso, né? — Segurei no seu rosto. — Com certeza sabe mais do que Bella e eu, por conta da sua história.

— Não era legal morar na rua — Matthew sussurrou, entendendo perfeitamente sobre o que eu estava falando. — Era frio, fedia e eu queria uma cama. Mas, o papai falava que não tínhamos para onde ir, que ninguém queria nos dar uma casa e que ele não tinha grana para pagar por uma. — Uma lágrima rolou por seu rosto. — Ele fazia coisas erradas, meu pai, eu sei disso. — Desviou o olhar do meu. — Ele falava que era a única forma de conseguir dinheiro que ele tinha. Era verdade? — Voltou a olhar para mim.

— Ele fez as escolhas dele, Matthew — murmurei. — Mas, talvez se a sociedade fosse um pouquinho melhor para todos, ele não teria visto elas como a sua única escolha.

— Com você será diferente, pequeno. — Bella limpou o rosto dele. — Nós prometemos que você não vai fazer coisas erradas como Laurent, iremos cuidar de você, para sempre. A escola é um meio de ficar longe dessas coisas erradas, por isso iremos buscar outra para você e sua irmã, mas dessa vez uma que seja boa de verdade e que não te descrimine, que não apoie o preconceito e o racismo.

Matthew concordou com um aceno de cabeça, apertando suas mãos uma na outra.

— Eu nunca mais vou morar na rua? — perguntou.

— Nunca mais, Matthew — Isabella e eu prometemos juntos. — Você tem uma casa agora, sempre terá — acrescentei, ele sorriu para mim.

— Obrigado, Edward. — Se voltou para Bella e a abraçou. — Obrigado, mãe.

***

Mais tarde naquela sexta-feira Isabella e eu tornamos a nos reunir com o advogado cuidando do caso de Renesmee, ele já estava fazendo tudo que era necessário para o processo. A primeira medida foi pedir as gravações da câmera do corredor onde aconteceu a agressão, ele queria analisar as imagens e tentar provar que Renesmee foi provocada a agredir Theodore, porém quando assistimos a gravação no escritório dele, foi frustrante.

Theodore estava andando bem atrás de Renesmee no corredor vazio, sequer podíamos ver seu rosto, escondido atrás dos cabelos cacheados dela que estavam soltos naquele dia. Sendo assim, a câmera não o capturou falando para que qualquer especialista pudesse fazer uma leitura labial, uma vez que a câmera era sem som, tudo que podíamos ver era Theodore andando atrás de Renesmee, então ela se voltando para ele e o socando no rosto.

— É isso, não temos prova alguma do que ele disse para ela, apenas a palavra de uma menina de dez anos, contra o rosto machucado de um garoto que é o exemplo da sala e que possui imagens comprovando a agressão — Bella falou, o advogado assentiu, não parecia nada contente.

— Eu analisarei as imagens novamente, tentarei falar com os professores, mas... Não acredito que há alguma forma de comprovar que Renesmee foi provocada a agredir Theodore, também não creio que o garoto confessaria.

— Ele com certeza não se entregaria — eu me pronunciei. — Eu acho que está na hora de aceitarmos a derrota.

Bella assentiu em concordância.

— Não há muito mais o que fazer, senhor Michaels — disse para o advogado. — Nós estamos aceitando isso, pode marcar uma reunião de acordo com os Rowell e o advogado deles, nós daremos o dinheiro que eles pedirem por conta da agressão, agora só queremos manter isso longe de um julgamento, Renesmee não pode ser ainda mais prejudicada.

— Eu cuidarei disso — o advogado falou, irei ligar para o advogado deles agora e ver se consigo marcar o encontro.

O homem se levantou e saiu da sala, voltei meu olhar para Bella, que parecia decepcionada.

— Sinto muito, querida, eu também estou péssimo com isso. — Ela segurou em minha mão com força.

— Não podemos insistir em algo que sabemos que perderíamos, Edward. — Deu de ombros. — Só quero que minha filha possa voltar à normalidade o quanto antes.

— Não vamos publicar nada disso nos jornais. — Bella me olhou surpresa.

— Mas...

— O nome dela acabaria sendo exposto e atrairíamos mais ainda a fúria dos Rowell, mesmo após o acordo que faremos com ele. Também não estou pedindo sua benção agora, certo? — brinquei, Bella deu um mínimo sorriso. — Você estava certa, Renesmee precisa de tranquilidade e não podemos nos expor, principalmente com o processo da adoção de Matthew ainda em andamento. Um dia nossa menina encrenqueira será candidata à presidência dos Estados Unidos, contará o caso para todos e será eleita, então o irmão dela será justiçado.

— É horrível que Matthew não tenha direito a voz.

— Sim... — Parei de falar, sentindo um grande sorriso no meu rosto.

— O que está tramando, Edward?

— Renesmee queria ser uma Youtuber, não?

— Sim, o que isso tem a ver com esse assunto?

— E se não fossemos aos jornais, mas deixássemos Matthew gravar um vídeo falando sobre como o racismo o afeta? Não falaríamos sobre o caso em si, mas de maneira geral.

Minha esposa sorriu de volta.

— Nós poderíamos falar com outras pessoas negras para nos ajudar nisso e dar espaço para eles contarem suas histórias em vídeos, também poderíamos fazer um grande projeto e poderíamos montar uma cadeia de palestras no hotel, com pessoas negras falando sobre.

Porra, eu amava a mente daquela mulher!

— Você tem a total liberação do diretor financeiro do hotel para isso, querida. — Ela piscou para mim. — E do presidente também, ele com certeza aprovará isso.

— Vamos fazer isso. — Bella se animou. — Daremos a voz para Matthew e as outras pessoas que são silenciadas.

***

Mesmo com todas as confusões dos últimos dias, acordei animado no sábado, já que seria o dia que Matthew e eu — Renesmee por estar de castigo não iria mais — iriamos para a pista de Kart com Henry e David do grupo de apoio, assim como seu filho, John. Bella tinha decidido dispensar a aula de boxe com Lauren, ela queria um tempo com Renesmee que continuava chateada com a encrenca que se meteu.

Matthew e eu decidimos ir no meu Bugatti, para aproveitar o dia em grande estilo. Claro que Bella surtou com isso, já que o carro só tinha dois lugares na frente e Matthew ainda era novo para ir lá, então ela nos proibiu e me mandou pegar o Volvo, ele e eu ficamos chateadíssimos com a repreensão, mas aceitamos.

— Edward! — Henry foi o primeiro a nos ver quando chegamos ao local, eu já tinha andando de Kart lá antes, durante minha adolescência, inclusive tinha sido Irina quem me apresentou o local.

Junto de Henry vimos seu marido David e o filho deles, John. Como eles tinham me dito antes, o garotinho tinha a idade de Matthew, ele parecia tão animado aquela manhã quanto meu filho. Eu estava feliz com aquele passeio, não apenas pelo fato de poder dirigir em alta velocidade, mas por Matt poder conhecer John que era um garoto negro também, depois de estudar naquela escola ele precisava de mais referências negras e eu acreditava que teria isso com David e John.

— Olá! — Ajustei em minha cabeça o boné que tinha comprado quando fomos para o aquário a primeira vez com as crianças. Apertei as mãos de David e Henry, então o primeiro me apresentou ao seu filho.

— John, esse é o Edward.

— Oi, Edward! — John me cumprimentou empolgado. — Papai David disse que você tem um Bugatti, é sério?

— Sim, eu queria ter vindo com ele hoje, mas minha esposa achou melhor eu vir com meu seguro Volvo. — Revirei os olhos, John riu. — Ei, John, esse é meu filho, Matthew. — Os apresentei, Matt apenas acenou para ele, estava tímido desde que chegamos ali. — Matt, esses são David e Henry, os pais do John. — Naquele instante Matthew me olhou sem entender nada.

— É um prazer te conhecer, Matthew! — David exclamou. — Pronto para o Kart? Acredito que você vai gostar, seu pai nos falou que você gosta de carros.

Matthew apenas deu de ombros, aceitou minha mão e seguimos David, seu marido e seu filho para dentro da pista. O local era fascinante, exatamente como eu me lembrava, o barulho dos motores me deixava muito animado e louco para dirigir de uma vez, mas antes disso fizemos uma parada em uma espécie de bangalô e pedimos comida gordurosa para começar o dia fora da linha.

— John sonha em ser um piloto de stock car — Henry contou sobre o filho, quando nós cinco estávamos sentados ao redor da mesa do bangalô, nos empanturrando de batata frita e refrigerante. — Já sabe o que irá ser quando crescer, Matthew?

— Sei lá. — Meu filho estava remexendo seu copo de refrigerante.

— Uma dica, não seja professor de inglês é chato — David disse em tom de provocação, uma vez que seu marido era um.

— Engraçadinho. — Henry se virou para ele fazendo uma careta, David riu, se inclinou e beijou o marido nos lábios, algo rápido. Naquele momento Matthew deixou cair seu copo sobre a mesa, o que ocasionou no refrigerante indo para todo o lado.

— Opa, rolou um acidente. — Peguei lencinhos e comecei a secar o refrigerante da mesa, Henry e David me ajudaram, John se prestou a erguer o balde de batata frita.

— Vocês são viadinhos! — Matthew exclamou indignado, fazendo com que todos olhássemos para ele no mesmo instante.

— Matthew! — chamei sua atenção, sentindo meu rosto empalidecer de vergonha.

— Edward, isso é errado — ele falou, ainda revoltado. — Meu pai falava que viadinhos não deveriam existir, que são aberrações.

— Matthew, não...

— Não os chame assim! — John gritou com Matthew.

— John, calma — David pediu.

— Mas, pai, ele está sendo preconceituoso!

Olhei para David e Henry, o primeiro parecia mais calmo, enquanto o segundo estava claramente nada contente com o que meu filho tinha acabado de dizer.

— Sinto muito por isso — falei.

— É, você devia sentir mesmo! — Henry exclamou entre dentes.

— Matthew, é melhor irmos embora agora.

— Mas, Edward...

— Sem reclamar, nós estamos indo embora agora mesmo! — alertei, tirei algum dinheiro do bolso e coloquei sobre a mesa para pagar nossa parte da comida. — De novo, sinto muito por isso — repeti para eles.

— Não se preocupe, Edward, nós entendemos — David falou, Henry claramente discordou com seu olhar, mas ficou calado.

Segurei firme na mão de Matthew, o guiando para fora da pista de kart e o levando para o estacionamento.

— Edward, por que estamos indo embora?

— O que você fez foi muito errado, Matthew — declarei. — Nunca deveria falar coisas como aquelas que disse para David e Henry. — Abri a porta de trás do Volvo para ele, o colocando em seu lugar em segurança.

— Mas, eles são viadinhos, Edward.

— Matthew, pare com isso agora mesmo! — ordenei, ele encolheu no lugar. — Nós iremos conversar em casa, entendido?

— Tá, mas não fiz nada de errado...

— Você fez sim, em casa falaremos sobre. — Terminei de prender seu cinto. — Muito errado, Matt!

***

O caminho para casa foi feito em silêncio, assim que chegamos lá ouvimos o piano sendo tocado. Na sala vimos Renesmee sentada ao piano, enquanto Bella estava no sofá lendo um livro, assim que nos viu minha esposa ficou confusa.

— Como assim vocês já voltaram?

— Aconteceu algo, temos que conversar com Matthew. — Bella ficou visivelmente tensa, mas colocou seu livro de lado e se levantou. — Vamos para seu escritório — ela falou. — Renesmee, fique comportada ai, certo?

— Sim, mamãe. — A garota que tinha parado de tocar respondeu.

— Nelly logo deve chegar do passeio com os filhotes — Bella disse para Renesmee, antes de seguir na frente até meu escritório, para onde conduzi Matthew. — O que aconteceu? — nos perguntou.

Sentei Matthew no sofá e me virei para Bella.

— David e Henry se beijaram na frente de Matthew, ele os chamou de viadinhos e disse que eles eram aberrações que não deveriam existir — contei, vendo Isabella arregalar seus olhos.

— Matthew!

— Mãe, mas eles se beijaram, isso é muito errado.

— Quem lhe disse isso?

— Meu pai — ele falou. — Ele dizia que viadinhos não deveriam existir.

— Matthew, pare de repetir isso agora mesmo — exigi, ele encolheu seus ombros.

— Matthew, não há problema algum em ser gay, o que David e Henry são, não viadinhos como você os chamou, o que é um termo muito ofensivo. E, não, eles não são aberrações que não deveriam existir.

— Mas...

— Mas Laurent disse que sim — ela o interrompeu. — Só que ele estava completamente errado, ok? Ele foi muito preconceituoso dizendo essas coisas. Se lembra da nossa conversa de ontem sobre racismo? Não é o único tipo de preconceito por ai, um deles é a homofobia e é quando alguém age da forma que você agiu com homossexuais, homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo.

— Eu não entendo — ele murmurou.

— Matthew? — o chamei, fazendo com que ele olhasse para mim. — Relações amorosas vão muito além de um casal composto só por um homem e uma mulher. Não há nada de errado em um homem amar outro homem, ou em uma mulher amar outra mulher. Sabe o John? O filho de David e Henry, bom, ele foi adotado por eles e agora tem uma casa, uma família e é amado por seus pais, exatamente como você tem tudo isso aqui conosco. Eles serem gays não interfere no quão bons pais são, ou boas pessoas de forma gerais, não são aberrações, muito menos deveriam deixar de existir. São só duas pessoas que se amam, do mesmo jeito que amo sua mãe, e que seu avô ama sua avó. Você não deve ser julgado por ser negro, mas também não possui o direito de julgar ninguém por ser gay, ou qualquer outra coisa. Entendeu?

— Acho que sim.

— Alguma pergunta?

— Sim. — Ele olhou para a mãe que tinha falado com ele. — Eles são casados de verdade?

— São, exatamente como seu pai e eu. Foram muitos anos até que o casamento entre pessoas de mesmo sexo fosse aprovado, Matthew, uma longa batalha deles buscando por seus direitos. Sabe, no passado pessoas negras e pessoas brancas também não podiam se casar. — Matthew arregalou seus olhos. — Isso é horrível, né? Pois é, isso tudo é o que chamamos de preconceito e sabemos que você veio de uma criação diferente, mas não vamos aceitar esse tipo de comportamento preconceituoso nessa casa.

— Vocês vão me mandar de volta para o abrigo? — Matthew nos perguntou nervoso.

— Claro que não, Matthew! — respondi. — O que sua mãe quis dizer é que você precisa mudar seu pensamento a respeito de pessoas gays, não queremos que cresça com esse tipo de preconceito enraizado em você.

— Tudo bem, prometo nunca mais falar esse tipo de coisa.

— Não é apenas deixar de falar, Matthew — disse. — Você precisa entender de verdade — falei.

— Eu comprarei alguns livros sobre o assunto para a sua idade, então iremos tirar suas dúvidas — Bella declarou. — Mas, você não está livre, irá ficar de castigo por uma semana. — Matthew pareceu torturado ao ouvir isso. — Sem tv, internet, videogame, sem passeios. — Ela olhou para mim, queria que eu acrescentasse algo.

— E você irá escrever um pedido de desculpas para David e Henry pelas palavras grosseiras e ofensivas que disse a eles, ok?

— Sim, Edward.

— Ótimo, vou deixar vocês cuidando disso. — Bella saiu do escritório.

Fui até a minha mesa, peguei papel e caneta e voltei para junto de Matthew, ocupando um lugar ao seu lado.

— Vamos, você e eu escreveremos a carta, depois eu a enviarei por e-mail para David e Henry.

— Eu fui muito mau com eles, não fui?

— Foi sim, mas agora pode pedir desculpas e irá trabalhar em entender mais sobre diversidades. Vamos lá, como quer começar?

Cerca de duas horas depois, após duas versões diferentes, Matthew por fim terminou sua carta, comigo o ajudando a redigi-la. Em seguida eu a digitalizei e enviei para Henry e David, uma vez que tinha seus números e contatos de e-mail.

“Queridos David e Henry,

Eu gostaria de dizer que sinto muito pelo modo como agi com vocês hoje cedo, foi preconceituoso, como minha mãe e Edward me explicaram. Ainda não entendo isso tudo direito, mas eu juro, juro mesmo, que vou tentar entender melhor.

Prometo nunca mais ser preconceituoso com ninguém, então, peço que me desculpem por ter sido com vocês. Como falei, ainda não entendo isso tudo direito, só que me sinto muito arrependido pelas palavras que falei.

Vocês dois e John parecem muito legais, de verdade. Espero que possamos voltar ao Kart qualquer dia desses.

Abraços, Matthew.”

Recebemos uma resposta mais tarde no sábado, quando Henry me ligou e soou mais calmo e positivo. Ele aceitou as desculpas de Matthew, assim como pediu as suas por na hora ter ficado visivelmente revoltado com aquilo, mas eu garanti que ele estava em seu direito. Ele e David falaram rapidamente com Matt, então nós chegamos a um acordo que assim que possível voltaríamos ao kart, daquela vez sem palavras feias sendo proferidas.

***

A segunda-feira foi um começo de semana enrolado para mim, principalmente no trabalho já que eu estava muito ausente desde a quinta-feira. E, aquela seria uma semana atribulada, com a viagem no fim de semana para Forks. Na quinta a reunião de acordo com os Rowell, que eu amaldiçoava vinte vezes ao dia. Matthew na terça iria falar com a psicóloga, que tinha marcado a consulta no comecinho daquela segunda e ainda tinha o fato de eu estar exigindo respostas de Jenks sobre nossas informações que foram vazadas para Laurent na cadeia, mas ele continuava sem ter o que me dizer.

Na parte da manhã daquela segunda-feira — que Felix estava de folga — Bella me deixou no trabalho e seguiu para um shopping, ela queria comprar os livros para trabalhar sobre diversidades com Matthew. Mais tarde nós dois ainda iriamos buscar por escolas para as crianças e de noite teríamos o grupo de apoio, era uma segunda movimentada.

Eu mal tinha pisado na empresa e Jasper foi até minha sala, para que pudéssemos ter uma reunião. Falei para Jessica que não queria ser incomodado e foquei no trabalho, desligando os ramais dos telefones fixos e meu celular.

Eu estava avaliando alguns números, quando fui interrompido.

— Senhor Cullen. — Jessica entrou na sala sem bater, ou sequer se anunciar.

— Senhorita Stanley, eu disse que não queria ser interrompido.

— É importante, senhor — ela falou rapidamente. — Sua mãe acabou de ligar, disse que sua esposa está no hospital.

— O quê? — gritei, levantando na mesma hora que Jasper. — O que minha esposa tem?

— Sua mãe não me disse, apenas falou que o senhor deveria ir imediatamente para o Hospital Geral... — Já não escutava mais nada do que ela dizia, estava tremendo por conta do nervosismo, apenas peguei minha carteira e celular, clicando para ligá-lo e sai correndo da sala.

Minha esposa estava no hospital, por algum motivo que eu não sabia. Minha esposa, que estava perfeitamente saudável pouco tempo antes, estava no hospital, e minha mãe queria que eu fosse imediatamente para lá.

— Quer que eu vá com você? — Jasper me perguntou quando eu já alcançava o elevador.

— Não, fique e cuide de tudo — mandei, o vi assentir antes das portas do elevador se fecharem.

Assim que meu celular terminou de ligar entrei em contato com minha mãe, que atendeu logo.

— Mãe, o que aconteceu?

— O pessoal do hospital não conseguia falar com você, ligaram para mim, seu pai e eu estamos aqui...

— Mãe, o que aconteceu? — questionei impaciente.

— Um assalto, no estacionamento do shopping. — As portas do elevador se abriram e eu mal consegui andar para fora dele.

— Ela foi baleada? — consegui perguntar.

— Não! — mamãe respondeu rapidamente. — Mas, o bandido bateu nela, filho. — Ela começou a chorar. — Pelo o que nos disseram ela estava tão nervosa quando a socorreram no shopping que assim que chegou ao hospital foi sedada para se acalmar, está dormindo agora. Venha para cá, ela não está correndo nenhum risco, mas a pobrezinha deve ter ficado em pânico.

— Estou indo — murmurei, naquele momento eu era a pessoa em pânico.

Não sei como consegui chegar ao hospital, ou falar com alguém na recepção que me encaminhou para o andar onde Bella estava. Mas, quando me dei conta meu pai estava andando até mim e segurando em meus ombros com firmeza.

— Pa-Pai — gaguejei.

— Ela está bem, de forma geral — ele falou, olhando no fundo dos meus olhos. — Não foi baleada, nem esfaqueada, o cara a sufocou e bateu nela, também a empurrou, ela está machucada, mas já fiz três médicos a examinarem e todos garantiram que ela não corre risco algum.

— Quem fez isso? — indaguei, sentindo as lágrimas em meu rosto.

— Já coloquei meio mundo atrás dessa informação — assegurou. — Eu vou cuidar de tudo isso, Edward — meu pai garantiu. — Agora preciso que se acalme e vá ficar com sua esposa.

Mais lágrimas rolaram por meu rosto, mas meu pai agarrou meus ombros com mais força.

— Edward, seja forte! — ordenou. — Bella precisa de você agora, você precisa estar lá por sua esposa. — Tirou suas mãos de mim e apontou para o quarto que ela devia estar, bem na hora que minha mãe saiu lá de dentro.

— Filho. — Ela me abraçou e beijou meu rosto, secando minhas lágrimas. — Bella ainda está dormindo, mas vá ficar com ela.

Engoli em seco, antes de me soltar dela e entrar no quarto. Minha esposa, aparentando total vulnerabilidade, estava deitada na cama hospitalar, usando uma bata azul e branca.

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Cheguei mais perto e vi as marcas nela, ao redor dos seus pulsos, como se mãos tivessem a segurado com muita força, seus braços arranhados. Então, marcas vermelhas em seu pescoço, que me fizeram prender a respiração ao imaginá-la sendo sufocada. E seu rosto não estava livre, ela tinha um pequeno corte no lábio inferior e outro na bochecha esquerda.

— Não, Bella, não! — exclamei apavorado ao vê-la daquele jeito, segurando com delicadeza sua mão na minha. Notei naquele momento que sua aliança de casamento tinha sumido, assim como o dedo anelar dela estava ferido e suas mãos arranhadas nas palmas. — Quem fez isso com você, querida? — perguntei, beijando com gentileza sua testa.

Voltei a chorar, foi inevitável. Minha esposa tinha sido assaltada e ferida, algo pior poderia ter acontecido, eu podia ter perdido o amor da minha vida.

— Por favor, por favor, nunca me deixe — implorei para Isabella. — Eu amo você, querida. Não sei viver sem você, então, por favor, não me deixe. — Beijei seu rosto, minhas lágrimas rolavam por minhas bochechas sem parar.

— Edward? — Olhei para a porta do quarto, vendo meu pai. — Pegaram o cara que fez isso com Isabella, aparentemente ele se chama Oscar.

O nome acendeu em minha mente, eu tinha uma grande suspeita de quem era aquele Oscar, o tal amigo de Laurent que Matthew tinha mencionado outro dia.

— Pai, eu preciso que você mande seguranças de sua extrema confiança protegerem meus filhos.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 16.08.18