Nos Nossos Sonhos
1 0.1
Eu abri os olhos e não reconheci nada.
A primeira coisa que me atingiu foi o cheiro: terra molhada, folhas podres, o ar úmido e pesado de uma floresta depois da chuva. Não era aquele cheiro genérico, suave, que a gente sente nos sonhos — aquele que a gente sabe que não é de verdade, porque a mente não consegue inventar detalhes assim. Não. Era denso, quase sufocante, como se eu pudesse mastigar o ar e sentir o gosto da terra na língua. Respirei fundo, e doeu. Doeu como se meus pulmões tivessem esquecido como funcionar direito.
Levantei as mãos e encostei as palmas no chão. A terra estava fria, úmida, cheia de pequenos grãos e pedrinhas que se cravavam na minha pele. Não era a sensação amortecida, borrada, que a gente tem quando sonha. Era real. Era real demais. Olhei para as minhas unhas — sujas, com terra embaixo — e para as roupas que eu vestia: uma camisa branca, manchada, e uma calça jeans que eu não me lembrava de ter colocado. Não fazia sentido. Nada fazia sentido.
— O que tá acontecendo? — falei em voz alta, e a minha própria voz me assustou. Soou rouca, como se eu não a usasse há dias.
O vento mexeu nas árvores acima de mim, e o barulho das folhas foi tão alto, tão claro, que eu me encolhi. Não era aquele ruído de fundo, indistinto, que a gente ouve nos sonhos. Era o som real de galhos rangendo, de folhas se esfregando, de algo vivo e presente. Algo que não deveria estar ali. Ou, pelo menos, não deveria estar ali comigo.
Tentei me lembrar de como eu tinha chegado naquele lugar. A última coisa que eu me recordava era estar em casa, no sofá, assistindo a alguma coisa na televisão. Ou será que eu estava no trabalho? A memória escorregava, como se alguém tivesse puxado um fio e desmanchado tudo. Fechei os olhos com força, apertando as pálpebras com os dedos, como se isso pudesse reiniciar a cena. Mas quando os abri de novo, a floresta continuava lá, imutável, como se estivesse me esperando.
— Isso não é um sonho — eu disse, desta vez com mais firmeza, como se a afirmação pudesse, por si só, mudar alguma coisa.
Mas se não era um sonho, então o que era? E, mais importante, como eu tinha parado ali, no meio do nada, sem saber como nem por quê?
Comecei a andar sem nem saber pra onde. Só sabia que ficar parada não ia me ajudar em nada. As árvores pareciam se repetir, altas e tortas, com galhos que se curvavam sobre mim como se quisessem fechar o caminho. O chão era irregular, cheio de raízes, e cada passo fazia um barulho que me deixava ainda mais nervosa. Era como se o som ecoasse alto demais, denunciando cada movimento meu.
A luz também não ajudava. Não era dia, mas também não era noite. Era aquele tipo de claridade acinzentada, onde o sol parece escondido atrás de um véu. A cada passo, a luz mudava de tom — às vezes mais fria, às vezes amarelada — e isso me dava uma sensação estranha, como se a floresta respirasse junto comigo.
Em certo ponto, o silêncio ficou pesado. Nenhum inseto, nenhum som de pássaro. Nada. Só o barulho do vento cortando o ar. E foi aí que senti — aquela sensação irritante de estar sendo observada. Não era imaginação. Eu podia sentir o olhar de alguém nas minhas costas, tão forte que me fez parar no meio do caminho.
Meu coração disparou. Virei a cabeça devagar, tentando não fazer barulho. Nada. Só árvores, sombras, e aquela neblina leve que começava a se espalhar pelo chão.
— Tem alguém aí? — chamei, e a minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Silêncio.
Pensei em continuar andando, mas então ouvi. Passos. Não os meus. Um som ritmado, firme, vindo de algum ponto à direita. Congelei. Cada músculo do meu corpo reagiu como se estivesse prestes a correr, mas não corri. Fiquei ali, esperando o som se aproximar.
Os passos ficaram mais próximos, mais definidos. E quando o vulto começou a surgir entre as árvores, meu estômago virou. O rosto que apareceu por trás da neblina era conhecido demais pra caber naquele cenário.
— Jace? — o nome escapou antes mesmo que eu conseguisse pensar.
Ele estava ali, parado a poucos metros, com as mãos nos bolsos e aquele mesmo olhar calmo — o mesmo olhar irritante que sempre me deixava sem paciência. Não parecia surpreso de me ver. Parecia... preparado. Como se já soubesse que eu apareceria ali.
— Só me faltava essa... sonhar com você. — Eu ri, meio sem acreditar.
Ele ergueu uma sobrancelha, dando aquele meio sorriso que sempre carregava um ar de deboche.
— Bom, pelo menos seu subconsciente tem bom gosto.
Revirei os olhos.
— É, ou isso é muito azar, joguei pedra na cruz pra sonhar com você.
— Ainda prefere acreditar que isso é um sonho? — perguntou, dando um passo à frente.
A forma como ele disse aquilo me fez hesitar. Tinha algo no tom da voz dele, uma firmeza estranha. Ele não estava brincando. Não parecia alguém dentro de um sonho. Parecia ele mesmo. Cruzei os braços, tentando disfarçar o nervosismo.
— E o que mais isso seria? A gente se encontra no meio de uma floresta aleatória, eu sem lembrar como vim parar aqui, e você age como se estivesse em casa?
— Talvez eu esteja. — Ele deu de ombros.
Por um instante, o silêncio entre a gente ficou denso. A respiração dele era audível, lenta, enquanto a minha vinha curta, acelerada. Tinha alguma coisa errada ali — com o lugar, com ele, comigo. Eu só ainda não sabia o quê.
Eu o encarei, tentando ignorar a forma como meu pulso acelerava. Jace sempre teve esse efeito em mim — uma mistura de irritação e algo mais, algo que eu nunca consegui nomear. Mas ali, naquele lugar, com a neblina se enrolando nos nossos pés e o silêncio pesando como uma ameaça, a sensação era diferente. Era como se o ar entre a gente tivesse se tornado denso, quase sólido.
— Você está muito convencido disso — falei, apontando para o entorno com um gesto brusco. — Floresta misteriosa, neblina de filme de terror, e você aí, todo relaxado, como se isso fosse normal. — Cruzei os braços, tentando me firmar. — Só pode ser sonho. Ou eu tô tendo um surto psicótico coletivo com a minha própria imaginação.
Ele riu baixo, aquele som que sempre me fez cerrar os dentes. Não era uma risada debochada, não exatamente. Era como se ele achasse graça da minha teimosia, como se soubesse que eu ia resistir até o último segundo.
— Surto psicótico é um pouco dramático, não acha? — respondeu, dando outro passo na minha direção. — Mas se você prefere acreditar nisso...
— Prefiro acreditar que eu vou acordar daqui a pouco, no meu sofá, com uma dor de cabeça do inferno e a sensação de que comi algo estragado — retruquei, recuando sem querer. — E você vai voltar a ser só aquele cara chato que eu tenho que aturar no dia a dia.
Ele não se moveu para perto. Não precisava. Bastou o jeito como me olhou, como se estivesse vendo através de cada palavra que eu dizia. Como se soubesse exatamente o que eu estava tentando esconder — até de mim mesma.
— Será mesmo só um sonho, Dalia? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
A forma como ele disse meu nome fez meu estômago revirar. Não era o tom de sempre, aquele meio brincalhão, meio provocador. Era algo mais. Algo que soava como uma promessa. Ou um aviso.
— Claro que é — menti, porque a alternativa era muito pior. — Sonhos são assim. Esquisitos. Ilógicos. — Olhei ao redor, para as árvores que pareciam se fechar ainda mais, para a luz que agora tinha um tom quase prateado. — E você, obviamente, é só uma projeção da minha cabeça. O que é pior: isso significa que eu penso em você mais do que deveria.
Ele sorriu. Não aquele sorriso largo, irônico, que eu estava acostumada. Era algo mais contido, mais íntimo. Como se ele soubesse de algo que eu ainda não tinha coragem de encarar.
— Ou — disse, aproximando-se mais um passo — significa que a gente finalmente tá no mesmo lugar.
O ar ficou pesado. Não era só a neblina, não era só o silêncio. Era ele. Era o jeito como ele olhava para mim, como se eu fosse a única coisa real naquela floresta. Como se tudo aquilo — as árvores, a luz estranha, o chão que parecia respirar — fosse só um pano de fundo para algo muito maior.
E, pela primeira vez, eu senti medo.
Não do lugar. Não da situação.
Mas do que aquele olhar poderia significar.
Ele deu mais um passo, e dessa vez não recuei. Não porque não quisesse, mas porque meu corpo parecia ter esquecido como funcionar. O coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir, e o pior era que não dava pra saber se era de raiva, de medo ou de outra coisa — algo que eu não queria nomear.
— No mesmo lugar? — perguntei, a voz saindo mais trêmula do que eu gostaria. — Do que você tá falando, Jace?
— Você vai entender. — Ele disse, e o tom baixo da voz fez algo em mim reagir sem permissão. — Eu prometo que vai.
Revirei os olhos, tentando disfarçar o desconforto.
— Ai, por favor. Não vem com esse papo enigmático, tá? Já é estranho o suficiente eu estar presa num sonho contigo.
— Presa? — Ele riu de leve, um som rouco que me fez apertar os braços contra o corpo. — Engraçado... porque eu diria que, no fundo, é exatamente aqui que você quer estar.
— Jura? — forcei uma risada curta. — E onde foi que você tirou isso?
— Dos seus olhos. — Ele respondeu sem hesitar. — Eles sempre entregam o que você tenta esconder.
— Você não sabe nada sobre mim. — Falei rápido demais, quase automática.
— Sei o suficiente. — Ele deu mais um passo. — Você tá com medo, Dalia? — ele perguntou, a voz mais baixa agora, quase um murmúrio.
— Medo? — ri, forçando um tom de deboche. — De quê? De um sonho? De você? — Mas minha voz tremia, e isso me irritou ainda mais.
Ele não respondeu. Só encostou a mão no meu rosto, os dedos quentes contra minha pele fria, e eu deveria ter empurrado ele. Eu ia empurrar ele. Mas não empurrei.
— Isso não vai acontecer — falei, mesmo sabendo que já estava acontecendo. — É errado. Você é o amigo do meu irmão, Jace. Isso é... — Não consegui terminar a frase.
— É o quê? — ele provocou, inclinando a cabeça, os lábios tão perto que eu sentia o calor da respiração dele. — Um sonho? Uma fantasia? Ou só a verdade que você não quer admitir?
Eu deveria ter dado um tapa, virado as costas, qualquer coisa que não fosse ficar parada, sentindo o cheiro dele — aquele perfume que eu conhecia bem demais, misturado com o cheiro da floresta, da terra, de algo selvagem.
— Para — pedi, mas foi fraco, quase um suspiro.
Ele não parou.
Quando os lábios dele encostaram nos meus, foi como se algo dentro de mim se rompesse. Não foi um beijo suave, não foi um beijo pedido. Foi urgente, quase violento, como se ele estivesse segurando aquela vontade há muito tempo e finalmente tivesse perdido o controle. E eu... eu deixei. Minhas mãos, que deveriam estar empurrando ele, se cravaram na camisa dele, puxando-o pra mais perto, como se eu também não aguentasse mais fingir que não queria aquilo.
Odiei cada segundo. Odiei a forma como meu corpo reagiu — inevitável, como se tivesse esperado por isso sem nunca admitir. E ele sabia. Claro que sabia. Sentia no jeito como as mãos dele deslizavam pelas minhas costas, como se já conhecesse cada curva, cada reação minha.
Quando finalmente me afastei, foi com a respiração ofegante, os lábios doloridos e uma raiva que se misturava com vergonha, confusão e algo que eu não queria nomear.
— Isso não deveria ter acontecido — falei, mais pra mim do que pra ele.
Ele só sorriu, aquele sorriso arrogante, como se tivesse ganhado algo. Como se soubesse que, no fundo, eu não queria que aquilo parasse.
— Não deveria — concordou, passando o polegar pelo meu lábio inferior, como se quisesse apagar o que tinha feito. — Mas aconteceu. E vai acontecer de novo.
E, pela primeira vez, eu não tive uma resposta. Porque, no fundo, eu queria que ele estivesse certo.
Eu deveria ter dado um passo para trás. Deveria ter virado as costas e ido embora, mesmo que não soubesse pra onde. Mas não fiz nenhuma dessas coisas. Fiquei parada, com o corpo ainda vibrando do toque dele, com os lábios formigando, como se o beijo tivesse deixado uma marca que não ia sair tão cedo.
— Não — falei, mas a palavra saiu sem força, engolida pelo som da minha própria respiração ofegante.
Ele não precisou dizer nada. Só encostou a testa na minha, os dedos ainda no meu rosto, como se estivesse medindo cada reação, cada tremor. E quando a boca dele voltou a encontrar a minha, dessa vez foi pior. Ou melhor. Ou as duas coisas.
Não foi um beijo suave. Foi como se ele quisesse provar algo — pra mim, pra ele, pra aquele lugar estranho que nos envolvia. Os lábios dele eram quentes, insistentes, e eu deveria ter resistido. De novo. Mas não resisti. Minhas mãos, como se tivessem vontade própria, subiram pelos braços dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa, como se precisassem se segurar em algo para não afundar.
O toque dele desceu, lento, como se estivesse testando até onde podia ir antes que eu voltasse a me importar com o que era certo. Os dedos dele traçaram a linha da minha cintura, e eu senti o calor da palma da mão dele através da camisa, como se o tecido não existisse. Um arrepio subiu pela minha coluna, e eu odiei a forma como meu corpo reagiu, como se estivesse esperando por aquilo há muito tempo.
— Jace... — comecei, mas não tinha mais argumentos. Não tinha mais desculpas.
Ele não deixou eu terminar. A boca dele encontrou o meu pescoço, e o som que escapou da minha garganta foi algo entre um gemido e um protesto. Não importava. Nada importava além da sensação do corpo dele pressionado contra o meu, do calor que se espalhava por cada centímetro da minha pele, como se eu estivesse pegando fogo por dentro.
O mundo ao redor começou a sumir. Os sons da floresta — o vento, as folhas, aquele silêncio pesado — tudo ficou distante, abafado, como se estivéssemos dentro de uma bolha. Só existia a respiração dele, misturada à minha, os dedos dele se movendo com uma intimidade que não deveriam ter, e a forma como meu corpo se arqueava, como se quisesse mais, sempre mais.
Eu deveria parar. Eu ia parar. Mas não parei.
Eu não sabia em que momento o ar entre nós mudou. Um segundo antes eu só tentava recuperar o controle, o mínimo de lógica, e no outro... já era tarde demais.
Os beijos ficaram mais quentes, mais famintos. O toque dele não era mais um teste — era certeza. As mãos dele desceram até a minha cintura, firmes, e quando me puxou, o corpo dele se encaixou no meu com uma naturalidade que me fez esquecer o motivo de ainda tentar resistir. Senti o calor atravessar o tecido da roupa, me engolindo inteira.
O coração batia rápido, como se estivesse tentando acompanhar o ritmo da respiração dele, ou do próprio sonho, que parecia acelerar a cada movimento. O toque dele era firme, provocante, e eu odiava o quanto meu corpo reagia com tanta clareza. Aquilo não fazia sentido. Nenhum sonho deveria parecer tão real. Nenhum toque deveria deixar a pele quente desse jeito.
Empurrei o peito dele, sem muita força, só o suficiente pra criar um espaço entre nós. Precisava de ar, precisava pensar.
— Isso é um sonho — murmurei, como se dizer em voz alta fosse o suficiente pra quebrar o feitiço. — Só um sonho idiota.
Jace riu baixo, o tipo de riso que irritava e, ao mesmo tempo, fazia alguma parte de mim querer ouvir de novo. Ele me olhou de um jeito que me fez querer olhar pra qualquer lugar, menos pra ele.
— Você sempre volta pra mim, mesmo quando finge que não quer. — Ele disse com aquele meio sorriso, entre provocação e verdade.
— Cala a boca — respondi rápido, sentindo o rosto esquentar.
Mas ele não calou. Só me encarou em silêncio, o olhar queimando de um jeito que parecia atravessar tudo o que eu tentava esconder. Por um instante, senti que se ele chegasse mais perto, eu não teria mais pra onde correr.
E talvez... talvez nem quisesse.
O silêncio se alongou, pesado, quase sufocante. E então aconteceu: um som estridente cortou a floresta inteira. Um barulho agudo, persistente, que parecia ecoar de cada árvore, cada folha, até dentro da minha cabeça. Eu me afastei de Jace de repente, os olhos arregalados, o coração batendo tão forte que parecia que ia explodir. A floresta ao redor começou a tremer, como se o som estivesse rasgando a realidade em pedaços.
— O que é isso? — perguntei, a voz sumindo no meio do barulho ensurdecedor.
Jace não pareceu surpreso. Só me olhou com aquele meio sorriso, como se já soubesse o que ia acontecer. Como se soubesse de tudo.
— A gente se vê depois. — Ele deu um meio sorriso, como sempre, mas havia algo diferente nos olhos dele, algo que eu não conseguia decifrar. — E... desculpa por te puxar pra isso.
Eu arregalei os olhos, tentando processar o que ele acabara de dizer.
— Espera... o que você quer dizer com "pra isso"? — A voz saiu trêmula, confusa, quase inaudível.
Ele apenas inclinou a cabeça, o sorriso leve, provocador, sem responder de verdade.
— Que... que som é esse? — Perguntei, tentando entender. Minha voz soava distante, confusa, como se o mundo inteiro tivesse se distorcido de repente.
Jace sorriu, com aquele sorriso que misturava provocação e uma calma estranha.
— Acho que é hora de acordar.
A floresta se dissolveu em manchas de luz, as árvores se transformaram em sombras borradas, e o chão sumiu debaixo dos meus pés. Eu tentei me segurar em algo — qualquer coisa — mas só havia o vazio, e o som do despertador cada vez mais alto, mais insistente, como se estivesse me arrastando de volta pra algum lugar.
E então... eu abri os olhos.
O toque dele desapareceu, o calor sumiu, o beijo evaporou, e eu me vi caída na cama, o coração disparado, a respiração descompassada. O sol entrava pela janela, forte demais, iluminando cada detalhe do quarto que eu reconhecia tão bem. A realidade me atingiu em cheio — eu estava viva, eu estava aqui, mas o corpo ainda parecia pegando fogo, como se tivesse trazido o sonho comigo.
O despertador berrava na mesa de cabeceira, vibrando como se estivesse prestes a explodir. Eu o desliguei com um tapa, ofegante, o corpo todo tremendo.
Fiquei deitada, tentando entender. O lençol estava amassado, a camisa do pijama colada na pele, como se eu tivesse suado. Minha boca ainda estava úmida, os lábios levemente doloridos, como se tivessem sido beijados de verdade. E o pior: eu ainda podia sentir as mãos dele, o calor do corpo dele, como se tudo aquilo tivesse acontecido de verdade.
— Não... — sussurrei, passando os dedos pelos lábios, como se pudesse apagar a sensação. — Não faz sentido. Que merda foi essa?
Fiquei deitada, o corpo ainda quente, a cabeça girando, as lembranças do sonho insistindo em se misturar com a realidade. O quarto estava quieto, normal demais, mas eu não conseguia me convencer de que era apenas isso.
Por que ele? Por que agora? E por que, mesmo acordada, eu ainda sentia o coração acelerado só de pensar no jeito como ele tinha me olhado?
Fiquei encarando o teto, as mãos tremendo, a respiração ainda descompassada.
— O que diabos está acontecendo comigo? — sussurrei, como se o quarto pudesse me dar uma resposta.
Mas só havia silêncio.
E a certeza de que, fosse o que fosse, não tinha acabado.
Fale com o autor