Nos Dê Uma Chance - Concluída
25 Surpresa
Notas iniciais
P.O.V Da Sam
— Ele é bom para você? — Pam me encarou após bebericar um pouco do café sem leite e meio amargo que eu havia servido.
Com o tempo acabei perdendo o costume de chamá-la de mãe. Passamos por maus bocados, e nossa relação não era nada boa. Tive que cuidar dela e de mim mesma, Pam não podia ser reconhecida como uma figura materna. Ela sempre saia para cair na bebedeira, curtir as noitadas com os caras que ela chamava de bons partidos, e me deixava sozinha em casa, e muitas das vezes sem ter o que comer.
Ela era uma mãe irresponsável, negligente e egoísta. Sofri muito nas mãos dela. Apanhei, fui menosprezada, humilhada e eu era sempre o alvo de suas frustrações, Pam descontava tudo em mim, e eu sofria calada, me sentindo um estorvo em sua vida, enquanto minha irmã só lhe dava orgulho, era a filha preferida, e eu, a filha problemática, indesejada... Minha mãe errou muito comigo, e eu jamais iria repetir os mesmos erros com minha filha.
— Sim, bom até demais... Ele cuida muito bem de mim, de nós. — Sorri ao acariciar meu ventre. — O Freddie é um homem maravilhoso, é como um anjo da guarda, sabe? Só tenho que agradecer à ele, por tudo. Ele têm me apoiado, têm me dado forças. — A emoção começou a me dominar e desatei a falar mais sobre o Benson. — Parece um sonho, às vezes acho que ele não é real, pois ele é diferente de todos os caras que conheci. Não cobra nada de mim, não me pressiona, o Freddie me ouve e me entende. E têm um coração enorme, se importa e se preocupa de verdade, e vai registrar a minha filha. E têm mais, já meio que se declarou e eu, enfim, estamos juntos, mãe. — Desabafei e me senti muito bem com aquele feito.
Pam sorriu, os olhos claros brilhando de lágrimas, e assentiu, gostando de ouvir aquilo. Era a primeira vez que sentava e conversava comigo amigavelmente. E eu estava feliz. Feliz de ter ela ali comigo. De estar compartilhando aquelas coisas importantes com ela.
— Ele é um homem muito sortudo. — Sua voz embargou. — Você é uma filha maravilhosa, do jeito que é e eu nunca te dei valor... Nunca fui a mãe que você mereceu, errei tanto com você. Tanto! Me perdoa, minha filha? Me perdoa por tudo. Te fiz tanto mal. Sou uma mãe horrível e me arrependo muito. Se eu pudesse voltar atrás... Se você pudesse me dar uma chance, Sam, eu prometo que vou fazer tudo diferente, de agora e diante, posso ser a mãe que você nunca teve, oh, minha filha, me permita ser a mãe que eu nunca fui para você. — E naquele momento, eu também já estava aos prantos.
— Já passou, já passou... Eu te perdôo, mãe... Sim, nós podemos recomeçar. Sem raiva, sem mágoas. Preciso de você, mamãe. A senhora pode até tentar me ajudar quando a sua neta nascer, serei mãe de primeira viagem e vou precisar de uma forcinha. — Sorri indo abraçá-la.
— Tentar? Você acha que eu não me garanto, Rolinha? — Me fez rir com o apelido que usava quando eu era criança. — Me virei com duas filhas sem ajuda de ninguém. E posso muito bem te ajudar com a minha neta, o farei com o maior prazer do mundo. — Me apertou contra si. — Te amo e estou muito orgulhosa de você, Sam. — Beijou meu rosto.
— Também te amo, mãe... — Sempre a amei, apesar de tudo.
Pam era minha mãe e sempre continuaria sendo.
[...]
— Aconteceu alguma coisa? Você está com um brilho no olhar. — Freddie havia chegado do trabalho.
— A Mel contou tudo para a nossa mãe, e ela veio me ver, passamos a tarde juntas. E eu a perdoei, Freddie. Por tudo! Conversamos bastante. E estamos bem agora. Nos entendemos após todos esses anos... E decidimos recomeçar, ela vai me ajudar quando a bebê nascer, e agora vai ser uma mãe presente em minha vida. — Contei à ele.
— Que notícia maravilhosa, Sam. — Sorriu contente e me envolveu num abraço, o retribuí e fechei os olhos, apreciando o seu cheiro e seus braços fortes ao meu redor.
— Sim, sim... — Concordei. — Como foi o seu dia? Fotografou muito? — Perguntei mudando de assunto.
— Foi bem cansativo. — Ajeitou a mochila e seu equipamento sobre o sofá. — Fotografei numa festa de aniversário infantil. Olha o que eu trouxe para você. — Abriu a mochila e tirou de lá um recipiente de isopor tampado, e um saquinho de papel. — Bolo, docinhos e salgadinhos. — Minha boca salivou com aquilo.
— Você fez charminho para conseguir isso tudo? — Sentei para bisbilhotar e me deparei com 3 fatias de bolo com cobertura de pasta americana, e recheio de chocolate.
— Não sei fazer charminho. — Riu e eu bisbilhotei o saco, peguei um brigadeiro e comi me deleitando com aquela delícia cremosa. — Apenas falei que eu tinha em casa uma bela gravidinha me esperando, e a mãe do garotinho aniversariante prontamente separou os quitutes e as fatias de bolo para eu poder trazer para você. — Explicou.
— Muito fofo e legal da sua parte. Obrigada! — Agradeci. — Mas esses olhos cor de chocolate e esse sorrisinho torto fariam qualquer uma... — Me calei e tapei a boca, fazendo-o rir.
— Qualquer uma o quê? — Quis saber erguendo a sobrancelha esquerda.
— Você só beliscou umas coisas lá, né? — Desconversei. — Se vai jantar comigo, é melhor tomar um banho. — Falei levantando, pegando o recipiente de isopor e o saquinho de papel. — Vou terminar de preparar o jantar. — Avisei.
— É sério que estou fedendo? — Checou as axilas não tão discreto.
— Você sempre toma banho antes do jantar, né? — Dei de ombros e prendi o riso. — Não está fedendo, só está cheirando à doces e churros. — Torci o nariz, e aquilo era estranho, eu amava doces, principalmente churros.
— Você me pegou! Culpado, me rendo! Realmente me esbaldei junto com a criançada. — Acabou confessando dando um sorriso de menino arteiro pego no flagra.
— Não acredito! — Fingi estar chocada. — Agora vá para o banho, danadinho! — Ordenei de brincadeira.
— Sim, senhora! — Bateu continência e se retirou da sala me deixando sorrindo que nem uma boba.
[...]
— Já pensou trabalhar com comida? Tipo, ter o seu próprio negócio? — Indagou após saborear uma boa pratada de macarrão à bolonhesa.
Eu já estava no meu segundo prato, comendo com calma. Afinal, minha fome era em dobro. E eu pensando que era tudo desculpa para as grávidas se empanturrarem à vontade, pondo a culpa na gravidez.
— Já fui garçonete e ajudante em cozinha de um restaurante mexicano. Amo comer, amo cozinhar e isso não seria nada mau. Mas não tenho como investir em algo, sabe? — Admiti.
— Posso te ajudar com isso, faça um orçamento. E eu...
— Não, de jeito nenhum. — Neguei. — Não posso e nem devo aceitar o seu dinheiro. — Recusei depressa.
— Mas, Sam...
— Já disse que não, Freddie. Agradeço por tudo que já faz por mim, de verdade. Mas não vou aceitar o seu dinheiro, isso já seria demais. — Expliquei com calma.
— Tudo bem... Não vou mais insistir. — Assentiu. — Ah, tenho uma ideia e essa você não pode recusar. — Sorriu e fiquei curiosa.
— Então, me fala logo! — Pedi.
— Têm um conhecido meu que vai abrir um ponto de lanche no campus da faculdade onde uma prima minha estuda, e ele vai vender frituras, sanduíches e sobremesas, e quer contratar alguém para fazer encomendas de Cupcakes, Tortillas e Mousses. Você sabe fazer, não é? — Indagou o óbvio.
— Pois diga para esse seu conhecido que eu sei fazer pudim e até pizzas se ele quiser. — Me gabei.
— Perfeito! Você faz tudo aqui mesmo e eu entrego as encomendas para ele. — Se prontificou.
Gostei da ideia... Enfim, eu teria algo para fazer e ocupar a mente. E o melhor de tudo, eu ganharia o meu próprio dinheiro sem ter que depender de ninguém. Seria ótimo para mim.
[...]
Dias depois...
Quinta-feira, às 09h:23min...
P.O.V Do Freddie
Entrar na cozinha e me deparar com a Sam ali alegre, cantarolando, e tirando uma fornada de bolinhos exalando aquele cheiro delicioso por todo o ambiente, aquecia meu coração e me fazia sempre sorrir... Ela estava à cada dia mais linda, na verdade, a Sam já era linda, e não tinha ideia do tamanho da beleza que possuía.
A abracei por trás, com cuidado para não assustá-la e fazê-la derrubar os bolinhos. A loira parou de cantarolar e riu, estava com os cachos presos debaixo da touca branca, com as mãos enluvadas com as luvas de proteção, e usava um vestidinho laranja solto, e as rasteirinhas douradas.
— Quer provar o Mousse de morango? — Virou para mim retirando as luvas.
— Claro. — Lhe roubei um selinho que a fez corar e me afastar para poder pegar um potinho de sobremesa.
Eu era sua cobaia e amava tudo que sãos mãos de fada faziam. Provei o Mousse que estava divino e comecei a empacotar as encomendas prontas, e guardar tudo na grande bolsa de lona, para eu poder entregar lá na lanchonete do campus.
— Prova. — Me fez abrir a boca e eu mordi um pedaço do salgado que ela me oferecia. — Hum... — Mastiguei. — Delícia... É de camarão? — Perguntei.
— Você acha que eu te daria camarão sabendo que você é alérgico? — Riu e me fez rir.
— É de frango com o meu tempero especial. — Falou comendo o que sobrou.
— Que tempero é esse? — Contornei sua cintura, estava menos fina por conta da barriguinha de 5 meses.
— É segredo, vai morrer sem saber. — Apertou meu nariz.
— Isso é maldade. — Fiz bico.
— Agora se me der licença, tenho que fazer a cobertura dos Cupcakes de baunilha. — Se desvencilhou do meu abraço e foi se ocupar novamente.
— Sério que não quer parar um pouco para descansar? — Me preocupava muito com ela e o seu estado delicado.
— Estou bem, Freddie. Estou grávida e não doente, e aliás, estou amando fazer todas as encomendas. — Sorriu.
— Okay. — Concordei, ela era teimosa e não ia querer tirar uns minutinhos para sentar e conversar comigo. — Estou de folga hoje. — A lembrei. — E mais tarde quero te levar para conhecer um lugar... — Não sabia como falar o que eu havia feito, e eu jamais voltaria atrás.
— Que lugar? — Me olhou curiosa.
— É surpresa! — Respondi e ela franziu o cenho, encabulada.
Horas depois, às 17h:34min...
P.O.V Da Sam
— Só mais alguns passos, já estamos quase lá. — Freddie me conduzia, estava vendada e louca para ver a tal surpresa.
Ele estava tão alegre. E muito empolgado para me mostrar o que quer que fosse...
— E agora? Já posso tirar a venda? — Minhas mãos coçavam de ansiedade.
— Só um segundo. Deixa eu fazer isso pra você... — Começou a desamarrar o lenço escuro. — E prontinho... Já pode ver! — Avisou.
Abri a boca pasma com a visão diante de mim, de nós...
— Meu Deus! — Pus as mãos na boca.
— Já comprei. E é nossa, coloquei no seu nome, então... É mais sua do que minha... E já está paga. — Explicou.
— O quê? Mas, Freddie... — Tentei protestar.
— Não, Sam, não adianta recusar, é sua e pronto. Comprei pensando em nós e nessa princesinha... É nossa, okay? Quer dar uma olhada? — Abriu um sorriso que me desarmou.
— Você é louco! — Comecei a rir, estava nervosa, um pouco histérica e pasma com a sua grande surpresa.
Subimos a calçada, olhei para a cerca baixa de ripas pintadas de branco e para o portão de madeira. Estava com corrente, ele tirou as chaves e abriu o cadeado se atrapalhando um pouco, me fazendo rir ainda mais.
— Por quê não me consultou antes? É uma casa, e não um objeto simples e qualquer. — Falei.
— Se eu fizesse isso, não seria surpresa. — Pegou minha mão e me conduziu para o gramado bem aparado, seguimos para a charmosa varanda decorada com vasos de flores.
— É linda... — Sorri fitando a nossa casa.
— Não é tão grande, mas é espaçosa o suficiente para nós. Nossa filha terá espaço para correr e brincar, o jardim é perfeito. Espero que goste da nossa casa. — Disse contente e eu me emocionei.
Nossa casa. Nossa filha.
Aquele homem maravilhoso era mesmo real?
— Own, Freddie... — Funguei.
— Não chore, linda. — Se prontificou em secar minhas lágrimas.
— Estou chorando de emoção, bobo. Você não cansa de me surpreender? O que mais pretende fazer por mim? — Continuava chorando, parecendo uma manteiga derretida.
— Não estou fazendo apenas por você, estou fazendo por nós. — Acariciou meu rosto e fechei os olhos, apreciando seu toque e permitindo que ele me beijasse.
E naquele dia, senti algo diferente durante aquele beijo... Algo novo, especial.
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