Nos Dê Uma Chance - Concluída
26 Nossa Casa: Hot-dogs e o Parquinho...
Notas iniciais
P.O.V Da Sam
Com a mão trêmula, ainda abalada com a forte emoção, abri a porta. A sala era ampla, o piso de madeira marrom-clara se estendia pelo espaçoso cômodo com paredes pintadas num tom coral. Ele me conduziu para a cozinha revestida de ladrilhos verde-escuro e branco, a típica cozinha americana, o sonho de qualquer dona de casa. Havia três quartos, um mini-escritório, lavanderia e um quintal todo cercado com um espaço para se ter um varal e para a nossa menina brincar.
Fiquei feliz por não ter dois andares, assim eu não subiria a escada, o que seria um tanto cansativo. E tinha poucos cômodos para limpar, era uma casa bonita e com um bom tamanho. Nada de luxo ou extravagância, e o bairro parecia bem tranquilo.
Pensei em perguntar sobre o preço, mas logo pensei melhor não tocar no assunto naquele momento mesmo estando curiosa. Com que dinheiro ele havia comprado à vista? Já que a casa estava paga e em meu nome. Ele recebia mais ou menos 150 dólares trabalhando por dia, e tinha semana que pintava só um ou dois serviços, e ele faturava menos de 1.200 por mês.
E aquela casa devia ter custado em torno de 80 mil dólares. Será que ele tinha dinheiro guardado no banco? Economia... Claro. Ele tinha economizado e já tinha isso em mente, o sonho de ter uma casa própria.
Se bem que os pais dele tinham dinheiro. A mãe era é medica em um hospital particular e o pai, um renomado advogado. Será que eles...? Não, a mãe dele jamais nos ajudaria, ela me detestava e o Sr. Benson? Ele teria dado o dinheiro para o filho?
— Sam? — Me chamou. — Está tudo bem? — Tocou meu ombro.
— Sim. — Assenti rapidamente.
— O que achou da nossa casa? — Perguntou quando entramos num dos quartos.
— Bonita, muito bonita. — Afirmei.
— Se não gostou das cores das paredes, pode escolher outras cores e decorar ao seu gosto. Amanhã podemos comprar os móveis e vamos ir montando o quartinho da bebê, e claro, eu quero pintar as paredes e montar os móveis. — Disse todo empolgado.
Comprar móveis novos e tintas? Mas com qual dinheiro? Ele ainda tinha dinheiro guardado?
— Sabe, Freddie, os móveis do apartamento servem e eu gosto deles. Não precisamos de uma mobília nova. E não precisamos repintar as paredes, gosto dessas cores... — Fitei as paredes do quarto num tom azulado. — Economize o seu dinheiro para gastos mais importantes. — Falei.
Ele franziu o cenho e pelo seu olhar, pareceu um pouco ofendido e contrariado.
— Se é com o dinheiro que está preocupada, não se preocupe, está bem? Eu tenho como te dar do bom e do melhor, e nada vai te faltar. — Que papo era aquele?
Ele era um simples fofógrafo e só surgia trabalho de vez em quando... Como ele ia conseguir me dar de tudo e ainda por cima pagar as contas? Os custos daquela casa não seriam poucos.
Não quis discuti com ele sobre aquilo. E juntos, fomos ver o restante da casa, que de fato me surpreende... Ela era maior do que aparentava.
[...]
— Ansiosa para se mudar? — Perguntou quando atravessamos o gramado.
Avistei algumas crianças num parquinho ali no bairro.
Uma senhora cuidava do jardim e um idoso aparava a grama. Uma mulher passou empurrando um carrinho azul de bebê. Vimos alguns jovens andando em grupo, dando risadas e duas garotinhas andando de bicicleta.
— Estou. — Respondi.
E com o meu olfato mais sensível e apurado, consegui sentir o delicioso cheiro de fritas e Hot-dog e claro, Algodão doce.
— Estou com fome. — Avisei o puxando pela mão e fui em direção ao parquinho.
— Mas o quê? Para onde vamos? O que quer comer? — Ficou confuso.
— Um Hot-dog no capricho com bastante molho e queijo ralado por cima. — Minha boca salivava e ele riu entendendo.
Era urgente... Precisava saciar aquela vontade.
Atravessamos a rua e seguimos para o parquinho bem cuidado. Cercado com tela de proteção e tinha um monte de areia branca para a criançada se divertir à vontade... Escorregadores, gangorras e balanços.
Ainda estávamos usando os nossos cordões, com os pingentes que se encaixavam formando um só. Metade Sol e metade Lua.
Após ele comprar os Hot-dogs, nos acomodamos num dos bancos de madeira e ficamos olhando para o grupinho de crianças que brincavam sem se preocupar com o dia de amanhã. Não tive uma infância como a delas, não tinha brinquedos e nem amiguinhos para brincar. Minha infância fora dura e solitária.
Cresci tendo que lidar com a realidade dura da vida. Tendo que cuidar da minha mãe e de mim mesma. Aos 9 anos eu já cuidava das tarefas de casa e me virava na cozinha, me virando com o pouco que tinha nos armários e na geladeira.
Aos 12 anos já tinha que conviver com os homens que minha mãe colocava dentro de casa. A maioria deles eram nojetos e tinham segundas intenções em relação à mim, eu tinha medo deles e por isso passava a maior parte do tempo trancada em meu quarto.
Nunca fui uma Santa, aprontei muito quando era adolescente. Saia com más companhias, fugia da escola e matava aulas. Praticava pequenos furtos em comércios e lojinhas, fumava e bebia com os garotos mais velhos... Frequentava festinhas e fazia algo que era errado e sujo para ganhar uma graninha, como aliviar alguns caras nas festas, mesmo que não me entregasse por completo, eu dava prazer à eles e deixava que eles me tocassem... E claro, nunca escondi isso do Freddie e falei o que eu costumava fazer no passado.
— No que tanto pensa? — Me tirou dos pensamentos, eram recordações ruins e vergonhosas.
— Da inocência que foi tirada de mim, quando eu ainda era novinha... — Falei triste. — Vi muita merda e fiz muitas merdas, Freddie... Minha mãe não me respeitava e levava homens para casa, e aquilo era repugnante. E na escola tinham os garotos que eram maldosos comigo, sempre tentando se aproveitar... E aos 15 anos, eu saia com caras bem mais velhos e fazia o que não devia, já te contei sobre isso. Inocência perdida, pureza corrompida. E o Edward só me tirou a única coisa maculada que tinha em mim... — Eu não podia chorar. — O que ele fez foi... Odeio o seu irmão com todas as forças! — Amassei o guardanapo de papel. — Minha filha é a única coisa pura e inocente que eu tenho e eu nunca vou deixar ele chegar perto dela! — Afirmei, convicta.
Freddie ficou calado, não sabia o que se passava na cabeça dele. Afinal, era do seu irmão que eu estava falando.
— Sinto muito... O Ed... Ele... Enfim, é melhor a gente ir, já está anoitecendo. — Desconversou.
Olhei para o céu, estava mesmo escurecendo. Olhei ao nosso redor e percebi que as crianças não estavam mais ali. Apenas alguns jovens e casais passeando ou lanchando, e alguns conversando sentados nos bancos.
— Não se desculpe pelo seu irmão. — Levantei. — Só lamento por você, por ser irmão de um maníaco sem coração... — Acabou escapando e vi a dor em sua expressão. — Me desculpe... — Por quê fui indelicada com ele?
— É melhor a gente ir embora, está frio... — Fingiu não se importar com o que eu tinha dito e foi andando na frente.
[...]
— Você não vai jantar? — Perguntei.
— Estou sem fome. — Respondeu. — Vou pra cama. — Bocejou.
— Fala verdade, está chateado comigo? — Eu precisava ouvir da boca dele.
— O quê? Não! — Negou.
— Freddie... Eu não falei aquilo com intenção de magoar você, eu só...
— Deixa pra lá, Sam. Já passou. — Se aproximou me dando um beijo na testa. — Vou dormir. Boa noite. — Mesmo assim eu me senti mal com aquilo.
Acabei pegando no sono ali mesmo no sofá, e só despertei quando senti meu corpo ser levantado... O Benson tinha me pegado no colo e estava me carregando para o quarto.
Ainda sonolenta, senti ele me colocar na cama e me cobrir.
— Durma, anjo. — Foi a última coisa que lembro, soou como um sussurro e logo minhas pálpebras pesaram e o sono me dominou.
Na manhã seguinte, acordei e o lugar ao meu lado se encontrava vazio. Bocejei e levantei com preguiça, indo à passos lentos até o banheiro. Fiz xixi, após aliviar a bexiga desenfreada de grávida, fiz minha higiene matinal, coloquei um vestido soltinho e uma legging confortável, e calcei minhas rasteirinhas macia.
A mesa estava posta, com o café da manhã pronto, ele tinha feito até uma jarra com vitamina e se deu o trabalho de ir comprar bolo com cobertura de chocolate e morango, o meu favorito. Na geladeira o bilhete com a caligrafia pequena e bonitinha, estava preso com um íma em formato de cacho de uva.
'Tive que sair cedo, vou fotografar um ensaio no Studio KSL. Aproveite o seu café da manhã... F.B.'
Ele sempre deixava bilhetinhos e eu achava fofo.
A campainha tocou assim que me servi de uma xícara de chá de Erva doce, já que a cafeína estava cortada da minha dieta.
Assim que atendi a porta dei de cara com ela...
Melanie estava quase irreconhecível... O moletom grande demais para ela, o rosto desprovido de maquiagem, os olhos inchados e a alheiras denunciavam o estado crítico em que minha irmã se encontrava.
— Melanie? — Me assustei.
— S-Sam... — Sua voz saiu rouca e trêmula.
Não falei nada, apenas a puxei para os meus braços e lhe abracei como nunca o tinha feito antes, e ela desmoronou, soluçando como uma garotinha perdida e indefesa.
O motivo era ele... Edward Benson tinha nos machucado, de maneiras diferentes... E eu o odiava ainda mais por aquilo... Minha irmã estava sofrendo por culpa dele.
Fale com o autor