Nos Dê Uma Chance - Concluída
27 Ninguém Precisa Saber
Notas iniciais
P.O.V Da Melanie
Me sentia confusa, arrasada. Era como se eu estivesse sem chão, a dor em meu peito só aumentava, não sabia o que fazer e por isso fui atrás da Sam, precisava conversar com ela, por mais que fosse doloroso para ambas, era muito difícil ter que encarar a realidade. Já tinha se passado um bom tempo e eu continuava com aquela angústia, cheia de tristeza, estava sendo difícil me manter em pé, e ali nos braços da minha irmã, ao menos senti um pouco de consolo.
— Sente-se, Mel. Vou preparar chá, sei que gosta de camomila. E não estou podendo tomar cafeína mesmo. — Me conduziu até o sofá onde me fez sentar.
— Não precisa se incomodar, eu só...
— Que isso? Não custa nada. Já volto. — Abriu um pequeno sorriso e foi para a cozinha.
Eu devia estar um horror, não conseguia dormir e nem me alimentar direito. Me encontrava sem ânimo, haviam arrancado a felicidade de mim, doeria menos se cravasse uma faca em meu peito.
Sam retornou após alguns minutos, com duas xícaras decoradas sobre os pires, e com os sachês dentro da água formigante.
— Quer biscoitos de maisena? — Ofereceu me entregando o chá.
— Não, obrigada. O chá já está de bom tamanho. — Segurei a xícara e o pires com as mãos trêmulas.
Ela sentou ao meu lado, de modo que ficasse de frente para mim, e me fitou preocupada.
— Me desculpe por aparecer assim se avisar. — Murmurei e soprei o chá.
— Você é minha irmã, pode me ver quando quiser. — Disse sorrindo gentil.
— Não fui uma boa irmã e você sabe disso. A mamãe meio que nos separou quando me mandou para o colégio interno, me senti bastante orgulhosa e popular após fazer muitas amizades, parei de te ligar com o tempo, me sentia especial e única, afinal, eu era a filha mimada e queridinha da mamãe, e você ficou aqui em Seattle estudando numa escola pública, e com o passar do tempo, me tornei egoísta e parei de entrar em contato, fingindo que você não existia... — Comecei a chorar de puro arrependimento. — Sinto muito, você deve ter sofrido com o nosso afastamento, ignorei suas mensagens, suas ligações, seus e-mails... Me sinto horrível. Você é a única irmã que tenho e te magoei. — Minhas mãos tremiam tanto que o chá respingava me queimando.
— Já passou, Mel. Não tenho mágoa de você. Já perdoei a mamãe e te perdoo também, todo mundo erra, e eu já fiz muitas burradas também, e isso é passado... O importante é que você está de volta e vamos superar isso que está acontecendo agora, quero que você seja uma tia presente... Minha filha não tem culpa de nada e ela precisa da gente. — Disse passando a mão na barriga já saliente.
Doía... Doía muito saber tudo o que ela sofreu. De como devia ter sido horrível. A gravidez indesejada. O bebê fruto de uma brutalidade sem tamanho... Ela e aquela criança eram vítimas. Vítimas de um... Por Deus, doía demais... Por quê aquilo tinha que acontecer?
— Onde está morando? Como está se virando? Você está tão abatida. Está precisando de algo? Posso te ajudar, conta comigo, nós daremos um jeito. — Deixou a xícara sobre a mesinha de centro.
Beberiquei o meu chá, meus olhos marejaram e como tomava sem açúcar, sequer aproveitei o sabor... O gosto amargo predominava o meu paladar.
— Moro num Flat, é até bonitinho. Mamãe sempre depositou dinheiro para mim, estou me virando com o que tenho na conta, dá para os gastos. Como tranquei a faculdade, vou procurar um emprego, preciso manter a cabeça ocupada e ganhar meu próprio dinheiro. — Explicou.
— Você está certa, espero que consiga. Faço encomendas e já estou ganhando o meu dinheirinho e logo vamos nos mudar, o Freddie comprou uma casa. — Disse toda feliz.
— Fico feliz por você, te desejo tudo de bom, irmã. Você merece e tem sorte de ter um namorado tão bom, que cuida de você. — Falei e ela corou.
[...]
Dias depois...
P.O.V Do Edward
— Você quer um Algodão doce, amiguinho? Pode escolher, eu pago. — Falei para um garotinho que olhava o vendedor parado ali no parque, era um daqueles parques simples, com areia e brinquedos de madeira.
Ele não parava de fitar os doces coloridos com os grandes olhos cobiçadores. Não estava acompanhado de um adulto e também não parecia perdido, estava apenas afastado da área do Playgraund.
Levantei do banco e lhe ofereci a mão, ele sorriu e aceitou, e foi me acompanhando até o vendedor.
— Quanto custa, senhor? — Perguntei para o homem de meia idade.
— 2 dólares. — Respondeu.
— Quero o azul, o grandão ali! — Apontou animado e eu sorri.
Paguei pelo doce, ele agradeceu e começou a comer com certa pressa, o que me fez rir e afagar seus cabelos ruivos encaracolados.
— ALEC! ALEC! ALEC! — Uma mulher de cabelos bem ruivos e cacheados apareceu correndo, estava desesperada. — Já não falei para não aceitar nada de estranhos? — Nos alcançou e deu um puxão nele. — E você? O que pensa que está fazendo? Fica longe do meu filho! — Me olhou raivosa.
Tomou o Algodão e jogou no chão, ele começou a chorar e ela o pegou no colo.
— Não fiz nada demais, ele queria e eu apenas comprei, ele nem me pediu nada, senhora! — Tentei me explicar.
— Você é um estranho, ele é uma criança, não te conhece. O que pretendia fazer com ele? — Me encarou enojada.
O quê? Dei um passo para trás... Jamais faria o que ela estava imaginando.
O choro do menino e sua voz alterada chamou atenção para nós. Logo me vi cercado por adultos, pais que se comoveram com a mulher e ficaram revoltados comigo.
— Vi ele sentado, estava um tempão olhando para as meninas brincando de corda! — Acusou uma moça, era jovem demais para ser mãe, devia ser uma babá.
— Ei, são minhas filhas! — Protestou um cara forte e ficou bastante zangado.
— Posso explicar, juro que não estava...
— O que está fazendo aqui? Você está sozinho e aqui não é permitido ficar rondando pelo parquinho, cara! Vaza daqui antes que eu arrebente sua cara! — Ameaçou um cara loiro.
— É um ambiente familiar. Se não for embora, vamos chamar a polícia! — Uma das mães avisou.
— Sabe o que aconteceu com o maníaco do ano passado? Ele vinha para aliciar criancinhas. O filho da mãe foi morto na cadeia pelos companheiros de cela! — Disse outro pai bastante ameaçador.
— Mas eu não fiz nada e nem ia fazer... — Murmurei e fui embora apressado antes que algum daqueles pais revoltados viesse para cima de mim.
Só queria tomar um ar, me distrair um pouco... Nunca me senti tão humilhado. Caminhei até o meu carro sentindo as lágrimas escorrerem por meu rosto.
Eram crianças inocentes e indefesas, também já fui uma delas. E eles estavam apenas as protegendo e com razão, não se podia confiar em estranhos, eu faria o mesmo no lugar deles.
[...]
P.O.V Da Melanie
Ouvi fortes batidas na porta, o que me deixou em alerta, me aproximei hesitante. Meu Flat ficava acima de uma barbearia, era apenas poucos cômodos, quarto/cozinha e banheiro, tudo dividido por cortinas. Toquei na chave e a girei, podia ser o filho do seu Marlon, ele ia consertar o chuveiro. Os donos do Flat moravam no andar de baixo atrás da barbearia, com o filho caçula.
Pietro tinha 16 anos e já tinha consertado o cano da pia na semana anterior.
E para o meu espanto, não era Pietro. Tentei fechar a porta, no entanto, ele foi mais rápido e a segurou.
— Por favor, me deixe entrar... — Suplicou choroso.
Estava abatido e com os olhos avermelhados.
— O que quer comigo? Como me encontrou? — Forcei meu corpo contra a porta, impedindo-o de entrar.
— Só quero conversar, Mel... Preciso de você... Não fiz nada com aquelas crianças e os pais delas me disseram coisas horríveis, insinuaram... Não sou aquilo, Mel... Acredita em mim... Só comprei um Algodão doce para um garotinho... — Meu Deus, do que ele estava falando?
— Edward, por favor, vá embora! Não me faça chamar a polícia! — Meu coração estava disparado e comecei a tremer.
Começou a chorar feito um garotinho machucado e assustado. Meu coração se apertou.
Não. Não. Não... Por quê, Deus?
— M-me d-deixa e-entrar... — Implorou soluçando.
Me afastei da porta, ele acabou caindo de joelhos diante de mim e abraçou minhas pernas.
— Só estava quieto... Sentado no parquinho... Vendo elas brincarem... Não estava olhando com maldade... Juro por Deus! — Se agarrou ainda mais em mim.
Cerrei meus punhos e fechei os olhos, meu corpo todo tremia e o choro se encontrava preso em minha garganta.
Não era um homem chorando diante de mim... E sim um menininho desolado e muito assustado, precisando de colo.
"Oh, Deus, o que eu faço agora?"
Aquilo ficou rondando em minha cabeça.
Minutos depois...
Ele tinha descoberto onde eu morava após me seguir, segundo ele, já fazia um tempo e só então teve coragem de bater à minha porta.
— Ainda bem que não aconteceu o pior... Eles poderia ter...
— É, eu sei... Mas não sou pedófilo, Mel. — Me interrompeu.
Suspirei e assenti, ele parecia tão frágil e abatido, tinha deixado a barba crescer e olheiras rodeavam seus olhos.
— Sinto sua falta... — Disse após ficar um tempo em silêncio. — Volta para mim, podemos recomeçar do zero. — Seu olhar era suplicante.
— Não... — Neguei balançando a cabeça. — Você fez algo horrível e não tem como passar uma borracha por cima. Hoje fui visitar minha irmã, ela parece bem, melhor que nós dois, aliás, o seu irmão tem cuidado dela e a faz feliz, ele comprou um casa e logo vão se mudar. — Contei.
— Ah, claro, ele sempre dá um jeito de ser o bom moço... — Bufou.
— O que quer dizer com isso? Ele não é uma boa pessoa? — Me preocupei.
— Ele é humano, Melanie, tem os defeitos dele, eu sou a ovelha negra da família e ele sempre se dá bem por ser o filho maravilhoso, o orgulho do nosso pai. — Havia mágoa em suas palavras.
— Ele é um bom homem, trabalha, tem responsabilidade, parece ser muito sério e independente. Sabe o que faz, e tem juízo. — Dei minha opinião.
— Ahãm, e eu sou a porra de um vagabundo, que não faz nada da vida e é totalmente desmiolado? — Me encarou irônico.
— Não insinuei nada disso, você sabe o que fez com a minha irmã e reconhece. Não acho que seja maluco, embora seja problemático, e você não trabalha porque não quer, você se formou em Direto. E você...
— Sou rico, os Benson são ricos. Não vou me matar trabalhando num maldito escritório de Advocacia como o meu pai quer. O Freddie também é rico, aquele lance de fotógrafo só é um hobby, o nosso avô nos deixou 25% da herança para cada neto, e vai por mim, o velho era cheio da grana. Cada um de nós recebeu 5 milhões de dólares. É pouco para você? — Sorriu sarcástico.
— Meu Deus! — Fiquei pasma.
5 milhões era muito dinheiro.
— Pelo visto a minha irmã não sabe sobre isso, seu irmão não contou à ela, por isso a casa... E ela acha que ele comprou com as economias dele. — Falei ainda abismada.
— Freddie e seus segredinhos, ele sempre foi meio fechado, desconfiado, sabe? Foi traído pela namorada, assumo minha culpa, mas quêm mandou ele ser tão trouxa? Foi Alexandra que deu mole para mim. — Sorriu cínico.
— Você é um canalha, Edward! — Fiquei indignada.
— Não, meu amor, eu era. Não sou mais. Mudei, e mudei por você. O que faço para te ter de volta? Me diz. Faço qualquer coisa. — Pegou minhas mãos.
— Nada, não precisa fazer nada... Apenas vá se tratar e me deixe em paz. — Puxei minhas mãos.
— Está magoada. Sei que dói, está assim por sua irmã e com razão. Mas também dói ficar sem mim, não? Você ainda pensa em nós... Porque te amo e você me ama, ninguém precisa ficar sabendo, apenas me dê uma chance. — Implorou.
— Não posso... — Desviei o olhar.
— Mas você quer, admita! — Ele não ia desistir.
— Para Edward, não faz isso... — Sussurrei.
Senti seu toque no meu cabelo, depois no meu rosto. Me fez encará-lo e se aproximou, estávamos conversando sentados na cama, não tinha sofá e nem algo do tipo... Seu corpo ficou bem próximo, nossas respirações se misturando.
Relutei e depois fui cedendo. Nossos lábios se tocaram, seu corpo ficou por cima do meu... Me perdi, ele era a minha ruína. Me deixei levar...
Foi muito mais forte do que eu.
[...]
— Já vai? — O observei colocar a calça e abotoar.
Apertei o lençol contra o meu corpo... Não tinha como voltar atrás. Nem ao menos conseguia me arrepender.
Era errado demais? O que eu poderia fazer se eu o amava?
— Venha comigo, arrume suas coisas. — Vestiu a camisa.
— Não posso... Se a Sam descobrir, ela não vai me perdoar... — Lamentei.
— Então, virei todos os dias. — Sentou para calçar os tênis.
— Está bem... — Suspirei.
— Você não parece feliz. — Me olhou receoso.
— É só que... Não! Não é nada. A Sam está seguindo a vida dela, tenho que seguir a minha. Você também e vamos dar um jeito de superar isso tudo juntos, você e eu... — Resolvi lhe dar uma chance.
— Sim, e ninguém precisa saber, meu amor. — Seria o nosso segredo.
Fiz minha escolha. Tomei minha decisão, pois mais insana e egoísta que fosse, eu também merecia ser feliz, e só seria ao lado dele.
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