Nos Dê Uma Chance - Concluída
28 Medo
Notas iniciais
2 semanas depois...
P.O.V Da Sam
Depois de muito conversar com Carly e Freddie, decidi fazer parte de um grupo de apoio. Minha amiga me indicou um, Freddie me encorajou, topei, afinal que mal me faria? Era para o meu próprio bem, me serveria de ajuda. Eu não era a única vítima de abuso sexual, havia outras mulheres e garotas vivendo o mesmo trauma que eu, algumas grávidas após terem sido abusadas, outras não. Cada uma com a sua história, insegurança e medo. Todas em busca de ajuda psicógica, tentando superar e conviver com as dores.
Quando cheguei no Centro de Apoio Meryl Davis, me deparei com três mulheres em torno dos 20 e poucos anos. Duas moças da minha idade, de 18 anos. E com duas adolescentes entre 15 e 16 anos. Todas vítimas de violência sexual. Uma das mulheres estava grávida, e pelo tamanho da barriga, se encontrava em torno do sétimo ou oitavo mês de gestação.
Marienne Davis era a conselheira do grupo de apoio, uma mulher de 42 anos, formada em Psicologia. O Centro havia recebido o nome da avó paterna dela, era uma bela homenagem. Quando cheguei, ela tinha me contado a história dela que também tinha um passado traumático e comovente.
As reuniões eram às quartas-feiras, duravam 3 horas. O Centro funcionava num antigo estúdio de dança que era de sua mãe e Marienne transformou num espaço simples, bonito e aconchegante para receber todas aquelas mulheres e moças que precisavam de ajuda moral e psicológica. Apoio de outras que as entendiam.
Fui recebida muito bem por todas ali, e já era a minha segunda vez ouvindo os conselhos de Marienne que se recusava a ser tratada como doutora. Preferia que a chamássemos de Marie. Dava conselhos, ouvia todos os desabafos e tudo que todas estavam dispostas a falar, a se abrir com ela.
Compartilhei minha história. Falei sobre Carly que era uma amiga tão maravilhosa. E sobre o Freddie que estava me ajudando bastante. Só ainda não estava preparada para falar sobre o Edward e sua relação com o Freddie, sobre o parentesco entre eles. Eu ainda não me conformava com aquilo.
— Hoje nós vamos receber mais uma jovem em nosso grupo. — Nos informou Marienne.
Ninguém falou nada, permancemos sentadas nas cadeiras de vime acolchoadas dispostas ali que formavam um círculo. O ambiente era iluminado, paredes claras, cortinas cor de creme. Piso acarpetado. Tinha uma mesa redonda com bandejas, bule, xícaras e pires.
A conselheira servia chás, bolos, pãezinhos e torradas. Tinha um bebedoudo no canto. Toda a decoração era sutil. Era mesmo um lugar agradável, acolhedor.
Uma garota chegou acompanhada de uma mulher, supus que era a sua mãe. No entanto era a tia, a mãe da garota estava presa. A menina estava toda acanhada, era novinha, tinha os cabelos longos e lisos num tom de mel, pele clara e as roupas escuras e grandes demais para ela que escondiam seu corpo.
Marie conversou com a tia da menina. A mulher foi embora visivelmente abatida.
— Sente-se ali, querida, não tenha medo. — Apontou para a cadeira vazia disposta ao meu lado esquerdo.
A garota veio cabisbaixa, sentou ao meu lado e cruzou os braços, fitando os All-Stars surrados. Devia ter menos de 15 anos, era menor que eu.
— Pode ficar à vontade, somos amigas e queremos que seja parte do nosso grupo. — Disse a nossa conselheira num tom calmo, ela era tão gentil.
A garota de vestes escuras ergueu o rosto e olhou ao nosso redor. Recebeu sorrisos tímidos e acenos. Me limitei a menear a cabeça. Havia desconfiança em seu olhar. E seus olhos castanhos ficaram levemente marejados.
— Como se chama, querida? — Marie começou as perguntas básicas.
— Danielle. Danielle Coleman. — Sua voz saiu meio contida.
— Quantos anos você tem? — Todas prestavam atenção na menina.
— 13 anos. — Respondeu e abaixou o rosto.
Marie assentiu e ninguém falou nada embora estivéssemos todas comovidas, indignadas. Era só uma garotinha e já tinha suas próprias dores e traumas para superar.
[...]
— Como foi hoje? — Freddie perguntou dirigindo, ele tinha ido me buscar.
Estava de carro novo, um maior e mais confortável. Já havíamos nos mudado para a casa nova.
— Não consegui me abrir sobre o seu irmão, acabei travando... Você sabe que não é nada fácil tocar nesse assunto. Por mais que Marie seja uma profissional legal que só quer me ajudar, e tem as outras mulheres que fazem parte do grupo, e nem todas elas conseguem se abrir totalmente. — Expliquei.
— Entendo, mas está tudo bem. Você é ainda nova no grupo. Vai ter tempo o bastante para começar a se sentir segura, por enquanto vai desabafando aos poucos, e quando se sentir pronta compartilhe com elas sobre o Edward, e que está morando com o irmão gêmeo dele, enfim... — Suspirou.
— Vou dizer, mas agora não... Vou esperar para contar quando me sentir pronta. — Concordei com ele. — Hoje falei para elas sobre a bebê. — Passei a mão em meu ventre arredondado. — Sobre como me sinto em relação a ela. O quanto foi difícil e doloroso aceitá-la no começo. E que hoje ela é a coisa mais importante que tenho, carrego uma pequena parte de mim. Meu bem mais preciso... Como pude cogitar um aborto? — Me lembrar daquilo só me fazia lamentar, ainda bem que não o fiz.
— Essa fase já passou, Sam, ela está bem, vocês duas estão bem e eu estou aqui para cuidar de vocês. Não vejo a hora da próxima consulta. Eu amo escutar o coraçãozinho dela bater. — Suas palavras sempre me emocionavam.
— Também, fico tão feliz e aliviada em todas as consultas, saber que ela está se desenvolvendo bem. — Sorri.
Minha pequena já se mexia, eu sentia as vibrações de leve. Os movimentos como tremulações. Chutinhos que me faziam sobressaltar toda vez surpresa quando os sentia. Freddie adorava pôr a mão e encostar a cabeça em minha barriga, e conversar com ela. O nosso anjinho se agitava quando ele fazia aquilo.
— Como ela está hoje? — Perguntou olhando para a minha mão sobre o ventre.
— Quieta. — Respondi.
— Nenhum chute? — Indagou.
— Não. — Neguei.
— Você acha que está tudo bem? — Começou a ficar preocupado.
— Acho que sim. — Respondi incerta.
— Que tal ligar para a doutora e marcar uma consulta para agora? — Ele ainda não estava convencido.
— Freddie, ela só está quieta. Não precisa se desesperar. Estou bem, a nossa pequena também está bem. — Tentei tranquilizá-lo.
[...]
— Ai! — Senti uma pontada dolorosa, como se fosse cólica.
Eu costumava ter cólica durante os primeiros meses, mas eram normais e nem doiam tanto.
Respirei fundo e me apoiei na bancada da cozinha. Respirei e inspirei várias vezes, ficando parada para ver se passava. Freddie estava na sala vendo um jogo de Basquete, torcendo para o time dele.
A dorzinha passou, as pontadas tinham cessado. Preparei o jantar e fui para o quarto, precisava de um banho. Tirei a roupa, peguei uma toalha limpa.
Durante o banho me ensaboei com o sabonete líquido. Aquela 'cólica' não tinha voltado e eu estava aliviada, e relaxada curtindo o meu banho. Enxaguei meu corpo, desliguei o registro e peguei a toalha que estava pendurada no suporte.
Comecei a me secar sem pressa, o piso do box estava molhado, escorregadio e não era anti-derrapante. O inevitável aconteceu, fui ao chão caindo de bunda, não senti nenhuma dor no ventre com a queda, apenas na região das nádegas.
Quando tentei me levantar, as pontadas que senti enquanto preparava o jantar vieram em dobro. Agudas e latejantes.
Me deitei no chão, o desespero me atingindo de cheio. A minha bebê. Eu só conseguia pensar na minha bebê.
— FREDDIE! FREDDIE! FREDDIE! — Comecei a chamar por ele.
[...]
P.O.V Do Freddie
Ouvi os gritos da Sam, abaixei o volume da TV. Pelo seu tom, percebi seu desespero. Levantei do sofá e corri para ver o que tinha acontecido. Quando cheguei no quarto, a porta do banheiro estava fechada, ainda bem que não estava trancada. Disparei para dentro do banheiro.
— Sam? — A chamei preocupado.
— Estou aqui... Escorreguei, não consigo levantar, me ajude... — Pediu chorando.
Empurrei a porta embaçada do box, encontrei a loira encolhida no chão. Ela tremia, tinhas as mãos na barriga. A toalha estava largada no piso molhado.
Peguei outra que estava no suporte e me apressei em cobrí-la. A levantei com cuidado. A conduzi para fora do banheiro após procurar algum vestígio de sangue no chão. Nada.
— Está doendo muito? — Perguntei a levando até a cama.
— Está passando, doeu na hora que tentei levantar... — Lágrimas banhavam seu rosto. — Você acha que...? — Me olhou apavorada.
— Não sei. — Também estava com medo. — Não posso perder ela, Freddie... — Apertou a toalha contra o corpo.
— Vou ligar para Dra. Dawson. — Saquei o celular do bolso. — Cadê a sua bolsa? Consegue se vestir sozinha? — Indaguei.
Ela levantou e caminhou devagar indo até o guarda-roupa. Não vi sangue na toalha. Eu tinha que ficar calmo.
Liguei para a obstetra dela que pediu para que fôssemos o mais rápido possível e que ela já estaria nos aguardando no consultório.
Deixei a Sam sozinha no quarto para que ela pudesse se vestir. Assim que ela se arrumou, fomos ver se estava tudo bem com a bebê. Ela foi chorando durante o caminho todo. Eu também estava apavorado.
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