31 de Dezembro de 2006. Forks, Washington — Estados Unidos



Assim que os Volturi partiram, seguidos pelos romenos ainda tomados pela fúria de não terem conseguido a vingança que aguardavam a milênios, um suspiro coletivo de alívio percorreu a clareira. O perigo havia passado, e todos celebravam o simples fato de saírem ilesos, ou quase isso.

As matilhas foram as próximas a se retirar da clareira. Jacob, em sua forma de lobo, foi o último metamorfo a ficar, lançando antes de sumir da vista de todos um olhar à Bella e Edward, que lhe agradeceram em silêncio, num elo que dispensava palavras. Entre eles, Renesmee sorria, protegida pelos braços do pai, apoiando-se também nos ombros da mãe.

Ao redor deles, os Cullen partilhavam da mesma alegria. À direita de Bella, estavam Rosalie e Emmett, que se beijavam em êxtase, enquanto à esquerda de Edward, Esme e Carlisle recebiam Alice e Jasper novamente para seus braços. Amun e Kebi do Clã Egípcio já tinham ido embora. Os dois marcharam para fora da clareira em silêncio depois de depor a favor dos Cullen, mas Tia e Benjamin permaneciam ali e agora trocavam um beijo apaixonado a alguns passos atrás dos Cullen. O mesmo acontecia com Peter e Charlotte, amigos de Jasper.

Do outro lado, mais à direita, os Denali permaneciam imóveis, incapazes de mover-se diante da sua perda que ainda ardia a poucos metros adiante. Garrett fixava seus olhos rubis para o fogo que queimava diante dele. Não conhecera Irina, mas isso não o eximia de sentir o pesar pela família que ficava destroçada por sua perda. Garrett mantinha Kate junto dele, com os braços ao redor dela tão firmes quanto o juramento silencioso de não deixá-la sucumbir, mesmo que sua alma gritasse em dor. Com a cabeça apoiada no peito dele e agarrando-se no casaco negro dele, Kate fixava o olhar no fogo cruel que consumia o corpo da irmã.

Tanya, ao lado de Kate, apertava sua mão com força, tentando ser para a irmã mais nova um pilar ao qual se agarrar, mesmo quando ela própria mal conseguia sustentar-se. Esse era o seu dever como irmã mais velha de Kate e líder do seu clã. Sua mandíbula contraída e seu queixo tremia pelo choro sem lágrimas ao lembrar-se dos momentos compartilhados ao longo do milênio que elas viveram com Irina. Todas as risadas compartilhadas, suas aventuras, as brincadeiras, as típicas competições de irmãs durante suas caçadas.... Por um milênio elas foram um trio de irmãs que se amavam incondicionalmente e estavam lá uma para a outra, nos momentos bons e nos momentos mais tristes, como quando sua mãe, Sasha, foi destruída pelos Volturi, ou quando uma delas sofria depois de acidentalmente matar os seus amantes e as outras duas estavam ali para a irmã.

Carmen, à direita de Tanya, acariciava as costas da loira de cachos loiros com delicadeza, oferecendo-lhe ternura em meio ao luto, enquanto Eleazar, firme à direita da esposa, segurava sua mão e observava a chama em silêncio reverente. Para ele, Irina era como uma filha, assim como Tanya e Kate também eram, e o sentimento dentro de si era o de perda irreparável.


Os Cullen foram os próximos a se mover para fora da clareira, deixando para trás o frio e a memória da tensão que os envolvera instantes antes. Antes de partirem, Carlisle prestou à família suas condolências e Esme ofereceu os seus mais sinceros pesares. Embora isso não traria Irina de volta, Tanya e Kate sorriram fracamente, como forma de agradecimento pela gentileza.

Zafrina e Senna seguiram logo atrás, com seus passos leves e firmes, enquanto Huilen acompanhava de perto o sobrinho, Nahuel, o outro híbrido como Renesmee. O clã irlandês os seguiu. Siobhan e Liam caminham de mãos dadas com Maggie caminhando ao lado de Siobhan, ainda olhando ao redor como se ainda absorvesse cada detalhe do que testemunhara.

Charlotte e Peter, discretos, fechavam o grupo, trocando entre si um rápido sorriso cúmplice ao se afastarem. O silêncio que os acompanhava não era de medo, mas de exaustão e alívio, cada um carregando consigo a certeza de que haviam sobrevivido a algo maior do que qualquer um ousaria imaginar.

Quando finalmente são deixados para trás, sozinhos, todas as vozes, múrmuros e risadas são substituídos pelo silêncio insurdecedor que agora pesava mais que qualquer palavra, preenchendo cada canto da clareira gelada. O vento soprava gelado contra seus rostos e se eles fossem humanos, certamente estariam congelando de frio, ainda mais com as roupas leves que vestiam.

Com os olhos dourados fixos na pilha que queimava, Tanya deixou o aconchego do abraço de Carmen e o apoio da mão de Kate para ir de encontro com a chama que ainda crepitava. Seus passos eram lentos, humanos, e trêmulos. A sola de suas botas rangiam na neve enquanto ela avançava em direção ao que restava do corpo de Irina. Os olhares dos outros a acompanhavam em respeito, até que Kate desfez-se dos braços protetores de Garrett e caminhou atrás dela.

Garrett ficou parado, com os olhos fixos nas costas de Kate, enquanto a observa se afastar. Ao seu lado, Carmen e Eleazar se abraçam e Garrett pôde ouvir um soluço que escapa da garganta da espanhola ao seu lado. Mais a frente, Kate alcançou Tanya, e sem dizer nada, tomou sua mão com firmeza. Tanya sorri tristemente para Kate e unidas, as duas seguiram juntas até o fogo, sustentando-se mutuamente para não ceder ao peso da perda. Carmen encosta sua cabeça ao peito de Eleazar, que em silêncio, a aperta contra si, ambos assistindo às duas irmãs encararem o adeus definitivo à Irina. Garrett, imóvel, não tirava os olhos de Kate, como se vigiasse cada passo dela, temendo que a dor a despedaçasse da mesma forma que as chamas despedaçavam Irina.

Tanya e Kate se ajoelham ali mesmo na neve, diante de onde Irina queimava, e se abraçam com força. Kate esconde o rosto no ombro da irmã e parece chorar um choro sem lágrimas. Tanya alisava as costas de Kate enquanto também chorava.


Horas após o adeus silencioso e do enterro improvisado das cinzas de Irina sob a neve gelada, os Denali se preparavam para voltar para sua casa em Fairbanks, Alasca. A casa dos Cullen, que por semanas estivera repleta de vozes e tensão, agora parecia vazia. Somente restavam os Denali junto de Garrett, Nahuel e Huilen. Os dois últimos conversavam com Carlisle, Esme, Edward e Bella na sala e sua conversa sobre híbridos podia ser ouvida com perfeição por elas graças à sua audição de vampiro.

No antigo quarto de Edward, cedido à elas por Esme e Carlisle, Tanya se encontrava sentada no divã branco, com as pernas cruzadas e as mãos deslizando por suas pernas. Seu olhar distante observava a densidade da floresta do Parque Nacional Olímpico, que circundava a cidade de Forks, através da grande janela de vidro através da qual a luz suave da tarde entrava no quarto, iluminando-o.

De pé ao lado de Tanya, Kate dobrava uma blusa cinza com movimentos lentos e mecânicos antes de colocá-la cuidadosamente na pequena mala preta de rodinhas, ainda incompleta, ao lado da qual repousava uma pequena pilha de roupas. O silêncio entre as duas era denso, mas dentro de Kate a mente fervilhava em turbilhões. Eram lembranças de Irina que insistiam em perturbá-la era , a dor da perda, a fúria contra os Volturi, o receio de voltar ao Alasca e de não conseguir sustentar a irmã que, imóvel no divã, parecia se perder cada vez mais no vazio além da vidraça.

No entanto, o que mais atormentava Kate nem era tanto o vazio deixado por Irina, mas sim a incerteza em relação à Garrett. Será que a promessa de segui-la havia sido dita apenas no calor do momento, quando a morte parecia iminente? O cheiro dele ainda pairava pela casa, prova de sua presença recente, mas Kate não escutava a voz dele, muito menos algo que confirmasse que Garrett continuava na casa ou até mesmo em Forks. E se ele já tivesse ido embora enquanto ela estava no quarto com Tanya sem sequer se despedir? O pensamento a esmagava com tristeza, e seus olhos dourados baixaram para as roupas que dobrava sem atenção.


-Pensando no seu nômade? — Tanya quebra o silêncio e Kate olha para ela, curvando de leve o canto de sua boca, uma tentativa de sorriso apesar da dor que sentia pela perda de sua irmã horas antes.

-Ele... — com sua blusa na mão, Kate responde com a voz baixa, e fecha os olhos ao fazer uma pausa, se recompondo e tentando não demonstrar sua tristeza — O Garrett não é nada meu... — Kate abre os olhos para encarar a irmã — Além do mais, ele já deve estar milhas de distância daqui... Fui só uma conquista dele e ele foi um passatempo pra mim... — Kate completa, tentando se convencer.

-Será mesmo? Ele parecia bem apaixonado por você — Tanya responde com a sobrancelha erguida e Kate solta uma risada sarcástica — e você parece estar bem apaixonadinha por ele — Tanya retruca e Kate fecha a cara e a encara, mas antes que pudesse falar algo, o cheiro de Carmen invade suas narinas e as duas rapidamente olha, para a porta do quarto.

-Chicas — Carmen aparece na porta que estava aberta, chamando-as. Carmen estava parada com sua mala de rodinhas prata, a qual ela dividira com Eleazar — dale, vamos... já é tarde e o Eleazar quer chegar o mais cedo possível no Alasca porque ele volta a trabalhar em 3 dias e precisa preparar as aulas...

-Já vamos — Tanya responde ao erguer-se do divã com um movimento lento, quase humano. A mala dela já estava pronta, fechada e encostada discretamente no canto do quarto e por isso, bastou caminhar até lá e segurar o puxador com firmeza. Kate, ao vê-la levantar-se, apressou-se em enfiar a blusa que ainda segurava dentro da própria mala e logo começou a socar a pequena pilha de roupas restantes no espaço que restava.


Tanya, em silêncio, caminhou humanamente pelo quarto, puxando sua mala até a porta, onde Carmen a aguardava com um sorriso frágil, marcado pela mesma dor que unia a todos eles na ausência de Irina. Apesar de ter se juntado às Denali a apenas duzentos anos, um tempo ínfimo comparado ao milênio que Kate e Tanya viveram ao lado da irmã caçula, Carmen, assim como Eleazar, também estava sofrendo pela perda de Irina e não era pouco. Ela considerava as meninas como filhas e as três, que sentiam tanta falta de sua mãe Sasha que se apegaram à Carmen e à Eleazar ao ponto de considerá-los seus pais.

Era como Eleazar sempre dizia: ao escolherem o sangue animal em vez do humano, eles haviam conquistado a dádiva de constituir uma família real, com laços familiares reais, feitos de amor, carinho e cuidado.

Kate, em silêncio, pegou sua mochila preta com detalhes em branco e a colocou no ombro direito antes de seguir Tanya. Assim que passou pela porta, Carmen ergueu as mãos e segurou suavemente o rosto de Kate, que, por ser mais alta, inclinou-se para receber o gesto. Um beijo delicado pousou em sua bochecha pálida, fazendo-a sorrir um pouco. À frente delas, Tanya voltou o rosto e, mesmo carregando o peso do luto, deixou escapar um sorriso fraco diante daquela cena de ternura entre sua irmã e Carmen.

Tanya, Kate e Carmen descem as escadas em silêncio e erguendo suas malas do chão, embora o eco firme das solas de suas botas sobre os degraus de madeira polida reverberasse pela ampla sala de estar. O brilho liso do piso refletia a luz suave que entrava pelas janelas, atraindo os olhares dos que estavam na sala.

Esme e Carlisle, sentados juntos no sofá branco. Ele mantinha a mão direita repousada sobre o joelho da esposa, enquanto ela, com as pernas cruzadas, passava o braço esquerdo por trás dos ombros do marido, enredando delicadamente os dedos entre os fios loiros da nuca dele. À frente deles, de pé, estavam Edward e Bella. Ela se mantinha logo atrás do marido, com as mãos unidas sobre o ombro direito dele em um gesto de apoio e ternura.

Nas duas poltronas perpendiculares ao sofá, Nahuel e Huilen respondiam as perguntas que lhes eram feitas sobre o desenvolvimento de Nahuel, que como foi dito pelo próprio ainda na clareira, parou de crescer aos sete anos e não se modificou mais desde então. A esperança de todos era de que o processo de repetiria com Renesmee e que a menina, agora aparentando os oito anos, atingiria a imortalidade. Eleazar permanecia ao lado de Carlisle, sentado sobre o braço do sofá onde estavam o amigo e Esme, com os braços cruzados sobre o peito, compondo o círculo da conversa.

Ao chegarem à sala, Kate para ao lado de Tanya ao pé da escada, enquanto Carmen caminha, puxando sua mala até Eleazar, ficando em pé ao lado dele. Eleazar pega na mão da esposa, pousando-a sobre sua perna, e os dois trocam um sorriso, silêncioso, mas caloroso e cheio de amor. Os olhos dourados de Kate varreram o ambiente em busca de Garrett, sustentando uma ponta tímida de esperança de encontrá-lo, nem que fosse para dizer adeus.

Apesar de não encontrá-lo, Kate podia sentir o cheiro amadeirado de Garrett muito mais intenso do que havia sentido no quarto, como se ele ainda estivesse ali perto, o que a intriga porque não havia sinal dele. Ao fundo, Kate podia ouvir a voz doce de Esme se misturando à de Carlisle em conversa com Tanya. Os dois agradeciam pela ajuda e Tanya se disponibilizava para ajudá-los a qualquer hora que fosse necessário, afinal eram família. Paralelamente, a audição aguçada de Kate captava risadas infantis que vinham do lado de fora, acompanhadas de vozes conhecidas, misturada com o som inesperado de uma gaita que tocava uma doce melodia a qual ela não reconhecia. Kate olhava para a mata através da janela com o cenho franzido. Quem estaria tocando aquilo?


-Kate... — ela escuta Edward chamá-la depois que ele lê sua mente e olha para ele. O olhar dourado de Edward se voltava para ela, sorrindo — O Garrett não foi embora como você está pensando.... — ele faz uma pausa e os lábios de Kate já se curvam num sorriso singelo. Junto ao marido, com suas mãos unidas e a mão esquerda dela pousada no antebraço dele, Bella a olhava, sorrindo — ele está lá fora, junto com os meus irmãos, o Jacob e a Renesmee. Está esperando você aparecer...


Kate sentiu seu coração de pedra apertar e, sem pensar duas vezes, deixou sua mala escorregar de sua mão e cair no chão. Impelida apenas pelo desejo urgente de vê-lo nem que fosse pela última vez, Kate atravessou a sala em passos rápidos e saiu apressada para o lado de fora, ainda com sua mochila preta nas costas. Ao fundo, as risadas de quem ficou soam, mas ela não se importa. Só precisava vê-lo.

O vento frio bateu no rosto de Kate assim que ela abriu a porta de vidro com um impulso firme, fazendo seus cabelos loiros dançarem desordenados ao redor do rosto. O estalo da porta ecoou forte e atraiu de imediato todos os olhares para ela. Já no primeiro degrau da escada de cimento, Kate se depara com Rosalie e Emmett que a a observavam com expectativa. Os dois estavam sentados, abraçados. Aquele mesmo lugar trazia memórias vívidas a Kate. Foi naquela mesma escada que a quatro meses ela, Tanya e Irina, assistiram a partida de Edward e Bella para a lua de mel no Brasil.

Mais adiante, no que antes fora um gramado mas que agora estava coberto pela neve que caía e se acumulava, Renesmee acabava de se levantar de uma estrelinha, com seus longos cabelos acobreados bagunçados e um sorriso largo, mostrando os dentes perfeitamente alinhados e os olhinhos castanhos brilhando em pura alegria pela sensação de liberdade após o terror dos Volturi. Ao lado da menina, Jacob, já de volta em sua forma humana, fitou Kate com expectativa, como se aguardasse alguma notícia vinda do interior da casa.

Alice e Jasper estavam em pé perto de uma árvore. Jasper abraçava Alice por trás, com seus braços rodeando o corpo magro dela. Suas mãos pousavam na barriga dela e Alice segurava as mãos dele. Os dois observavam Renesmee com sorrisos estampando seus rostos, algo inédito de se ver em Jasper, que parecia sempre estar com dor mesmo sem humanos por perto — pensou Kate. A verdade tinha que ser dita: Nessie havia roubado os corações de todos, até dos mais resistentes como Jasper, Tanya e até mesmo o dela.

No último degrau da escada, porém, estava quem mais importava para Kate naquele momento. Sentado com sua mochila de couro marrom caída ao seu lado, carregando os poucos pertences que possuía, Garrett segurava uma pequena gaita vermelha com detalhes prateados nas mãos. Seus olhos rubis, com um leve tom alaranjado devido às suas recentes tentativas de caça vegetariana, estavam agora voltados para ela, e um sorriso se abria em seus lábios, dissolvendo em instantes o medo de não vê-lo nunca mais que corroía Kate por dentro.


-Kate, Kate — uma voz infantil se aproxima dela e Kate olha para Renesmee, que sobe os degraus da escada correndo para alcançá-la — Eu aprendi a dar estrelinha!

-Você é demais! — Kate se dobra para a frente para ficar mais próxima da altura da menina, apoiando suas mãos em suas coxas, e sorri para Nessie, que balançava seu corpo animada — toca aqui! — Kate estende sua mão direita e Nessie olha para a mão de Kate, receiosa — prometo que não tem descarga elétrica — Kate promete e Nessie sorri para a prima e dá um pulinho para bater de leve na mão da "prima". Rosalie e Emmett riem e Kate olha para eles, rindo também.

-Nessie — Rosalie a chama e Nessie olha para a tia — mostre para a Kate o que você aprendeu com o Jake — Rosalie pede e Nessie desce as escadas depressa. Ao chegar lá em baixo, a menina dá outra estrelinha, arrancando risadas dos adultos que a assistiam. Alice a aplaude.


Os lábios de Kate se curvaram suavemente ao assistir a forma graciosa com a qual Renesmee executa mais uma estrelinha perfeita na neve fofa. O riso da menina ecoava naquela tarde nublada e fria de inverno e fazia Kate esquecer-se da dor que queimava dentro de si pela morte de Irina. Quando voltou os olhos para Garrett, Kate notou uma gaita vermelha reluzindo entre seus dedos. Kate o observou em silêncio por alguns segundos sem que ele notasse sua presença, afinal ele estava concentrado em Renesmee.


-Não sabia que você tocava gaita — os olhos dourados de Kate fixam na gaita vermelha que Garrett segurava nas mãos. Ele olha para o pequeno instrumento e ri antes de olhar para ela.

-Longa história... mas depois te conto — ele responde rindo e olha de lado para Renesmee, que dava outra estrelinha, indicando que não podia falar na presença da menina. O sorriso de Kate vacilou e seu cenho se franziu, um gesto involuntário de desconfiança.

-Já estamos indo embora... O pessoal lá dentro está se despedindo, posso ouvir — Kate responde e Garrett assente antes de abrir um bolso de sua mochila e guardar sua gaita. Kate o segue com o olhar, observando como Garrett segurou sua mochila marrom pela alça gasta e levantou-se do degrau, passando-a para o ombro direito. Em minutos, pensava Kate, ela estaria a caminho do Alasca e Garrett seguiria sua própria estrada, como sempre fizera.



Eles escutam passos se aproximando da porta. Garrett desceu o último degrau da escada e estendeu o braço esquerdo, tocando com a ponta dos dedos o tronco da árvore à esquerda da escada que dava acesso ao alpendre da frente da casa. Kate desceu os degraus depressa e parou junto de Garrett, encostando-se ao mesmo tronco que ele tocava. Garrett virou-se e sorriu para ela. Ela olhou para ele com um sorriso lateral e por um instante, o mundo pareceu haver parado ao redor deles.

Rosalie e Emmett se levantaram em uníssono e desceram o restante dos degraus de mãos dadas, posicionando-se ao lado de Garrett, prontos para a despedida dos Denali. Alice e Jasper logo se aproximaram também, acompanhados de Jacob e Renesmee, enquanto as vozes vindas de dentro da casa se tornavam mais claras e próximas. Na frente de Rosalie, Renesmee parou, e a loira envolveu a sobrinha por trás, pousando carinhosamente as mãos no peito da menina, que risonha, colocou suas mãozinhas sobre as de Rosalie, entretendo-se em brincar com os anéis dourados da tia. Os braços musculosos de Emmett rodeavam a cintura da esposa e ele sorria para ela e Renesmee. Ao lado de Emmett, com sua usual expressão mais séria, Jasper abraçava Alice por trás enquanto ela sorria.

Então, todos os olhares se voltaram à porta de vidro, segundos antes de ela se abrir para revelar Esme, seguida por Carlisle, Bella, Edward, Tanya, Carmen e Eleazar, que trazia consigo a mala de Kate. Os olhos dourados de Tanya procuraram pela irmã no meio da movimentação em frente à casa e assim que avistou Kate junto ao tronco da árvore, ao lado de Garrett, sorriu para os dois, feliz de ver que o nômade ainda estava lá. Tanya fez um leve movimento com a cabeça, chamando Kate em silêncio. Kate percebeu de imediato e, por um instante, ficou imóvel, como se seus pés estivessem presos ao chão ao lado dele, onde ela queria ficar.


-Então é isso... chegou a minha hora... — Kate dá alguns passos e para novamente diante dos demais, que olhavam para ela. Ela olha para Rosalie, Emmett, Jacob, Alice e Jasper — nos desculpem pelo que a Irina fez...

-Tá tudo bem... já foi... — Rosalie dá um passo para a frente e com um sorriso simpático, toca nos braços de Kate por cima da jaqueta que ela usava, a tranquilizando, e Kate sorri, gesto que Rosalie corresponde com outro sorriso

-Já perdoamos a muito tempo — Edward se aproxima deles, de mãos dadas com Bella, que sorria tímida. Os dois param à direita de Rosalie, que olhava para o irmão, sorrindo. Os olhares dos demais se voltam para ele e Bella e Renesmee corre para perto dos pais e passa os braços ao redor da cintura da mãe. Bella passa o braço direito ao redor da filha. Kate vira ao redor de si mesma para olhar para Bella e Edward, quem ela considerava seus primos — espero que isso faça vocês virem mais vezes nos visitar — ele brinca para descontrair e todos riem.

-Obrigada pelos treinos, Kate — Bella agradeceu e Kate sorri para ela

-Não há de quê. Continue treinando que já já você estará melhor que a Chelsea dos Volturi — Kate brinca e Bella ri baixo e olha para o chão coberto de neve com vergonha. Edward olha de modo apaixonado pra esposa. Os outros olham para Bella, sorrindo, e Kate se volta para Garrett, preparando-se para se despedir-se dele — então... acho que é isso... já sabe pra onde vai?


Garrett olha para ela e sorri, acenando com a cabeça.


-É claro que sei. Eu já disse que vou para o Alasca com vocês, não disse?


O sorriso de Kate se abriu e uma onda quente percorreu seu corpo, como se isso fosse possível sendo vampira. Ela sentiu borboletas se agitarem em seu estômago, como se as palavras dele tivessem se enraizado dentro dela. Ainda incrédula, Kate arqueou a sobrancelha.


-Você... estava falando sério lá na clareira? — ela voltou a perguntar, com um fio de voz.

-Mais sério do que nunca — ele confirmou, sem a menor hesitação — eu te falei na clareira que se sobrevivêssemos aos Volturi, eu te seguiria onde fosse e não pretendo voltar atrás — ele dá uma piscadela pra ela. Kate sorri e sem pensar, correu o pequeno espaço que os separava e pulou nos braços que a rodeiam imediatamente. Os pés de Kate descolam do chão coberto pela neve e ela fica na ponta dos pés no instante que seus lábios encontram os lábios de Garrett. Seus braços permaneceram firmes ao redor do pescoço de Garrett e sua mão direita afunda nos cabelos castanhos dele enquanto sua mão esquerda pousava na escápula dele.


Um coro de palmas ecoou logo em seguida, puxado por Emmett, que logo foi acompanhado por todos. Renesmee ria de felicidade e Rosalie, Alice, Bella e Edward riam com ela. Kate e Garrett se afastaram rindo e visivelmente envergonhados, mas Kate mantém seus braços permaneceram firmes ao redor do pescoço dele. Kate escondeu o rosto contra o peito largo de Garrett, que a envolveu por completo, rindo baixo, como se o mundo inteiro tivesse desaparecido e só eles importassem.


-Kate! Garrett! Vamos! — Tanya ergueu a voz, chamando os dois. Kate ergueu o rosto do peito de Garrett e, ainda abraçados, Garrett sorriu para ela. Kate sorri de volta e então os dois se voltam para o grupo.

-Acho que é a nossa deixa — Garrett murmurou, se desvencilhando dos braços de Kate e pega na mão dela. Kate olha para suas mãos unidas e sorri. Garrett também olha para as mãos deles e sorri para ela. Kate olha para ele. — vamos? — ele pergunta e ela assente. Sem soltarem as mãos, eles se despedem de Rosalie, Emmett, Nessie, Alice e Jasper, Edward, Bella e até mesmo de Jacob, apesar do cheiro forte de cachorro com o qual não estavam acostumados, com a promessa de que voltariam muito em breve com o restante da famíla Denali para visitá-los.


Eles então caminharam em silêncio, de mãos dadas e os dedos entrelaçados, até o Toyota Sienna preto que pertencia à Eleazar e que estava estacionado na parte externa da garagem dos Cullen. Tanya e Eleazar tinham aberto o porta-malas e ajeitavam as malas, enquanto Carmen, num abraço apertado, se despedia de Esme logo ao lado. O tom baixo e saudoso da conversa das duas preenchia o ar, quebrado apenas pelas risadas infantis que vinham de Renesmee ao fundo enquanto Emmett brincava de descabelar a menina.

Eventualmente, eles soltam as mãos e Kate abre a porta traseira da direita enquanto Garrett fica parado alguns centímetros junto à traseira do veículo, sem ideia do que fazer em seguida. Tanya percebe e o chama pelo nome, fazendo Garrett olhar para ela.


-Se quiser, pode colocar sua mochila — disse Tanya, abrindo espaço para ele alcançar o porta-malas. Garrett sorri para ela, agradecendo-lhe, e tira a alça gasta do seu ombro antes de ajeitar sua mochila entre as malas da família.

-Bem vindo à família, Garrett — ao seu lado, Eleazar sorri para ele, cúmplice, e dá uns tapinhas no ombro de Garrett, que retribui o gesto com um sorriso — cuida da Kate, ela é como uma filha pra mim...

-Pode deixar. Vou cuidar dela com minha própria vida se for preciso — Garrett responde convicto e Eleazar sorri.

-Bem vindo, irmão — com as mãos na cintura, Tanya sorria atrás de Garrett, que se vira para olhar para sua nova irmã, porque era assim que ele via Tanya daqui para a frente. Ele sorri para ela e Tanya sorri de volta — cuida da Katrina

-Não me chama assim! — eles escutam Kate reclamar. Kate, naquele momento, segurava a porta traseira direita do Toyota aberta, e mexia em seu celular pela primeira vez naquele dia.

-Ela odeia que a chamem de Katrina — Tanya sussurra para Garrett, que assente, anotando mentalmente que nunca deveria chamar Kate de Katrina.

-Odeio mesmo! — Kate retruca e bloqueia seu celular antes de aparecer ao lado de Tanya com as mãos na cintura e os olhares se voltarem para ela. Garrett só ria, olhando para Kate com ternura — e odeio mais ainda depois que chamaram de Katrina um furacão de categoria 5


Os três riem de novo e Kate some novamente da vista deles. Ela deixa o seu celular sobre sua mochila preta jogada no banco traseiro antes de se afastar do veículo, deixando a porta aberta. Talvez imaginassem que ele estava partindo com os Denali apenas por causa de Kate. Uma parte era verdade, porque o amor avassalador que ele sentia por ela o havia feito desejar estar ao lado dela pela eternidade. Mas havia algo a mais. Era a primeira vez desde 1780, quando foi transformado acidentalmente, que ele sentia a sensação de pertencer a algum lugar. Os Denali, assim como os Cullen, não eram apenas um Coven, mas sim uma família de verdade, que se amava muito e a forma calorosa e genuína com que cada um o havia recebido fazia ele sentir que finalmente tinha encontrado seu lugar.


-Vai ser bom ter outro homem na família — Eleazar brinca e Tanya revira os olhos.

-Coitado de você, o macho alpha que vive solitário com quatro mulheres por 200 anos... — Tanya brinca com ele e Garrett soltou uma risada leve junto a Eleazar, compartilhando um instante de cumplicidade. Kate caminhou em direção a Esme, que ainda se despedia de Tanya com um abraço terno, e a Carlisle, que falava com Carmen. Kate para ao lado de Carmen, deixando a espanhola entre ela e Tanya.

-Obrigada por tudo, Esme e carlisle — Kate agradece, com suas mãos unidas para baixo. Esme e Carlisle sorriem para ela e Tanya e Carmen olham para ela, prestando atenção em Kate — Vocês e sua família sempre nos recebem como se fôssemos de fato parte da família.


Esme dá um passo a frente, com seu sorriso mais acolhedor, e a envolveu em seus braços com ternura. Kate a abraça de volta.


-Porque vocês são nossa família e sempre serão.


Kate sorri e então, ao se afastar de Esme, se virou para Carlisle, que a recebeu com o mesmo carinho sereno de sempre.


-Foi bom estar aqui novamente com vocês, mesmo que a ocasião não tenha sido a melhor... — ela disse com um singelo sorriso — e nos desculpem pela Irina.

-Não há o que desculpar. Os Volturi só queriam um motivo para vir até nós... Uma hora ou outra saberiam sobre a Renesmee, sua irmã apenas antecipou... — Carlisle, como sempre compassivo, a explica, revezando seu olhar entre Kate e Tanya. Os lábios de Kate continuam se curvando em um sorriso. Seus cabelos loiros e lisos batiam contra seu rosto por conta do vento gélido — E será bom recebê-los de volta sempre que quiserem — Carlisle respondeu, sorrindo.


Garrett se aproximou deles com as mãos dentro dos bolsos da jaqueta preta que ele usava e parou ao lado de Kate, que olha para ele sorrindo. Carmen e Tanya também olham para ele e Tanya sorri.


-Carlisle... — Garrett estende a mão direita, mantendo a esquerda dentro do bolso de sua jaqueta preta. Carlisle sorriu e a apertou com firmeza. Esme, Tanya e Carmen sorriam enquanto Kate observava a cena com o coração aquecido, com seus olhos fixos em Garrett.

-Foi uma honra te ver de novo, Garrett. E obrigada por nos ajudar

-A honra foi toda minha — Garrett respondeu, genuíno — precisando de mim, sabe onde me encontrar

-Vamos torcer para não precisarmos de mais ajuda — Carlisle brinca, dando tapinhas no ombro de Garrett, e todos riem — não suma de novo para que não passemos mais 100 anos sem nos ver

-Não vou... eu estarei no Alasca, sabe onde me encontrar — Garrett responde brincando e Carlisle ri. Kate só sorria, observando Garrett.


Instantes depois, os Denali começaram a entrar no Toyota Sienna. O primeiro a entrar foi Eleazar, que acenou para sua família estendida de Forks antes de se sentar ao volante e fechar a porta enquanto Carmen se acomodava ao lado dele, no assento do passageiro. Depois de fechar a porta, Carmen, que segurava sua bolsa sobre suas pernas, puxa o cinto para afivelá-lo, assim como Eleazar.

Ajustando seu par de fones em seus ouvidos e com seu celular na mão esquerda, Tanya entrou pelo lado do motorista, sentando-se junto à janela traseira esquerda, mas não sem antes acenar para os primos. Do lado oposto, Garrett apoiava o braço esquerdo sobre o teto do veículo e, com a outra mão, segurava a porta traseira direita para que Kate pudesse entrar primeiro. Ela passa por ele sorrindo ligeiramente e pegou sua mochila e seu celular sobre ela antes de deslizar para o meio, sentindo um misto de tristeza por Irina não estar indo pra casa com eles e alegria por ter Garrett.

Garrett trocou um olhar cúmplice com Carlisle antes de entrar no veículo, fechando a porta logo em seguida. Lá fora, os Cullen permaneciam reunidos na entrada da casa, acenando, enquanto o Toyota Sienna começava a seguir seu caminho. Nessie, agora no colo de Edward, acenava e sorria para os primos.

No interior do veículo, o silêncio se instalou de maneira confortável entre seus cinco ocupantes, quebrado apenas pelo leve som que saía dos fones de Tanya, que agora escutava música com o celular apoiado sobre suas pernas. Tanya afivelava o cinto de segurança. Não que fosse realmente necessário para eles, mas era um hábito aprendido para manter uma aparência mais humana.

Ao seu lado, no assento do meio, Kate fazia o mesmo, segurando a mochila sobre as pernas enquanto ajustava o cinto. Garrett a observava com uma expressão confusa, sem compreender a necessidade do gesto, mas não falou nada. Sem pensar duas vezes, Kate se projetou ligeiramente sobre ele, estendendo o braço direito para alcançar o cinto dele e puxá-lo para afivelá-lo por ele, um gesto simples, mas que fez os ombros dele relaxarem e os lábios de Kate se curvarem num sorriso discreto ao trocarem olhares.

Quando Eleazar deu partida no Toyota Sienna e começou a manobrar de ré para sair da garagem sob os olhos atentos dos Cullen acompanhando cada movimento do veículo, Kate deslizou para baixo no assento do meio e encostou a cabeça no ombro esquerdo de Garrett, que observava os Cullen e acenava sem ter ideia que eles não os viam por causa da película que impedia qualquer um de fora de ver claramente o interior do carro. Os olhos dourados de Kate também fixavam-se nos rostos conhecidos através da janela. Garrett olhou para ela e, sem dizer uma palavra, passou o braço esquerdo ao redor de Kate, com sua mão deslizando suavemente pelo braço dela por cima da jaqueta de couro. Ela sorri para ele e ele sorri de volta antes trocarem um beijo breve. Foi a apenas algumas horas quando eles deram seu primeiro beijo, ainda na clareia em meio às celebrações, e simplesmente não conseguiam mais parar. Os lábios do outro eram viciantes.

Antes de seguir, Eleazar deu uma breve buzinada, um último gesto de despedida, e logo o Toyota Sienna avançou em alta velocidade até desaparecer da vista dos Cullen, deixando apenas a neve e o silêncio atrás deles. Tanya ainda olhou para trás através do vidro traseiro, observando os Cullen entrarem na casa e Carlisle, o último a entrar, fechar a porta.

Quando a casa sumiu de vista, Tanya se endireitou no banco, respirando fundo, e olhou para a paisagem verde através da janela. Irina deveria estar dentro daquele carro de sete lugares, o suficiente para comportar todos eles. Ela deveria estar voltando para casa com sua família. Era para estar conhecendo Garrett e estar com ela, torcendo e sendo feliz por Kate e Garrett. Mas por culpa de Laurent e dos Volturi, ela não estava.


Ao lado da irmã, Kate mantinha as mãos sobre a mochila preta que repousava em seu colo e segurava seu celular na mão direita. Seu corpo estava relaxado depois de toda tensão de mais cedo enquanto sua cabeça descansava no ombro esquerdo de Garrett. Seus olhos dourados acompanhavam, serenos, o borrão verde das árvores que passavam velozes pela janela ao lado dele, como se a própria floresta aos arredores de Forks se despedisse em silêncio.

Garrett, por sua vez, recostou sua cabeça no encosto do assento. Seu olhar parecia perdido na paisagem esverdeada do lado de fora. Seu braço esquerdo envolvia Kate e sua mão pousada em seu quadril transmitia segurança e intimidade. Depois de toda dor e incerteza, eles finalmente tinham encontrado um lar um no outro.



*********


1 de Janeiro de 2007. Fairbanks, Alasca — Estados Unidos


Foi somente na manhã seguinte quando os Denali chegaram à sua casa em Fairbanks, Alasca. A distância até Forks era de pouco mais de 2 mil milhas e, embora fosse infinitamente mais prático embarcar em um avião comercial, a viagem de carro lhes permitia fazer paradas para explorar e caçar pelo caminho. Além disso, havia a questão de Garrett, que ainda não possuía documentos necessários para embarcar em um voo e tampouco teria controle para dividir uma cabine fechada com humanos por tantas horas, tornando a estrada não apenas uma escolha, mas uma necessidade.

O céu estava de um azul cristalino, sem nenhuma nuvem, e o Sol brilhava forte, fazendo a neve que cobria cada centímetro da paisagem reluzir como um tapete branco feito de diamante. Garrett nunca havia imaginado, em toda a sua longa existência, que um dia conheceria o Alasca, muito menos que moraria no estado.

Seus olhos rubis fixavam-se nas montanhas nevadas do Parque Nacional de Denali que ao fundo erguiam-se imponentes e desenhavam uma paisagem quase irreal de filme enquanto o carro subia a estrada sinuosa e íngreme, agora coberta pela neve, que levava à casa dos Denali, que assim como a dos Cullen, ficava afastada da civilização e dos olhares dos humanos.

Ao lado dele, com o queixo apoiado no ombro esquerdo de Garrett, Kate observa as montanhas com uma expressão calma, mas triste. Ela, apesar de estar feliz e aliviada por terem se livrado dos Volturi e de Garrett ter seguido-a, ela havia perdido sua irmã mais nova e teria que passar o resto de sua existência sem Irina. Ao lado dela, Tanya compartilhava o mesmo sentimento. A loira de cabelos cacheados olhava as montanhas pela outra janela, lembrando-se de Irina e reforçando em sua mente o quanto sua irmã deveria estar ali, compartilhando aquele momento com eles.

Quando a imponente casa de número 1777 surgiu diante de seus olhos rubis, Garrett não conseguiu esconder sua surpresa e murmurou um "uau", que arrancou risadas dos outros quatro. A casa dos Denali era simplesmente imensa, tanto quanto ou até maior que a casa dos Cullen, e destacava-se em meio ao branco da neve que cobria tudo ao seu redor, incluíndo as montanhas que se erguiam atrás da casa.

As paredes de pedra conferiam imponência à fachada, enquanto a madeira avermelhada das paredes trazia calor e elegância, lembrando-lhe imediatamente o estilo refinado da residência dos Cullen. O telhado metálico abrigava painéis fotovoltaicos que captavam a luz do Sol e a convertiam em energia elétrica que alimentava a casa. A existência de tantas janelas permitiam Garrett imaginar um interior amplo e iluminado. O jardim da frente parecia muito bem cuidadosamente organizado, com pedras e arbustos que emolduravam a entrada, completava o cenário. Garrett jamais imaginou que sua nova família vivessem em tamanho requinte.



O Toyota Sienna Preto parou graciosamente diante da garagem, a poucos centímetros do portão automático. Eleazar desligou o motor, e o ronco baixo do carro foi substituído pelo som metálico de uma sequência de cliques dos cintos de segurança sendo desafivelados. Carmen abriu a porta quase ao mesmo tempo que o marido, e Tanya os acompanhou. Uma sequência de portas fechando-se precede o silêncio que fica no interior do veículo. Ainda sentados, Kate e Garrett observam em silêncio Tanya e Eleazar indo até a traseira do veículo por um lado e Carmen indo pelo outro para juntar-se aos dois. Eleazar pressionou o botão e o porta-malas se abriu com um estalo.


-Bem-vindo à casa — Kate sussurra com a voz suave, esticando o pescoço e aproximando seu rosto do ouvido esquerdo de Garrett, que virou o rosto para ela, com os olhos brilhando com ternura, antes de sorrir.

-Acho que nunca ouvi nada tão bom nos meus duzentos anos de existência — murmurou ele e os lábios de Kate se curvam de forma doce em um sorriso. Antes que qualquer um dos dois pensasse em outra palavra, seus rostos se aproximaram. As mãos grandes de Garrett tocam o rosto delicado de Kate e ela coloca suas mãos por cima das dele no momento que seus lábios se encontram.


Garrett foi o primeiro a se mover depois do beijo. Ele abre a porta ao seu lado e desce primeiro. Suas botas imediatamente afundam na neve fofa que cobria o chão, o que era totalmente novo para ele, que teria que se acostumar com essa nova sensação. Kate solta uma risada contida ao ver ele vacilando na neve e Garrett olha para ela com um sorriso ao mesmo tempo que ergueu a mão direita em direção a Kate, oferecendo-lhe apoio para descer, como se ela fosse precisar.

Kate deixou escapar uma risada, balançando a cabeça diante daquele cavalheirismo, e colocou sua mochila nas costas antes de estender o braço direito. Seus dedos se entrelaçaram com os dele, firmes, e então Kate deslizou pelo banco, aproximando-se da porta antes de descer com a ajuda dele. Garrett manteve o olhar firme nela enquanto a puxava suavemente para fora do veículo.

De mãos dadas, Kate e Garrett caminharam lentamente até a traseira do carro, observando Eleazar terminar de retirar as malas e colocá-las cuidadosamente no chão. A mala preta de Kate foi a última a ser retirada, e a mochila de Garrett repousava em cima dela. Eleazar fechou o porta-malas com um clique firme, trancando o carro, enquanto Carmen e Tanya conversavam baixinho entre si ao lado de Kate.


-Me parece que nevou muito essa noite — Kate vira a cabeça em direção à Carmen e Tanya ao ouvir Carmen comentar sobre a neve. A morena mantinha os braços cruzados junto ao seu peito e observava ao redor e comparando a altura da neve com os degraus do alpendre da entrada com a testa franzida. Com as mãos na cintura, Tanya assentia e olhava ao redor também. Garrett também olha para as duas.

-Eu vou passar a máquina — Eleazar responde, se aproximando delas, e as duas olham para ele. Kate e Garrett também olham para Eleazar e o vêem parar ao lado de Carmen e passar o braço direito ao redor dela, pousando sua mão direita no quadril dela — só que antes vou levar nossa mala para o quarto e trocar de roupa — ele completa e Carmen olha para ele, sorrindo de leve. Ela, ainda com os braços cruzados, encosta a cabeça no peito dele. Eleazar sorri para a esposa e beija os cabelos castanhos dela. Tanya sorri para os dois e então olha para Kate e Garrett, que os observava também, com um sorriso leve, mas compassivo.

-Kate... — Tanya chama pela irmã e os olhares se voltam para Kate, exceto por Garrett, que olha para Tanya, assim como Kate — Porque você não mostra a casa para o Garrett e o ajuda a se instalar?


Kate olhou para Garrett. Seus olhos dourados encontram os vermelhos dele. Nenhum dos dois disse nada, trocaram apenas um sorriso silencioso, carregado de cumplicidade.


-Acho uma boa ideia — murmurou Kate sem tirar os olhos dele, com um leve sorriso no rosto — vem! — ela então puxa de leve a mão dele e Garrett ri baixo. Eles então pegaram a mala de Kate e a mochila de Garrett e caminharam até a entrada da casa. De mãos dadas, os dois atravessaram o jardim coberto de neve em silêncio com Kate guiando o caminho. Apenas ouviam o rangido da neve sob suas botas.


O dois sobem o alpendre de madeira, que range com o peso dos dois, e chegando à porta da entrada, Kate soltou a mão de Garrett e se abaixou ao lado dele, puxando o tapete da entrada. Garrett a observa tirar uma chave prateada de baixo.


-É aqui que guardamos a chave quando todos saem — Kate brincou ao erguer a cabeça para olhar para Garrett, com um brilho travesso nos olhos. Garrett riu, surpreso, e Kate acrescentou com um sorriso — Depois eu providencio uma cópia da chave para você.


O olhar de Garrett se iluminou, um misto de surpresa e ternura, enquanto Kate se endireitava novamente e coloca a chave na fechadura, pronta para guiá-lo pelo interior da casa que, agora, ele começaria a chamar de lar também.

Quando Kate girou a maçaneta e abriu a porta, Garrett foi imediatamente atingido pela mistura dos cheiros de todos os membros da família Denali. Garrett inspirou um pouco mais a fundo, e sentiu um cheiro que não lhe era conhecido, sutil, mas presente no ambiente. Irina... pensou ele. O cheiro da irmã de Kate e Tanya ainda estava lá, impregnado no interior da casa...


-Bom... — a voz de Kate soa em seus ouvidos e Garrett a segue com o olhar quando ela sai do lado dele e vai dá alguns passos. Kate vai até o interruptor e acende todas as luzes do corredor que servi na verdade como um hall de entrada. Ao final dele, estava a sala de estar. Kate então para na frente dele, erguendo os braços para o lado — esse é o nosso covil — ela brinca e Garrett ri. Ele então avança alguns passos e entra na enorme sala de estar, olhando ao redor e capturando cada detalhe. Kate aproveita para, em silêncio, tirar sua jaqueta de couro com pêlo animal a qual usava a mais de 48 horas e a pendura no cabideiro junto à porta. Dessa forma, ela fica somente com sua blusa de mangas curtas azul petróleo. Kate o segue em seguida e para ao lado de Garrett.


A sala de estar era imensa aos olhos de Garrett, que não era acostumado com tanto requinte e luxo. O piso era de madeira lâminado, perfeitamente encerado. Não havia sequer uma mancha ou marca de arraste de móveis. Haviam três sofás grandes e espaçosos, repletos de almofadas e com pele de animais caindo sobre seus estofados. Sua disposição formava um "U", com uma mesa de centro no meio, com algumas decorações sobre ela. Diante dos sofás, havia uma lareira de pedra que estava apagada no momento, e sobre ela, haviam porta-retratos com fotos de família, o que óbviamente incluía Irina. Havia uma televisão enorme acima da lareira de pedra.

As enormes janelas retângulares e triângulares, cuja vista dava direto para o jardim dos fundos e para os pinheiros que o circundavam, iluminavam naturalmente a sala, auxiliando na iluminação majoritariamente vinda do enorme lustre de ferro que pendia sobre a sala de estar.




-Aqui é onde passamos a maior parte do nosso tempo! — Kate explica à ele, olhando para Garrett com um sorriso no rosto ao ver como ele parecia maravilhado com tudo. Kate agora mantinha suas mãos nos bolsos traseiros de sua calça jeans. Garrett olha de lado para ela, sorrindo, mas então olha para cima, focando no imponente mezanino que se erguia sobre a cozinha.


O pé direito da sala era duplo e o teto era de madeira inclinado, elemento arquitetônico que evitava o acúmulo de neve no telhado. Havia ainda uma cozinha americana, toda equipada, que integrava o ambiente, o que gerou estranhamento em Garrett. Por cima da cozinha, passava um corredor, tipo mezanino, que dava acesso aos quartos.


Ainda no primeiro pavimento da casa, Kate guiou Garrett pelo corredor que seguia em direção oposta à sala de estar e à cozinha. O corredor se iniciava logo na entrada da casa e lá tinham mais quadros nas paredes. Garrett podia ver que os Denali eram amantes de arte. Diante da porta de entrada, havia uma porta, a qual era de um lavabo, que raramente era usado e quando era, servia para lavar as mãos depois de uma caçada em que acabam muito sujos e não queriam andar muito pela casa pingando de sangue.


Ao fundo do corredor, eles tinham uma porta, que ficava sempre fechada, mas que ao abrí-la, revelava uma escada de madeira que dava para um pavimento inferior, tipo um porão. Kate guia Garrett lá para baixo. De um lado, eles tinham acesso à garagem pelo lado de dentro. O portão que agora estava fechado era o que dava para fora e era ali, naquele espaço, onde ficavam os carros da família, que como os Cullen, também tinha um grande apresso por carros.


Kate mostra os carros da família. O seu era um Hyundai Creta grafite que estava estacionado no canto direito da garagem. Ao lado do carro dela, estava estacionado o Mercedes AMG GLC 63S branco de Tanya, seguido pelo Nissan Kicks vermelho de Carmen. Havia ainda um grande espaço vago no espaço de dois carros. Kate conta que mais tarde, Eleazar colocaria o carro dele para dentro e que ela talvez buscaria o Jeep Compass preto de Irina, que permanecia estacionado no Aeroporto Internacional de Fairbanks desde quando, a algumas semanas atrás, ela embarcou num vôo para Seattle, de onde sabe-se que ela partiu para Forks e toda a confusão envolvendo Nessie começou. Kate ficaria com o carro da irmã falecida e daria o seu Hyundai Creta para Garrett.

Do lado oposto da garagem, eles tinham nada menos nada mais do que o que parecia um refúgio luxuoso escondido entre as montanhas. Havia uma piscina aquecida que se estendia como um lago particular, cercada por pedras naturais que reforçavam o aspecto acolhedor. O teto e as paredes eram de madeira robusta e havia uma lareira de pedra ao pé da piscina de águas azuis esverdeadas. As amplas janelas de vidro ocupavam toda a lateral, dando vista direta para a floresta coberta de neve e para o desfiladeiro que se abria logo além, contrastando o frio lá fora com o calor confortável do ambiente. Almofadões e poltronas macias estavam espalhados ao redor. Do lado de fora, havia um tipo de varanda com espreguiçadeiras. Garrett parou por um instante, surpreso. Nunca teria imaginado que os Denali tivessem uma piscina própria dentro de casa, ainda mais uma que reunia tanto charme e sofisticação em meio ao cenário selvagem do Alasca.


Ali mesmo naquele pavimento mais inferior, ao saírem da parte da piscina, eles tinham uma uma lavanderia. Eles entram ali e Kate mostra à Garrett as máquinas tanto de lavar quanto a de secar com a promessa de ensiná-lo a mexer nos equipamentos. Mais ao fundo da lavanderia que não era muito grande, tinham um armário embutido branco, o qual Kate fez questão de abrir e mostrar onde se guardavam amaciante, alvejante, sabão e tira-manchas que era muito importante para tirar eventuais manchas de sangue que surgiam depois das caças.

Ao voltarem para o térreo desde a piscina do andar debaixo, eles obrigatóriamente tinham que voltar pelo corredor cuja porta ao final dele era justo a escada por onde eles tinham acabado de subir. Já a outra ponta do corredor já dava de volta para a sala de estar. A porta diante da porta do lavabo era a de um pequeno escritório, o qual era rodeado de estantes com livros de Eleazar, que era professor de Economia Políticana Universidade do Alasca. Havia uma bancada em formato de "U" e duas cadeiras de escritório. Um computador Imac, o qual Carmen, que era arquiteta como Esme, usava para trabalhar.

A informação de que Eleazar era professor e Carmen arquiteta surpreende Garrett e gera outra curiosidade? O que Kate e Tanya faziam da vida para que os Denali alcançassem tamanha vida de requinte que os rodeava?



Garrett deixou o olhar vagar pela bancada branca e pelas estantes. Ele lia em silêncio cada um dos títulos dos livros, mas não havia quase nenhum que ele conhecesse, exceto pelas obras de Shakespeare. Descendo mais um pouco, os olhos rubi de Garrett encontram alguns porta-retratos sobre a bancada. Em um, Carmen e Eleazar posavam abraçados e sorridentes em uma típica pose de casal.

Até que um outro lhe chamou a atenção. Havia uma foto de Tanya, Irina e Kate diante da Torre Eiffel de Paris. A foto foi tirada durante o inverno, a julgar pelos agasalhados que as três vestiam no momento eternizado. Era de noite e a Torre Eiffel brilhava atrás delas, que sorriam abraçadas. Ao seu lado, Kate também olhava para a foto com um sorriso triste, carregado de nostalgia. Os olhos dourados dela se demoraram no rosto de Irina, posicionada entre ela e Tanya, e Garrett percebeu a dor suave e silenciosa da saudade que Kate carregava, como se a lembrança fosse ao mesmo tempo um consolo e uma ferida aberta.


-Essa foto foi tirada a um ano — Kate quebra o silêncio e pega o porta-retratos, focando no sorriso da irmã mais nova. Sua voz saiu baixa, quase um sussurro — foi na nossa última viagem juntas... antes do Laurent, antes de tudo... Tanya insistiu, dizia que precisávamos de um tempo só nosso e a Irina, mandona como sempre, insistiu em irmos para Paris. Eu só cedi e fui — Kate riu de leve, mas o som se perdeu na melancolia. Ela então olha para Garrett, que olhava para ela ao ouvir a história, mesmo que não soubesse muito bem quem era Laurent. Enfim... Garrett conseguia enxergar a dor de Kate através de sua expressão — Foi tão bom... só nós três, rindo, caminhando pela cidade, como se o mundo fosse simples outra vez — ela sorri triste e se fosse humana, Garrett tinha certeza que ela estaria chorando — eu daria tudo para ter a Irina aqui com a gente... era para voltarmos pra casa com ela, nós seis... Tanya, eu, você, a Irina, a Carmen e o Eleazar...


Garrett não disse nada, apenas envolveu Kate em seus braços, permitindo que Kate se aninhasse contra ele. Ela apertou o porta-retratos contra o peito, como se quisesse manter Irina perto de si de alguma forma, e apoiou a cabeça contra o peito dele. Garrett a apertou mais forte contra si, em silêncio, sabendo que não havia palavras capazes de preencher aquela ausência, mas que seu abraço podia ao menos oferecer um conforto.


-Eu não quero que o seu primeiro dia aqui seja triste... — alguns minutos de silêncio depois, Kate rompe o silêncio e se desvencilha dos braços dele. Ela olha para ele, ainda com o porta retratos junto ao seu peito. Garrett, que mantinha seus braços ao redor dela, sorri e beija a testa dela. Kate fecha os olhos e sorri com o toque.

-Eu estarei sempre aqui para quando você precisar, ok? — ele sussurra e Kate assente. Ela então fica na ponta dos pés e deposita um selinho nos lábios dele antes de se afastar e colocar o porta-retratos no lugar. Ela então pega na mão dele e o guia para fora do home office.


Os dois voltam para a sala de estar, unidos pela mão, e param no centro dela.


-Desde que chegamos eu quero perguntar uma coisa — Garrett pede quando eles voltam para a sala de estar e olha para a cozinha, rindo com o cenho franzido.

-O quê? — Kate ri com ele.

-Porque vocês tem uma cozinha? — Garrett pergunta olhava para a cozinha sem entender nada, e Kate ri, olhando também a cozinha por cima de seus ombros, uma vez que ela estava de costas.

-Bom... às vezes acontece de recebermos alguns humanos aqui em casa... Não acha que eles estranhariam se não vissem uma cozinha? — Kate tenta brincar para afastar o seu nervosismo e coça a nuca ao voltar a olhar para ele.


Garrett percebeu uma certa hesitação no tom de voz de Kate e o ato de coçar a nuca como se buscasse uma desculpa para o nervosismo, confirmou o desconforto dela. Garrett sabia que Kate, juntamente com Tanya e Irina, era a criadora do mito do Succubus, uma figura do folclore medieval conhecida por seduzir homens e drenar sua energia vital.

Garrett também sabia da fama que as Denali carregavam de serem devassas e se envolverem sexualmente com parceiros humanos ao longo dos seus dez séculos de existência, incluindo participações em bacanais e de praticarem relações sexuais em grupo, onde as três irmãs com frequência dividiam-se entre o mesmo humano e realizavam todas as suas fantasias, entre outras coisas. Há quem diga que as três praticavam incesto, porque pesar de não serem irmãs biológicas, Tanya, Kate e Irina viviam e agiam como se fossem. Foram inclusive as irmãs Denali as precursoras da dieta de sangue animal, pois elas tinham apresso pela vida humana e sentiam-se culpadas após matarem seus parceiros.

Garrett só não imaginava que elas ainda pudessem manter esse hábito milenar. Imaginar Kate nos braços de outros homens despertou em Garrett uma sensação estranha e intensa de posse, mas também de fascínio, curiosidade e um ciúme inesperado que ele não conseguia negar. A dúvida se enraizou em sua mente. Será que Kate continuaria com seus antigos padrões ou seu amor por ele a tornaria monogâmica? O pensamento era perturbador.


Kate pôde ver em seus olhos que sua fala não parece estranha para Garrett. Na verdade, ele não parecia estar nada surpreso de saber que humanos visitavam ocasionalmente a casa dos Denali. Ela recuou um pouco, dando dois passos vacilantes para trás, para afastar-se dele.


-Você sabe, não sabe? — ela pergunta com a voz trêmula e Garrett permanece em silêncio, olhando para ela sem saber o que falar. O medo na voz dela era real. Era medo de perdê-lo, de estar se enganando com ele como Irina se enganou com Laurent. No fundo, pela primeira vez em um milênio, Kate tinha se apaixonado verdadeiramente. Ela amava Garrett como nunca imaginou que seria capaz de amar alguém. Garrett a olhava nos olhos, sério.

-Sim, eu sei sobre vocês três — ele respondeu, suave, mas firme — o Emmett me contou por cima quando eu perguntei de você... — ele completa Kate fica parada, olhando para ele, surpresa por saber que ele tinha perguntado sobre ela, e frustrada por saber que seu primo tinha aberto o bico antes dela sequer ter alguma chance de que Garrett ouvisse de sua própria boca. Só o que faltava era Garrett tirar conclusões precipitadas. Ele, no entanto, percebeu a reação dela e deu um passo à frente, colocando ambas as mãos no rosto de Kate, segurando-a com cuidado e ternura. Ela, hesitante, colocou suas mãos sobre os pulsos dele, os dedos tocando levemente a pele fria da mão de Garrett. Seus olhos dourados encontraram-se com os olhos rubi dele — Eu queria saber sobre você porque na primeira vez que eu te vi, eu já me apaixonei por você... Se vim até aqui é por você e somente você, Katie. Eu estou aqui porque eu te amo... Eu deixei meus dias de nômade para trás e quero seguir ao seu lado e estou me tornando um vampiro vegetariano por você!


Um sorriso tímido se formou nos lábios dela, e a tensão se dissipou.


-Eu não sou mais uma Succubus a pelo menos cinco séculos, se quer saber. Eu nem lembro da última vez que fiz isso com um humano — Kate confessou e faz uma pausa, olhando nos olhos rubis dele — eu me apaixonei por você... — ela acrescenta, olhando nos olhos dele, e Garrett sorri — Você é o primeiro homem que eu verdadeiramente amei e é por você que vou ser monogâmica a partir de agora... quero só estar com você pelo resto da minha imortalidade.


O sorriso de Garrett cresce ao ouvir isso e ele suspira aliviado por saber que não precisaria dividí-la com ninguém. Sem hesitar, inclinou-se para ela. Seus lábios se encontraram em um beijo intenso e delicado ao mesmo tempo, selando a promessa silenciosa de que, finalmente, ambos haviam encontrado um no outro o lar que tanto procuravam sem nem saber.

Ao fim do beijo, os dois permanecem com os olhos fechados. Garrett mantém suas mãos no rosto de Kate e encosta suas testas, com seus narizes roçando um no outro. Kate mantinha as mãos nos pulsos dele e sorria, mordendo o lábio inferior. Garrett também sorria, sentindo o cheiro dela. Do pescoço de Kate, vinha um perfume delicado, misto de couro da jaqueta que ela usava e um toque floral sutil, quente e convidativo. Já seus cabelos loiros exalavam uma fragrância fresca, ligeiramente doce, com notas de ervas, criando uma combinação irresistível que o fazia querer permanecer ali, próximo dela, sem pensar em mais nada além daquele instante.


-Quer conhecer o nosso quarto? — ela sussurra, enfatizando o "nosso", e roça seu nariz no dele de forma carinhosa. Kate mantinha o sorriso no rosto e os olhos fechados.


Garrett abriu um sorriso largo com as palavras dela. O coração — ou o que mais se aproximava disso em um imortal — pareceu vibrar dentro de seu peito, como não fazia a 200 anos. Quando a viu pela primeira vez assim que chegou na casa dos Cullen, Garrett sequer imaginou que Kate, tão linda e perfeita como era, pudesse realmente se interessar por ele, um nômade sem posses e sem dinheiro. Ele era um revolucionário errante que não tinha nada a oferecer-lhe além de amor, fidelidade e companheirismo, enquanto tantos outros vampiros e até mesmo humanos a desejavam, mas ainda sim Kate o escolheu.


- Sim... — respondeu ele em um sussurro rouco. Kate estica o pescoço e roça seus lábios nos lábios de Garrett antes de depositar um selinho ali para depois pegar suas coisas rapidamente e Kate puxá-lo pela mão para ir com ela. Garrett a seguiu de bom grado, entrelaçando os dedos nos dela, deixando-se ser guiado pela mulher maravilhosa que ele jamais imaginou conquistar, mas que agora o conduzia para o canto que seria só deles dois naquela casa imensa. Tanya, Carmen e Eleazar entravam na casa com suas coisas no exato momento que eles subiam as escadas e sorriem, mas Kate e Garrett não dão bola, apenas ouvem a porta se abrir e os passos que se seguem.


Kate o puxava pela mão enquanto subiam a escada de madeira polida que rangia levemente sob o peso deles. Garrett, curioso como sempre foi, permitia que seus olhos passeassem pelo ambiente. Na parede a qual suportava a escada, fotos emolduradas contavam um pouco da história dos Denali. Haviam fotos de viagens, onde eles pareciam uma feliz e simples família humana.


-Beattles? — Garrett para no meio da escada e murmura ao notar uma foto tirada por Eleazar em uma viagem para a Inglaterra que os Denali fizeram três anos antes, em 2003. Nela, Tanya, Kate, Irina e Carmen, exatamente nessa sequência, reproduziam a icônica dos Beattles atravessando a faixa de pedestre em Liverpool, cidade da banda. Ainda segurando na mão dele, Kate também para um degrau acima dele e olha para ele ao notar que ele parou. Ela ri ao escutá-lo. Ela sabia de qual foto Garrett falava e sabia também que ele odiava os britânicos, o que tornava tudo mais engraçado — sério, Katie?

-Eu não sou fã de Beattles se quer saber, ok? Prefiro ABBA

-Essa é a minha garota — ele brinca e Kate solta uma gargalhada gostosa antes de eles voltarem a subir. Garrett continua olhando para todas as fotos. Haviam algumas deles junto com os Cullen, o que mostrava a proximidade dos dois clãs, que se viam como família. Mas o que chamou mesmo a atenção de Garrett foram os diplomas. Ele franziu o cenho, surpreso com a coleção de diplomas emitidos por diferentes universidades do país: artes, literatura, economia, história... Mas um em particular o fez parar um segundo. Ele parou novamente e ergueu uma sobrancelha, lendo o nome com interesse.


Temple University — 1997 — Curadoria de Joias — Katrina Denali


O olhar de Garrett buscou ela novamente, fixando-se nas costas de Kate, que continua subindo as escadas, enquanto um sorriso irônico e curioso surgia em seus lábios. A ideia de Kate, que parecia selvagem e impetuosa em tudo, ter um diploma em curadoria de joias o surpreendia de um jeito doce. Era como se estivesse conhecendo mais uma camada dela, uma que o deixava ainda mais intrigado. Kate, percebendo que ele tinha diminuído o passo de novo, parou no topo da escada e virou-se para olhar para ele. Seus cabelos loiros balançam com o movimento, e ela arqueou uma sobrancelha divertida.


-O que foi? — ela perguntou com um sorriso despontando em seus lábios ao ver a expressão dele.

-Curadoria de joias? — ele responde surpreso, com um sorriso nos lábios. Os olhos de Kate procuram pelo seu diploma e sorri para ele antes de olhar novamente para Garrett.

-Você ainda tem muito o que descobrir sobre mim, Garrett — ela responde divertida e ele termina de subir as escadas para alcançá-la.


O corredor do segundo andar era uma espécie de mezanino. Seu guarda-corpo de vidro dava à vista total à imensa sala de estar lá embaixo, cujo pé direito era duplo. O chão do corredor era na verdade o teto da cozinha. O mezanino então dobrava em L e era dessa forma que tinham acesso ao corredor dos quartos.



Kate acende toda a fileira de leds embutidos no teto de gesso do corredor dos quartos, iluminando-o, e então empurra sua mala por ele. Garrett a segue sem contestar. Seus olhos rubis exploravam cada centímetro. As paredes brancas abrigavam quadros originais de artistas famosos como "O Tormento de Santo Antônio", pintado em 1487 por Michelangelo; e "A Batalha de Anghiari" pintada por Leonardo Da Vinci no século 16. A última era uma suposição dos historiadores e colecionadores, mas na verdade estava em posse de Tanya, Kate e Irina desde 1517, dois anos antes da morte do artista, quando as três o encomendaram direto com Da Vinci em Amboise, França.

Não demoraria muito para Garrett descobrir que Kate e suas irmãs colecionavam obras de arte, jóias e relíquias adquiridas ao longo de seus mil anos de existência, um acervo rico e avaliado na casa dos 2,5 bilhões de dólares, o que explicaria o interesse de Kate em se formar em curadoria de arte e justificaria tamanho luxo e requinte no qual viviam. Carmen e Eleazar passaram a apreciar arte ao entrar para a família Denali em 1800 e desde então tinham construído o seu próprio acervo, avaliado nos seus 1,9 bilhões de dólares. Sua coleção contava principalmente com obras de artistas da sua Espanha natal, como Velásquez (1599-1660); Salvador Dali (1904-1989); Picasso (1881-1973); El Greco (1541-1614) e de seu contemporâneo Goya (1746-1828).

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Garrett também não tardaria em descobrir que os Denali, igual aos Cullen, eram bilionários, e que embora uma parte de sua fortuna vinhesse das obras de arte, eles acumulavam muitos bilhões de dólares a mais, produto de investimentos inteligentes no ramo imobiliário, com dezenas de propriedades ao redor do mundo, incluíndo uma ilha particular na costa pacífica do México, a 40 kilômetros de Puerto Vallarta, o que lhes permitia tirar férias na praia sem se expôr aos humano. Eles também ganhavam muito dinheiro com royalties pelo petróleo e gás natural que tinham em suas propriedades no Alasca, sem contar que operavam Daytrade e Swingtrade no mercado de ações, o que lhes permitia ganhar muito dinheiro com a valorização de títulos de dívida pública americana e das ações em empresas privadas graças à Alice e suas visões.

Kate parou diante da primeira porta do corredor e respirou fundo, embora aquilo não tivesse efeito algum em uma vampira. O olhar dela ficou fixo no batente por alguns segundos, os lábios cerrados e o peito pesado pela ausência da irmã mais nova. Garrett, parado ao lado dela, não precisou de explicações. O cheiro adocicado e suave de Irina ainda podia ser sentido mesmo após semanas de ausência.


-Esse é o quarto dela... da Irina... — a voz de Kate sai baixa, quase num sussurro, e ela olha para Garrett, que sorri de leve para ela como se quisesse trazer-lhe conforto, mas não sabia como. A morte dela era muito recente ainda — minha irmã...


Garrett não disse nada, apenas se manteve firme ao lado de Kate, num gesto silencioso de respeito. Ela piscou rápido e respirou fundo antes de, em silêncio, continuar caminhando pelo corredor. Garrett a seguiu. A próxima porta era a porta do quarto dela, que agora seria dele também. Kate para diante da porta do seu quarto e estende o braço direito para tocar na maçaneta dourada. Se seguissem pelo corredor, a porta de Tanya era a próxima, e, mais adiante, havia um quarto de hóspedes, raramente usado. No fim do corredor, estava o espaço de Carmen e Eleazar, marcado pela energia calma e acolhedora que sempre emanava deles. Na frente do quarto de Tanya havia outra porta, que era um banheiro o qual eles não usavam para tomar banho mas usavam para guardar coisas.



-Esse é o nosso — antes de abrir a porta, Kate olha para ele. O coração de Garrett — se ainda batesse — teria disparado só em pensar nisso. Garrett arqueou uma sobrancelha, com um meio sorriso brincando no rosto.

-Nosso quarto? — perguntou ele, dando ênfase à palavra, como se ainda não acreditasse que aquilo fosse real. Kate riu baixinho, mordendo o lábio inferior e assente com a cabeça. Ela então olha para a maçaneta e abriu a porta devagar, revelando o interior. Garrett fica parado no batente, olhando o espaço como se tivesse aberto um mundo novo. Seus olhos rubis percorrem cada detalhe do quarto, que era bem maior do que Garrett imaginou que seria. A madeira clara das paredes, a lareira, a imensa janela com vista para as montanhas cobertas de neve, o lago sereno e a imensidão da floresta de pinheiros, trazendo a sensação de que a natureza é uma extensão do quarto.

-Bem vindo ao nosso refúgio — Kate fala baixo no momento que acende as luzes. Garrett olha para cima. Os leds do teto criam um tom aconchegante e misterioso. Garrett entra a passos lentos, absorvendo cada detalhe, e Kate aproveita para fechar a porta ao ouvir os passos de Tanya na escada, denúnciando que ela subia as escadas para ir para seu quarto. Os olhos rubi de Garrett, no entanto, param na cama enorme, perfeitamente arrumada, com a manta de pele animal cinza, e ele para em pé perto dela. Garrett olha para Kate com um meio sorriso divertido e ela sorri para ele antes de começar a mostrar o quarto.


A cama king size, ao centro, tinha uma cabeceira estofada em tom cinza e sobre ela, repousam travesseiros cujas fronhas são impecávelmente brancas, acompanhados de almofadas em tom cinza mais escuro. A colcha clara é coberta parcialmente por uma manta de pele animal cinza, reforçando o toque luxuoso e ao mesmo tempo acolhedor. Ao lado da cama, dois criados-mudos de madeira rústica sustentam luminárias de base robusta, que iluminam suavemente o ambiente, equilibrando-se com a iluminação embutida no teto.

À frente da cama, Kate mostra a lareira embutida moderna e o deixa cheirar as velas aromáticas que gostava de acender para trabalhar ou para fazer suas coisas, acrescentando mais intimismo ao quarto. Logo acima da lareira, havia um televisor de tela plana fixado à parede, o qual Kate o ensina a ligar. Garrett era desacostumado com essas coisas de tecnologia moderna, nem sequer tinha acesso à elas, mas aprende ai mesmo como fazia para ligar e desligar a tv do quarto e como mudavam-se os canais.

Kate mostra, por fim, o seu cantinho de trabalho. Perto da janela, havia um móvel planejado branco, acompanhado de uma cadeira estofada em tom creme. Era ali onde ela confeccionava suas jóias e onde montava os pedidos da sua loja online e, por fim, responde a curiosidade de Garrett: Ela era design de jóias e proprietária de uma loja online, a qual enviava peças feitas sob encomenda para Estados Unidos e Canadá, com planos de expansão para a América Latina e Europa Ocidental. Tudo fez sentido pra ele. Por isso Kate usava tantos anéis, pulseiras, colares e brincos diferentes e bonitos... Era ela que fazia.


Kate então guia Garrett para o closet que a partir de agora era dele também, cuja porta ficava ali ao lado da TV. Ali dentro, havia também um banheiro, que no momento não era tão importante de ser mostrado. Três das paredes eram inteiramente tomadas por armários que iam do chão ao teto, com portas transparentes que exibiam cada peça de roupa como se fosse uma vitrine de luxo. Kate tinha uma infinidade de roupas, sapatos e bolsas.

Em uma das paredes, a única que não tinha armários, destacava-se a penteadeira na mesma cor dos armários, com tampa de vidro que revelava sua coleção impressionante de maquiagens, separadas em divisórias específicas para cada finalidade. Acima da penteadeira, um grande espelho completava o cenário, refletindo não apenas a beleza do espaço, mas também a vaidade meticulosa de Kate, que ali passava seus momentos de preparação.

O teto de gesso com leds embutidos iluminava o ambiente de forma delicada, refletindo nos vidros dos frascos de perfumes. Além disso, Kate tinha inúmeros produtos para cabelo. Garrett ficou genuinamente abismado diante da quantidade quase infinita de cosméticos que Kate tinha, reconhecendo que ela era o reflexo de sua "prima" Rosalie.


-Depois a gente vai organizar esse espaço e acomodar as suas coisas — Kate, que observava o closet com um ar satisfeito e, vira-se para Garrett, Equearqueou uma sobrancelha e soltou uma risada baixa.

-Tudo o que eu tenho cabe em uma mochila. Não preciso de mais nada.

-Você não pode continuar vivendo com suas coisas socadas em uma mochila, Garrett. Vamos comprar roupas, sapatos... você vai ver como vai gostar.

Garrett se aproximou devagar, os olhos fixos nela, e quando seus braços envolveram a cintura de Kate, com suas mãos na lombar dela, sua voz soou grave e suave ao mesmo tempo.



-Tudo o que eu preciso está bem aqui... você. O resto não importa.


Kate passou os braços ao redor do pescoço dele, com um sorriso iluminando seus lábios antes de roçá-los contra os dele.



-Você tem uma cama. Enorme por sinal — ele comenta curioso assim que eles voltam para o quarto e passa a mão sobre a colcha de pele animal, sentindo a textura macia. Seus olhos rubi seguiam o movimento de sua mão — Mas eu não entendi isso... vampiros não dormem — ele então olha para Kate, apertando os olhos, tentando entender a lógica. Kate ri, aproximando-se dele, olhando nos olhos rubis dele. Seus olhos dourados brilham maliciosos.

-É, mas a cama não é só para dormir, Garrett. — Kate deixa a frase suspensa no ar, quase como uma provocação, e se aproxima mais, roçando o corpo no dele. Ela morde seu lábio inferior ao agarrar na jaqueta dele. Seus anéis prateados reluziam a luz do teto. Garrett sorria, olhando nos olhos dourados dela, e passa os braços ao redor dela, pousando suas mãos na lombar dela.

-Eu deveria imaginar — ele brinca e Kate solta uma risada. Garrett sorri e então coloca sua mão direita no queixo dela, segurando-o e olhando fundo dos olhos dourados dela. Sua mão esquerda, no entanto, permanece na lombar dela.

-Em minha defesa, eu também uso a cama pra só deitar e ficar debaixo das cobertas. É gostoso... — Kate responde e Garrett faz uma cara, apertando o olho direito, como quem pergunta se deveria confiar nela. Sua testa franzia por baixo dos cabelos que caíam nela — É sério o que eu digo! — Kate morde seu lábio inferior enquanto sorri e dá um tapinha de leve no peito dele por ele não estar acreditando. Garrett ri — eu gosto de ficar assistindo TV e de ler na cama

-Tá, eu finjo que acredito e você finge que me convenceu — ele brinca e Kate ri e volta a se agarrar no casaco dele.

-Tá... — Kate faz uma pausa para pensar se deveria realmente dizer isso para não passar uma imagem errônea, mas ela já tinha a fama mesmo — eu também aproveito pra brincar — Kate confessa, adicionando um duplo sentido malicioso no "brincar" e, se pudesse ruborizar, certamente estaria vermelha igual um pimentão. Garrett franze o cenho, não captando o que ela queria dizer. Ele olha ao redor do quarto a procura de um brinquedo ou jogo, mas não encontra. Kate ri ao perceber que ele não tinha entendido — com brincar eu quero dizer que eu uso uns brinquedinhos pra ter prazer sozinha e eu faço aqui na cama...


Os olhos rubis de Garrett se arregalam quando ele compreendeu o real sentido das palavras de Kate. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios, denunciando o embaraço misturado à súbita onda de pensamentos que ele não ousaria expressar em voz alta. Ainda assim, dentro dele, uma pontada de peso na consciência o fez vacilar, como se fosse desrespeitoso permitir que sua mente o traísse ao imaginar Kate daquela forma. No entanto, era impossível não fazê-lo, diante da provocação sutil que ela própria havia lançado.


-Eu te falei que não faço sexo a muito tempo, mas não disse que tenho outras formas de me divertir...


Garrett desviou os olhos por um instante, focando na cama ainda com aquele sorriso contido, e depois voltou a encará-la com um brilho divertido no olhar.


-Eu acho que agora você não precisa mais de nada disso... porque eu estou aqui.

Kate soltou uma risada leve, mordendo o lábio inferior enquanto o olhava com ironia e doçura ao mesmo tempo.


-É mesmo? Está se achando tão indispensável assim? — ela pergunta e seus olhos dourados descem até o peito dele, ficando no colar que ele usava. Garrett inclinou a cabeça e roça seu nariz no nariz de Kate, que volta a encará-lo com um sorriso malicioso.


-Não estou me achando. Só estou dizendo a verdade — ele responde com a voz baixa e rouca

Kate riu outra vez, rendendo-se ao charme da provocação, e seus lábios se encontraram num beijo quente e envolvente, cheio de cumplicidade.


-Nunca pensei que encontraria uma família da qual fazer parte, ou que teria uma casa, muito menos um quarto com uma cama... — ele dar ênfase na cama faz Kate rir, mas ela rapidamente se concentra para voltar a prestar atenção em Garrett, que tinha parado de falar e ria, passando a língua em seu lábio inferior — Eu achei que passaria a eternidade sozinho, mas você apareceu e mudou tudo... você virou meu mundo de cabeça pra baixo, mulher.


Kate sorri com ternura em seus olhos dourados. Ela então olha para o lado e calcula a distância até a cama. Ela então coloca as mãos nos ombros de Garrett e o empurra levemente para trás, fazendo ele andar para trás até bater na cama. Ela então o empurra, fazendo ele se deitar de costas na cama. Garrett sorri malicioso para ela.


-Pois a partir de agora você tem todos nós... — Kate sussurra e sobe encima de Garrett, sentando-se sobre ele — e tem a mim... — ela completa e se inclina sobre ele, colocando as mãos no peito dele por cima do tecido da blusa regata cor de chumbo que Garrett vestia para apoiar-se. Seus cabelos loiros e lisos caíam pelas laterais de seu rosto como cortinas de ouro. e suas pontas macias roçam no rosto de Garrett. Ele coloca suas mãos na cintura dela, sem tirar seus olhos do dela — você faz parte dessa família agora...


Garrett, que sorria com as palavras dela, estende seus braços em direção ao rosto de Kate e desliza suas mãos pelos cabelos dourados dela. Kate sorri e fecha os olhos. Garrett então coloca as mãos no rosto dela e acaricia as bochechas dela com a ponta dos dedos delicadamente. Kate abre os olhos novamente.


-Eu te amo — ele sussurra e ela sorri

-Também te amo — ela sussurra de volta, com voz carregada de emoção, e o beija.


Os lábios de Kate se encontraram com os de Garrett e rapidamente o beijo evolui para algo mais intenso e profundo, que preenchia o quarto com o som úmido e suave do roçar de bocas que se buscavam sem pressa.

Embora não emanassem calor algum, a ilusão parecia nascer entre eles pela maneira como as mãos de Kate pressionavam levemente o peito de Garrett ou como ela se movia levemente sobre ele. Lá fora, a neve recomeçava a cair, pintando de branco a paisagem silenciosa, e o contraste entre o frio absoluto do mundo além da janela e a falsa sensação de fogo criada pelo beijo tornava tudo mais intenso, como se naquele instante apenas eles existissem, presos entre o gelo da eternidade e a chama ilusória da paixão.



-Os outros... não vão escutar a gente? — Garrett, com os olhos cerrados, deixou escapar contra a boca dela, a voz grave e abafada pelo roce dos lábios. Kate sorriu contra a boca dele e chupa o lábio inferior dele, arrancando dele um gemido. A barba dele roçava em seu rosto, criando uma sensação única e gostosa.

-Relaxa... — ela responde arrastado, quase num sussurro que se confundia com o estalar dos beijos — Os quartos... são à prova de som... ninguém escuta nada... nem mesmo vampiros — enquanto Kate falava, suas mãos escorregaram para debaixo da blusa dele. Seus dedos finos adornados por anéis frios dedilhavam a pele gelada e pálida do peito de Garrett. Garrett arfou, apenas um som grave de prazer surdo que escapou entre seus lábios ainda colados aos dela, e a certeza de estarem isolados — só eles dois, cercados pelo silêncio absoluto e a neve caindo do lado de fora — fez o beijo crescer mais urgente, mais intenso, como se todo o mundo pudesse desaparecer ali.