Notas iniciais
Mais um capítulo. Dessa vez narrado por outro personagem misterioso.

– Do que você está falando? — senti minha curiosidade tremer em minha voz — de quem... você está falando?

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Ahnm.... Como eu poderia começar? Explicar sobre isso nunca era tão simples e eu nunca o tinha feito antes, mas ele merecia saber, entender. Ele estava envolvido afinal.

Eu podia vê-lo através da parede de vidro. Por algum motivo estranho ele não podia me ver.
Estava tão aflito e confuso, olhava para o local próximo ao que eu estava, aparentemente tentava me escutar melhor ou me enxergar de alguma forma. Sorri com sua ansiedade para o assunto. Fechei minha mão em punho e bati três vezes em frente ao meu rosto para que ele soubesse o local exato em que me encontrava. Entendendo, ele se virou para o som e ficou de frente quase perfeitamente para mim. Dessa forma eu podia observa-lo melhor, parecia cansado e tinha olheiras que mostravam o pouco e desconfortável que dormia, estava pálido pelo tempo sem luz do sol, aparentemente com frio, aquele comodo já era bastante frio por fora e eu sabia como era pior ainda dentro, apenas continha um cobertor fino. Pensar sobre isso fez com que meu maxilar se contraísse, mas precisava manter a calma, ainda não era o momento para isso. Respirei fundo. Ele já estava ficando impaciente pela demora e pretendia abrir a boca para reclamar.

"Calma...", anunciei antes que falasse qualquer coisa, "É um assunto meio complicado, deixe-me pensar numa forma de lhe explicar."

– Complicado? — Sua voz rouca chegou aos meus ouvidos alguns segundos depois, estava mais calma já que eu o tinha respondido.

"Sim. Digamos que é algo além de só explicação e palavras.", ah, como vou explicar? Passei as mãos pelo cabelo em frustração. "Acredita em destino? Ou você é mais do tipo cético para a coincidência?"

– Isso é um tipo de decisão que cabe apenas as pessoas sobre o que vão querer — impaciente, mas resoluto.

"Se é o que você acredita". Não pude deixar de abrir um sorriso, ele ainda estava ligado ao que era. Agora; "O mundo tem sua porcentagem de coincidência, a outra é o destino e, uma pequena, mas existente parte, é feita da determinação das pessoas que desejam mudar as coisas por si, sem dependência de coincidências ou o próprio destino..."

– E você vai incluir o que eu disse? — ergueu as sobrancelhas.

"Quieto, faz parte da história, deixe-me contar!" falei de modo severo para avisa-lo de não me interromper mais uma vez.

"Uma lenda antiga humana conta a história de duas forças que passam suas sombras pela terra desde tempos muito antigos. A historia de dois lordes poderosos.
Náhodný, o grande lorde impiedoso e frio das coincidências, e Cel, o lorde decidido e poderoso do destino..."

Ouvi o momento em que ele soltou um suspiro e se sentou no chão, parecia impaciente, mas também mostrava interesse no que eu contava. Ri levemente de sua reação e por um momento ele pareceu surpreso, além de um pouco embasbacado, fiquei me perguntando o porque, embora tenha deixado para lá e continuado com a historia.

"Esses dois lordes viviam em uma grande paz nos primeiros anos, como irmãos, mas logo visto suas diferenças de realizações eles começaram a se afastar mais e mais, até o dia que nunca mais se viram. Então os dois, no inacreditável mesmo momento, tiveram o seu primeiro seguidor que iria dar inicio ao seguimento de vários. E vários ainda era pouco para a quantidade de pessoas que iriam segui-los."

"Várias e várias pessoas no mundo tem a qualidade de serem boas e respeitosas, mas existem sempre aquelas quais vão procurar uma confusão na menor das coisas. De fato assim existiram os rebeldes seguidores de cada lorde à quem acreditavam, gerando então vários conflitos e mortes de inocentes que nada tinham a ver. Os lordes, muito irritados com a situação, começaram a se culpar mutuamente pelas mortes e confrontos gerados por seus seguidores. Havia se plantado uma guerra entre o próprio destino e a coincidência, Cel e Náhodný lutavam agora batalhas para decidir quem iria governar verdadeiramente e absurdamente o mundo. Decidir quem reinaria em absoluto."

"E...", parei ao ouvir uma ruido para chamar a minha atenção, estava batendo no vidro do mesmo modo que fiz.

– Desculpe...sabe, interromper. — ele falou timidamente impaciente e talvez num tom irritado — Mas o que essa história toda têm haver com o que lhe perguntei?

Sorri de forma aberta, ele estava com sono, quase nunca dormia. Mesmo não estando sempre ali para dar uma olhada, sabia disso. Essa pessoa agora poderia ser ignorante o suficiente e ainda delicado de uma mesma forma, a mortalidade o está cansando provavelmente. Suspirei.

"Talvez eu devesse voltar em outro momento... Está cansado, não está?"

– Hã? Eu estou bem... — mentiu.

Ele se levantou e espreguiçando-se tentou se mostrar acordado e ativo, não sei se sabia que eu podia vê-lo, mas se era isso tentava mostrar uma falsa cena. Caminhei olhando para os lados no grande corredor branco, várias portas se projetaram conforme eu caminhava e o silêncio agonizante parecia se formar mais ainda com cada uma delas, o frio seguia o ritmo. Fiquei de frente ao número 14 de sua porta.

"Aqui", por baixo de sua portinhola de comida lhe passei uma pequena bolinha envolta num embrulho colorido. "Isso vai te ajudar a dormir"

– Não preciso dormir — Resmungou, mas mesmo assim a pegara e logo depois havia cruzado os braço, olhava para a porta curioso — Ei, posso pedir uma coisa?

Olhei-o, parecia se perguntar internamente sobre o favor que queria me pedir, ao que parecia, não tinha muita certeza.

"Sim?", coloquei o máximo de confiança nesse Sim, para encoraja-lo.

– Pode...passar...sua mão? — conforme pronunciava as palavras sua voz diminuía um tom.- você sabe... pelo...

Aparentemente ele não conseguia terminar o que começara a dizer, parecia envergonhado pela escolha de palavras ou falta de ordens delas.

Ri mais uma vez, entendi o que ele queria, não tinha certeza se Allen gostaria muito disso e fiquei meio relutante ao me lembrar deste. Não me importei, Allen que se dane!

Me abaixei de joelhos e coloquei uma das mãos dentro da área de depositar a comida. Eu o olhei através da porta mais clara de vidro e o vi relutando ao estender sua mão para a minha, provavelmente não tinha certeza do que fazer, mas sabia o que queria. Sua mão estava bem próxima e seus olhos ferviam de curiosidade ao ver meus dedos perto. Talvez temesse me tocar e perceber que eu era algo como um fantasma ou um tipo de loucura da sua cabeça.

Resolvi começar primeiro, agarrando sua mão não muito longe, e puxando-o um pouco mais para perto. O espaço da portinhola não permitia muito, mas o suficiente para que eu lhe tocasse seu braço até a curva do cotovelo, me permiti, porém, somente a sua mão.

Escutando um suspiro do outro lado fez meu olhar subir de nossas mãos para seu rosto, ele parecia aliviado e continha um quase sorriso no rosto.

– Sua mão é quente — Falou e por um momento eu jurava que me olhava diretamente nos olhos.

BAM!

Escutei o som de algo bater, era minha deixa. Soltei nossas mãos. Eu tinha que ir.

"Eu realmente tenho que ir agora", retirava minha mão quase completamente da entrada quando do outro lado novamente agarrou-a antes que a abertura se fechasse completamente.

– Não vá... — dizia apenas olhando para as nossas mãos juntas, algo em sua voz me fazia lamentar pela sua nobreza trancada aqui, à quatro paredes, com o mundo lá fora que o necessitava.

BAM! BAM!

Mais sons, certamente passos agora, ou eu ia ou morreria ali e se no final milagrosamente conseguisse sobreviver Allen provavelmente me assassinava com seus punhais macabros. De repente essa sensação correu minha espinha.

SAIA JÁ DAÍ! — Gritava comigo. Era Allen, tinha percebido a agitação e por seu tom, com certeza não estava nada contente.– AGORA!

Então me soltei, meio brusco de mais, mas me soltei. E me escondi nas sombras enquanto saia de lá o mais rápido possível. O olhar que ele me lançou antes de eu partir era terrível, me senti horrível por fazer aquilo, mas não tinha escolhas...

Sem ele livre, ninguém tinha.

Notas finais
Será que essa segunda narradora voltará a tempo de lhe contar o final? Para que saiba o verdadeiro valor de suas escolhas... talvez no próximo capítulo ou no seguinte. Basicamente uma intervenção no destino.