Nolite de basterds carborundorum, bitches
1 Nolite de basterds carborundorum, bitch
Notas iniciais
—Eu odeio tudo isso!- a moça loira reclamou da janela de seu quarto como fazia todos os dias, estava no início dos seus dezenove anos e no seu segundo mês de casamento, seu marido era um dos comandantes da República de Gilead, ele tinha vinte e nove anos, na época parecia um bom partido
—Bem que você poderia parar de reclamar- Felipe MacAddams, seu marido, era alto, tinha um e noventa, também, não poderia ser diferente considerando que Kathy tinha um e setenta; os cabelos do homem eram pretos, sua pele branca e um par lindo de olhos castanhos
—Não estou reclamando, estou comunicando- a garota bufou olhando para o homem fardado com o uniforme de comandante e virou para a janela na sequência- Você me irrita, Felipe- falou puxando a barra da camisola
—Olha só quem falando de irritar- se aproximou da esposa num abraço, pousou o rosto sobre o ombro dela enquanto as mãos entrelaçavam a cintura da garota- Você é o significado de irritante- riu beijando a bochecha branca
—E não perdeu a oportunidade de casar comigo, não é?- riu para ele
—Você é uma das únicas esposas que são férteis, é algo para se gabar- para a infelicidade ou não de Kathy, ela foi ‘’abençoada’’ com a fertilidade, quando seus pais souberam ficaram mais felizes do que se pode descrever, era como um bilhete dourado para o casamento, se não fosse pelo gênio da filha. Kathy gostava disso, com isso não precisaria ver outra mulher dando para seu marido, ora, era SEU marido e se outra vadia fosse para a cama com ele, ela iria a enforcar e depois faria sabão! Mas, não se considerava ciumenta.
Enquanto se olhavam de forma travessa, cada um com um sorriso cínico no rosto e olhares brincalhões, ouviram um grito e uma freada na rua, Felipe bufou frustrado quando a esposa virou repentinamente para ver o que era, numa das casa da rua um caminhão estacionava
—Estávamos num momento bom aqui- apertou o braço da mulher achando que ela iria olhar para ele
—Vizinhos novos!- exclamou baixinho- Tomara que não seja como aquela velha da Marga- murmurou tentando enxergar quem descia do carro preto
—Tem alguma vizinha que você não seja brigada?- Kathy era de poucos amigos por sua sinceridade ser maior que sua noção, ela não fingia que gostava de alguém quando não gostava, não concordava porque queriam que concordasse e se não fosse ‘’abençoada’’, com certeza já teria sido espancada. Ela mostrou a língua para o marido que a beijou e quanto mais socos ela acertava no peito dele mais ele aplicava força no ato- Esposas não devem bater no marido- segurou o punho dela levantando e puxando ela- Coloque uma roupa e vamos descer para o café- ela resmungou algo que Felipe não ouviu e foi para o closet, roupas azuis e mais roupas azuis, quem decidiu que deveria ser azul? Gostava de azul mas queria vestir outras cores, talvez um vestido justo e curto em vermelho, imaginava que ficaria linda de vermelho, contrastaria com sua pele
—Sabe quem decidiu que deveria ser azul?- saiu usando um dos seus vestidos de ‘’esposa’’
—Não faço ideia- Felipe sorriu, Gilead havia sido fundada há anos e agora finalmente estava prosperando
—Você é um péssimo comandante- riu dele caminhando para fora, a casa era como dos outros comandantes, piso de tábuas envernizadas escuras, dois andares, grande. Desceram a escada numa pequena competição entre eles, Felipe ganhou por alguns passos; o café já estava na mesa, Mônica e Raquel já haviam distribuído a refeição sobre a mesa de oito lugares- Por que temos tantos lugares na mesa?- Kathy achava um exagero ter oito lugares na mesa
—Para visitas, meu bem- Felipe respondeu mexendo seu café tranquilamente
—Que visitas?- a garota o olhou
—Não me faça responder- o marido riu, eles recebiam visitas, nesses dois meses foram um total de três, duas delas Katherynne corre após reclamarem de algo de sua casa; não é que ela não gostasse de pessoas, é que todos eram tão caretas e sério o tempo todo que a irritava- Sabe o que é um ótimo passatempo?
—Ponto cruz?- um dos passatempos dela era bordar, gostava de bordar, como gostava de tricotar e crochetar
—Um filho- ela sabia que era sua ‘’obrigação’’ engravidar, só não queria, não agora
—Deus irá abençoar- falou rápido voltando a atenção ao sanduíche
*
Numa casa perto dali um jovem casal chegava em sua casa nova, o rapaz alto com uniforme de comandante guiava sua esposa para dentro, eram Paul e Mikaele Lambert, ele tinha trinta e dois e ela vinte e quatro, Paul havia sido ‘’promovido’’ há pouco tempo e por isso estavam mudando de casa, sentiu-se orgulhoso ao se anunciar comandante para os anjos da barreira, Mikaele por sua vez sentiu-se entediada, claro estava feliz pelo marido mas pensava que teria que refazer amizades, precisaria encontrar outra pessoa para conversar, coisa que já tinha no outro bairro, aqui precisaria recomeçar do zero.
—O que achou da casa?- Paul a olhou esperançoso, queria que a esposa fosse feliz onde estivessem, nem que isso significasse renunciar ao posto
—Gostei- respondeu sem animo olhando para o papel de parede listrado de bege e verde- Podemos pintar?
—Como quiser, querida- depositou um beijo em sua testa- Eu preciso trabalhar, irá ficar bem?- levantou o rosto da esposa para a olhar
—Claro, vou sim- suspirou- Vou começar cuidar do jardim hoje, enquanto a martha organizava tudo
—Pense positivo, logo teremos nossa aia e ela fará companhia para você- sorriu numa tentativa de animar, Mikaele não poderia gerar, não que isso a incomodasse, mas não se sentia confortável com a ideia de ver uma mulher com seu marido, certo, isso era o correto e o melhor para Gilead-Amo você- o homem respondeu já da porta
—Também amo você- falou baixinho olhando ao redor, mudanças não eram muito seu forte, gostava da outra casa, claro, essa era maior, mais bonita, mais ‘’nobre’’, pelo menos estava com seu amor e ele faria companhia para ela quando chegasse do serviço.
Naquele dia, ambas as esposas ficaram em suas casas, uma bordava enquanto outra cuidava das flores, não se preocupavam com refeições, faxinas e todo esse tipo de coisa, elas apenas precisavam estar em casa, presas em seus passatempos.
—Querida?- Mikaele assustou-se ao ouvir o marido a chamando, ela estava presa em seu bordado livre com desenho de flores; ela o olhou- Vamos jantar num vizinho- sorriu
—Vizinho? Que vizinho? Não estou disposta para sair- levou a mão à cabeça
—O comandante Richard O’Connor- falou para ela sorrindo- Vamos, vai ser legal- Mikaele o olhou e viu a suplica no olhar dele
—Certo, vamos- levantou da poltrona para trocar de roupa. Enquanto vestia pensava na monotonia que estava inserida, imagine ter roupas de outras cores para vestir? Pintar o cabelo? Imaginava o que não faria com liberdade de usar outras cores, seria magnífico mudar algo, usar roupas além de azul com azul. Lembrava da cara que as outras esposas faziam quando ela falava de seu sonho, elas ficavam espantadas com o pensamento da esposa do Anjo Lambert, para ela parecia um sonho tão simples, tão simples quanto ler, adoraria poder ler, seu marido a ensinava quando não estava cansado, mas parecia tão complicado aquele monte de letras que formavam as palavras, se imaginava lendo um livro inteiro, um dia, escondida.
*
—Irritante?- Felipe chamou da porta ao entrar, sua casa estava perfeitamente organizada e perfumada, Kathy tinha mil defeitos mas era um tanto rígida com as marthas
—Diga- Kathy respondeu do sofá onde estava confortavelmente esticada e bordava uma toalha de rosto
—Vamos sair, levanta- Felipe a acertou com a almofada- Vamos na casa do O’Connor
—E aturar aquela chata da Flávia?- Kathy ainda não era brigada com Flávia, mas não ia muito com a cara dela
—Eles terão que te aturar, eu acho uma boa troca, você não?- ele riu indo em direção à escada sendo seguido pela mulher que subia irritada
—Se ela me falar alguma coisa...- disse Kathy mais tarde enquanto prendia o brinco
—Você vai ficar com a língua dentro da boca antes que eu a costure- sussurrou ameaçador no ouvido dela
—Você não teria coragem- cerrou os olhos encarando ele- Ou teria?
—Claro que não, boba, só, por favor, se comporte- beijou a testa dela a abraçando, tinham mil e um defeitos, três mil xingamentos, mas mesmo assim se amavam, claro que se amavam. Terminaram de se arrumar e seguiram para a casa do vizinho, poderiam ir a pé mas ir de carro era mais apropriado.
A casa dos O’Connor era bonita, mas todas eram, assim como todas eram grandes e bem decoradas, Mikaele desceu quase no mesmo instante que Kathy, uma olhou para a outra dos pés a cabeça, Kathy pensou em como a outra era baixinha, ou seria ela que era alta? Mika pensou em como a outra era ‘’crua’’, parecia tão branquinha, tão doente. Os dois comandantes se cumprimentaram, assim como as esposas
—Você é o novato, não é?- Felipe sorriu para o outro
—Comandante Lambert- Paul disse orgulhoso enquanto saiam mais na frente
—Ele não é meio novo para ser comandante?- Mika pensou alto, alto o suficiente para Kathy ouvir, afinal ela estava ao seu lado
—Ele era filho de comandante, por isso- Kathy sussurrou
—Achei que era um título que se faz por merecer- a loira riu baixinho
—É política, sabemos que não funciona bem assim- as duas andavam alguns passos atrás dos maridos- Mas então, senhora Lambert, qual sei nome de verdade?
—Nome de verdade? Lambert é um nome de verdade- Mika passou o cabelo preto para trás
—Você sabe, seu nome antes de casar. O meu é Kathy- estendeu a mão educadamente com um sorriso um tanto cínico no rosto
—Mikaele- a outra respondeu receosa no mesmo momento que entraram na casa, Flávia aguardava ansiosa com Richard, eles se cumprimentaram calmamente; Flávia era uma mulher de meia idade de cabelos loiríssimos e pele murcha, Kathy a chamava de mulher ameixa pelas costas
—Oh nossa, não achava que fosse tão moreninha- falou ao ver a senhora Lambert, Kathy bufou, Flávia era uma velha racista
—Cala a boca que não foi com você- Felipe sussurrou no ouvido da esposa
—Oh nossa, não achava que fosse tão velha- Kathy comemorou em silêncio a resposta de Mika para a velha, ela sorriu sem graça
—Venham, vamos para a sala de jantar- os guiou até uma mesa de seis lugares fartamente servida, havia um assado no centro da mesa e os acompanhamentos servidos ao lado. Cada um tomou seu lugar enquanto as marthas serviam suco nas taças, suco, já que as bebidas eram proibidas- Preciso mostrar algo para vocês- Flávia vibrou em uma das pontas da mesa- Ofrichard!- no mesmo instante uma moça vestida de vermelho com um chapéu branco entrou, era a aia deles, ela parecia assustada, dava para ver uma cicatriz de queimadura em uma das mãos e uma barriga salientava da roupa- Olhem só, logo teremos um bebê
—Louvado seja- Kathy murmurou enquanto mexia no purê de batatas
—E você, Katherynne, você pode gerar, não pode?- Flávia sorriu zombeteira para as outras- Acho difícil
—Espera só até eu virar aia- riu levantando o garfo e tendo uma coxa apertada pela mão do marido- Quer dizer, sim, posso- deu de ombros- Que diferença faz?
—Vocês não precisarão de uma aia, nem fazer todo aquele ritual- Mika comentou olhando fascinada- Claro, tem a parte que vai engordar e tudo mais
—Uma aia é tão prático- Flávia sorriu alisando a barriga da outra, esse jantar seria saboroso, saboroso como comer um prato de alfinetes.
Após toda a celebração na mesa de jantar, o assado estava maravilhoso, como todos os pratos, mas o melhor foi o tiramisú que veio de sobremesa e só depois de tudo acabar eles estavam livres para voltarem para casa.
—Hey, Mika!- a Lambert se sobressaltou com o chamado da MacAddams- Aparece lá em casa amanhã, se quiser, claro, casa 112- convidou seguindo o marido para dentro do carro, a outra apenas sorriu surpresa
—Você convidando alguém para ir lá em casa?- Felipe a abraçou quando ela sentou ao lado
—Quem responde a Flávia daquele jeito merece o mundo!- riu contra o peito do marido
—Aquela esposa do MacAddams é meio pirada, não achou?- Paul perguntou para a esposa no outro carro
—Achei. Gostei dela- sorriu para o marido, algo dizia que seriam uma boa dupla.
*
A manhã seguinte começou como todas, o despertador chamou Felipe cedo, fazendo Kathy resmungar nos braços dele, ela odiava acordar cedo, tinha para si que quem dizia gostar estava louco.
Na casa 117, o mesmo ritual aconteceu, Paul resmungou algo contra o cabelo da esposa, agora ele podia dormir alguns minutos a mais, alguns, não muitos
—Acorde Paul, precisa ir trabalhar- Mika o chutou para o chamar
—Só se você levantar- ele a apertou mais contra o peito
—Eu não preciso trabalhar- ela riu encolhendo os ombros
—Certeza que vai ir na MacAddams?- ela abriu os olhos pensando sobre isso
—Vou, não tenho nada melhor para fazer e ela não me parece muito chata- Mika levantou o tronco pensativa- Vai ser tranquilo, não acha?- o marido deu de ombros. O café seguiu normalmente, Mika colocou sua roupa e pediu para a martha fazer um bolo para levar a tarde e, pacientemente, esperou chegar o horário para sair e foi, caminhando mesmo, ignorando o motorista e o carro, seria só atravessar a rua e nada mais. O anjo da casa abriu o portão para dar passagem, a mulher adentrou o jardim da frente e percebeu a quantidade de crisantemos que cresciam ali, de todas as cores e em diferentes tamanhos, andou pelo caminho de pedra até a porta azul marinho, tocou a campainha e quase no mesmo instante uma martha abriu
—Boa tarde, senhora. Entre, chamarei minha senhora- ela deu passagem, Mika olhou cada detalhe da casa e percebeu que, provavelmente, Kathy adorava branco, havia muito branco na casa e alguns detalhes em azul naval
—Perdoe o azul, não consegui convencer meu marido que rosa seria muito melhor- a dona da casa riu vindo de outra sala- Lili, leve o bolo para a cozinha e prepare algo para nós. Vem- Mika estava certa, elas se dariam bem, com poucos minutos de conversa perceberam que tinham muitas coisas em comum, principalmente o fato que elas queriam mais liberdade
—Se eu confessar algo, você promete não achar estranho?- Mika sussurrou, a outra assentiu- Meu marido me ensina a ler- falou após olhar para os lados e falou tão baixinho que apenas Kathy ouviu, mas era para apenas ela ouvir
—Felipe também, mas só Deus sabe o quanto enchi o saco dele para isso- Kathy riu pegando o copo de suco- E aí, pronta para a chegada da sua aia?
—Estou, gosto de crianças- Mika olhou ao redor
—Fico apavorada com o fato de que engravidarei e, pela pressão, espero que seja logo- a loira bufou afundando no sofá
—Por que não se tornou uma aia?- Kathy refletiu sobre essa pergunta, talvez não fosse nada mal ser uma aia, iria ter vários homens diferentes, mas, pensando bem, não valeria a pena, alguns comandantes seriam horríveis
—Eu era filha de um Olho, a fertilidade foi descoberta nos exames pré nupciais, acredite, foi um alvoroço- ela riu levantando as mãos, ainda lembrava da comemoração da mãe quando chegou a notícia- Você não detesta essas roupas? Eu detesto essas roupas- falou voltando a atenção ao vestido azul
—Eu gostaria de mais cores- Mika lamentou
—Nem me diga! Adoraria um vestido vermelho curto- sussurrou, os olhos sempre estão a postos para ouvir tudo e nunca se sabe onde tem um.
*
Foi uma tarde divertida, elas riram de coisas bobas e se entendiam perfeitamente, parecia que se conheciam há anos; no dia seguinte, Kathy a visitou e assim foi por toda semana, elas falavam por horas sobre tudo e, claro, fofocavam sobre suas vizinhas, as duas perceberam não gostar das mesmas pessoas e das mesmas coisas, ambas respondiam ao marido e nenhuma ficava quieta para os outros, Kathy era bem mais barraqueira que Mika.
No mês seguinte a casa dos Lambert já possuía uma aia, a Ofpaul era um tanto teimosa, Mika comentou sobre as dificuldades da primeira noite com ela
—Sabe, eu não conseguiria ter uma aia- Katherynne mexeu nos biscoitos calmamente- Morreria de ciúmes
—Eu também tenho ciúmes mas não posso fazer nada- Mika olhou para a amiga e percebeu um hematona imenso na coxa esquerda- E como isso?- apontou para a perna da garota que no mesmo momento puxou a saia para cobrir
—Bati no meu marido- sorriu orgulhosa- O problema foi que ele revidou- coçou a nuca- Já é tarde, melhor eu ir
—Você vai ficar bem lá?- Mika parecia preocupada com a outra
—Claro que vou, não se preocupe, só não deixe os bastardos acabarem com você- a loira piscou levantando- Até amanhã
—Até- a dona da casa se despediu com pesar, algo dentro dela gritava que aconteceria algo com sua amiga. Seu marido chegou minutos depois, parecia incomodado, nervoso
—MacAddams vai se mudar- comunicou depois de beijar a testa da esposa
—Kathy disse que Felipe bateu nela- Mika o seguiu para a escadaria
—Do jeito que ela é, demorou para apanhar- Paul nunca apoiaria algo assim
—Paul, desde quando você apoia isso?- a esposa juntou as sobrancelhas irritada- Ela é minha amiga
—Não, ela é problema, é isso que Katherynne MacAddams é- ele com certeza estava irritado
—O que aconteceu? Poderia me explicar? Você gostava que eu estivesse me enturmando com ela
—Eu sei- ele virou rápido e segurou o braço da esposa com mais força do que queria
—Vai me bater também?- saiu quase como um grito
—Não- soltou ela e entrou no quarto- Escute, Felipe me contou que Katherynne bateu nele após ele a pressionar para engravidar- fechou a porta para garantir que ninguém ouviria- Ela é rebelde e mal educada, não quero você andando com ela
—Você não pode decidir com quem eu ando ou deixo de andar!- Mikaele bateu os pés no assoalho
—Não fui quem decidiu, foi o conselho, aumentaram as estrelas do Felipe para ele poder mudar de casa- Paul entrou no banheiro enquanto Mika processava tudo aquilo
—Como assim aumentaram as estrelas dele?- cruzou os braços
—O pai dele é um filho de Jacó, jamais seria expulso ou coisa assim, ele virou um comandante de três estrelas e eu de duas. Isso não é bom?- olhou esperançoso para a esposa
—Claro, mas, ela era minha amiga- bufou sentando na poltrona
—Amiga que te causaria problemas. Não quero que saia de casa até aquela garota ir embora- o tom foi de ordem
—Kathy disse uma coisa hoje, algo sobre não deixar que os bastardos façam algo- Mika lembraria da frase se não estivesse nervosa e perdida
—É uma piada entre os comandantes, esqueça isso, esqueça ela, não te acrescentaria em nada- Paul estava errado, Kathy acrescentava conversa em suas tardes, algumas risadas e piadas infames.
Na casa 112 a loira via suas marthas encaixotando as coisas, os quadros, os vasos, enrolando os tapetes, odiaria sair dali, se sentia culpada pela mudança e pensava em como seria solitário mudar de bairro, a casa seria maior, mas a que custo? Perder sua melhor companhia, bem, logo comandante Lambert ganharia sua terceira estrela e talvez voltassem a ser vizinhas
—Nossa casa será a 23- Felipe falou calmamente atrás da esposa, sentia-se culpado por ter acertado ela tão forte, ela apenas o socou e, bem, Katherynne não era exatamente forte para conseguir o machucar
—Não queria me mudar- virou para o abraçar, de toda forma, Felipe era seu único porto seguro, ainda mais agora que não teria Mika para conversar
—Será melhor lá, Paul não quer que você influencie Mika, e sabemos que você não é a melhor influência- ela riu contra o peito dele, ele estava certo, ela não era boa nem para si mesmo, quem dirá para os outros, de toda forma adorava poder conversar com Mika, dificilmente considerava alguém sua amiga, Mika era a primeira em muito tempo- Não saia de casa até nos mudarmos- levantou o rosto dela com o nó dos dedos
—Como quiser, querido- Normalmente bateria o pé e não obedeceria, mas se sentia tão mal que não queria discutir.
*
A mudança aconteceu dois dias depois, um caminhão preto com o símbolo dos Olhos estacionou na frente da casa e em questão de horas tudo estava na casa 23 do outro bairro; foram dois dias muito solitários para ambas, queriam conversar uma com a outra, fofocar e colocar o papo em dia, Mika contaria sobre o atraso de sua aia, o que significava que logo a casa teria um bebê, assim como Kathy contaria que suas regras estavam atrasadas há duas semanas.
Kathy perambulava pelo andar de cima da casa nova, via o quarto onde um berço estava montado perto da janela, não sabia que Felipe seria tão rápido em comprar esse item, havia comentado sobre o atraso, não achou que seria assim, e se não fosse fértil? Linguaruda do jeito que era acabaria nas colônias, mas, os médicos não se enganariam...enganariam?
Tanto ela, quanto Ofpaul foram ao médico naquela semana e o positivo veio para ambas, duas famílias teriam filhos em breve e infelizmente, Mika e Kathy não poderiam fazer os enxovais juntas, nossa, teriam tanta fofoca para fazerem enquanto bordavam, conversariam tanta bobagem.
Um ano se passou num piscar de olhos, Ofpaul deu à luz uma menina, Mika nomeou de Hemera, uma homenagem à deusa primordial do dia, a menina era identica ao pai, o que era bom, assim não lembraria da aia. Já Kathy teve um menino, quem batizou foi Felipe, deu o nome de Louis.
Naquela tarde Kathy passeava no parque com o pequeno num carrinho, sua barriga já denunciava a nova gravidez; lá no fim do caminho ela viu alguém conhecido, a garota baixinha de cabelos pretos escovados, ela também empurrava um carrinho, sorriram uma para a outra, olharam para o lado, não poderiam parar para conversar, os Olhos contariam para seus maridos; desde que Kathy mudou, andava com um pequeno papel nos bolsos para caso esse momento acontecesse, sua esperança era reencontrar a única pessoa que parecia não se incomodar com seu jeito. Quando se cruzaram, a loira estendeu a mão sobre o carrinho da outra, derrubando o bilhete ali e seguiram seu caminho normalmente, como se não quisessem parar e contar tudo desse último ano para a outra. No pequeno retângulo estava escrito apenas uma frase:
‘’Nolite de basterds carborundorum, bitch’’
Mika sabia o que aquilo significava, não era porque estavam separadas, e até parecendo comportadas, que elas não eram as mesmas, colocariam fogo para serem ouvidas, por que, quem são os bastardos quando você tem uma melhor amiga?
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