Noites de Montmartre
6 Capítulo 6: Thayse
Notas iniciais
A noite estava agradável, nevava um pouco, as risadas no salão eram boas, tinha feito meu show, recebido uma onda de aplausos, a cliente que tinha recebido o lap dance estava atingindo um tom roxo de tanta vergonha, sorri para ela e me dirigi ao bar. Dani me encarava com um sorriso tímido, os olhos brilhando.
— Arrasei? – perguntei para ela, sorrindo.
— Sempre! – rimos juntas. — O que vai querer beber hoje?
— Amstel. Tenho de aproveitar o inverno. – disse para ela.
O Cabaré nunca mais tinha sido o mesmo desde a regra nova ter sido acrescentada. A clientela tinha caído drasticamente, recebíamos filhas de senhores menores, algumas costureiras, uma vez ou outra, algumas das grandes mulheres apareciam disfarçadas. Menos Haline.
Haline havia pagado um preço alto a Giovanna para que pudesse continuar frequentando o Cabaré. Bateu o pé, gritou, chegou a quase agredi-la, foi então que Giovanna abriu uma exceção. Ela não ligava, tinha orgulho de entrar pela porta da frente, era uma das mulheres mais poderosas de Montmartre, ignorava os cochichos sobre suas vontades e desejos.
Realmente, eu era contra qualquer tipo de violência, mas Giovanna merecia uns tapas bem dados naquela cara. Já não bastava a dívida enorme que tínhamos com ela, nos restringia a várias coisas e ainda por cima, extorquia dinheiro de Haline na cara de pau, com o pretexto de “para o bem das famílias renomadas”? NÃO. Eu realmente estava começando a ficar enjoada de toda aquela história.
— O que está pensando? – Dani perguntou. Vi suas sobrancelhas se unirem, o olhar preocupado.
— Estava pensando em toda essa baboseira de regras... Não acho justo. – disse, tomando um gole da Amstel.
— Nada é justo. Giovanna comete suas injustiças e tudo virá em dobro para ela. Ela quer nos ver na sarjeta, mas isso não vai acontecer. Agora bebe sua cerveja e volta pro palco pra fazer o que você sabe fazer de melhor. – disse Dani, piscando para mim.
Continuei bebendo a Amstel fitando a multidão. Nos últimos dias, uma tristeza enorme invadia meu peito, perturbando meus sonhos, destruindo pensamentos. As vezes eu queria estar perto de todos, outras queria me isolar de tudo, não ter contato com ninguém, mas o Cabaré precisava de mim todos os dias. Meu show fazia parte do cronograma fazia mais de 3 anos.
Lembro-me de ser novata, como Liane era hoje em dia. No início eu só seria acompanhante, mas depois de 4 rodadas de algum drink maligno que Dani havia me dado, subi no palco com uma cadeira, absolutamente bêbada, chamei uma cliente e dancei em seu colo. Lembro de suas bochechas ficarem vermelhas, lembro de como ela ficou quente, imagino até hoje o quanto ficou molhada, mas naquele dia eu tinha passado de apenas uma acompanhante para os palcos. Lembro-me da cara de espanto de Izabela ao me ver subir no palco, atrapalhando o show de Rebbie que simplesmente riu, lembro de ela ter dito:
— O palco é seu, meu bem! – e dizendo isso me deu um beijo no canto do lábio e desceu do palco.
Naquela noite eu fiquei exausta. Tive que repetir o mesmo show mais de seis vezes, duas seguidas para Haline. Naquela noite que eu a conheci.
Toda sorrisos, sabia como conquistar as pessoas, tinha uma lábia incrivelmente admirável. Essa mulher realmente sabia flertar com alguém. Ela tinha pago bebidas para todas as presentes a noite toda e ao me ver subir no palco, exigiu que eu dançasse para ela. Eu estava tão bêbada e alegre que nada poderia estragar meu momento.
Depois de conversas e mais drinks, eu já não conseguia parar de rir de tão bêbada que estava, me renderia uma dor de cabeça enorme no dia seguinte, mas eu precisava daquilo. Naquele dia eu estava nervosa, triste, uma profusão de sentimentos ruins e por isso eu estava bebendo mais do que deveria, para tentar abafar aqueles sentimentos que estavam me matando por dentro.
E aquela mulher que estava toda sorrisos para mim estava começando a me conquistar com toda aquela conversa.
Ela me fez muito bem no tempo em que ficamos juntas.
Mas me destruiu aos poucos.
Foi entrando cada vez mais fundo no abismo que eu era, tentando preencher todos os buracos que havia em mim e eu caía cada vez mais fundo em toda aquela conversa. Recebia olhares desaprovadores de algumas dançarinas, por duas vezes senti indiretas vindas de Rebbie e Auri, mas eu estava tão cega que não conseguia ver.
Ela vinha me ver todos os dias, me dava presentes caros, fazia juras, me ensinava a tocar piano... Até que as conversas já não me traziam alívio e sim uma angústia. Me fez pensar que nunca seria boa o suficiente para outra pessoa, ela havia penetrado tão fundo em mim que sabia exatamente o que me machucava ou não. Vi todos os sonhos que tinha serem jogados na minha cara, ser chamada de infantil, insuficiente pela pessoa que eu achei um dia que me faria feliz.
Aquilo me destruiu, me deixou em uma ruína tão grande. Passei 3 dias sem comer ou beber algo, trancafiada em meu quarto, recusando a visita de qualquer uma das dançarinas. As vezes Dani, Rebbie ou Auri vinham bater em minha porta pedindo para entrar, mas eu gritava em resposta.
Até que me conformei com aquilo e resolvi superar. Foi então que soube a verdade.
Algumas dançarinas sabiam como Vanessa era. Ela poderia ser uma pessoa extremamente inteligente, que sabia lidar muito bem com as pessoas, sabia o que falar para conquistá-las. Ouvi tudo o que elas me falaram, recebi o apoio das que sabiam.
— Por que não me contaram? – perguntei abismada.
— E você nos ouviria? – disse Rebbie. — Afastou-se de nós e nem percebeu, todas as vezes que tentamos te dizer algo, poderia entender errado. Resolvemos nos calar.
Rebbie certificou-se que Vanessa nunca mais volta-se a pisar os pés no Cabaré. Envolvia violência, mesmo sendo contra qualquer tipo de violência, ela não merecia isso. O que é dela está guardado e um dia a justiça será feita.
— Thay? – ouvi Dani me chamar.
— Hum? – resmunguei de volta.
— Faz uns 15 minutos que terminou sua cerveja e continua olhando para o nada. Em que mundo você está mesmo? – ela perguntou rindo.
— Desculpa... me desliguei. – respondi ficando tímida.
— Thay, volta pro palco. Haline quer que você dance para ela. – ouvi Nay me chamando.
— Já vou... – respondi ainda tentando sair daquele pensamento aleatório.
Haline estava um pouco alta, exibia um sorriso enorme quando me viu, aquela risada me contagiou, afastando todos os pensamentos aleatórios que estavam me deixando desligada.
— Está usando o vestido que te dei. – Haline disse, sorrindo.
— E mais uma vez digo, muito obrigada. – respondi, sentando em seu colo. Era um vestido um tanto quanto curto perto dos que eu estava costumada a usar. Deixava minhas coxas muito a mostra, os seios só faltavam pular do corselet e sentia um aperto nas costelas por causa dos nós, mas era um vestido negro, detalhes dourados, eu havia gostado do presente.
Comecei a dançar para Haline, as vezes rebolava em seu colo, levantava, virava de costas e voltava a sentar rebolando, acompanhando o ritmo da música. Vi a expressão divertida de Haline virar uma expressão de desejo em minutos. Gostava de brincar com aquilo, ver o quanto a pessoa aguentava ou até onde eu aguentava.
— Gosto do que vejo... – disse Haline, segurando meus seios com as duas mãos e acariciando.
“Puta merda!”
— Não! – eu disse, tirando as mãos dela de meus seios.
— Como? – ela perguntou olhando para mim. Seus olhos estavam cheios de malícia.
— Não pode me tocar. Eu posso tocar em você, mas você não pode me tocar. Se tocar em mim, eu faço o que eu quiser com você. – disse, dando-lhe um sorriso malicioso.
Pensei que ela hesitaria quanto a minha proposta, mas logo riu, pôs as mãos para trás da cadeira e sorriu para mim.
— Como quiser. – disse tentando me beijar.
— Ei... isso pode ser contado como toque. – disse, sorrindo para ela.
— Então eu perdi? – disse ela, começando a dirigir as mãos ao meu corpo.
— Eu disse que não terminei com você... – e voltei a dançar para ela.
***
Já estava perto da hora do fechamento quando terminei com Haline. Me despedi dela na porta do Cabaré, ela iria pegar carona com Will.
— Gostei do que fez hoje. – disse ela sorrindo para mim.
— Muito bem, porque eu não vou fazer de novo. – disse, sorrindo, tentando disfarçar a timidez repentina.
— Isso é o que veremos. – disse ela me dando um beijo e dirigindo-se a carruagem.
Voltei para dentro do Cabaré e fui recebida com sorrisos maliciosos e risadas. Dani estava servindo bebidas para algumas dançarinas, tinha medo do que ela estava oferecendo para Nay e Rebbie, mas não me intrometi na bebida alheia.
— E ai? – disse Michiute toda sorrisos, estava com uma taça de vinho na mão e algo me dizia que aquela não devia ser a primeira.
— E ai o que gente? – perguntei, sentindo o sangue fervendo nas bochechas.
— Tem que pegar mais sol se quiser esconder essas bochechas vermelhas. – disse Nay, tomando um gole da bebida misteriosa de Dani.
— Tenta fazer menos barulho, Thay, Fabi e eu escutamos tudo da cozinha. – disse Ariel rindo com Fabi.
— Parem suas palhaças! – disse, sabendo que ficava cada vez mais vermelha.
— Me ensina aquilo que você fez com a Haline, Thay? – disse Dani e eu sabia que aquele duplo sentido iria confundir muitas mentes naquele recinto. Como eu adorava aquilo na Dani.
— Claro, quando quiser, gata! – disse, sorrindo e dando uma piscada para ela.
As risadas e brincadeiras continuaram, Luana estava mais uma vez tentando ganhar de Mandhy na queda de braço, mas era burrice. Nay e Rebbie já estavam mais bêbadas do que tudo e por três vezes Auri teve que conter as duas para que continuassem vestidas, só observava Dani rindo do trabalho maligno.
— Thay, Amstel? – perguntou ela.
— Claro. – fui buscar minha bebida.
— MAS SÓ PODE ESTAR DE BRINCADEIRA! — ouvi Rebbie gritar em fúria.
Me virei desesperada para ver o que tinha feito Rebbie gritar daquele jeito, vi todas olhando para a porta e olhei também. Lá estava ela. Vanessa.
— DANI, ME DÁ A FACA! – gritou Rebbie mais uma vez indo em direção ao bar para pegar a faca.
— SEGURA ELA! – gritou Tefi indo em direção de Rebbie, antes que ela alcançasse algo para lançar em Vanessa.
Observei a cena chocada sem acreditar no que estava vendo. Nay dançava fora do ritmo em cima da mesa, sem ligar para o caos que acontecia em volta. Tefi, Mandhy e Tassi tentavam segurar Rebbie, enquanto Dani tentava tirar a garrafa que ela segurava. Fabi tinha os olhos vidrados na cena, assim como Ariel. Eu não tinha reação nenhuma.
— FORA DAQUI, ENVIADA DO INFERNO! EU DISSE QUE TE MATARIA SE VOLTASSE A PISAR AQUI! – Rebbie gritava a plenos pulmões. Dani havia conseguido tirar a garrafa da mão dela.
— Isso não tem a ver com você. – Vanessa disse.
— SAI DAQUI AGORA! – gritava Rebbie em resposta.
— QUE DIABOS ESTÁ HAVENDO AQUI? – agora quem gritava era Izabela que havia chegado, a carranca indicava que ela estava nervosa até consigo mesma por ter que gritar para ser notada. — REBECA, FICA QUIETA!
Imediatamente, Rebbie se acalmou, tentando sair da chave de braço que Tassi tinha lhe dado, afirmava que estava bem, enquanto eu continuava sem reação.
— Muito bem... Todas calmas. Vanessa, o que quer? – perguntou Izabela, tentando parecer calma.
— Quero falar com a Thay... – ela começou.
— AH, MAS NÃO VAI MESMO! – Rebbie estava possuída pela raiva de novo.
— LEVEM ELA DAQUI AGORA! – ordenou Izabela. Após tirarem Rebbie do salão com muito esforço, Tassi teve que apagar ela com um soco. Não achei justo para com Rebbie, mas se não fosse assim, não teria outro jeito de fazê-la parar.
— Thay... – Vanessa iniciou de novo.
— Bem... deixaremos vocês duas a sós. – disse Izabela, lançando um olhar para as outras para que saíssem do salão.
Saí do meu transe repentino, encarava aquele rosto que eu conhecia, mas preferia esquecer. Ela me olhava de um jeito que cortaria corações, um olhar de arrependimento.
— Thay... Me perdoe. – ela disse, deixando uma lágrima perfeita cair daqueles olhos. — Eu sei que o que eu fiz não foi certo, me perdoa?
Eu poderia recusar, chamar Tassi e Mandhy para darem uma surra merecida naquela mulher, mas não.
— Eu te perdoo. – disse.
Vi aqueles olhos brilharem. Ela começou a tagarelar várias outras coisas que eu evitei prestar atenção, até que uma frase me chamou a atenção.
— Eu queria mais uma... – ela falava.
— Chance? Escuta. Um dia você estará sozinha, vai fechar os olhos e ver a besteira que fez. Você lembrará de tantas coisas bonitas que eu te disse e isso fará você perder o chão, então se lembrará do meu jeito diferente de ser, do meu sorriso e virão memórias boas das minhas risadas e brincadeiras. Você vai sentir um aperto no peito, uma pausa na respiração. Vai torcer para eu estar te esperando. O nome disso é saudade e era isso que eu sentia quando você me deixou. – vi a esperança que estava em seus olhos esvair-se pouco a pouco. — Você vai se sentir arrependida, então quando os dias passarem e nada de bom te acontecer, você irá perceber que tudo isso que vive não é um amor verdadeiro igual ao que eu quis dar a você. Vai voltar aqui de novo e tentar pedir mais uma chance e eu te direi: Tarde demais, você teve sua chance. – e sai, me dirigindo as escadas que levavam aos andares superiores.
Não olhei para trás, não senti lágrimas nos olhos, nem o mínimo arrependimento de ter dito tudo aquilo a ela. Nunca tinha me sentido tão leve como naquele instante.
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