Noites de Montmartre

7 Capítulo 7: Stèphanie


Era manhã de sexta-feira, estava com uma ressaca arrebatadora, sentia uma dormência nas pernas, os olhos estavam sensíveis a luz, não lembrava muito da noite passada, o quarto cheirava a fumaça, bebida e sexo. Teria um dia complicado pela frente. Dudu iria ficar com o pai o final de semana, algo envolvendo corrida de cavalos e afins, teria de levantar, tomar um bom banho, uma ou duas xícaras de café para curar a ressaca.

— Hm... Bom giorno. – ouvi uma voz ao lado da cama.

Ela estava nua na minha cama, a voz grave de alguém que acaba de acordar, me encarava sorrindo.

“Como ela veio parar aqui?”, pensei.

— Hm... Bom dia? – perguntei sem entender nada.

— Hai dormito bene? – ela perguntou indo em minha direção para me beijar. Era um beijo doce, tinha gosto de vinho e menta, o beijo encaixava de certa forma. Havia calor no seu toque, eu sentia cada parte do meu corpo sofrer um choque elétrico.

— Ahh... eu acho que sim. – respondi, ainda sem entender nada.

— Bene... – e voltou a me beijar, mas dessa vez com mais intensidade. Senti suas mãos apertarem minha cintura, uma mão em meu pescoço e eu travada tentando entender o que tinha acontecido, ela percebeu que eu estava inquieta. — Stai bene? – começou a me encarar, estava preocupada ou tímida, não sabia dizer.

— Desculpa... Dudu... Pai, dele vem buscá-lo para um... Um... Uma coisa que eu não lembro o que era... Bem. Desculpa, mas eu preciso ir. – levantei as pressas da cama, vesti o roupão e saí as pressas do quarto sem me preocupar onde estavam minhas roupas. Desci correndo as escadas, tropecei no último degrau e entrei cambaleando na cozinha. Todas estavam lá, inclusive meu filho, Eduardo. Auri devia tê-lo acordado e arrumado.

— Bom dia pra você também. – disse Auri me encarando.

— Eh... Bom dia. – disse, ainda tentava me lembrar do que tinha acontecido da noite passada. — Dudu já comeu? Tomou banho? Arrumou a bolsa? E o quarto?

— Mal acorda, já vai bombardeando o garoto com perguntas. – disse Auri, levantando uma das sobrancelhas. Encarei ela, mas na verdade queria pedir socorro. Primeira vez que tinha tido um apagão, não lembrava absolutamente nada do que havia feito depois do fechamento.

A casa não estava cheia, o movimento das clientes estava razoável, as meninas realizaram seus shows, lembro de Haline elogiando a comida de Fabi e Ariel servindo as mesas, enquanto Rebbie dançava com Nay, até Dani me chamar para o bar.

— Tefi, prova isso. – disse ela me empurrando um copo comprido com um líquido âmbar dentro.

— O que é isso? – perguntei, desconfiada. Pessoas desavisadas não podiam confiar em tudo o que Dani oferecesse. Às vezes ela inventava de fazer misturas estranhas com resultados catastróficos ou as vezes malignos. Thay havia roubado a cena depois de tomar um líquido preto que ela ofereceu, Ariel tinha beijado 3 clientes após tomar um drink que Dani havia batizado como Beijo do Demônio, resultado de uma mistura louca que deixava o drink rubro, carregava uma ressaca diabólica e o nome fazia jus ao drink. Dani tinha posto no Cabaré a Batida Russa, que consistia em a cliente usar um capacete de guerra, tomar 4 copos de batida, a cada copo, ela tomava duas pancadas na cabeça com objetos de tamanhos que variavam. O efeito era instantâneo, uma tontura imediata.

— Algo novo, acabei de criar... Claro que venho a alguns dias tentando melhorar o gosto. Vai, Tefi! Você ama beber! – dizia ela rindo.

— Sim, amo beber, mas amo beber coisas que conheço! – acrescentei, fitando o líquido âmbar. — O que tem aqui dentro?

— Tequila, rum, vodka, gim e licor. – disse ela, encarando o drink.

— Quer me deixar em coma alcoólico? – perguntei assustada. Era um porre e tanto.

— Calma, eu medi certinho, não vai te deixar nem tonta. – ela disse. — Vai, Tefi, desde quando regula meus drinks?

— Desde que Nay tentou tirar a roupa na rua ontem. – eu disse, rindo da lembrança.

— Tá... Então toma esse. – ela disse, me empurrando um drink rosa claro.

— O que é isso? – perguntei.

— Uma mistura de licor e vodka. Ficou doce, mas não é um porre. – ela disse, dando de ombros.

Maldito seja aquele drink. Me deixou tonta em minutos, a dor de cabeça havia começado na metade do expediente e depois do show de Auri eu já não lembrava de nada. Teria um dia longo pela frente. Teria de levar Eduardo para passar o final de semana com o pai, buscar os vestidos das meninas na costureira, comprar mantimentos para Fabi e pagar mais uma parcela para Giovanna.

Minha cabeça latejava cada vez mais devido ao esforço que estava fazendo para tentar lembrar de como havia parado na cama com a Bruna. Nem o café estava me deixando acordada, sentia os olhos pesados, uma dor no braço direito que eu tão bem conhecia, dores nas costas.

— Você está um caco. – disse Auri, me encarando.

— Sério mesmo? – perguntei sarcasticamente. — Fabi, teria como fazer um chá de gengibre para ver se diminui minha dor de cabeça?

— Estamos com falta de gengibre, Tefi. Lembre-se de comprar para mim quando sair. – respondeu Fabi.

Qualquer pessoa poderia ir as compras no meu lugar, mas não, teria de ser eu por ordem de Giovanna. Eu estava presente no dia do acordo feito, quando finalmente pegamos a chave do prédio onde hoje fica o Mulberry Cabaret. Eu era responsável por cuidar para que nenhuma das meninas frequentassem os lugares proibidos, mas sempre dava um jeito de quebrar as regras, elas trabalhavam mais do que deviam, mereciam um momento de diversão.

Mas a cada dia que passava, novas regras eram impostas, a dívida ficava cada vez maior, ficava cada vez mais perigoso andarmos nas ruas, às vezes recebíamos uma ou duas ameaças, por duas vezes, o padre da basílica tinha vindo nos livrar do mal que nos aguardava, algo parecido com isso.

No início, a ideia do Mulberry era ser uma casa de shows destinada a todos os públicos, mas como abrir mais uma casa de shows quando o Lido era imbatível se tratando de teatro e dança? As meninas foram chegando, cada uma em um estado pior que o outro, a dívida estava começando a correr, a ideia de ser um Cabaré para mulheres foi aceita pela maioria, houve as que não concordaram e logo saíram por opção. O Mulberry Cabaret possuía 5 anos de funcionamento, a dívida corria com juros absurdos, várias vezes corremos o risco de fechar, mas sempre dávamos um jeito de continuar abertas, recebendo meninas de todos os lugares.

Era perto das 10h da manhã quando saí com Eduardo em meu encalço, tagarelando coisas aleatórias.

— Meu pai vai me levar para ver corridas de cavalos! – dizia ele todo entusiasmado.

— Nossa, que legal, filho! – eu tentava manter o sorriso no rosto, mesmo sentindo as bochechas doerem.

As pessoas nos observavam nas ruas, nunca diriam que eu era segurança de um cabaré e que meu filho morava no mesmo lugar. Nunca deixaria Eduardo morar com o pai. Ele trabalhava numa cervejaria, chegava tarde do trabalho e ainda tinha aquela mulher que ele havia arrumado que me parecia mais vesga e capenga do que qualquer outra coisa.

— Será que ele vai me dar um presente, mãe? – ele perguntou, juntando as sobrancelhas.

— Não sei, mas se ele der, quando voltar, você mostra para mim, ok? – perguntei, abaixando e dando um abraço nele.

Fora um diálogo curto, com uma série de avisos e precauções, só veria meu filho na segunda-feira e o aperto no peito havia começado.

Após passar na costureira, estava com os braços cheios de vestidos, alguns curtos demais, outros espalhafatosos demais. Às vezes dava graças a Deus por meu uniforme de trabalho ser um terno. Tive de chamar uma carruagem, que por sorte era Will, havia pedido para ele levar os vestidos ao cabaré por mim. Paguei o preço da entrega e me dirigi ao Lido.

O Lido poderia ter na diretoria Giovanna, uma mulher hipócrita e egoísta, mas o prédio era de um glamour incontestável. O lugar comportava mais de 1.000 pessoas em uma noite, era bem iluminado, o palco era deslumbrante, a maioria das dançarinas se apresentavam com os seios expostos, outras usavam apenas uma pequena faixa para cobrir o sexo. O Lido tinha o orgulho de manter um padrão de meninas com mais de 1,70m, todas magras e belas. Sem contar o show mais lucrativo da casa, as Blubell Girls, garotas tão belas com os olhos cor violeta, corpos esculturais, eu duvidava que poderiam ser reais, possuíam uma engolidora de espadas tão linda que custava a acreditar que conseguia engolir espadas verdadeiras.

O escritório de Giovanna tinha vista panorâmica do palco, a vista era linda, não poderia discordar, mas a pessoa que sentava naquela cadeira era tão desprezível que chegávamos a perguntar como alguém daquele nível chegava a ter um lugar daquele calibre.

— Todas as vezes que vem aqui, faz a mesma cara, Stèphanie. – disse Giovanna, exibia um sorriso de troça.

— O Lido é um lugar muito bonito, pena que tem uma diretoria podre. – retruquei.

— Se eu fosse você, tomava tento com a língua. – ela disse, ainda exibindo o maldito sorriso. Tinha vontade de fazê-la engolir cada dente daquela boca maldita.

— Aqui está. – disse, entregando um envelope dobrado em cima da mesa. Ela me fitou mais uma vez, pegou o envelope e o abriu. Começou a contar, repetiu a contagem duas vezes antes de concluir que o valor estava certo.

— Tudo certo por hoje, Stèphanie. Poderia te oferecer algo? Café, suco, chá, quem sabe uma taça de vinho... – ela disse voltando a me encarar.

— Não, obrigada, tenho assuntos a tratar. Se me der licença. – disse, me dirigindo a saída do escritório dela.

— Ah... Stèphanie, uma coisa, diga para aquela Nayne que se ela for pega de novo frequentando o Le Petit Poucet serei obrigada a tomar providências drásticas. Algumas regras a mais não seriam ruins... – disse ela e o sorriso de troça mais uma vez foi exibido.

— Não sei do que está falando. – disse sem entender. Não lembro de ter deixado Nayne sair nos últimos dias, a não ser que ela tenha saído escondida, teimosa feito uma mula.

— Pode não saber, mas eu sei e a garota sabe. Pergunte a ela. Até o próximo encontro, Stèphanie, tenha um bom dia. – disse Giovanna, sempre exibindo um maldito sorriso.

Era perto da hora do almoço quando voltei ao Mulberry com as compras, ainda sentia a dor de cabeça e Fabi tinha feito o chá que havia pedido. Tomei comendo croissants fresquinhos, tentando lembrar de pelo menos alguma coisa da noite passada. Mesmo depois de falar com Auri sobre o que tinha acontecido, ela simplesmente me disse que Bruna havia me agarrado e eu não fiz nada para impedir.

— Como assim ela me agarra e eu não faço nada? – perguntei sem entender.

— Olha, eu to te falando o que vi. Agora deixe de ser cachorra e vá falar com a garota que passou a manhã toda cabisbaixa sem entender nada do que falávamos. – disse Auri ficando nervosa.

— Me obrigue! Não vou falar com ela até lembrar de algo! – retruquei.

— VAI FALAR SIM! – gritou Auri em resposta.

— ME OBRIGUE QUE EU QUERO VER! – gritei em resposta.

— OLHA O CHABU! – gritou Rebbie do outro lado da mesa, rindo.

Evitar Bruna não era algo fácil. A garota tentava de todas as formas ficar a sós comigo e eu tentava de todas as formas evitar isso. Por algum motivo inexplicável, eu sentia a necessidade incontrolável de descobrir o que havia feito na noite passada.

Enrolei a tarde toda, me ocupando com coisas fúteis, ajudei Dani no bar, Fabi na cozinha, fiquei seguindo Auri, mesmo ela tendo me dado 2 tapas para que eu parasse de segui-la, quando me lembrei do que Giovanna havia falado sobre Nayne. Encontrei Nay no quarto, deitada em sua cama, cantarolando uma música que eu não conhecia.

— Nay, eu não já disse para tomar cuidado quando sair por Montmartre? – disse, tentando manter a calma.

— Eu não sei do que está falando. – respondeu ela, sentando imediatamente na cama, me encarando com aqueles olhos inocentes que não enganavam ninguém.

— Foi ao Le Petit Poucet esse mês? Não ouse mentir para mim. – perguntei.

Ela abriu e fechou a boca uma ou duas vezes, encarou o teto, o chão, as paredes, arrumou a postura, cruzou as pernas antes de me responder.

— Ninguém me reconheceu, nem vocês mesmas me reconheceriam. – ela respondeu, dando de ombros e fitando a janela.

— NAYNE! Eu já não disse para me avisar quando sair desse jeito? PELO AMOR DE DEUS, sabe que poderia ter nos postos em um aperto maior? – falava pra ela, esquecendo que tinha de manter a calma, pois a dor de cabeça poderia voltar e eu tinha que trabalhar naquela noite.

— Meu Deus digo eu! Eu disse: NINGUÉM ME RECONHECEU! Só o Will e sabe que ele é confiável! – ela disse. — Aquela vaca disse que me viu? Mentiu então, não vi ninguém que me conhecia.

— Nay, você às vezes é tão ingênua que dói. Pode não ter visto, mas alguém te viu. Giovanna tem poder e influência, não devia subestimar ela tanto assim. – disse.

— Eu tomo mais cuidado quando sair da próxima vez. – ela respondeu.

— Não vai. – disse.

— Como é? Já não basta eu não poder dar pra Elleanor, vai me impedir de sair daqui? É castigo agora? Virou minha mãe, Tefi? – ela disse, percebi que ficava nervosa a cada segundo que passava e conversar com Nay nervosa não valia a pena. Me retirei do quarto batendo a porta, ouvindo ela gritar de raiva e alguma coisa ser lançada contra a parede.

O movimento naquela noite fora tranquilo e aquilo assustava. Menos clientela, menos lucro, isso significava que a dívida não seria paga tão cedo e passaríamos por necessidades mais cedo ou mais tarde. No fim do expediente, bebi no bar com todas as dançarinas, vi Nay me encarando, sabia que ela estava fula comigo, mas ela não era idiota de me desobedecer. A noite estava fria e eu me perguntava se Eduardo estava com casacos suficientes, se estaria dormindo uma hora dessas ou se estava comendo direito.

Me peguei uma ou duas vezes pensando em Bruna, mas logo afastei o pensamento. Ela estava sentada no extremo do bar, tentando aprender francês com Liane e Carol, eu pegava ela me olhando uma vez ou outra.

Depois de duas taças de vinho, sentia a cabeça rodando, as costas doerem e as pernas também. Concluí que era melhor ir deitar-me antes que caísse da cadeira no bar. Passei na cozinha novamente para tomar mais uma xícara de chá de gengibre antes de deitar, conversei um pouco com Fabi e Ariel que estavam preparando a massa para o pão matinal.

Tomei o chá no quarto, ouvi o vento arranhando a minha janela, aquilo me deixou mais calma, sentia o sono cada vez mais forte, as pálpebras iam ficando cada vez mais pesadas, a respiração leve, estava tão quentinho debaixo das cobertas... Ouvi a porta abrir.

Ela poderia ter me seguido a tarde toda, mas esperou o momento certo para falar comigo. Um fino robe de seda cobria a nudez do corpo, senti uma pressão na virilha, um frio na barriga, ela me encarava e com certeza não queria conversar.

— Vem aqui. – disse. Ela veio, tirando o robe e deitando na cama.

Pelo menos, naquela vez eu iria lembrar de algo.

Notas finais
Por que Mulberry Cabaré? Cabaré da Amora era o nome do grupo no qual esta história foi baseada. Gostou do capítulo? Deixe-me um comentário ou mande-me um tweet: @rebbiepadfoot