Noites de Montmartre

4 Capítulo 4: Jessica


Notas iniciais
Alguns dos fatos a seguir foram baseadas em experiências reais, com uma certa pitada de comédia, é claro. Foram alteradas algumas partes para que você leitor consiga entender melhor o que acontece. Aproveite a leitura. Deixe um comentário se gostou!

O ambiente era agradável, eu ria de qualquer coisa que ele havia dito, estava bonito, alto, de terno, todo sorrisos pra mim, sempre fora assim desde pequenos, éramos melhores amigos, amava-o como irmão e vice-versa. Passeávamos por um bosque, vendo os animais saírem e voltarem para suas tocas ao nos ver, os pássaros cantavam, o som do vento nas árvores, nossas risadas ecoando belo bosque... e do nada, tudo escureceu. O céu que antes estava num azul perfeito, escureceu, tornando-se um chumbo aterrador, as nuvens escuras, os raios caíam a nossa volta, o vento tornara-se agressivo chicoteando meu rosto, o ambiente se tornara hostil de uma hora para outra.

Podia ouvi-lo dizer que ficaria tudo bem, que ele sempre estaria comigo, que iria cuidar de mim. Mas ela apareceu.

Cabelos soltos caindo nos ombros, pele clara, olhos azuis, quase não usava roupas para exibir o belo corpo que tinha.

E ele se foi. Por mais que eu gritasse para ele ficar, ele tinha ido de encontro a ela, me deixando sozinha, ignorando todos os anos de amizade, havia me trocado por aquela mulher. Havia começado a chover, eu sentia as lágrimas correndo pela minha face, mas a chuva disfarçava, gritava para ele voltar, para não ir com ela, mas ao tocar na mão da mulher desconhecida, as sombras caíram sobre mim, me levando a um abismo.

E eu caía, caía, parecia não ter fim. Sentia o coração palpitar cada vez mais rápido, a respiração entrecortada, os meus gritos, e as lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto... e tudo virou breu.

Acordei.

O suor havia molhado meus lençóis, sentia a garganta seca, o quarto estava frio, nunca me sentira tão só. Deviam ser aproximadamente 5 horas da manhã pela coloração do céu. Não teria coragem para voltar a dormir, não depois daquele pesadelo.

Levantei, tomei vários copos d’água e percebi que estava tremendo. Fui a lareira e a acendi, mesmo assim o quarto continuava frio, o vento tinha aberto uma de minhas janelas, fui fechá-la. E lá estava ela. Carregando pesados sacos de farinha, o suor escorria de sua testa, os braços fortes, podia ver força nos tendões da mão. O cabelo curto, olhos castanhos... me lembrava como se fosse ontem a primeira vez que nos vimos.

Era noite de sexta, a casa estava cheia, eu fazia meu show diário quando chamei alguém da plateia para vir dançar comigo e ela veio. Os olhos brilhavam tanto, me deixaram sem graça, ela tremia, mesmo que dentro do Salão fizesse calor, as mãos eram quentes quando encostaram em mim, percebi que estava nervosa. Aquilo me fez rir e ela sorriu em resposta. Não parava de me olhar nos olhos, aquilo me deixava sem graça demais.

— Não sei o que falar... – disse timidamente.

— Seus olhares falam por você. – ela disse em resposta.

Senti minhas bochechas corarem, o sorriso vir aos lábios e ela sorriu também.

Naquela noite, ela me pagou drinks no bar, ficamos conversando até a hora do fechamento, foi quando insisti em acompanhá-la até a esquina. Eu sentia uma alegria crescendo em mim, um comichão no estômago indicava que eu estava ansiosa. Começou a chover, corremos para debaixo da marquise da padaria onde ela trabalhava, começamos a rir juntas e a risada dela me trazia uma paz... Nos beijamos.

Havia sido mágico e esperava vê-la mais vezes, mas esses dias não chegavam nunca. Toda vez que ela aparecia na porta do Cabaré pedindo para falar comigo, era barrada. Doía vê-la e não poder tocá-la, todas as vezes que isso acontecia, corria para meu quarto depois dos shows e chorava, até sentir os olhos arderem por não terem mais lágrimas para derrubar.

A dor era suportável, pois sabia que algum dia iria encontrá-la de novo. Ela viria até mim ou eu iria até ela.

Olhei mais uma vez pela janela para ver se ela estava na calçada, percebi que ela fitava minha janela. A alegria preencheu meu peito e eu sorri. Ela sorriu em resposta.

***

O pesadelo ainda me perturbava quando desci para tomar meu café antes dos ensaios, encontrei a maioria das garotas lá, rindo, brindando, comendo, não pude deixar de me contagiar com aquelas risadas. Ainda lembrava do sorriso de Sofia ao me ver na janela e aquilo me deu forças para esquecer o pesadelo.

— Bom dia, Post! Dormiu bem? – perguntou Rebbie.

— Dormi sim. – menti, dando um sorriso amarelo. Ela e Duda perceberam meu sorriso e a falta de entusiasmo naquela resposta. Não sabia mentir.

— Coma alguma coisa, hoje o dia será longo. – Duda disse, ainda me encarando tentando identificar algum sinal de perturbação.

Comi croissant de chocolate, alguns bagels, suco de laranja e uma xícara de café forte. As brincadeiras entre as meninas me contagiavam, elas tinham a mania de brincar de telefone. Consistia em uma pessoa imitar o som que o aparelho fazia, a primeira a dizer “alô” recebia uma pergunta que devia ser respondida. Ao responder a pergunta, ela fazia o som do aparelho e a brincadeira seguia desse jeito. As perguntas as vezes era simples, outras muito mais complexas, algumas pessoais demais, mas todas deviam responder.

— Trimmmmm! – Tefi fazia o som do telefone.

— Alô! – respondi por impulso.

— Posterli! – Tefi dizia esfregando as mãos.

— Diga, Tefi! – dei um sorriso amarelo.

— Qual foi a pior sensação que teve? – ela perguntou.

Me lembrei do pesadelo e estava nele de novo. Parecia que o chão debaixo dos meus pés havia sumido e eu estava caindo de novo naquele abismo sem fim, as sombras vinham ao meu encontro, sentia frio.

— Post... – ouvia uma voz me chamar ao longe. Minha garganta estava seca de novo, queria gritar, mas a voz não vinha.

— POSTERLI! – gritava Duda.

E eu acordei do transe. Todas me encaravam, algumas assustadas, algumas preocupadas, o silêncio estava dominando o recinto antes de Izabela entrar sorrindo, quase cantando.

— Meninas! – ela quase cantava. — Novatas!

E entraram. A primeira a entrar era morena, cabelos castanhos escuros, olhos da mesma cor, esguia, vi os olhos de Tefi fixarem nela.

— Caralho, que gata! – ela exclamou.

— Sossega essa boceta! – disse Auri.

A segunda era branca, os cabelos era um castanho claro, olhos bondosos, sorriso encantador. Auri logo se calou ao vê-la.

— Agora aquieta a boceta você! – disse Tefi, soltando uma gargalhada.

— Meninas, estas são Bruna Devecchi e Caroline, elas vieram da Itália. Caroline sabe falar um pouco do francês, mas Bruna não entende quase nada. Deêm as boas vindas pra elas e façam com que sintam-se em casa. – Izabella disse e se retirou da cozinha.

— OI! EU SOU A NAYNE! PRAZER! – gritava Nay.

— Elas são italianas, não surdas, sua burra! – disse Tefi.

— Il mio nome è Bruna. – disse a morena.

— Já sabemos disso. – disse Fabi.

— Tira a roupa ai só para vermos uma coisa! – disse Nay.

— NAYNE! – Auri gritou. Caroline riu disso e vi as bochechas de Auri ficarem vermelhas.

— Benvenuto! – disse Dani, cumprimentando as duas em um italiano fluente.

— Nossa, Dani é uma pessoa tão culta. – Rebbie disse, mas soou muito baixo.

— PUTA?! – Nayne me olhou, com os olhos esbugalhados.

— EU DISSE CULTA! — Rebbie gritou em resposta.

As duas novatas tomaram café, enquanto Dani traduzia o que elas não entendiam. Não me sentia muito bem, a pergunta de Tefi fora esquecida, isso me poupava de mais uma vez entrar em meus pesadelos. Queria ter tido a animação para me dedicar aos ensaios como as outras, mas naquela manhã eu estava perturbada. Nem mesmo a lembrança do sorriso de Sofia me acalmava e eu sabia que toda aquela perturbação iria ser refletida em minha apresentação naquela noite.

E foi. Estava nervosa, como se fosse a primeira vez que subia aos palcos, a clientela tinha percebido, vi o olhar preocupado de Izabela em mim. Depois da minha apresentação desastrosa, pedi licença para me retirar durante o resto da noite e fui para o meu quarto.

Não sentia fome, nem vontade de ler como sempre fazia antes de dormir e tinha medo de dormir e ter o mesmo pesadelo. Nada me restava do que permanecer em meu quarto, chorar de novo. A dor no meu peito era tanta, mesmo que tentasse, não conseguia segurar uma lágrima sequer. Se ao menos Sofia estivesse aqui para me confortar, ela conseguiria me fazer sorrir sem o menor esforço. Daria um jeito de vê-la, eu precisava e algo dentro de mim dizia que ela precisava também. Se de algum modo eu pudesse mandar alguma mensagem para ela.

— Psiu!

Me assustei ao ouvir o barulho, mas não sabia de onde tinha vindo.

— Psiu, aqui! – ouvi de novo.

Ao olhar para a janela, a vi. O sorriso que eu tanto sentia falta estava estampado em seu rosto, não pude deixar de sorrir também. A dor havia passado, as lágrimas que corriam pelo meu rosto não eram mais de tristeza. Corri para abrir a janela. Ela entrou tremendo devido ao frio. Tinha flocos de neve no cabelo. Ao me olhar, ela sorriu de novo.

— Senti sua falta. – eu disse automaticamente, sorrindo.

— Eu também senti. – ela disse, me abraçando.

— Como subiu até aqui em cima? – perguntei, abismada. Meu quarto ficava no 3º andar.

— Um surto de adrenalina me deu forças pra escalar a parede. E uma corda ajudou também. – ela riu.

Ela me fez companhia até sentir que o sono queria me brindar. Logo senti medo de ter o mesmo pesadelo. Contei a ela o que havia sonhado e o que aquilo significada. Ela me beijou, acariciou meus cabelos e secou a lágrima que insistiu em cair. Disse que ficaria comigo naquela noite e que pela manhã, antes de todas acordarem, iria sair por onde havia entrado.Dormi perfeitamente bem, naquele abraço, ela cantou pra mim. Tinha uma voz linda, tão melodiosa, logo o sono veio, deixando meus olhos pesados, a respiração mais leve, enquanto Sofia cantava para que eu dormisse. Sonhei com ela.

Notas finais
"Mas por quê Posterli?". Nós chamamos Jessica de Posterli (Post ou Popoxt) porque ela se apresentou para nós assim. Hey! Está gostando da fic? Deixe-me um comentário ou um tweet: @rebbiepadfoot.