Noites de Montmartre

5 Capítulo 5: Nayne


Notas iniciais
Hey! Um erro de pesquisa, mas o corrigi. Espero que me perdoem!

Em suma, eu não poderia frequentar os lugares que a maioria das pessoas frequentavam. Eram as regras que me deixavam nervosa, odiava ser controlada. Meu espírito era livre e por alguma razão, havia certa graça em quebrar as regras.

Naquela manhã eu acordei antes de todas, me arrumei, tranquei a porta do meu quarto, desci as escadas cantarolando alegremente, despreocupada se alguém ia ou não me ver. Provavelmente, Luana iria passar no meu quarto ao acordar na esperança de iniciar o dia de bom humor e eu estava cagando para isso. Minha alegria era frequentar a casa de minhas antigas clientes, elas me levavam ao Le Petit Poucet para comer, ríamos, fazíamos brincadeiras, mas tudo isso havia acabado por causa de Elleanor.

Se eu soubesse que o marido dela chegaria cedo, não teria ficado nem mais um segundo naquela casa, nem mesmo depois de Elleanor implorar, se despir na minha frente, me prendido na parede e sussurrado em meu ouvido. Por mais que aquilo fosse tentador, eu teria recusado. Se eu soubesse, mas já que eu não sabia, não resisti.

Era fim de novembro, alguns flocos de neve caíam, transformando a rua em uma passarela branca. Os paralelepípedos estavam com uma fraca cobertura, devido a passagem das carruagens pela rua, a neve se acumulava nas calçadas. Eu sentia a neve derretendo na barra do meu vestido, minhas botas de couro negro iriam demorar a secar depois, mas não me arrependia de ter saído naquela manhã.

Sentia falta do Le Petit Poucet e era para lá que estava indo tomar café. Claro, ficava nas redondezas do Lido, perto do Moullin Rouge, um ligar frequentado por famílias de alta classe, mas quem iria me reconhecer do modo como estava vestida?

Usava um vestido de um cinza claro, mangas cumpridas com vários detalhes pretos, na parte da frente, um floral negro havia sido costurado a mão, exibindo belas rosas negras. Em minhas mãos exibia luvas de cetim negro, meu cabelo castando preso num coque, os lábios marcados com um batom claro, pouca maquiagem. Por onde eu passava, recebia sorriso de homens, alguns estavam acompanhados por suas esposas e estas também não conseguiam ignorar-me. Eu sabia que estava bela, estonteante, sabia que minha imagem não seria esquecida facilmente. Sorria de volta, desejando bom dia, recebi gracejos de alguns, outros me convidaram para tomar um café, mas nenhum deles iria dizer que eu era uma dançarina de cabaré.

Ao chegar no Le Petit Poucet, sentei no lugar onde sempre sentava, nenhum garçom me reconheceu, todos me tratavam como a filha virgem de algum senhor poderoso. Sentia os olhares na minha nuca, cochichos de algumas garotas que invejavam meu vestido, mas não liguei para isso. Estava admirando a vista, quando ele sentou na cadeira a minha frente.

— Bom dia! – ele disse educadamente, todo sorrisos para mim.

— Bom dia. – a resposta fez com que o sangue subisse para as bochechas dele.

“É tímido”, pensei, “talvez seja interessante brincar com isso.”

— O que uma bela donzela como você faz sozinha aqui? – perguntou ele, dando um sorriso amarelo.

“Mon Dieu, é tão clichê que me dá náuseas.”

— Perceba que não sou a única donzela aqui. – disse.

— Mas as outras estão acompanhadas, onde estão suas amigas? – ele perguntou.

— Com certeza, estão fazendo algo melhor do que fofocar em restaurantes. – disse, lançando um olhar para as garotas que cochichavam a meu respeito. Vi seus rostos corarem, aquilo me fez sorrir.

— Tem um belo sorriso, se me permite dizer. – ele disse, ficando vermelho de novo.

— Olha – avancei para ele, na intenção de sussurrar em seu ouvido. — Se for ficar vermelho todas as vezes que me der um elogio ou tentar falar comigo, é melhor que procure uma garota mais tímida e que caia nessa sua lábia de garoto inocente. – disse rispidamente. Voltei ao meu lugar e dei um sorriso para ele, sua cara era de espanto.

“Será que falei como uma puta?”, logo pensei.

— T-tenha um bom dia, milady. – e saiu as pressas do restaurante, me deixando aos risinhos.

Tomei meu café, recebi alguns elogios de senhores, retribui com sorrisos e bom dias. Até que o segundo veio.

Era alto, bonito, barba cheia, olhos castanhos e cabelos da mesma cor. Usava cartola de cetim negro, um janota, vestia-se como se quisesse provar a todos que era o melhor, o mais rico. Ele veio até mim, sentou-se no mesmo lugar que o garoto anterior.

— Poderia me dar a honra de saber seu nome, senhorita? – disse, me dando um sorriso que abalaria corações de muitas jovens, mas não o meu.

— Nayne. – respondi, levantando uma de minhas sobrancelhas.

— Hm, Nayne. – ele sorriu de novo. – Sou Jacques. O que faz aqui sozinha, no extremo do restaurante, porém, desse lado, a vista é mais bela, isso explica porque está sentada aqui, mas não explica por que está sozinha? – perguntou ele, a malícia brilhava em seus olhos.

Garotas tolas cairiam naquela conversa. Um homem bonito, aparentemente rico, bem apessoado, que arranca suspiros das jovens e agradas a todos, observador. Porém, eu era uma dançarina, trabalhava na noite, conhecia o outro lado das pessoas, o lado sombrio. Se eu fosse inocente, veria um príncipe encantado, alto, esbelto, faltava o cavalo branco e a espada a tiracolo. Mas eu não era inocente, sabia identificar a malícia nos outros e aquele olhar que ele me dava era um olhar muito malicioso.

Quase conseguia ouvir seus pensamentos. Ele queria saber o que tinha debaixo do meu belo vestido, queria beijar meus lábios, queria segurar minhas coxas e meter aquele pedaço nojento de carne entre elas, mas ele sabia disfarçar muito bem.

Conseguia quase imaginar um futuro com aquele tipo de canalha.

Se eu fosse inocente, ele me daria um ou dois gracejos, me acompanharia pelas ruas, iria comigo até a Basílica de Sacré Coeur, tentaria roubar um beijo ou dois, iria até minha casa, conheceria meus pais, pediria minha mão ao meu pai, que aceitaria. No primeiro ano de casados, seria meu conto de fadas pessoal, até ele começar a chegar bêbado em casa, aos gritos, me deixando com as crianças, trocando-me por prostitutas que nem se quer eram bonitas. Sim, ele faria isso, eu podia ver.

— Não quer adivinhar por que estou sozinha aqui? – perguntei, a voz com malícia. Iria entrar no jogo dele, aquele jogo que eu conhecia muito bem.

Para a minha surpresa, ele era um daqueles homens que qualquer coisa com peitos e vagina o faria pensar com a cabeça errada. Ele caiu tão fácil.

— Está a espera de alguma amiga? – ele perguntou, sorrindo.

— Não, elas estão dormindo ou acabando de acordar. – disse, sorrindo de volta.

— Esperando seu namorado? – os olhos dele brilhavam demais.

— Não tenho namorado. – disse, fingindo-me de tímida.

— Ah, mas creio que haja muitos pretendentes na fila, todos a espera pela resposta do seu pai. – ele especulava.

— Meu pai quer que eu me case, claro que quer. Ele ainda não achou o pretendente certo para mim. – disse fitando a rua.

— Poderia saber qual seria o tipo certo de pretendente? – ele perguntou.

— Do tipo alto, bonito, inteligente, rico acima de tudo isso. – disse. Os olhos dele ardiam, era tudo o que ele queria ouvir.

— Ora, posso ser o que seu pai procurava! – ele disse, rindo. Do outro lado, vi as mesmas garotas me olhando com censura, claro, todos os homens olhavam para mim e o mais bonito estava conversando comigo.

— Será mesmo? – perguntei, levantando uma de minhas sobrancelhas.

— Almoce comigo hoje, aqui. Enquanto isso, conversaremos...

“Almoçar?”, pensei, “mas afinal, que horas eram?”.

— Desculpe, mas poderia dizer as horas? – perguntei para ele. Eu estava entretida em entrar no jogo dele e sair vencedora, fiquei observando as pessoas na rua, imersa em pensamentos, mas não havia lembrado que teria de voltar antes das 10h.

— São 9h50. Não me diga que tem de ir? Estava até agora sentada sozinha...

— PUTA MERDA! – gritei, assustei a ele, aos vizinhos da mesa, até quem estava do outro lado do restaurante. Saí as pressas, sem ligar para os cochichos de censura, ouvi ele chamar meu nome, mas essa parte não importava.

Eu precisava estar no Cabaré em 10 minutos e era uma caminhada de 20! Não poderia correr, não com aquele vestido, além do mais, escorregaria com tanta neve nas calçadas. Só me restava pegar uma carruagem e ai estava o perigo.

Eu havia quebrado uma das regras que Giovanna tinha imposto sobre o Cabaré, pessoas comuns poderiam não reconhecer uma dançarina, mas os cocheiros sabiam muito bem reconhecer uma, mesmo sendo uma dançarina de um cabaré para mulheres. Eu poderia arriscar fitar o chão ou a paisagem, entrar as presas na carruagem, sem que ele visse meu rosto, pedir para descer na esquina, mas mesmo assim ele me reconheceria quando fosse abrir a porta para que eu descesse.

“Ah, foda-se! Agora já era!”.

Dei sinal para que a carruagem parasse, o cocheiro desceu de seu estrado para abrir a porta para mim, fitei o chão durante todo o processo, torcendo para que ele não me reconhecesse.

— Fugindo de alguém, Nayne? – disse uma voz conhecida.

— Will! – disse, sem poder evitar sorrir.

— Está em apuros, com certeza. – disse ele, sorrindo. Lhe faltavam alguns dentes na boca, mas aquele sorriso sempre era bem vindo.

— Pelos deuses, Will, você é um anjo. Leve-me para o Cabaré agora e rápido! – disse subindo na carruagem.

— É pra já, senhorita! – disse Will, chicoteando os cavalos, fazendo-os correr depressa.

William era um velho amigo do Cabaré, ele sabia que tipo de clientela nós recebíamos, sempre nos ajudou a escapar da casa de nossas clientes quando os maridos chegavam sem percebermos, nos levava aos locais onde éramos proibidas de frequentar. Ele era o único cocheiro que podíamos confiar em Montmartre. Os outros nos delatariam para Giovanna por qualquer mísera quantia de dinheiro, mas Will era diferente. Tinha perdido a mulher para um agiota, tudo que envolvia dinheiro fácil lhe dava ânsias.

A carruagem me deixou no beco que dava na entrada para as cozinhas do Cabaré. Eu teria de subornar Ariel e Fabi, deixar Luana de muito bom humor para que não me delatasse para Izabela, mas essa parte não importava.

— Me salvando de novo, hein, Will? – disse abraçando-o, pagando o preço da viagem e correndo em direção a porta.

— Sempre, madame. Sempre! – disse ele, sorrindo.

Para meu alívio, a cozinha estava vazia. Teria de subir as escadas devagar, entrar em meu quarto, trocar de roupa e esconder meu vestido com a barra molhada e suja de neve. O percurso estava calmo demais, daria tudo certo e ninguém sentiria minha falta, faria cara de sono e iria fingir que tinha dormido demais pelo esforço na noite anterior.

Destranquei a porta, entrei em meu quarto e senti o triunfo crescer dentro de mim. Havia conseguido passar por todos os obstáculos sem deixar rastros de minha escapada, sem nenhuma testemunha a não ser Will, mas ele era confiável e nunca me delataria.

— Onde esteve? – ouvi a voz de Luana.

Ela estava sentada em minha cama, a cara fechada, os braços cruzados, usava calças e blusa social, vi a gravata jogada na cama. Porra, ela não sabia dar um nó na gravata e insistia em pedir para que eu desse o maldito nó.

— Não é do seu interesse. – respondi rispidamente, esquecendo que teria de ser boazinha com ela para meu próprio bem. — Como entrou aqui?

— Fiz uma cópia da chave do seu quarto. – disse ela, como se não tivesse feito nada de errado. – Se é assim, Nay, vou até Izabela contar que você andou passeando por Montmartre de novo. Creio que não tenha ido na basílica, certo?

— Ah, claro. Eu religiosa. – não consegui ser simpática, não vendo aquela cara de brava que ela exibia. Não, eu sentia outra coisa vendo aquilo.

— Tudo bem, Nayne. – ela disse, levantando-se e pegando a gravata vermelha que estava na cama, dirigindo-se em direção a porta.

Agarrei na ponta da gravata, segurei seu pescoço e a beijei. Senti ela lutar contra aquilo, mas logo se rendeu. Senti suas mãos largando a gravata e indo para a minha cintura, tirando os nós no meu vestido.

“Pra desfazer nós essa filha da puta é boa”, pensei.

Notas finais
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