Noites de Montmartre
2 Capítulo 2: Rebbie
Notas iniciais
A noite anterior havia acabado com minhas estruturas. Sentia as pernas rígidas, os músculos doloridos, as bochechas não aguentavam mais sustentar aquele sorriso que éramos obrigadas a mostrar para agradar a clientela. Em suma, a noite fora boa. Consegui completar minha cota de clientes, fiz meus 3 shows diários, bebi com Haline e Dani fez drinks divinos enquanto Haline contava experiências de vida.
Tinha ido dormir tarde por causa da garota nova, havia algo nela que eu não conseguia ver, estava escondendo algo.
Reuni coragem pra sair da cama, vesti meu robe preto e desci pra tomar café, ouvi risadas na cozinha, o cheiro de pão e café fresquinhos.
— Bom dia, Rebs! – ouvi um coro.
— Bom dia, suas lindas! – respondi, bocejando.
A maioria das dançarinas acordavam cedo pra ensaiar suas apresentações. Mesmo que fizéssemos a mesma apresentação 7 vezes por semana, era sempre bom lembrar a ordem dos passos e não fazer feio no palco. Era algo repetitivo, exaustivo e extremamente chato, pois não podíamos mudar nada. Não éramos permitidas a fazer espetáculos, uma dívida com o Lido tinha de ser paga, essa era uma das cláusulas.
— Dormiu bem? – perguntou Dani.
— Mais ou menos, tirando a ressaca. Que diabos era aquele drink que me deu ontem? A dor de cabeça parece que vai me matar! – era verdade. Tinha tomado um drink que Dani fez, ela disse que iria me deixar nas nuvens, realmente, me deixou bem alta.
— Gostou do Fada Verde? – disse Dani dando um sorriso. Os sorrisos dela sempre aparentavam ter segundas intenções.
— Foi bom na hora, mas nunca mais me dê aquela porra! Deuses, que dor!
— Senta e toma café, Rebs. Lembre-se que temos de iniciar aquela novata. – disse Duda melancolicamente.
Tomei um café reforçado com pão, queijo, sucos variados, um ou dois croissant de chocolate e café sem açúcar pra curar a ressaca.
Voltei pro meu quarto, penteei os cabelos, tomei um banho quente, coloquei roupas leves e desci pro salão. Duda já estava lá fazendo alongamentos, no bar estava Haline trocando gracejos com Thay. Auri estava no palco, Tefi sentada na primeira fila com Mandhy, Tassi e Luana.
— O que estão fazendo aqui? – perguntei.
— Viemos ver a novata. Dizem que é gata e tem um corpo lindo. – respondeu Luana.
— Não é pro seu bico Luana. Ah... da próxima vez que visitar o quarto da Nay, lembra de pegar todas as peças de roupa. Esqueceu sua gravata na porta do quarto dela. – disse em tom irônico, vendo Luana corar e ficar desajeitada na cadeira.
— Em falar nisso, Nay desce pra ensaiar? – perguntou Auri de cima do palco.
— Não, tenho que fazer uma visita pra Madame Elleanor. Ela precisa dos meus serviços. – disse Nay entrando no Salão.
— Eu também preciso! – gritou Haline do outro lado do Salão, rindo com Thay.
— Qualquer dia, meu bem! – gritou Nay em resposta.
A novata realmente era muito linda, uma beleza singular. Longos cabelos morenos caiam pelos ombros, olhos brilhantes, esguia, lábios cheios, seria boa dançarina.
— Levante-se. – disse a ela em tom rígido. Ela obedeceu. — Sabe dançar?
— Não, senhora.
— Eu tenho cara de velha por acaso pra ser senhora? – perguntei em tom afetado.
Ela pensou em responder quando Tefi disse da primeira fila.
— É melhor ficar calada, garota.
— Não sabe dançar... Já tentou aprender? – perguntei.
— Sim, mas não me saí muito bem.
— Conhece o can can? – perguntei.
— As dançarinas do Moullin Rouge são as mais famosas da França.
Uma vaia vinda do bar. Haline já devia ter bebido demais.
— Tá começando errado, fia. – disse Auri.
— Dizem que elas são as melhores da França, mas quem diz isso? Os homens. A clientela do Cabaré é uma clientela diferente. É especial, a opinião delas que conta. Dizem que o Moullin Rouge tem as mais belas dançarinas: todas magras, esguias, vomitam o almoço pra pode jantar. Estereótipos que a sociedade elitista impõe. Outros cabarés podem se deixar levar pela clientela fútil de homens ricos, casados, moleques sem barba ou pelo no saco, mas esse cabaré vive de modo diferente, regras diferentes. – ditei orgulhosamente.
— Aqui somos, acima de tudo, uma família, unidas nos mantemos fortes, lutando contra os preconceitos da sociedade. Aqui as pessoas podem ser elas mesmas, mostrarem seus desejos que, por muitos, são julgados pecaminosos. – completou Duda.
— Agora eu pergunto: é errado uma mulher gostar de outra mulher? – disse Auri. — É errado deseja sentir as curvas de outra mulher sobre seu corpo? É errado uma mulher amar outra mulher? Se homens podem nos ver quase nuas no palco, gritando coisas obsenas e dizendo que são elogios, por que nós mulheres não podemos?
— Liane, acho que não viu nossa clientela ontem, certo? – perguntei chegando mais perto.
— Não vi. – ela respondeu.
“Muito tímida”, pensei, “tenho que mudar isso rápido.”
— Nossas clientes, a maioria, são mulheres de empresários, filhas do padeiro, primas de algum príncipe, herdeiras de terras, mulheres de apostadores, mas no fim, são todas mulheres procurando um lugar pra serem elas mesmas, poderem demonstrar seus sentimentos verdadeiros. – disse calmamente. — Aqui elas bebem conosco, nos veem dançar o cancan, as vezes nos presenteiam, somos pagas por aquilo que fazemos, mas aqui podemos ser nós mesmas.
— Mas o que isso tem a ver com o cancan? – ela perguntou.
— Você vai aprender a dançar e vai se apresentar conosco. – disse Duda.
— M-mas eu não sei dançar. – gaguejou a menina.
— Ninguém nasce sabendo, filha. – disse Auri.
— Em 1 mês estará pronta, verá que o seu “eu não sei dançar” vai soar tão ridículo quando se ver dançando. – disse Duda em tom decidido.
Foi difícil, a timidez da garota atrapalhou bastante, mas se ela ficava tímida conosco, imagina na frente dos estranhos?
Ensinamos o aquecimento padrão, Thay ajudou a menina na maior parte do tempo, Auri só observava Luana lançando olhares de desejo pra garota. Nay só voltaria quase de noite, depois de Madame Elleanor, ela tinha que visitar duas filhas de um ricaço britânico.
Liane tentou, caiu, chorou, riu, tentou novamente, toda vez que caía, pressionava a mão contra a barriga, isso era intrigante.
Haline estava mais do que bêbada no bar e por duas vezes tentou agarrar Dani, foi então que Tefi teve de chamar uma carruagem para levarem ela pra casa. Na hora do almoço, Fabi tinha feito empadão de carne, frango assado e sopa de ervilha. Comemos todas rindo em volta da mesa, ouvindo Tefi contar como tinha expulsado a menina da padaria da frente ontem a noite, o que não pareceu agradar Posterli.
O dia seguiu, com ensaios e mais ensaios da mesma coreografia sem graça. Não eram nem 19h e Haline chegou novamente, sóbria, cheia de sorrisos e gracejos. Hoje era noite de Thay cuidar dela.
Haline era mulher de um senhor idoso, sem herdeiros ou parentes pra deixar sua fortuna, se casou com Haline por fachada pra poder deixar toda a herança pra ela. Nada mais do que 3 vinhedos, 2 fazendas, sem contar os inúmeros imóveis em Paris, uma fortuna de dar inveja a qualquer um. Ele sabia dos desejos da garota e não ligou nem um pouco quando ela começou a frequentar o cabaré.
— Ele diz “se quiser mil mulheres, que tenha, desde que se mantenha viva.Não sei onde vou arranjar outro herdeiro.” – Haline dizia sempre.
A noite tinha sido boa, as apresentações tinham corrido bem. Nay tinha chegado além do horário, por isso não pode se apresentar por estar cansada demais. Tia Amora ia de mesa em mesa cumprimentando as clientes, dando sorrisos, as vezes gracejos, usava um vestido creme, com muitos detalhes em seda. Thay simplesmente arrasou no lap dance com duas clientes que saíram do palco quase sem fôlego. Vi Dani fazer dois drinks Fada Verde e me perguntei quem seriam os próximos a experimentarem a ressaca maravilhosa que esse drink carregava. O cheiro de cigarro e bebida enchiam o ar quando finalmente fui pra cozinha, meu turno havia acabado, eu só queria empurrar algo pro estômago antes de ir dormir.
Entrando na cozinha vi Liane, Ariel Fabi comendo torta de maça e sorvete, quando Liane levantou rapidamente e correu pro banheiro. O som de vômito foi ouvido.
— Não entendo. Já é a segunda vez que ela vomita hoje. Eu maneirei nos temperos, não entendo. – disse Fabi melancolicamente.
— Acho que não é sua comida que está fazendo a garota vomitar, Fabi. – disse por fim.
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