Noites de Montmartre

3 Capítulo 3: Izabella


— Ouvi dizer que algumas de suas putas andam frequentando casas de alguns clientes meus. – ela falava.

— Elas não são putas! – gritei em resposta. Sentia o sangue fervendo em minhas bochechas.

— Ah não? Então o que elas fazem acompanhando suas clientes até a residência delas. O marido de Elleanor pegou ela na cama com aquela negra imunda...

— PRESTE BASTANTE ATENÇÃO! TOLERO QUE ENTRE NESSE LOCAL, FAÇA SUAS RECLAMAÇÕES, QUE ME HUMILHE, MAS SE VOLTAR A OFENDER ALGUMA DE MINHAS GAROTAS, EU TE MATO. – era o limite. Não iria permitir que Giovanna ofendesse minhas meninas. Eu era responsável por elas, era minhas filhas, iria protegê-las até o fim.

— Hm. Ok. Vamos manter a calma. Sabe muito bem que o acordo que temos tem várias cláusulas, vou acrescentar mais uma. Elas não se encontrarão com as mulheres dos meus clientes. – ela disse por fim, colocando um sorriso debochado no rosto. — E ai, Izabella, o que me diz? É isso ou quebra de contrato, perde o local e suas meninas ficam desabrigadas.

A filha da puta sabia muito bem que eu não teria escolha a não ser aceitar.

— Fechado. – disse com relutância.

— Ótimo! Viu como tudo se resolve com uma conversa civilizada? – eu sentia que ela queria gargalhar, mesmo assim, mantive a calma. — Lembre-se: mantenha suas meninas fora do meu caminho e nenhuma delas se machucará.

Foi a gota d’água.

— FORA DAQUI! EU DISSE FORA! – gritei descontrolada, perdendo a paciência, indo em direção a Giovanna que levantou os braços para se proteger do meu suposto ataque. — TEFI!

— Chamou? – Tefi entrou em meu gabinete, a expressão no seu rosto era de preocupação, eu sabia que ela tinha ouvido tudo.

— Acompanhe Giovanna até a saída, por favor! – “antes que eu mate ela”, quis acrescentar.

— Sim, senhora. – Tefi respondeu obedientemente.

A dívida com Giovanna parecia nunca ter fim.

Havia pegado grande quantia de dinheiro com ela para que pudesse abrir o Cabaré na intenção de acolher as garotas, para que elas tivessem um teto pra chamar de seu, um lugar onde elas não precisariam se esconder de ninguém. O preço foi caro. Giovanna impôs regras que eu deveria seguir se quisesse continuar com as portas abertas.

Éramos proibidas de realizar espetáculos, deveriam realizar os mesmo shows diariamente, minhas garotas não poderiam frequentar os estabelecimentos nas redondezas do Lido ou do Moullin Rouge, não poderiam frequentar as igrejas da cidade, não poderiam frequentar os círculos sociais do bairros e agora elas teriam de procurar outra maneira de levantar a quantia em dinheiro para por fim a esta dívida.

No início eu havia ordenado que elas só realizassem seus pequenos shows diários, elas cumpriram obedientemente. Mas com o passar do tempo, a clientela começou a minguar. Partiu de Nayne contrariar minhas ordens e deitar-se com Haline, mas creio que nenhuma resistiria aos encantos daquela mulher. Ela sabia seduzir, aquela voz, o olhar, o corpo escultural.

Elas nunca foram obrigadas a se relacionarem com as clientes, iam porque queriam, criavam laços de amizade com elas, as vezes eram requisitadas somente para conversar. Nunca foram forçadas a fazer o que não queriam, ficavam felizes com o que faziam.

Considerava cada uma delas uma filha. Lembro-me de como encontrei Rebbie na chuva, magra, suja, um olhar desolador. Lembro-me de como Posterli veio até mim pedir abrigo, carregava uma bolsa cheia de livros, poucas roupas. Fabi era filha do dono da padaria da frente, ela tinha sido expulsa de casa por sua orientação sexual e eu a acolhi. Lembro-me de Duda viciada em drogas, se prostituía para pagar o hotel que dormia diariamente. A acolhi, foi difícil para ela parar de usar drogas, mas com amor, dedicação e ajuda das meninas, ela conseguiu.

Lembrava de cada uma delas, de como haviam chegado, com estavam e como era agora. Mulheres formosas, belas do seu jeito, cada uma provocante, outras mais recatadas, alguma optaram pelos palcos, outras pelos bares ou a cozinha. Eu cuidava de todas e continuaria a lutar pra manter o Cabaré aberto para que elas e outras garotas pudessem ter um local para serem elas mesmas.

Mas a cada dia que passava, recebia mais visitas de Giovanna, ameaças para ser mais exata. Ela ameaçava fechar as portas do Cabaré e tinha poder pra fazer isso. Mesmo que eu pagasse as prestações da dívida, ela vinha, ameaçava, dizia que negócios eram negócios.

Chegava a hora do almoço, as meninas com certeza deveriam estar nas cozinhas, todas as risadas, as brincadeiras... Teria de dar a notícia para elas e esse seria o momento certo.

Ao chegar nas portas da cozinha, senti o cheiro da comida de Fabi: bacalhau ao forno, carne cozida com batatas e fricassé de frango. Todas riam, bebiam vinho, vi Luana em cima da mesa com um boá fazendo uma dança estranha enquanto as outras riam. Vi Tefi apostar com Tassi quem esvaziava a taça mais rápido, era burrice, Tefi sempre ganhava. No extremo da cozinha, vi Haline com uma taça cheia de vinho na mão, acompanhada de Dani e Thay, as duas riam de alguma coisa que Haline havia dito, um gracejo, com certeza.

Ao me verem, a cozinha caiu num silêncio absoluto. Era possível ouvir o crepitar do fogão a lenha, a respiração de cada garota naquela sala.

— Pode falar, tia... Foi muito ruim? – disse Ariel. Elas sabiam que a notícia não era boa.

— Oh meu anjo, é ruim, mas iremos fechar por isso. – disse, dando um sorriso amarelo.

— Fale logo, tia. – disse Tefi ficando impaciente. — Se Giovanna a ameaçou, Mandhy, Tassi e eu iremos dar um jeito naquela vagabunda.

— Não será preciso, meu bem, o que é dela está guardado. Tem a ver com vocês, algo que não nos ajudará a pagar a dívida que temos com ela. – disse. As palavras engasgavam em minha garganta. — Estão proibidas de terem relações sexuais com as mulheres dos clientes do Lido.

A reação era esperada, a boca de Nayne formar um O perfeito, Rebbie piscar descontroladamente, Duda tossir várias vezes, Thay tirou aquele sorriso do rosto e o substituiu por uma carranca. Haline era mulher de um dos frequentadores do lido, foi a primeira a se manifestar.

— A boceta é minha e eu dou pra quem quiser. – ao dizer isso, esvaziou a taça completamente.

— Ridícula! Foi por causa de Elleanor, não foi? Eu disse para aquela mulher que ela iria me foder de um jeito nada gostoso, mas não! Ela disse, “relaxa e goza, meu bem”. E eu fiz o que? Gozei mesmo. – Nayne tagarelava em protesto.

— Tem a ver sim com Elleanor. Sabem o que o marido dela pensa sobre o Cabaré, deve ter dedo dele atrás disso tudo, mas não podemos esquecer que ela veio nos dar mais uma “regra” para seguir. Não foi e nem vai ser o fim do Cabaré. Não gosto de Giovanna tanto quanto vocês, mas ela tem o poder de fechar esse lugar, então até termos o dinheiro para pagar a dívida que temos, fiquem submissas a essas malditas regras! – disse por fim, odiando cada palavra. Odiava ter de dizer o que elas teriam de fazer.

A indignação era visível em seus rostos, a tristeza para algumas, Haline estava possessa.

— Tudo bem... iremos cumprir essa coisa ridícula. – disse Rebbie fitando o teto.

— Mierda!– Nayne cuspiu.

— Não mudar os shows, não podemos realizar espetáculos, não podemos transar com as clientes. Giovanna quer mesmo nos levar a falência custe o que custar. – disse Auri.

— Parece que ela tem medo de nós, que possamos de alguma forma superar o Lido. – disse Mick.

— Se pudéssemos realizar espetáculos... – suspirou Ariel.

— Estamos limitadas nas vendas do bar, das mulheres de senhores menores e os shows que ninguém mais aguenta realizar. – concluiu Dani melancolicamente.

— Pensamos nisso depois. Comam, vocês ainda tem de se prepararem para hoje a noite. A clientela vai estar mais baixa, mesmo assim, sorriso no rosto e sejam simpáticas. – disse.

Todas comeram em silêncio, não forma ouvidas risadas rotineiras ou histórias de vida, o raspar das talheres, o mastigar daquelas belas bocas. O ar nunca ficara tão pesado como naquele dia. Não voltei a ver sorrisos, Haline não soltava gracejos, Fabi mal tinha encostado na comida, assim como Ariel. Vi que Posterli fitava o prato, mas ele permanecia intocado.

Estávamos em uma situação crítica, mas iríamos arrumar uma saída para aquilo. Sempre arrumávamos.

Notas finais
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