Noites de Montmartre

10 Capítulo 10: Haline


Notas iniciais
Pessoinhas! Como prometido, uma sequência de 3 capítulos que ocorrem no mesmo dia, porém com pontos de vista diferentes! Esse foi o maior capítulo até agora. Conheçam a história pelos olhos de Haline e vejam o que acontece na primeira apresentação de Liane! PS.: Recomendo que quando comecem a ler a parte da apresentação das dançarinas, escutem Tough Lover da Christina Aguilera.

Naquela manhã eu só queria enfiar a cara em algum lugar, sair daquela sala cheia de velhos. Era perda de tempo, eu revisava os lucros dos 2 vinhedos semanalmente, ia duas vezes por semana nos mesmo ver como estava a produção, conversava com os funcionários, as vezes bebia com eles, não dava motivos para Eudes ter dores de cabeça, cuidava do seu patrimônio muito bem, um dia, todos os seus pertences seriam meus. Ele confiava em mim mais do que nele mesmo, aceitava meus julgamentos e decisões, mesmo sendo mulher. Quando casamos e ele deu a notícia para seus amigos janotas de que seria sua herdeira, não correu bem. Os mesmo disseram que era loucura confiar tal fortuna a uma mulher com gostos tão peculiares.

— Que se fodam. – Eudes disse-me. — Minha falecida mulher, que Deus a tenha, não pode me dar um herdeiro, mas me fez muito feliz. Logo vou vê-la, querida. – ele dizia com pesar. — Agora tenho você mais como minha filha do que como esposa.

​Mesmo com Eudes afirmando a eles que eu era de extrema confiança, os mesmo insistiram para que eu participasse das reuniões e “aprendesse” a liderar um negócio daquele porte. Concordei para que o assunto morresse. Quem me dera que isso fosse fácil.

A maior parte do assunto era bebida, mulheres, jogos, decepções amorosas. Eles tentavam não lançar comentários machistas, no início me incomodava muito, mas percebi que se eu debatesse sobre o assunto nunca iria sair daquela sala.

Cheirava a vinho, fumaça e mofo. Era obrigada a ficar 1h30 com eles, ouvindo cada um se gabar de seus feitos no comércio, investindo em reforma industrial. Era um porre. Por mais que eu quisesse encher a cara e ver se a presença deles tornava-se mais tragável, tinha que me manter sóbria. Dava um gole ou dois naquele uísque horrível, tentava rir de suas piadas sem graça.

— Quando a colheita do trigo chegar, é a hora certa de comprar os moinhos... – dizia um velho pançudo. Uma gota de uísque escorria pelo seu queixo largo.

— Compre-os agora. – disse.

— Como disse? – o mesmo velho falou.

— Compre os moinhos fora de época, agora que ninguém quer nada por eles, o preço é baixo. Se for deixar para comprá-los quando a colheita chegar, além de não achá-los a venda, estarão a preços altos. – disse, olhando no fundo daqueles olhos de porco. — Compre-os agora por um preço baixo, quando a colheita chegar, os alugue ao preço que quiser.

— Deixe de falar asneiras, mulher! O que entende de trigo? – ele urrou para mim.

— Não se trata do trigo. Oferta e procura. Ninguém está produzindo nada nos moinhos, manter eles é caro. Vai gastar muito para manter eles prontos para quando a colheita chegar, porém, quando estiverem funcionando, o lucro vai ser maior. – disse, soltando um sorriso de canto.

— Ela em razão. – disse Eudes. Se Eudes tinha concordado comigo, nenhum deles teria culhão para discordar novamente. — Agora, acabemos com isso. Quero dormir.

Depois de mais 30 minutos de puro papo furado, pude finalmente sair daquele confinamento insuportável. Acompanhei Eudes até a carruagem, ele estava com sono, iria levá-lo para a mansão e depois iria voltar para Montmartre.

Estava um tempo agradável, não tão frio como os outros dias, mas não podia-se dispensar um bom casaco. Não era dia de ir aos vinhedos, nem nas fazendas, já tinha deixado Eudes em seu quarto, não tinha mais nada para fazer.

Resolvi visitar minha mãe.

Era estranho depois de tanto tempo com as coisas dando errado para mim, ficar rica da noite para o dia. Me lembro como se fosse ontem.

Eu tinha 21 anos, tinha acabado de ser demitida, a maior renda que tínhamos em casa era a minha e mesmo assim passávamos necessidade. Chovia muito, estava descendo a rue Lepic, quando encontrei um senhor na chuva. Estava com um grande corte na cabeça, sangrava muito, estava cheirando a bebida forte, suas roupas estavam rasgadas. Não pensei duas vezes. Coloquei ele em minhas costas e o carreguei até minha casa, ele não era pesado.

Ao chegarmos lá, minha mãe cuidou de seu ferimento, deu-lhe algo para comer, não era muito, mas ele pode recuperar a consciência em pouco tempo. Disse que a única coisa que lembrava-se era de tomar uma porretada na testa, tinha sido assaltado. Contou que pediu ajuda para algumas pessoas que passavam na rua, mas nenhuma delas indignou-se a ajudá-lo, taxaram-no como bêbado. Quando o dia surgiu, ele chamou uma carruagem e foi embora.

Duas semanas depois, veio a minha porta com uma proposta um tanto quanto conveniente. Me pediu em casamento. Eu neguei.

A maioria das pessoas aceitaria por ele ser rico, mas eu não era maioria. Eu tinha dado uma mão quando ele precisou. Agora ele estava querendo meu braço todo.

Voltou a repetir o pedido, dessa vez acrescentando a parte de que seria sua herdeira e nada mais que isso. Voltei a negar. Ele riu, disse que eu era difícil de dobrar, achava isso interessante. Ele explicou mais um vez sua proposta, deixando bem claro o que queria.

— Escute. Preciso de um herdeiro. Minha esposa veio a falecer a pouco, não tenho filhos ou parentes para deixar minha fortuna. Se não fosse por você naquele dia, teria morrido. Me ajudou quando ninguém mais o fez. Quero retribuir o favor. Aceite. – ele dizia quase implorando. — Não lhe farei mal, irá ter tudo o que quiser. Sou velho e sei que meu fim está chegando, não posso ter mais filhos. Me ajudou uma vez, me deu o que não tinha sem nada pedir em troca. Agora estou te dando mais do que um dia pensou em receber.

Ele insistiu muito, eu neguei por três vezes antes de aceitar, meio receosa de parecer interesseira em sua fortuna. Dinheiro era bom, mas dinheiro demais causava problemas.

Nos casamos, ele deu um apartamento bom para minha mãe no centro da cidade, me mudei para sua mansão nos arredores de Montmartre, aprendi a ler, escrever, a fazer contas, cuidas das finanças, passei uns tempos na Itália aprendendo o idioma e o modo como eles produziam vinho. Ajudei a melhorar os vinhedos de Eudes, expandi seu negócio. Ele sempre me dizia que tinha escolhido a pessoa certa. Ele não ligou quando descobriu sobre meu gosto por mulheres, pelo contrário, riu.

— Gostar de mulheres é como beber vinho: é bom demais! – ele ria.

Agradecia a Deus por ter colocado ele em meu caminho naquela noite. Um anjo enviado para me ajudar.

Estava andando pela Place des Tertres onde os pintores e artistas vendiam seus quadros e realizavam seus shows a luz do sol. Vincent Willem estava sentado num banco, observando as pessoas passando. Ele trabalhava para uma firma de negociantes de arte, sabia pintar muito bem, mas ninguém dava muito valor para suas pinturas. Certa vez, tinha comprado uma de suas pinturas, paguei muito mais do que ele havia cobrado. Ele tinha futuro, só precisava de reconhecimento.

— Não pinta mais, Vincent? – perguntei, sentando a seu lado

— Oh, boa tarde, senhora Beaumont. Não ando pintando muito ultimamente. Vou para a Bélgica antes do Natal, só resolvi passar aqui e dar uma última olhada...

— Te desejo sorte nessa sua jornada. Volte logo e me traga quadros, Van Gogh.. – sorri e levantei-me.

— Não assino meu quadros com esse pseudônimo. – disse Vicent.

— Pois passe a assinar! Soa melhor que Vincent Gogh. — Até a sua volta!

— Até mais ver. – ele sorriu.

O tempo estava começando a esfriar mesmo que o sol estivesse a pino, resolvi passar no Mulberry antes de ir para o apartamento de minha mãe.

Apesar de ficar no subúrbio, uma das partes com menos glamour de Montmartre, o Mulberry Cabaret era um prédio alto, o mais alto do bairro, as sacadas de cada quarto estava salpicadas de neve, as janelas fechadas com grossas cortinas vermelhas. Tudo naquele cabaré convergia para um amplo local onde a luxúria deveria reinar. Cores rubras eram notáveis tanto na decoração como na roupa das dançarinas e garçonetes.

Logo na entrada, ficava a cabine para se comprar o ingresso e assistir ao show. Aquela hora não tinha ninguém na entrada e mesmo se tivesse, eu era de casa, poderia entrar a hora que quisesse. Pesadas portas de madeira guardavam a entrada para o salão. As empurrei.

Mesas de madeira negra eram dispostas na frente do grande palco de carvalho. Três barras polidas e douradas estavam postas verticalmente da base do palco até o teto, as cortinas do palco eram vinho com detalhes dourados como as barras, nos cantos ficavam escadas circulares para o patamar de cima, onde haviam mais mesas e divãs, perto da entrada para o salão ficava o bar de Dani. O balcão era de uma madeira escura e forte, o mármore em um tom negro brilhava, atrás dela estava a maior variedade de bebidas dispostas em prateleiras de madeira, bancos estofados ficavam distribuídos ao redor do balcão para as clientes baterem papo enquanto tomavam os maravilhosos – e perigosos – drinks de Daniela.

A mesma estava concentrada em secar os copos já lavados e colocá-los em seus devidos lugares enquanto Rebbie, Duda e mais uma garota que eu havia esquecido o nome estavam no palco ensaiando uns passos. Uma nova apresentação? Mas não podia ser...

— Uma dose de uísque escocês 12 anos. – pedi para Dani que, imersa em pensamentos, não percebeu minha chegada no recinto.

— Logo cedo, Haline? – ela ergueu uma sobrancelha.

— Já passou da hora de começar. – respondi, imitando o gesto. Ela deu aquele famoso sorriso antes de me servir. Tomei um gole da bebida, olhando para Dani que tinha voltado para os copos. — Me pergunto todas as vezes que te vejo, por que escolheu o bar ao invés do palco?

— Me pergunto como alguém pode beber tanto e ainda não ter morrido de cirrose? – o olhar que ela me lançou indicava divertimento, um sorriso de canto surgiu, a famosa sobrancelha se levantou. Tinha algo de diferente nela.

— Ora! Devo ser abençoada pelos deuses! Mas é sério, você é muito bonita para ficar no bar. – dei mais um gole no uísque, era muito melhor do que aquele que estavam servindo na reunião mais cedo. — Sabe entreter, é boa de papo, sem contar que tem um corpo bonito. Nunca te vi dançar, mas adoraria. – sorri maliciosamente para ela... Seria algo interessante vê-la dançar para mim com aqueles vestidos minúsculos que as dançarinas costumavam usar.

— Pode parando com esses pensamentos pervertidos! – soltou uma gargalhada contagiante. — Eu gosto do meu bar. Aqui eu mando, lá eu sou mandada. – e apontou para o palco onde Duda ditava passos para a garota desconhecida.

— Não exatamente! – Rebbie gritou sorrindo para mim. Sorri em resposta dando um aceno com a mão.

— Quem é a garota no palco? – perguntei para Dani.

— A nova dançarina, Liane, hoje é a primeira apresentação dela. Isso me lembra algo. Haline, saberia me dizer onde eu consigo no mínimo 100 garrafas de Pinot Blanc d’Alsace? – perguntou Dani.

— Assim fora de safra é muito difícil. Por quê? – perguntei.

— Fabi precisa para que um tal prato seja servido com maestria. – ela respondeu, fazendo um floreio com a mão.

— Posso arrumar as garrafas para você, mas vamos fazer um acordo. – respondi sorrindo maliciosamente.

Ela deu o mesmo sorriso... Mas tinha algo mais e era isso que eu não conseguia distinguir. Era como se estivesse se controlando de alguma forma.

— Diga. – ela disse firme, voltando a postura.

∞

A ida para a casa de minha mãe tinha sido bem tranquila, passei na padaria em frente ao Mulberry, comprei bolos e um chá indiano que minha mãe gostava de tomar. O dono da padaria me recebia com certo desprezo, alguma coisa relacionada ao estabelecimento da frente, mas eu não liguei para isso. Paguei tudo, peguei uma carruagem e fui em direção ao centro.

As pessoas sabiam quem eu era. Haline Beaumont, a nova mulher de Eudes Beaumont. Pela minha frente eu ouvia elogios de como era bonita e inteligente, pelas costas sabia dos comentários maldosos sobre mim e meu casamento.

“Interesseira”, alguns diziam.

“Endemoniada”, os que já tinham me visto frequentando o Mulberry e sabiam o que acontecia lá.

​Não ligava para esses comentários, na verdade, me divertia com como as pessoas gostavam de se interessar pela minha vida pessoal. Não era novidade as visitas dos amigos de Eudes à mansão, traziam suas mulheres e as mesmas gostavam de criticar minha paixão pelo hipismo, a culpa não era minha que eu sabia montar muito bem.

Às vezes praticava piano enquanto elas fofocavam na sala ao lado. Fazia questão de tocar o mais alto possível para ver como ficavam furiosas quando não conseguiam ouvir umas as outras.

Passei a tarde com minha mãe e uma amiga dela. Na escrivaninha tinha uma foto de meu irmão aos seus 18 anos, trajando o uniforme do exército francês, e ao lado da foto, uma medalha de honra que havia sido entregue para minha mãe quando ele não voltou da intervenção francesa no México. Eu era pequena demais, era o único jeito de lembrar do rosto dele. Às vezes vinham umas lembranças, eu no colo dele enquanto víamos os patos do lago voando, ele brincando comigo enquanto eu corria pela praça.

Senti a mão de minha mãe pousar sobre a minha, não percebi que ela me observava a algum tempo. Seu rosto mostrava a dor. Eu havia perdido um irmão. Ela havia perdido um filho.

Rose, a amiga de minha mãe, percebendo que o clima estava começando a pesar, logo descontraiu, comentando sobre as festas de fim de ano, sobre as nevascas de natal e outras coisas que eu não prestei atenção.

Fiquei com elas até dar 16h, ainda tinha que me arrumar para a grande noite. Queria ver aquela nova dançarina em ação. O sol havia se escondido atrás de nuvens cinza claro, pequenos flocos de neve caíam dançando, preenchendo os paralelepípedos da rue Lepic, fazendo as sacadas dos prédios ficarem com uma fina camada de neve e as vidraças embaçadas pelo frio. As decorações de natal estavam espalhadas por Montmartre, as portas das casas exibiam espalhafatosas guirlandas, bolas coloridas de vidro, crianças montavam bonecos de neve e tratavam de colocar cartolas, cachecóis e as vezes um casaquinho no grande boneco branco.

Encontrei William e sua carruagem para me levarem para casa. Apreciei a vista de Montmartre no caminho. Passamos pela Place de Tertres, ao longe, no topo da colina, ficava La Basilique Du Sacré-Coeur. Passamos do lado do Le Petit Poucet, do Moulin Rouge e do Lido e todo seu glamour. Quando a paisagem de casas e prédios foram trocadas por pastos de trigo, centeio e inúmeros vinhedos, sabia que estava chegando em casa. Eudes provavelmente ainda estaria dormindo. Pediria para Marie deixar o jantar dele pronto antes de voltar para o Mulberry.

De fato, Eudes ressonava baixinho em sua cama com dossel. Avisei Marie para fazer uma leve sopa de ervilhas que Eudes gostava, Deus sabia que o velho estômago dele não aguentaria comer algo pesado a noite.

Tomei um banho quente na minha banheira de bronze polido, Eloíse me ajudou, esfregando minhas costas, perfumando meus cabelos com diversos cremes. Eu costumava soltar alguns gracejos para ela, sabendo que a jovem de 18 anos, filha de Marie ficaria sem graça com certeza, adorava deixá-la com as bochechas vermelhas e o olhar baixo. No fundo ela sabia que eu não faria nada com ela, se quisesse fazer, já teria feito, era só uma brincadeira que eu tinha mania de fazer.

Após meu banho, fui para meu closet, indecisa com o que vestir. Eram tantas peças de roupa, vestidos de cetim negro, pesados casacos de peles, sáris da minha viagem a Índia. Optei pelo vestido grafite de manga, drapeado na cintura, florais de rosas negras na barra. Usaria com minhas botas de salto alto, feitas de couro negro. Pedi para Eloíse pentear meus cabelos até que ficassem macios e brilhantes antes de prender meu cabelo. Duas borrifadas de perfumes no pescoço, duas nos pulsos, maquiagem escura. Estava pronta. Olhei-me no espelho.

— Odiei. – disse para Eloíse. A garota que me olhava pelo espelho exibiu uma cara de espanto. — Vá buscar meu terninho, não esqueça a minha cartola.

Obedientemente, Eloíse trouxe meu terninho negro. Era ousado.

Ao invés de uma camisa branca como era normal de ser, pedi para meu alfaiate trocar por um corselet com detalhes dourados, coloquei o terno por cima do corselet já apertado, coloquei uma gravata borboleta no pescoço nu, a calça seguia minhas curvas, era justa, meus sapatos de salto alto confeccionados a mão brilhavam. Prendi meu cabelo num coque apertado antes de colocar a cartola de cetim negro.

— Traga minha bengala com punho de ouro. – disse para Eloíse.

Finalmente, estava pronta e dessa vez gostei da minha aparência. Parecia um janota pomposo que aparece nos bailes. Estava pronta para ir ao Mulberry fazer o que eu sabia de melhor.

∞

— EU QUERO IGUAL! – ouvi Rebbie gritar quando me viu descer da carruagem de Will. Apoiei a bengala no chão, enquanto ouvia os cavalos se afastarem. Cumprimentei Rebbie com um beijo no canto da boca, antes de olhar como seu vestido exibia um belo par de pernas. Tinha detalhes em verde na pequena cartola que usava para a apresentação e em seu vestido.

— Prefiro ver suas pernas. – respondi para ela e recebi uma gargalhada em troca. Comprei meu ingresso com Luana e entrei.

A casa estava cheia. O cheiro de cigarro já estava no ar, a banda tocava embalando algumas pessoas que dançavam na pista. Garçonetes com os seios expostos serviam algumas clientes, Dani estava no bar, estonteante. Usava uma blusa social branca, os botões da parte de cima estavam abertos, fazendo que seu decote fosse instigante. Era bom ver que ela estava começando a cumprir sua parte no trato.

— Um Cuba Libre batizado por favor. – disse para Dani. Ela me olhou. Aquele olhar que eu estava tentando descobrir, estava cada vez mais marcante.

“Isso! Mostre a que veio.”

— Nem preciso dizer que você está estonteante nesse smoking. – disse Dani, sorrindo.

— Você está mais, acredite. – disse em resposta. Uma moça estava sentada no bar. Era linda. Cabelos castanhos caíam pelos ombros, boca marcada por um batom vermelho, senti uma vontade imensa de borrar-lhe o batom, mas me contive. Quem sabe mais tarde...

— Qual o seu nome? – perguntei, tomando um gole do Cuba Libre.

— Nathaly Shimitz. – um forte sotaque alemão. Ela levantou uma sobrancelha pra mim antes de rir.

— Ela é novata. Acabou de chegar, mandei Tefi buscar Auri para iniciá-la, mas acho que ela não vai ter tempo hoje, então já tratei de batizar a garota. – disse Dani, tentando não rir.. Não percebi o copo de Batida Russa na frente da alemã.

“Logo Batida Russa, Daniela? Isso é cruel!”, pensei. A garota já estava tonta, um drink muito forte para alguém tão novo.

— Ela aguenta, acredite. – Dani me disse quando finalmente percebi os copos na frente da garota, ainda tentando conter o riso, ela piscou para mim.

Eram quase 19h quando Fabi veio se juntar a nós no bar, ao que parecia, todos estavam ansiosos pela primeira apresentação daquela garota, Liane. Indubitavelmente, a garota era bonita, mas parecia ser tímida e não levar jeito nenhum para dança, mesmo assim, tinha atraído a atenção de muitas clientes, todas estavam interessadas na garota.

— Ela é tão desejada assim? – perguntei para Dani.

— Não temos maior repercussão de uma dançarina desde a entrada de Nayne. – ela respondeu. Logo vi Thayse saindo da porta que levava aos camarins, trajada num vestido igual ao de Rebbie, mas o seu possuía detalhes em azul-marinho. Vinha correndo em direção ao bar, não pude deixar de perceber seus seios quase saltando do corselet apertado.

— Dani, rápido! Me dá qualquer coisa forte! – ela disse, sem fôlego.

— Forte pra derrubar? – Dani perguntou, sem entender.

— Não! Pra deixar alegre rápido! – Thay disse, ainda sem fôlego. Dani rapidamente, preparou um drink de tom amarelado, entregou a Thay, a mesma saiu correndo em direção a porta do camarim, deixando todos que estavam no bar sem entender absolutamente nada.

— Eu quero um desse. – ouvi Nathaly pedir para Dani.

Eram 19h. A banda tinha começado a tocar uma música lenta. Vi Tefi fazer sinal para subirem a cortina. Era hora do show. Um silêncio caiu sobre a plateia que estava ansiosa por esse momento. Já era possível ver as pernas de cada dançarinas, todas usando sapatos de salto alto, as pernas torneadas por anos de dança, os vestidinhos curtos, cada uma com uma cor diferente. No meio estava Posterli, ao lado estava Thay e Liane, logo atrás Arianna e Auri e, por fim, Duda e Rebbie.

Logo começaram a dançar, movimentos sexys e sincronizados. A mesma apresentação de abertura havia anos, nada de novo... Até que Liane toma a frente e começa a cantar, com Rebbie em seu encalço. As duas tinham uma voz linda. A surpresa dessa mudança repentina na coreografia tinha pegado a banda e as outras de surpresa. Logo a banda já conhecia a canção e trataram de acompanhar as duas dançarinas. A cara de Auri era impagável, mas ela soube disfarçar bem. Logo Post, Thay e Arianna trataram de improvisar também, cada uma agarrou um poste de poledance e trataram de iniciar acrobacias. Rebbie pegou a cartola que usava e jogou na plateia, nada restou a Auri a não ser improvisar também. Duda logo começou a dançar enquanto Rebbie e Liane que ainda cantavam:

When he kisses me, I get that thrill

When he does that wiggle I won't keep still

Logo vi Izabella surgir de sua sala, a cara dela mostrava indignação. Alguém iria pagar por isso, e seria Auri, mas ela parecia tão surpresa como todo mundo.

A plateia começava a aplaudir, assoviar. A atenção estava presa na jovem dançarina com voz de anjo que tomava a frente da apresentação.

Everyone will talk about how he got me fixed

It ain't voodoo, it's just that twist

Cantavam as duas, de vez em quando, uma agarrava a outra e faziam menção de se beijar, mas logo se afastavam. Era inegável, a garota possuía talento. Era sexy, tinha presença de palco. Rebbie a acompanhava em todos os movimentos, não igual, mas sem deixar um vácuo. Posterli, Arianna e Thay sorriam abertamente, aproveitando cada segundo de improviso por mais inesperada que fosse aquela mudança.

A cena era divertida e contagiante, eu estava gostando das mudanças, elas teriam que vir algum dia, mesmo assim tão inesperadamente.

A canção já estava chegando no fim:

He'll be so tough he'll make Venus come alive

He'll do anything that he wants to do

As outras, depois do susto, já estava preparadas, sabendo do fim da canção, resolveram voltar para seus lugares, realizando passos baseados no que Liane estava fazendo. Como uma garota em sua primeira apresentação rouba a cena daquele jeito?

No último acorde tocado pela banda as dançarinas se jogam no chão, cruzando as pernas, estufando o peito com a cabeça empinada, Liane agarra Rebbie e dá-lhe um beijo, a plateia vai a loucura. Uma salva de palmas se inicia, assovios, elogios, muitos bravo e bis, mas eu sabia que tal apresentação era puro improviso e ser repetida seria loucura. As cortinas foram baixadas, mas a salva de palmas ainda continuava.

A boca de Dani estava em um O perfeito, Fabi estava com os olhos arregalados sem entender nada, Nathaly já estava mais louca que tudo no mundo. Izabella estava estupefata. Ninguém sabia dizer o que tinha acontecido ali.

— Que porra foi essa? – disse Fabi.

— Porra nada! Foi foda! Inesperado, mas foda! – disse Dani, recobrando os sentidos.

Logo vi Thay saindo do camarim, com Rebbie em seu encalço. Thay ria enquanto Rebbie não sabia o que fazer, estava eufórica quando chegou a nós.

— O que foi aquilo? – perguntou Dani, ela tinha começado a gargalhar pois sabia que Rebbie ia dar um chilique.

— E EU SEI? AQUELA LOUCA NO CAMARIM ESTAVA TODA TÍMIDA, CHEGA NO PALCO E SOLTA A FRANGA? A minha sorte é que eu conhecia a letra! – ela expressava reações múltiplas, uma mistura de alegria, raiva, nervosismo e muitas mais.

— Eu realmente gostei do desfecho. – comentei. As garotas no bar tinham começado a debater, enquanto Dani servia a todas. Comecei a lembrar de como a novata se comportava... Era interessante, me lembrava muito Nayne nos seus primeiros dias, tinha um corpo bonito, uma bela voz, um sorriso lindo e aquele olhar... Eu precisava tê-la. Por uma noite que fosse, queria saber mais sobre ela, queria ter seu corpo, queria saber o que eu fazia de melhor. Sentia a cabeça zonza, não estava pensando direito, ou estava. Quanto eu já tinha tomado?

As garotas conversavam de assuntos diversos, sobre Nay toda rasgada em seu quarto, sobre a mudança na apresentação. Era curioso Izabella não ter dado as caras até aquele momento.

Ainda estava imaginando todas as coisas que poderia fazer com Liane no quarto quando voltei a prestar atenção na conversa.

— ... Daí eu cheguei com o drink, a garota bebeu e deu no que deu! – Thay contava para as garotas no bar, enquanto Dani despachava drinks pelas garçonetes.

— E ainda por cima me beijou! – disse Rebbie, que parecia estar indignada com isso.

— Eu a quero. – disse para elas.

— Como é? – agora era Thay que estava pasma.

— Eu a quero, assim como já tive todas vocês. – eu afirmei.

— Mas Haline, a garota não gosta da fruta... – Dani começou a dizer.

— Eu não quero saber! – eu não sabia o quanto já tinha bebido, não lembrava de quantos drinks tinha tomado desde que tinha chegado. — Eu a quero! Pago o triplo do valor que Nay cobra! – dizendo isso, percebi que Tefi tinha começado a vir em minha direção. — Vocês tem 1 mês para deixarem ela pronta para mim e outra... quero ela sóbria.

Eu sabia que se continuasse ali, faria uma cena. Na verdade, já estava fazendo. Resolvi maneirar na bebida a partir daquele momento. Eu era a cliente mais fiel do Mulberry, a minha voz era lei.

Não fiquei muito tempo depois daquilo, assisti a apresentação de Posterli e resolvi ir para casa, já tinha passado muito tempo longe da mansão, era hora de ir descansar. Will ainda me esperava na esquina, entrei na carruagem e ele me levou para casa. Sentia a cabeça doendo, acho que Dani havia exagerado no batismo do Cuba Libre, não saberia dizer, já não estava passando bem. Acabei adormecendo no meio do caminho.

Notas finais
Curtiu o capítulo? Deixe-me um comentário! Um beijo, meu amores e até o próximo capítulod e Noites de Montmartre!