Noites de Montmartre

11 Capítulo 11: Lourena


Notas iniciais
Meu queridos leitores, Sinto muito pela demora em postar os capítulos, logo estarei postando novos. Lourena, uma jovem de 26 anos volta de viagem e descobre o caos que o Mulberry se encontra. Uma pitada de drama e humor cercam esse capítulo. Veja a história aos olhos de Lourena. Dedicado a Lourena Ohara. Nunca esqueceremos da senhora, Tio. Porque aliás, sempre teremos a "ppk is on fire".

Costumava passar o mês de novembro na casa de minha mãe em Florença. Não tinha costume de passar as datas festivas fora do Mulberry, por essa razão sempre ia visitar minha mãe com um mês de antecedência. Izabella havia me afirmado que tudo ficaria bem no cabaré, mas nos últimos meses as coisas não iam nada bem. A dívida que tínhamos com o Lido crescia e quitar a mesma já não era mais a ambição de Izabella. Por duas vezes, Haline propôs de comprar o Mulberry e por duas vezes discutimos do porque minha sócia insistia em não aceitar a oferta generosa de Haline.

Era por orgulho? Não sabia dizer. Dei graças aos deuses por novembro ter chegado em velocidade recorde e pude me dar férias de todo aquele ambiente pesado. Em suma, eu gostava do Mulberry, tinha ajudado a abri-lo, tinha 50% das ações do prédio, fazia parte da tomada de decisões, mas a dívida tinha tomado proporções impossíveis de serem resolvidas. Mal tinha entrado em Montmartre e as dores de cabeça começavam a voltar. Não lidava bem com os problemas, principalmente os que envolviam muitas pessoas.

— Tem certeza que vão me aceitar lá? – disse Rômulo, fitando a paisagem pela janela da carruagem. Vi dúvida por trás daqueles olhos castanhos, inocência poderia ser a palavra certa para definir aquela expressão, mas conhecendo Rômulo como eu conhecia, inocência era uma palavra que não se encaixava em nenhuma forma com aquele rapaz.

— Claro que vão. Ficará conosco, vai adorar as meninas. – respondi, passando a mão pela sua bochecha. Ele sorriu para mim.

Era bem pequena quando conheci ele. Não devia ter mais de 6 anos, estava brincando em um pasto seco devido ao tempo outonal, me lembro de haver um grande carvalho cheio de folhas amarelas, lembro-me de tentar subir de todas as formas, mas era pequena demais para fazer isso. Até que finalmente consegui agarrar um galho mais baixo da árvore e içar-me para cima, sentia os músculos doerem e já nem lembrava porque queria subir no velho carvalho. Estava a meio caminho do topo quando um barulho me deu a certeza de que estava caindo, o galho se partiu e eu vi o chão vir em minha direção. Faltavam alguns metros para estatelar-me na terra quando senti algo segurar meu braço, o movimento fez com que eu ficasse içada pelo braço e desse de costas com o tronco, ficando sem ar, logo vi que eu e o que havia me segurado estava caindo e, consequentemente, me levando junto. O baque na terra não veio. Pelo contrário, me vi caída em cima de um menininho de olhos e cabelos castanhos. Ele chorava – a terra havia criado uma crosta amarronzada em suas bochechas –, eu havia caído em cima dele. Só então percebi que estava toda ralada, meu vestido estava rasgado. Poderia ter sido pior se não fosse por ele.

— EU DEVIA TER DEIXADO VOCÊ CAIR! – gritou ele me afastando para longe, colocando a cabeça entre os joelhos. Ouvia seus soluços, a respiração descompassada e só então percebi seu joelho jorrando sangue.

Uma das piores sensações que tenho é nunca saber o que fazer e naquele dia eu experimentei aquela sensação pela primeira vez. Poderia correr para casa, contar que havia caído da árvore, apanhar por ter sujado e rasgado meu vestido novinho... Ou poderia ficar, ajudar o menino. Ou seria melhor buscar ajuda? Ou seria melhor sentar e chorar junto com ele? Definitivamente eu não sabia o que fazer naquele momento. Optei por chorar com o garoto.

— Por que está chorando? – ele perguntou. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto todo sujo de terra.

— VOCÊ VAI MORRER! – eu gritava em meio a lágrimas e soluços.

— Não vou morrer! É só um arranhão... – tentou mentir miseravelmente, mas foi entregue por uma careta de dor.

— Tá doendo muito? – perguntei, ainda com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele me olhou incredulamente. Ok. Tinha sido uma pergunta idiota.

Ele levantou-se com dificuldade e foi sentar do meu lado. Choramos um bocado de tempo juntos antes de sairmos andando até um rio que tinha ali perto, lá ele pôs a perna na água até o joelho, ouvi gemer de dor antes de mostrar alívio. Lavei meus arranhões, mas nenhum dos meus se comparava ao dele. Arranquei a barra do meu vestido já arruinado e amarrei em volta do joelho esfolado do menino. Ele sorriu para mim e mostrou ser forte quando apertei demais.

— Meu nome é Rômulo. – ele disse.

— Eu sou Lourena. – respondi.

Mal sabia eu que um carvalho velho, 10 metros de queda, uma barra de um vestido puído e lágrimas nos uniriam tanto. Não tardou a criarmos laços profundos, ele era um segundo irmão e aquele carvalho velho era nosso local secreto. Brincávamos de bola, pular corda e as vezes nadávamos nus no rio. Troquei meus primeiros beijos com ele, mas sempre terminávamos aos risinhos, sem ter ideia do que aquilo significava, até que chegou a adolescência e descobrimos coisas a mais. Os beijos que antes eram engraçados não tinham mais sentido, já que, por uma grande ironia do destino, me descobri gostando de garotas, enquanto ele mantinha o gosto por garotos. Não foi por falta de vontade em tentarmos ter certeza se não seríamos mais que amigos. O velho carvalho foi prova das vezes que tentamos fazer o que os livros chamavam de “reproduzir’, mas sempre quando tentávamos, caíamos na gargalhada. Ele era meu melhor amigo, seria sempre meu amigo, mesmo que eu não gostasse de homens.

∞

— LOURENA VOLTOOOOU! – ouvi Rebbie gritando para alguém dentro do salão. Logo vi Arianna correndo em minha direção, me abraçando de tal maneira que perdi o fôlego. As duas me acompanharam para dentro com Rômulo em nosso encalço, quieto, observando tudo a sua volta.

— Conta sobre a viagem! – disse Arianna.

— Trouxe meus limões sicilianos que pedi? – perguntou Fabi enquanto bebia vinho com Thay, Dani e outra garota que eu não conhecia. Nay estava sentada em uma mesa com Tefi e Luana, tinha o braços cobertos por curativos, sem contar a perna esquerda estava toda enfaixada.

— Misericórdia! O que aconteceu com você? – perguntei assustada olhando Nayne.

— Nada que ela já não tenha se arrependido. – disse Tefi, vi Nay revirar os olhos.

— Não vai acreditar no que aconteceu aqui nos últimos dias, Lou! – disse Thay, já sorrindo. A história devia valer a pena, porque todas sorriram também.

Logo vi ela. Observando do escritório no patamar superior do salão. A cara não era nada boa, mal tinha chegado de viagem e já vinham problemas com certeza.

— Se me derem licença, tenho assuntos a tratar. – disse para as meninas e me fui para as escadas que levavam ao escritório. Quanto mais cedo resolvesse o assunto, melhor.

A cara dela era uma mistura de preocupação, nervosismo, ansiedade talvez? Não saberia dizer o que estava sentindo só avaliando sua expressão, mas eu sabia que para ela estar com aquela cara, não seria um assunto muito agradável de se tratar.

— Gostou da viagem? – ela perguntou em tom seco.

— Foi agradável. – respondi no mesmo tom.

— As garotas contaram o que andaram aprontando?

— Não, vim diretamente para cá. O que houve de tão sério? – perguntei. Queria acabar logo com aquilo.

— Bom, por onde eu começo? Giovanna impôs mais uma regra no tempo que esteve fora devido a uma escapulida de Nayne, a mesma deu um show ridículo e acabou se machucando seriamente. Tivemos que substituí-la por uma novata que causou um problema muito maior para nós! A mesma mudou a coreografia da apresentação sabendo que não podemos mudar um único passo! Sem falar que isso gerou um motim e agora todas concordam que passou da hora de mudarmos as coreografias. E outra! Haline ameaçou parar de frequentar o Mulberry se não prepararmos a novata rebelde para uma noite inesquecível! – ela cuspia as palavras, mostrando toda a raiva reprimida. Parecia estar ensaiando aquela cena a alguns dias.

— Hm... tirando o ocorrido com Nayne e Haline ameaçar um estupro, eu não vejo porque tanto estardalhaço para com as mudanças na coreografia. Já era hora, nada que uma conversa civilizada com Giovanna não resolva. Claro, que tudo tem seu preço...

— Mais dívidas? São mais de 5 anos com o Mulberry aberto e a dívida parece que nunca vai terminar! – ela jogava as palavras em mim como se quisesse que fossem pedras.

— Uma dívida a mais, a menos, que diferença faz? Quantas vezes Haline quis comprar o Mulberry por um preço muito maior do que ele vale e você simplesmente prefere nos levar para o buraco do que tomar uma decisão consciente, pensando no bem de todas ao invés do seu próprio pescoço, lembrando que quando abriu este local, era pensando nas garotas e agora se recusa a aceitar ofertas boas de alguém que conhecemos simplesmente por orgulho? Pelo amor de Deus, Izabella! ESTAMOS A BEIRA DO CAOS E CONTINUA INSISTINDO QUE DEVEMOS MANTER A SUBMISSÃO E ACEITAR CADA LINHA DAQUELE CONTRATO RIDÍCULO? É isso que Giovanna quer! Botar medo! – gritei em resposta. Todo aquele assunto estava me tirando do sério.

— Sabe quanto isso irá custar? – ela gritou em resposta.

— Nada que não possamos resolver com tempo! Sempre foi assim, por que dessa vez haveria de ser diferente? – perguntei, sentando na poltrona. Peguei um copo e enchi com uísque. Aquilo iria demorar.

— Preciso sair daqui. – ela disse. Só então percebi que estava segurando o choro, um último esforço para manter uma postura forte que eu sabia muito bem que ela não conseguia manter por muito tempo. — Recebi uma carta da minha mãe... Meu pai, ele não está bem, anda doente demais e temo que não resista. Eu preciso ir vê-lo antes que... – e já não aguentando o esforço, deixou pesadas lágrimas correrem pelo rosto, pingando no colo, na mesa. Tentou secar com um lenço, mas soluçava desesperadamente. Depois de 5 minutos ouvindo soluços descompassados, ela recuperou o fôlego e pode prosseguir. — Tudo anda tão estressante ultimamente. As novas regras, a clientela caindo, a mudança na coreografia, a dívida que não termina... Agora meu pai doente.

— Vá vê-lo. Fique com ele o tempo que precisar ficar, sabe muito bem que podemos cuidar das coisas por aqui. Deixe que eu resolvo os problemas com Giovanna e os ocorridos com as dançarinas, mas deve ficar ciente que apoio totalmente elas na decisão de quererem mudar o show. – era melhor terminar toda aquela discussão antes que eu sucumbisse ao choro também. Sempre que via alguém chorando, não aguentava muito tempo e desatava a chorar junto. — E outra... Trouxe Rômulo comigo. Ele vai ficar conosco.

Vi que ela ia rebater com algum comentário, mas simplesmente voltou a fechar a boca, secou as lágrimas que ainda escorriam, levantou-se e desamassou o vestido.

— Obrigada. – e dizendo isso saiu do escritório. Vi Tefi chegar no escritório com Dani e Fabi. Todas traziam papéis nas mãos. Era hora de começar a resolver os problemas.

Fora tranquilo discutir as dívidas com a mercearia, a adega e a costureira. Dani disse que Haline havia doado mais de 100 garrafas de Pinot Blanc d’Alsace, mas era um vinho muito caro e parecia que ela havia ocultado parte desse acordo. Fabi estava com a ideia de usarmos o quintal dos fundos para construir uma pequena horta para os temperos, não vi motivo para discordar, mas teríamos de falar com os vizinhos, acho que estes não iriam se importar. Tefi me contou sobre o vexame de Nayne, a nova regra de Giovanna e a nova dançarina.

— Essas novatas me surpreendem cada vez mais! – disse, rindo junto com as outras.

— Sim! Tinha de ter visto, Lou! Ela canta muito bem, poderíamos trabalhar em shows em cima dela e de Rebbie. Mudanças nos postes de pole dance, quem sabe acrescentar mais alguns. – disse Tefi.

— Sim, era hora de mudar... Agora me expliquem, Haline ameaçou um estupro? – esse assunto me preocupava. Haline havia ameaçado parar de frequentar o Mulberry se não preparássemos a novata para uma noite com ela, mas até onde eu sabia, a garota não alimentava apetite por mulheres e não podíamos forçá-la a dormir com uma, mas também não poderíamos perder Haline.

— Foi efeito do álcool. Conversei com ela, mas mesmo assim, ela quer a garota. – disse Dani. — Não há nada que possamos fazer para que ela mude de ideia, sabe como ela tem opinião forte mesmo bêbada.

— Não vai ser um estupro, certo? – disse Fabi. — Lembra de quantas vezes tivemos clientes que pagavam só para papear? Se dissermos a Haline que Liane não gosta de mulheres, ela vai entender...

— Não vai. Eu disse isso e ela simplesmente ignorou. Perdeu a razão. – disse Dani.

— Bem... Não podemos perder Haline. – concluí com pesar. Era um absurdo o fato de Haline simplesmente querer alguém que não tinha os mesmo gostos, mas não poderíamos nos dar o luxo de perder nossa melhor cliente. — Falem com Rebbie, Nay e Auri. Elas tem 1 mês para prepararem a garota...

E assim a reunião estava acabada. O absurdo de Haline era algo que incomodava muito, tentaria falar com ela mais tarde.

Era véspera de Natal, último dia de trabalho antes da folga que tínhamos devido a festa de ano novo. Era uma noite especial para nós. Sempre preparávamos um grande banquete para as poucas clientes que chegavam, às 23h fechávamos o expediente e começávamos a nossa festa. Depois da 00h, servíamos sopa quente e pão aos necessitados de Montmartre, nossa boa ação para com os menos favorecidos. Pelo menos nisso a igreja nos apoiava, dizendo que era uma boa ação, mas que não nos salvaria do fim já previsto a todas.

Terminei meu uísque e resolvi descer, ver como Rômulo estava se saindo com as meninas, se já tinha feito amizades ou estava acanhado. Ao chegar no Salão, vi Rebbie, Arianna e Posterli nos postes, com Auri e Thay a dançar no chão, sem música. Todas elas sendo guiadas por Rômulo.

— Quero movimentos soltos, simples, mas bem sensuais. Quero o melhor olhar sensual de todas, quero ver suas caras e bocas. Dancem como se estivessem fazendo sexo! – dizia ele. Afinal, ele se havia se soltado.

— Mas a dança não vai ficar muito sexual? – perguntou Rebbie, descendo do poste para descansar.

— Não sabe ser sensual sem ser promíscua? – perguntou Rômulo botando as mãos na cintura.

— Sei, mas não estou acostumada a esboçar todo meu pote de sensualidade assim, sempre guardo pros programas. – rebateu Rebbie.

— Pois trate de separar os potes: um pro palco, outro pros programas. – disse Rômulo, firmemente.

Quando éramos mais jovens e eu ainda morava na Itália, ele era um verdadeiro pé de valsa, sempre deixando milhares de garotas aos suspiros com seus dons. Mal sabiam as garotas que seu príncipe encantado na verdade queria muito se tornar a princesa. Quando ficávamos a sós com um grupo de amigos, eles tocavam um tipo de música mais agitada e Rômulo sabia desenvolver passos nunca vistos antes. Eu sabia que tinha escolhido a pessoa certa para mudar a coreografia.

Resolvi sentar no bar e observar o andamento dos treinamentos. Em minhas férias, muitas novatas haviam chegado: uma italiana de Napoles e uma de Roma, uma linda alemã de Nurembergue, sem contar a intrigante Liane. A garota pelo jeito era tímida, mas com um alter ego um tanto quanto peculiar.

Era fato que a maioria das meninas do Mulberry possuía um alter ego, uma personalidade que assumia seu corpo em determinadas situações. Rebbie era uma pessoa extremamente tímida no início de sua carreira nos palcos, mas sempre que bebia, virava outra pessoa, descontrolada por sinal, carregava uma personalidade masculina e poderosa que ela gostava de nomear como Zeus, o deus grego, conhecido por ter uma libido muito forte. Assim como Thay invocava Thea, a versão mais sexual da garota, a mesma aparecia quando Thay bebia. Após um tempo, ambas conseguiam controlar tanto Zeus quanto Thea. Algo me dizia que a novata Liane possuía um alter ego, pelo relato das garotas sobre sua primeira apresentação, não poderia ser mero acaso.

— Com licença, senhora. – disse um menino entrando no salão. Não devia ter mais de 14 anos, loiro dos olhos claros, trazia um pacote debaixo do braço.

— Sim? – respondi.

— Vim entregar uma encomenda. Para a senhora Sharapova. – disse ele. Vi Nayne acenar para o garoto se aproximar. Pegou o pacote de papel pardo e pagou pela entrega. Depois, apoiada em uma muleta, veio andando até o bar.

— Fabi, tome. Para você. – disse Nayne colocando o embrulho na frente de Fabi e sentando em um dos bancos do bar.

— O que é isso? – perguntou a mesma ao abrir o embrulho. Dentro havia um tipo de erva, muito parecida com orégano, mas exalava um cheiro diferente, mais leve e agradável do que outras ervas que tinha visto na cozinha de Fabi.

— É... Tomilho. – respondeu Nayne encarando o embrulho. — Mas tem outra finalidade, é para o bolo de hoje. Coloque na massa.

— Não parece tomilho. – disse Dani encarando o pacote.

— É um tomilho diferente, foi feito na Jamaica, mas é muito popular na Holanda, o povo de lá costuma usar bastante nos bolos. – disse Nayne esboçando um sorriso. — Encomendei especialmente para o dia de hoje. E Fabi, a massa tem de ser de chocolate, o gosto fica muito mais saboroso.

— Se está dizendo. – disse Fabi, levantando-se e indo para a cozinha.

∞

Eram 19h quando desci para iniciar as boas vindas as clientes. Não eram tantas por ser véspera de Natal. No canto extremo do salão estava um pinheiro de 1,50m, enfeitado com bolas coloridas e enfeites de papel ou tecido, obra das meninas. O salão estava iluminado por milhares de velas. As meninas realizaram metade dos shows para as poucas clientes que estavam na plateia, dentre elas, Sofia e Haline que estavam juntas na mesma mesa.

Sentei-me com elas enquanto via Posterli executar acrobacias no poledance.

— Linda, não é? – disse para as duas.

— Simplesmente magnífica! – disse Sofia, os olhos brilhando.

— Vão ficar para comemorar o Natal conosco? – perguntei. Haline acenou em concordância. Sofia já olhou para mim com incerteza. — É bem vinda para participar da ceia.

O jantar das outras clientes fora servido, enquanto Haline e Sofia bebiam com Dani no bar. As dançarinas iam passando entre as mesas desejando boas festas para as clientes que iam embora pouco a pouco.

Não devia ser nem 22h quando o salão esvaziou. Então pouco a pouco, as dançarinas desceram as escadas sem suas roupas de apresentação. Algumas usavam vestidos mais soltos, alguns de cetim, outras optaram por blusas de botão e calças. As mesas do salão foram todas postas juntas para formar uma mesa maior, depois coberta com uma grande toalha branca com bordados vermelhos, Fabi e Ariel vinham trazendo os pratos da ceia de Natal. Bandejas com canapés, bolos salgados, torradas com patê, foie gras com geleia de cebola ou figo, salmão defumado, canapés de lagosta, pato com castanhas, lombo a Califórnia, lentilha, taças de um doce que Fabi havia batizado de Beijo na Boca, salada de Vieiras, Buche de Noel, Coq au Vin e Ratatouille, Blanquette de Veau e Mil Folhas. Enquanto Dani servia coquetel de frutas sem álcool, o que era uma surpresa, os drinks de Dani sempre eram carregados de álcool.

— Hoje é véspera de Natal, poxa! – disse ela, sorrindo. — Não quero embebedar ninguém hoje.

Um certo tom de sarcasmo aparecia por trás dessa afirmação. Somente ri e voltei minha atenção para o assunto que gostaria de falar com Haline.

— Haline, teria um minuto ou dois? – perguntei.

— Um minuto, uma hora, um dia todo, quanto tempo quiser. – ela disse, sorrindo maliciosamente. Fui para meu escritório, Haline em meu encalço. Servi uísque, ela sentou na poltrona em frente a minha mesa. Após dois goles, ela me olhou e disse:

— Bem, o que quer conversar?

— As meninas me contaram sobre a novata, Liane, acho que esse é o nome dela.

— Ela é incrível. Já viu ela dançando? E cantando? Nunca ouvi voz mais doce. – era evidente o desejo de Haline para com a novata, mas algo deveria ser feito.

— Elas também me contaram sobre uma certa cena... Você sabe, gostamos muito de você, mas a menina não tem esse tipo de gosto... – mal terminei a frase e Haline tinha me lançado um olhar ameaçador. A pessoa cordial e amigável já não se encontrava mais ali.

— Nada do que me digam irá me fazer mudar de ideia. Eu disse que queria a garota, posso esperar o tempo que for, mas ela vai fazer o que quero. Todas acabam fazendo. Pode demorar quantas noites forem. Você conhece o quanto sou persuasiva, uma hora ela vai ceder. E não vai ser um estupro como a maioria de vocês pensam que irei fazer, acredite em mim, Lourena. – disse, tomando um gole do uísque. — A garota vai pedir para ter comigo.

— Quanto tempo? – perguntei.

— Vocês tem 1 mês para convencê-la. Ora, eu não sou um monstro, fale para Thay, Rebbie ou Nayne irem conversar com ela do quanto sou generosa com as dançarinas. – ela disse, o sorriso malicioso voltando a tona. — Assunto encerrado?

— Tudo bem. – só me restava acreditar na palavra de Haline que ela não faria a mal. Mais tarde teria de ter uma reunião com as garotas.

∞

A festa estava no seu ápice. Todas já estavam cheias com a maravilhosa refeição que Fabi tinha feito, em meio a risadas e cantoria desconexa, era possível notar a alegria no rosto de todas. Mais uma vez, Mandhy disputava a tão famigerada queda de braço com Luana. Nayne dançava em cima da mesa, com a perna enfaixada e tudo, Posterli e Sofia dançavam uma valsa lenta, meio fora do ritmo, mas era possível notar que elas estavam dançando outro tipo de música, algo que tocava somente entre aquele casal. Fabi sentada com Thay, Dani, Auri e Haline num canto, evidentemente bêbadas, cantando algo como “chega de mentiras, de negar o meu desejo...”.

Michiute e Rebbie estavam no beco ao lado do Mulberry servindo sopa quente para os necessitados, logo haveria uma pausa e elas trocariam com outra pessoa que estivesse sóbria. Rômulo sentado ao meu lado, encarando a taça de vinho Pinot Blanc d’Alsace e comendo um Mil Folhas. Parecia estar meio enjoado, mas ele havia me dito que só tinha comido demais.

Logo Rebbie e Michiute entraram, dizendo que não havia ninguém mais do lado de fora. As duas então desataram a beber e cantar com as outras. Enquanto Tefi insistia em dizer para Luana que a mesma desistisse de tentar ganhar de Mandhy, Ariel e Duda estavam afastadas das demais, concentradas em uma conversa intima. Nathaly, a novata alemã estava sóbria, apesar da quantidade exorbitante de bebida consumida.

— Meu sangue é de Nurembergue, não fico bêbada fácil! – disse, batendo o copo na mesa. Dani voltou a enchê-lo, mas dessa vez, com o famoso drink Fada Verde.

— Que viva Nurembergue! – disse Dani, propondo um brinde. Ao fazê-lo, Nathaly virou o copo em uma única golada, as demais meninas riram. Dani era muito perversa. Após virar o drink, era evidente que todas as duas garrafas de vinho, mais as incontáveis cervejas consumidas fizeram efeito. Absinto não era para qualquer um, deixava uma tontura insuportável no primeiro gole.

— Fabi, fez o bolo que eu pedi? – disse Nayne, depois de descer da mesa. Prontamente, Fabi saiu correndo pelo salão, atropelando tudo. A essa altura, Posterli estava com Sofia em outro lugar, provavelmente no quarto. Rômulo dessa vez estava do lado da novata, Liane, conversavam baixinho. Duda tinha levado Ariel aos palcos e por algum motivo tentava ensinar a garota algumas manobras no pole dance, ambas também estavam bêbadas.

“Hoje é véspera de Natal, poxa!”, Dani disse. “Não quero embebedar ninguém hoje.”, ela tinha me dito. Mas todas estavam mais bêbadas que em qualquer dia do ano.

Fabi voltou, trazendo um bolo de chocolate, não era muito espalhafatoso, era bem simples perto dos bolos que Fabi costumava fazer.

— Nayne, eu tive que diluir o tal tomilho na manteiga, mas acho que ficou bom. – disse ela, colocando o bolo na mesa. Todas foram servidas, o bolo estava gostoso, leve, a massa era fofa. Nada de diferente, talvez o tomilho fizesse a massa ficar fofa. Aparentemente, toda aquela cena estava sendo muito engraçada para Nayne, que comia o bolo e observava a todas fazerem o mesmo. Fabi tinha feito mais dois, já que Nayne havia dado muito tomilho para Fabi. Eu mesma tinha comido 3 pedaços do bolo, até que a cena começou a ficar estranha.

Após 20 minutos do primeiro pedaço, a sala começou a ficar meio turva. Achei que era o efeito da bebida e por isso sentei, mas depois de um tempo comendo o terceiro pedaço de bolo, sentia a barriga formigando, assim como as pernas dormentes, uma felicidade repentina tomou conta de mim.

Rebbie tinha começado a rir, olhei para ver sobre o que era, mas ela encarava a própria mão e por algum motivo, ria disso. Fabi acompanhou Rebbie com a gargalhada, logo eu estava gargalhando, isso desencadeou um ataque de riso coletivo, todas rindo, a plenos pulmões, enquanto algumas ainda comiam o bolo, Dani estava tentando se escorar no balcão do bar, ria tanto que chega chorava.

— Do que estamos rindo? – ouvi Thay gritar, em meio as risadas.

— EU NÃO SEI! – disse Rebbie, gritando cada vez mais alto, sem fôlego devido as risadas. Depois tentou se levantar, tropeçou nos próprios pés e caiu no chão. A queda teria sido feia, mas aparentemente, só havia espaço para o riso.

Nayne estava extasiada, os olhos vermelhos, observando toda a cena, as vezes soltava um riso ou dois. Thay tinha conseguido parar de rir, tentou tomar o resto do vinho, mas o líquido escorreu pelo queijo manchando sua camisa branca. Isso desencadeou mais um ataque de risos por parte de Fabi. Rebbie ainda continuava no chão, não tentava levantar ao que parecia. Minha cabeça estava leve, cada parte do meu corpo estava anestesiado.

— Eu não sinto minhas pernas... – disse. Isso fez Fabi rir mais ainda. Logo Dani ria mais alto que todas juntas, batia palmas, chorava de tanto rir.

— Boa Nayne! – ela disse, em meio aos risos. Olhei para Nayne e a mesma retribuiu com um sorriso amarelo. — Eu sabia que estava muito estranho pra ser tomilho...

— EU NÃO SINTO MINHAS PERNAS! – dessa vez gritei, vendo que ninguém estava interessado na minha repentina paralisia.

— Se não é tomilho, é o que? – disse Fabi, os olhos de todas estavam vermelhos, movimentos lentos, a sensibilidade corporal estava quase nula. A sede era evidente em todas, pois todas bebiam e quanto mais bebiam, mais sede tinham. Tudo estava mais colorido e atraente, era possível ver cores muito fortes independente se estivesse com os olhos abertos ou fechados.

— É cannabis sativa. Ou como chamamos popularmente, é marijuana. – disse Dani, que tinha conseguido de alguma forma sentar. Nayne havia conseguido drogar todas com um único golpe. Eu não sabia se sentia orgulho ou raiva da garota, mas o único sentimento que predominava meu corpo era uma felicidade sem motivo aparente.

Qualquer coisa me fazia querer rir e apesar de estar drogada, sentia certa sinceridade em todas as risadas.

Notas finais
O motivo aparente para Nayne tentar drogar a todas, foi devido ao estresse que rolava no Mulberry. Não que o único modo seja drogando as pessoas, mas as vezes, as armas que temos são limitadas. A partir deste capítulo, o enredo toma medidas misteriosas. Uma ameaça dentro do Mulberry, alguém está tentando sabotar o cabaré mais lésbico do século XIX. Será mais um plano de Giovanna? Alguma das novatas é espiã a mando da mesma? Ou será uma ameaça maior? Não percam os próximos capítulos de Noites de Montmartre.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.