Noite de Mistérios
1 A Descoberta de um Sentimento Inesperado
A rua estava parcialmente clara, pois havia pouca iluminação e postes queimados; mesmo assim, esperava mais barulho e movimento daquele lugar. Perguntei a mim mesmo o que estava fazendo ali. Será que bati forte com a cabeça?
Escutei um assobio que vinha da minha esquerda, direcionado a mim. Abaixei a cabeça, olhando para o chão. Constrangia-me que eles soubessem o que eu procurava ali. Constrangia-me ainda mais saber que o que eu buscava eu queria muito.
O motivo da minha presença naquele lugar era um garoto; na verdade, ele foi o estopim. Despertou algo inusitado em mim e eu queria ter certeza. Nunca havia experimentado esse sentimento, chegou de repente. Aquele jovem despertou algo que nunca senti até então. Jurava nunca tê-lo sentido, mas agora sentia.
Acontece que algo dentro de mim despertou e faz minha cabeça ferver, aumentando minhas dúvidas a cada dia, porém não sou um completo tolo; tenho certa consciência. Isso começou há dois meses, para ser mais exato, no primeiro dia de aula do segundo bimestre.
Eu e meu amigo estávamos olhando a lista, conferindo nossa sala; felizmente, estaríamos juntos mais um ano. Notamos, porém, a presença de uma pessoa cujo nome não nos recordávamos de ter estudado conosco. Enfim, nada grandioso; afinal, é normal ter alunos novos transferidos.
O sinal soou em nossos ouvidos. Entramos na sala e, como de costume, corremos para pegar as últimas carteiras rentes à parede da janela, eu na frente e ele atrás. Não ficávamos no fundo por sermos "burros"; pelo contrário, éramos inteligentes, pelo menos nos esforçávamos para alcançar a média.
A sala foi se enchendo aos poucos; alguns pareciam criar asas para chegar aos lugares desejados. Era engraçado, parecia uma queima de estoque.
Todos satisfeitos com seus lugares, panelinhas formadas, conversando e matando a saudade. No momento, eu estava em outra dimensão; não que não estivesse feliz por ter voltado à faculdade; pelo contrário, estava. Ver os amigos é muito legal; o problema são as matérias, provas, entre outras coisas.
— Acorda, acorda! Aluno novo! – senti um cutucão que me tirou do transe.
— Onde? – procurei o tal aluno novo sem muito interesse. Meu campo de visão acabou por detectá-lo; o primeiro pensamento que tive foi: bonito. Um rapaz de longos cabelos negros, olhos brancos, quase leitosos. Por um instante, julguei que ele fosse cego.
— Naruto.
— Fala, Kiba. – respondi sem dar muita importância.
— Ouvi um boato de que o aluno novo é bissexual.
— É mesmo? Quem disse? – perguntei. Acabei me interessando; não sei ao certo o motivo, mas senti-me contente.
— A panelinha do outro lado da classe estava comentando; passei por perto e ouvi. Também ouvi dizerem que o viram se beijando com um garoto.
Enquanto ouvia a informação, voltei minha atenção ao belo rapaz, já sentado em sua carteira, a primeira da fileira ao lado da minha. Apoiei meu queixo sobre a palma da mão e fiquei a olhá-lo por detrás; porém, fui surpreendido: ele virou-se para trás e tive a certeza de que não era cego. Ou minha visão estava realmente ruim, ou não sei, mas ele olhava para mim, descaradamente, como se quisesse que eu notasse seu atrevimento em olhar-me sem pudor, na maior cara de pau.
Senti o peso de seu olhar sobre mim e abaixei o meu. Mexi, inquieto, em minha bolsa, enquanto sentia o rubor espalhar-se por meu rosto. Seus olhos provocaram em mim um estranho sentimento, mas mesmo estando com vergonha, atrevi-me a mover meu olhar na direção dos olhos dele; porém, não os encontrei, pois ele já havia virado para frente. Entristeci-me por não ter visto nada além de suas costas, mas eu teria o ano todo para olhá-lo. Surpreendi-me com o pensamento que tive.
Abaixei a cabeça novamente e notei que estava interessado no aluno novo. Balancei a cabeça e deslizei minhas mãos por meus fios loiros, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Soltei o ar que prendia, sem perceber. Senti-me sendo observado novamente e quis retribuir o olhar, mas repreendi-me ao máximo: não era possível que eu estava querendo trocar olhares com um garoto.
Foi aí que comecei a perceber que algo havia despertado em mim. Senti-me perdido, sem entender ao certo o que acontecia comigo ou se entendia sim, mas não completamente.
As aulas progrediram, e junto a elas os olhares e as sensações que tive no primeiro dia com o garoto. Pensei que fosse bobagem, por ser uma novidade o fato de ele ser bissexual, já que não tinha amigos com essa orientação sexual. Imaginava que, ao final do dia, isso passaria, mas nunca cogitei a ideia de que poderia durar meses, e a cada dia seu olhar me assaltava com a mesma intensidade do primeiro.
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