Noite de Caça

1 Primeira Parte - A Capa Vermelha


Notas iniciais
Bom, essa não é a primeira história que eu posto aqui, mas a primeira foi uma experiência meio ruim porque eu acabei abandonando a história, no final das contas.
Acabei decidindo que eu só postaria uma nova quando tivesse ela já escrita, e mesmo que eu não tenha acabado essa, não me contive, e aqui está!!
Acho que vou postar uma vez por semana, então, se vocês gostarem, próximo domingo vou postar o próximo capítulo.
;)

Era uma vez, em uma vila distante e sombria do Reino, uma garota. Ela era sempre tão diferente; ela era mais rápida que as outras, mais magra que as outras, mais bela que as outras. Depois de passado tanto daqueles tempos, não lembram nem seu nome. Em fato, depois de tanto não se misturar naquela cidadela, sendo a única a ousar vestir vermelho e se distanciar embrenhada naquela Floresta Negra, os moradores pararam de chamá-la por seu nome e passaram a chamá-la de Chapéu Vermelho.

Havia boatos sobre aquela garota. Era difícil saber quais eram verdade; sua família era normal e quieta e ninguém se atrevia a perguntá-los à própria Red. Ela era de uma beleza selvagem, aterradora e diferente. Olhos que pareciam jóias verde-escuras, um cabelo desgrenhado tão negro quanto a própria noite. Cabelo que todas as moças invejavam, mas não podiam tê-los. Quase todos de lá haviam vindo da costa, junto com os comerciantes, então traziam em suas cabeças apenas tons de palha e vermelhos.

Todos tinham tons de pele iguais, só ela trazia um pálido que refletia o sol em nuances de ouro. E os outros, que ostentavam as mais caras e belas roupas dentre a pobreza da vila, não poderiam vesti-las como a outra o fazia; ninguém tinha cintura tão fina.

Entretanto, a beleza não significava pretendentes. Esse era o único ponto que as jovens tinham a mais que Red. Parecia que nenhum rapaz ousava chegar perto demais dela. Seria talvez medo? Talvez ela os intimidasse mais que as outras?

Seriam seus segredos? Seriam suas... Cicatrizes? Realmente, era difícil não notá-las. Como teias de aranha, subiam pelo seu braço com traços interligados, brancos e protuberantes, e acabavam em rasgos diversos perto do pescoço. As pessoas discutiam sobre suas origens, embora todos soubessem por que elas estavam ali.

Acreditava-se que havia um Lobo. Meio humano, meio animal, mais antigo do que a vila. Reivindicava o espaço ocupado pela cidade, e por isso dizia que o vilarejo o pertencia. As pessoas também. Então, a cada mês na noite de lua cheia, os moradores deveriam entregar-lhe um animal. Havia a vez de cada família. Na vez da família de Red, o animal teria que ser entregue, amarrado em um pequeno altar no meio da floresta, em uma clareira.

A garota teria por volta de sete anos. Uma cabra era o sacrifício. Impulsionada pela curiosidade de ver o monstro, ela escondera-se perto do local. Mas como uma besta de poder como o Lobo acabaria não farejando uma criancinha descuidada? Então, o monstro a atacou, originando as tais cicatrizes.

As controvérsias a respeito do que aconteceria com a criança quase morta geraram discussões exageradas. Uns achavam que ela se tornaria outro Lobo. Outros que ela estava amaldiçoada. Que ela deveria ser eliminada. Mas seus pais, pela primeira vez sobressaindo-se do ouvir, assentir e não discordar não deixaram que nada se aproximasse da filha mais nova. E teria sido um enorme erro se ela tivesse morrido, pois sua vida continuava normal.

Era isso que eles achavam.

Red seguia mais uma vez para fora da vila, não se importando quando as pessoas se calavam enquanto ela passava. Se tivesse alguém para compartilhar a piada, estaria rindo agora. Ela aprendera desde pequena que não era ruim rir do mal que lhe acontecia. Ou talvez fosse um jeito de cobrir a solidão.

Nevava fraco, mas os flocos derretiam e molhavam sua cabeça. Ela puxou o capuz para cima do rosto, fechando com os dedos longos a abertura que a capa fazia na frente. Uma mulher mais velha arregalou os olhos quando a garota passou vestindo a cor considerada um tabu. Red mais uma vez sorriu silenciosa.

A floresta a deixava pasma. Sempre parecia cada vez mais bonita. Os galhos pesavam com a neve acumulada, os pés afundavam no cobertor fofo que encobria todos os arbustos. As árvores pareciam mais baixas. Não havia pedras para chutar acidentalmente. Mas ela acabara esbarrando em algo ainda pior.

Os lenhadores vindos de fora. Homens sujos e desrespeitosos, nojentos e que achavam ter o direito de elogiar cada moça que passava por eles. Até mesmo as comprometidas. Três deles, no total. Era pior que ela estivesse sozinha. Mas seus instintos já diziam o que fazer.

Um deles se aproximou.

- Olá, gracinha. – ele se virou para os outros, que corresponderam o sorriso sujo com dentes ainda mais amarelos. – O que temos aqui, hein?

- Uma mocinha sozinha. – ele riu. Parecia ter algum problema na cabeça. Ou talvez o sotaque arrastado fosse apenas por ele estar bêbado.

Red os olhou com tédio e fúria. Sim, ela já sabia o que fazer. Sentiu a posição de cada um no ambiente. Distrair, atacar, deixar inconsciente ou sem movimento. Repassou a ordem algumas vezes na mente, enquanto os três riam entre frases.

- Que acharia de... – o primeiro esticou a mão na sua direção.

Ela sibilou baixinho, com a voz doce.

- Eu não tentaria nada, senhor.

O terceiro riu ainda mais alto.

- Ou o que, gracinha?

Ela levantou os olhos para ele. O sorriso se alargou, mas não chegou a mostrar os dentes.

A cena pareceu congelada por um momento. Então a moça se moveu primeiro. Pegou a lateral da capa, jogando-a em um halo para o alto. O movimento confundiu o mais próximo. Distrair, ela pensou. Quando o tecido baixou, o punho já estava preparado. Meteu-lhe um soco no nariz.

Atacar. Os outros dois não esperavam por isso. Estavam estancados. Ela teve tempo de puxar a saia um pouco para cima, ampliando o movimento das pernas. O pé direito encontrou o peito do homem, que bateu em uma árvore e caiu ali, desacordado. Deixar inconsciente.

Ela olhou de esguelha para os outros, que finalmente pensaram em contra-atacar. Abaixou-se quando um deles foi dar-lhe um murro. Era uma sorte que eles estivessem bêbados. Mas era quase tedioso lutar com eles.

Agachada, pegou um punhado de neve. Um deles estava um pouco além dela, atrás; e outro mais longe, perto de algo gelado. Uma árvore. Red lançou a neve no rosto do que estava atrás, pulando e apoiando um pé na árvore ao lado dele, voando mais alto que o corpo dele e assim enterrando a bota em seu rosto. O homem caiu.

Faltava um, o perto da árvore fria. Ele parecia hesitante, receoso em como ela pousara na neve perfeitamente. De qualquer jeito, moveu-se em sua direção. Entre os três, era o que estava mais tonto. Red ergueu o pé e deu-lhe um chute no peito. Ele caiu no chão, mas ainda estava acordado.

Segurando as golas de malha com uma mão, ergueu a outra e acabou logo com isso. Pelo menos os treinos haviam deixado seu soco firme o suficiente para o homem acabar com a cabeça pendendo para trás e o nariz sangrando. Ela o largou ali com nojo, abaixada com as mãos nos joelhos, respirando fundo.

E sentiu que havia mais alguém atrás dela. Será que um deles havia levantado? Esperou, na mesma posição, até que ele estivesse bem perto dela.

Virou-se rapidamente e deu-lhe outro murro na boca. Um grito masculino e baixo, entredentes, fez-se ouvir. Red já avançava para ele, mas o homem ergueu a mão, em sinal de rendição.

- Por favor, não estou com eles! – demorou mais um segundo para ela perceber que os três ainda estavam no chão. Não era um lenhador, era um jovem da cidade. Tinha o cabelo dourado, mas não dava para ver seus olhos, que ele mantinha fechados. Segurava a mandíbula com a mão.

Red continuou em silêncio. Tinha que sair dali. Deu um passo em falso, mas ele continuou falando.

- Eu vi o que estava acontecendo e vim para ajudar, mas... Parece que você não precisou de ajuda.

Ele abriu os olhos. Eram tão azuis quanto o céu.

Agora ele já a tinha visto. Não dava para fugir como anônima. Ele afastou a mão, e a boca estava cheia de sangue. Red tinha que sair dali agora.

- Eu sinto muito, muito mesmo; mas tenho que ir.

Ela hesitou entre erguer a mão em sua direção ou correr dali. Acabou concretizando a segunda opção. A capa inflou-se com o vento da corrida, criando uma imagem a ser lembrada na mente do jovem que ficou parado ali, pasmo, entre os três lenhadores inconscientes e com a boca pintada da cor da capa da moça.

***

Ela não parou de correr até não chegar ao altar, no meio da clareira. Era um amontoado de terra e então pedras lisas e coladas com algum material irreconhecível. Ficava acima da neve, apesar da altura da cobertura. No meio, uma estaca com uma corda na ponta, onde amarravam os animais. E, do outro lado do círculo, estava uma figura feminina.

Apesar do frio e do vento cortante, usava apenas um vestido que mostrava os ombros, com um decote ousado que ninguém se atreveria a usar ali. O tecido da roupa era escuro, frio e escorregadio, moldava sua silhueta curvilínea e proeminente. Caía no chão espalhado como uma capa, e parecia misturar-se com o gelo no chão.

- Ah, Ella. – Red suspirou ao ver a mulher conhecida. Mulher ou jovem? Era difícil saber sua idade. Deveria ter pelo menos vinte anos. Se a beleza de Red era selvagem, então a de Ella era feroz. Os olhos eram pintados cuidadosamente com tinta negra e a boca era vermelha naturalmente. Tinha sobrancelhas curvadas para baixo, que a deixavam assustadora e imponente, mas majestosa e linda. – Você não sabe o que acabou de me acontecer...

- Sei, sim, querida. – ela interrompeu. Ella tinha instintos muito mais avançados que Red; vivia dizendo coisas que supostamente iriam acontecer e, no final, aconteciam mesmo. Eram sensações e pensamentos que apareciam sem motivo, mas nos quais elas podiam confiar sem hesitar. Red ainda estava treinando; portanto Ella era quem dava a palavra final. A jovem confiava nela.

- E eu bati acidentalmente em um garoto que...

- O nome dele, suponho, é Daniel. Filho de comerciante, como todo mundo. Não tem problema ter acertado ele. Um lembrete por ser intrometido.

Red achou o comentário levemente maldoso.

- Ele é novo na cidade ou...

- Ele mora aqui desde que nasceu; como você, Red. Você só não deve tê-lo notado.

Red pensou que aquilo era verdade; nunca havia um jeito de negar Ella. Mas o garoto não era o mais importante. Havia mais coisa a se discutir.

Ela molhou os lábios, a fim de falar mais claramente.

- Ella, estou preocupada. Os moradores estão começando a questionar o porquê de entregar um animal para você, todo mês. Acham que a vila pertence a eles mesmos. Eles querem caçar você.

É claro que o som da frase fez Ella rir. Um som doce e cruel. A idéia dos aldeões irem atrás do Lobo para matá-lo era curiosa. Não podia ser descartada como se não fosse nada, mas Ella era mais poderosa que todos eles.

- E você veio aqui na luz do dia para me alertar? Que doce de sua parte, Red. E eu sei que você também está preocupada com sua própria segurança. É claro que quando descobrissem que a fera deles é uma mulher, iriam me torturar. Além de monstro, seria uma bruxa. E eu acabaria falando que você também é como eu. E você não quer ser caçada também, quer?

O jeito dela falar isso foi rascante. Ela fez beicinho como se Red fosse uma criança mimada. Mas ela só queria deixar sua família em segurança! Queria dizer que a decisão de mantê-la viva quando fora atacada não havia sido errada, e que ela não era uma ameaça, por isso treinava para se controlar.

- Não quero só me manter em segurança. Quero manter minha família em segurança. Quero manter você em segurança, Ella! Não fale comigo como se não me importasse com nada além de mim.

Ella juntou as sobrancelhas. Apesar de todos esses anos, ainda era difícil interpretar suas expressões como sentimentos.

- Red, é o Universo que não se importa. Sabe que é uma irmã para mim. – ela ergueu o braço ainda mais pálido que o de Red para tocar suas cicatrizes no braço esquerdo. No braço que ela erguera, havia marcas quase idênticas. – Algo está a ponto de mudar. Não podemos controlar isso. Guarde essas palavras.

- Ella, o que... O que quer dizer com isso?

Os olhos dela já estavam longe. Eles eram da cor de mel, brilhantes de tal modo que eram dourados. Combinava com o cabelo, que era tão claro que trazia tons de branco. E quando ela entrava nesse estado, ninguém a tirava. Red sabia que ela já havia a deixado ali.

- O que quer dizer? – sussurrou.

Ella olhava para a vila ao longe. Red seguiu seu olhar e, quando o voltou para onde Ella estava, a jovem já havia ido embora.

Notas finais
Comentem sobre o que acharam!! ;*