Noite de Caça
2 A Capa Vermelha
Notas iniciais
Red voltou decepcionada para a cidadela. Simplesmente odiava quando a outra fazia isso; sabia que havia um problema voltado para ela, como agora, quando a opção mais segura para Ella era fugir. Mas Ella não gostava de parecer fraca e ter algo fora de seu controle, então usava seus longos discursos de psicologias inversas para mostrar que Red é que não queria ser pega. E que, no fundo, sabia que Red pensara nessa saída como se ela também sair ilesa fosse apenas um privilégio a vir junto.
Porque Red realmente pensara isso em um momento do dia anterior.
Ela chutou um monte de neve furiosa com nada em específico. Então trombou em alguma coisa.
Quando olhou espantada para cima, percebeu que era alguém.
Realmente, quando Ella falava sobre o Universo tomando as decisões, ela falava sério. Red batera sem querer em Daniel. Ele parecia mais chocado que ela. Seus lábios tentaram formar alguma palavra, mas tudo o que pode murmurar foi:
– Você...?
Red não sabia se aquilo seria uma acusação ou uma dúvida. Respondeu, então, da maneira que fazia com todos.
Ela virou-se e correu.
Enquanto voava por entre os corpos abismados das pessoas, ela percebeu que não havia nenhum motivo real para fugir dele. Talvez, pensou uma pequena voz na sua cabeça, porque não era nada comum uma dama surrar três homens e nem começar a respirar mais forte.
Só achou um motivo verdadeiro quando viu que ele a perseguia entre o fluxo da rua.
Os olhos dela faiscaram, ferozes. Ele estava chegando mais perto, com um braço pronto para agarrar sua capa. Se a prendesse, ela não teria mais como correr. E mais, ela não podia simplesmente misturar-se à multidão; o manto chamava atenção demais.
Red apertou o passo. Chegaram à praça, um espaço mais livre para correr. Em uma linha reta, cortaram o círculo e entraram em outra rua principal. Os dedos de Daniel tentavam fechar o tecido vermelho que ondulava atrás da garota. No bote que ele iria agarrar finalmente o pano, ela puxou a capa para a frente.
Ele pestanejou em silêncio. Por alguma razão, Red sorriu.
Ela percebeu que ele tentava contorná-la para encurralá-la. O problema foi que Red percebeu isso quase tarde demais, e fez um movimento brusco para entrar em uma viela.
Sem saída.
Ela parou, xingando-se mentalmente. Daniel a alcançou um segundo depois, agarrando o braço dela e a virando em sua direção. O gesto não foi rude; tampouco foi suave.
– Por que está fugindo?
Ela devolveu a interrogação.
– E por que está me perseguindo?
O jovem pareceu confuso por um momento.
– Que história é essa, eu... Eu não estava te perseguindo.
– E eu não estava fugindo de você.
Red chutou-se internamente. Ela estava fugindo dele, era óbvio. De qualquer jeito, não podia responder a pergunta dele. Não sabia o porquê de fugir.
– Eu não estou me referindo só a agora. Eu vi você antes, também. Você derrubou aqueles caras em trinta segundos, e quase me derrubou também. Por que está fugindo?
Ela desviou-se da pergunta do modo mais sensato que conseguiu. Ergueu as sobrancelhas, como que desdenhando, e afinou a voz a um tom sereno.
– Uma dama não deveria demonstrar violência, e eu não queria que você me visse como...
– Como...?
– Como alguém rude. É isso. Agora eu... Dê-me licença.
Red forçou passagem pelo beco, tentando não tocar nele ao sair. Tentou não se importar com o olhar curioso do rapaz. De alguma forma, ela não queria que ele a visse como uma esquisita paranóica. Talvez fosse porque, em pelo menos uma vida inteira, um homem se dirigira a ela como uma pessoa.
Talvez porque alguém parecia curioso, e não espantado, com o fato de que ela lutava.
***
A garota encontrou a mãe indo para a praça, à noite. Sua irmã mais velha, Joan, estava enganchada em seu braço, e ambas andavam tranquilamente rua acima. Red chamou a atenção das duas, que pareciam estranhamente animadas, apesar de ser noite de sacrifício. Ella ganharia o animal de alguma família hoje à noite.
– O que aconteceu de bom hoje, querida? – a mãe dela sorriu, carinhosa como sempre. Com o outro braço livre aninhou o antebraço de Red e juntas, as três seguiram até o círculo da cidade.
– Nada de mais. – tentou soar casual, pois não diria em um milhão de anos que batera em três homens hoje. E que fugira de um garoto pela cidade hoje. E que casualmente avisara o Lobo que os cidadãos a queriam morta.
Joan assumiu a fala.
– O dia foi perfeito! Boas notícias. – ela mordeu o lábio, rindo sozinha.
Red sabia que algo importante acontecera. A mãe delas falou:
– O filho de Joseph, Isaiah, propôs o noivado a Joan. Fazia tempo que ele mostrava que estava interessado nela.
A irmã riu com ainda mais vontade.
– Ele é uma graça! Me entregou este anel e fez a proposta.
Red sorriu de volta. Eram mesmo boas notícias. Apesar disso, sentiu uma pontada de tristeza. Joan era um ano e meio mais velha que Red, e recebia cortejos a pelo menos três. Red sentia que, ali nesta cidade, não acharia um pretendente.
– Acho que já o vi. Alto e com olhos azuis, certo?
Joan fechou um pouco a cara.
– São cinza, mas é ele mesmo.
– E eles têm uma situação estável. – a mãe tomou a palavra. Parecia grosseiro se importar com quanto dinheiro eles tinham, mas era necessário o noivo poder sustentar sua futura esposa.
As duas outras assentiram, sem ter como responder a isso.
Por que o barulho era tanto no meio da praça que não havia como falar.
Gritos de todas as vozes eram lançados, revoltados por algo que um dos homens mais influentes na cidadela dissera. Seu nome, Red achava, era Christopher. Ele estava parado no pequeno palco no meio da praça, e parecia indefeso com todos aqueles gritos.
Outro homem subiu na madeira gelada e então fez a multidão se calar. Ao contrário de Christopher, parecia alimentado com a fúria dos cidadãos. Ele gritou com sua voz grave, para que todos pudessem ouvir:
– Por acaso alguém já viu o Lobo? Devemos obedecer alguém que não aparece há séculos?
Os cidadãos gritaram em aprovação.
– Devemos nos sacrificar para manter esta cidade em ordem e ter que entregar um pedaço desse sacrifício a cada mês para ele?
Mais gritos furiosos. A mãe delas as puxou para perto, sussurrando:
– Não quero que se envolvam na discussão, certo? Fiquem aqui, vou procurar seu pai. – assim, ela se foi no meio da multidão.
O discurso continuava à frente. Aquilo já se seguia a pelo menos duas semanas, e por isso Red fora avisar Ella sobre a situação que sem dúvida iria se seguir. A noite do próximo dia era a lua cheia, e então os moradores teriam que entregar um animal, mas se recusavam por teimarem que a aldeia era deles.
Ella, entretanto, sabia como fazer a ordem voltar ao lugar. Atacaria, por mais que discretamente, e eles parariam. Mas como, dessa vez, a discussão envolvia a cidade toda, Red temia que eles tentassem matar Ella em uma caçada feroz.
Era uma das poucas vezes que Red não sabia o que aconteceria em seguida. Estava terrivelmente preocupada com o que Ella dissera naquela manhã: algo estava a ponto de mudar, e não podiam controlar isso.
A gritaria continuava no palco:
– Devemos lutar! Devemos permanecer bravos! Vamos parar essa fera!
Mulheres e homens, velhos e crianças incentivavam o furor com berros e incitações e palavras furiosas.
O padre colocou-se na frente do grupo, acanhado e tenso.
– Não gosto do Lobo tanto quanto não gosto dessa confusão, mas creio que essas ações podem trazer conseqüências terríveis! Pensem antes de pôr essas pessoas inocentes em perigo.
O homem que subira, cujo nome Red desconhecia, olhou-o como se fosse um tolo.
– Estamos nos pondo em perigo obedecendo a um monstro, padre. Não creio que haja algo pior que isso. – ele virou-se para a comoção: — Este mês não daremos nada ao Lobo! Veremos se ele sabe caçar por ele mesmo.
O pessoal parecia não querer parar com a euforia. Red não conseguia parar de pensar em como Ella agira. Ela vivia falando sobre o Universo, algum tipo de força que falava a ela – de certo modo – sobre o futuro. Talvez por isso ela fosse tão mística e enigmática.
Longe do centro da confusão, uma figura estava parada junto a uma parede. Usando uma capa para esconder o rosto, Ella permanecia silenciosa e imaculada. Um pequeno sorriso cruzava seu rosto pálido e não-iluminado. Aparentemente, seu humor era alimentado pelo caos. Talvez porque soubesse o que aconteceria em seguida. De todas as centenas de anos que vivera, aquele seria o ato mais fora do comum que ela se atreveria a fazer.
Ella sabia que Red sentia sua presença lá de onde estava. Apenas um segundo a mais olhando para a parte de trás de sua cabeça e ela saberia que Ella estava ali. Permaneceu exatamente o tempo que lhe era suficiente e, quando as pessoas começavam a se dispersar, Red foi a única a olhar preocupada para o canto onde a neve derretera. Onde o solo estava queimado e as marcas de garras de Ella pareciam fundas até mesmo para o outro Lobo.
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