Noite de Caça
5 Terceira Parte - O Disfarce
Notas iniciais
Red acordou com um mau pressentimento.
Quando ela os sentia, sabia que havia algo de errado. Era como o Universo se comunicando com Ella; porém, com Red, era mais fraco. Apenas sensações. Ella já lhe dissera que via imagens, sentia cheiros, emoções e via as coisas como se estivesse em outros corpos.
A garota observou a casa de visão privilegiada do mezanino onde ficavam as camas. Era como um contorno superior sobre o piso quadrado e pequeno da casa, para usar todo o espaço do melhor jeito.
Red não sabia bem o que pensar sobre a noite passada. Suas opiniões conflitavam entre felicidade e raiva. Ela olhou a casa sem entusiasmo. Tudo parecia no seu lugar. Os poucos móveis, a mesa velha e corroída, baldes de metal.
Só faltava uma coisa.
Onde estava o barulho dos animais? O cacarejo e os suaves balidos? E o canto dos pássaros?
Red sentia o ar metalizado e imaculado quando foi para fora e finalmente percebeu que toda a sua família estava na varanda, horrorizada. E, aparentemente, todas as pessoas do vilarejo também estavam.
Todos os animais da cidade estavam mortos no chão. Despedaçados, abertos, espalhados. A neve era uma mancha vermelha, riscada de sangue. Esse era o ar metalizado que não queria desgrudar-se dos pulmões de todos.
As cabras da família estavam mortas. As galinhas dos vizinhos também. Os cavalos dos guardas estavam caídos. Os pássaros que voavam na hora do ataque pareciam ter caído em pleno vôo. Red achou até mesmo uma borboleta dividida ao meio, ao lado de seu pé.
As preocupações da noite anterior pareciam obsoletas diante da grandiosidade da cena. Da imensidão da crueldade de quem fizera isso.
Ella fora longe demais. Red achava que aquilo era um tipo de mensagem, entretanto: se o Lobo não sobrevive por causa dos cidadãos, então os cidadãos não sobreviverão por causa do Lobo.
Red estava horrorizada. Pior, estava enojada. E raivosa, também. Não sabia até onde Ella levaria essa briga.
Foi descobrir só depois, na taberna: uma reunião era feita às pressas.
No caminho até a taberna da cidade, Red só conseguia sentir o ar estatizado, parado naquela altura que sufocava os pulmões das pessoas horrorizadas.
Algumas mulheres agarravam-se às filhas, levando-as junto a seus corpos para que não tropeçassem, já que estavam de olhos fechados.
Red não se importava de ver os animais abertos. Ela nem mesmo evitava aproximar os pés das vísceras, por isso acabava pisando em algumas. Ela só conseguia manter o rosto o mais mortificado que conseguia, andando séria.
Onde Ella estava com a cabeça?! Então essa era sua vingança. Era o que estava planejando. Esperar até que eles festejassem a sua vitória, e então estragar o sabor dela. Estragar tudo.
Quando Red estava na porta do lugar, teve um pensamento incoerente.
Se os todos os animais estavam mortos, o que dariam em oferta para o Lobo?
O barulho dentro do local era tão descontrolado e alto que ela não pode terminar o pensamento.
A taberna estava cheia. O ambiente rude e escuro, que cheirava a bebidas, estava lotado. Todos os moradores que puderam entrar estavam lá. Haviam crianças nas vigas do teto, espiando do alto. As mesas estavam ocupadas. As cadeiras, organizadas para ficarem viradas em direção ao balcão principal. Todo metro era preenchido com pessoas assustadas.
O mesmo homem que subira no palco, no outro dia, assumiu a posição da frente. Acima do balcão, ele gritou para que se silenciassem.
Um murmurinho continuava, mas ao menos ele podia ser escutado.
– Não entrem em pânico, está tudo bem!
A agitação virou uma guerra. Uma mulher gritou acima de todos:
– Você deu essa idéia! A CULPA É SUA!
Os outros concordaram, revoltados. Vários deles avançaram na direção da mesa, mas o padre pôs-se em sua frente e os parou.
– Chega! Não podemos culpar uns aos outros! – o resto ficou em silêncio, de repente. O padre era a voz da razão dos cidadãos, e apesar da aparência frágil, podia fazer as palavras valerem por atos. – Não temos como sobreviver sem os animais, e não podemos plantar por causa da neve.
O pessoal olhava de um a outro, esperando que talvez alguém tivesse uma resposta mais coerente para esse problema. Ninguém tinha.
– Mas não devemos entrar em pânico por causa disso! É o que a besta quer!
Red pensou em concretizar o pensamento que tivera antes. Sua família podia ter medo de se sobressair, mas ela não se importava com o que pensavam dela. Não podia ser pior do que já pensavam.
Ela encontrou a voz, que começou rouca, mas que ficou alta após o silêncio:
– Se não temos animais para nossa sobrevivência, então o que daremos ao Lobo nessa lua cheia?
Todos estavam em silêncio. A pergunta pesava em suas mentes, por que, aparentemente, ninguém mais pensara nela. Antes que respondessem ou reagissem, entretanto, um som vindo da porta fez todos se virarem naquela direção.
Um sopro de neve rolava para dentro, junto com uma mulher desconhecida.
O coração de Red ficou apertado, mas aquela não era Ella. Era uma velha com roupas surradas, sem nenhum xale para protegê-la do frio. Apesar das dificuldades que tinha para entrar na sala, nenhum dos moradores se moveu para ajudá-la. Não confiavam em estranhos. Não em uma hora como essa.
– A jovem têm razão, amigos. Conheço bem essas criaturas.
Ela falava como se todos ali já estivessem na conversa o tempo todo. A multidão abriu uma exata linha para que ela passasse.
O padre parecia desconfiado.
– E quem é a senhora?
Ela riu baixo, um som tossido.
– E quem são vocês? Jovenzinhos assustados e inconseqüentes, é o que eu diria. Também já pertenci a uma aldeia antes. Antes de todos morrerem.
Agora nem mesmo o padre respirava mais alto que um suspiro. A história contada de um modo curto, mas inebriante, deixou todos estancados.
– Também queríamos nos livrar do nosso monstro. Então fizemos a mesma coisa. Nos revoltamos.
Aquela pausa foi o momento mais tenso da manhã. A velha girou, tentando capturar o olhar de todos na sala.
– Mas o nosso Lobo não fez isso. Não queríamos dar algo a ele, então ele pegou algo. Ele pegou um de nós.
As respirações foram trancadas. A velha parou um momento para tossir.
– Ele pegará um de vocês, assim como o nosso Lobo. O próximo sacrifício não poderá ser evitado.
Então Red finalmente notou algo na voz dela. No final da última sentença, a voz falhou e pareceu soar mais jovem. Fina e contida.
Ela foi a única a suspirar, e a idosa a olhou curiosa. Antes de se virar e andar para fora, ela fez algo com seus olhos. Eles ficaram dourados.
Não era uma velha cigana.
Era Ella.
Red não podia protestar, ou estaria perdida. Então ficou apenas a olhando ali, vestida de idosa, indo embora das garras de quem a queria morta. Alguns homens a seguiram para fora, receosos, e voltaram poucos segundos depois.
– Ela sumiu.
Red não suportou mais. Pulou de cima da mesa que ela usava como banco e correu para fora. O movimento lá dentro era tão intenso que ninguém notou sua fuga.
Do lado de fora, calmaria. Se ignorasse a neve cheia de sangue e o barulho da taberna, parecia um dia normal. O poço continuava ali, as casas também. A igreja e os armazéns, o celeiro, as torres. Tudo era igual, mas sua percepção estava completamente diferente.
O mundo era uma coisa horrível.
Red fechou os olhos, tentando localizar Ella. Novamente, a madeira era prata, o solo negro e as pessoas, vermelhas; de modo que a taberna parecia um forno e as casas, jóias de metal. E a mulher escondida entre tábuas no armazém parecia uma chama azul.
A garota correu para lá com todo o seu fogo, concentrando-se para manter a imagem do fogo azul à sua frente.
Red irrompeu no espaço forrado de caixas e feno com a respiração formando uma nuvem perto de sua boca aberta.
– Ella? – não se importava de gritar o nome em voz alta. Não mais. – Ella! Vi você vindo para cá! Apareça!
Nenhuma resposta. O teto alto, feito de carvalho e sustentado por várias vigas, parecia um caleidoscópio de madeira. A jovem subiu até o segundo andar, querendo ver o ambiente de cima. Mais longe, mais visão, pensou.
Quando chegou lá em cima não achou o que queria. Haviam camas dispostas no escuro, e trabalhadores se espreguiçavam lá.
Não eram da cidade, senão estariam mais preocupados com o ataque. Também não eram trabalhadores comuns. Eram lenhadores.
Os mesmos que Red atacara na floresta.
Ela recuou um passo, tentando sair sem ser vista. Demorou apenas alguns segundos para dois dos três lenhadores reconhecerem a cor da sua capa.
Haviam sete agora. E eles não estavam bêbados. Outra desvantagem.
Ela choramingou baixinho.
– Ora, ora; parece que fomos premiados. – ela o reconheceu como o que falara com ela primeiro, dias atrás. Era o maior dos três naquele dia, porém, agora era um dos mais baixos. Os outros já se levantavam.
Na floresta, os homens tinham apenas um brilho de quem queria uma garotinha para incomodar. Agora, seus olhos eram selvagens.
Ela tomou coragem para revidar.
– Desculpe, senhores. Não quero ser oportuna numa hora dessas, não é? Acho melhor eu ir.
Dois deles alcançaram a escada antes dela. Fecharam um círculo.
– Para que a pressa, gracinha? – trazia um tom divertido na voz, mas escondia um sussurro feroz. Ele agarrou o braço dela.
Desvantagem, Red pensou. Apenas os deixe mais lentos. Se conseguir tempo suficiente para escapar, não precisa deixá-los tão feridos.
Ele a puxou um pouco mais perto, e os outros riam, maliciosos. Ela tinha que entrar em ação.
Apoiou-se no balaústre que circundava o mezanino do segundo andar, puxando o homem a força. Sentada, ela chutou o peito de outros dois. Eles apenas cambalearam para trás.
O que segurava seu braço já esperava por algo do gênero, por isso abraçou-a, tentando conter seus braços.
Outro deles ajudou do outro lado, e tentou fechar a braço ao redor de seu pescoço.
Red começou a entrar em pânico. Estavam dominando-a.
– Calminha, graça. Não vá se machucar.
Eles riram. Red pensou em gritar, mas quando abriu a boca, um deles tapou-a.
Ela se contorcia em seus braços, mas era uma luta perdida. Não acreditava que desistira tão rápido!
Uma voz do outro lado fez todos se virarem.
– A soltem, cavalheiros. Não vamos fazer disso um incômodo para vocês. – Daniel parecia tenso, parado com os braços ao lado do corpo.
Red soltou um suspiro sufocado. Mesmo depois do que acontecera na noite passada, ele estava ali, tentando salvá-la.
Os cinco homens que não estavam a segurando se viraram para o garoto.
– Fique fora disso, criança. Ou vamos te machucar também.
Era uma ameaça vazia, mas Daniel sabia o que fazer.
Ele ergueu as sobrancelhas.
– Ah, é?
Um deles rosnou com o desdenho do jovem. Os dois da frente avançaram nele.
Daniel também tinha alguns truques a seu favor. Desviou do que corria na frente um segundo antes de atingi-lo, segurou suas roupas e encaminhou seu corpo escada abaixo. Ou andar abaixo.
Girando, repeliu o golpe do segundo lenhador e acertou-lhe um soco no olho. Este caiu no chão e ficou ali.
Um dos homens resmungou:
– Todos nessa cidade sabem lutar?
Red sentiu que as mãos de um dos que a seguravam afrouxou um pouco.
Ela se jogou naquela direção, caindo no chão com nenhuma suavidade.
Os dois que a seguravam começaram a se inclinar em sua direção, mas ela deslizou fora de seu alcance.
Red teve que usar o que estava a sua disposição para sair daquela situação. Rodou no chão com o pé esticado, chutando suas canelas e os joelhos com toda a força e derrubando três deles. Daniel havia acabado com mais dois.
Ela correu de encontro ao jovem, que já a esperava para fugirem dali. Red então sentiu o ar saindo de seus pulmões. Seu pescoço foi fechado com violência, e ela foi puxada para trás.
Só quando estava no chão percebeu que um dos homens havia puxado sua capa a fim de impedir sua fuga. Seus olhos eram feitos de cólera.
Um deles se dirigiu a Daniel, imobilizando-o e o jogando escada abaixo. Ouviu-se um baque e um gemido baixo, junto com algumas blasfêmias. Pelo menos não parecia machucado.
Outro dos lenhadores agarrou Red pelos cabelos, erguendo-a do piso e se voltando para a balaustrada.
Ela se remexeu, mas outro agarrou seus braços. Red sabia o que aconteceria em seguida. Seria jogada de lá, no lado onde o chão não tinha feno. Seria lançada para a morte.
Ela tentou dificultar o lançamento dos homens apoiando os pés na grade, forçando-se para trás.
Um dos homens deu uma joelhada em suas pernas, que se soltaram.
– Adeus, gracinha. – vociferou um deles, perto demais de seu ouvido. Ela virou o rosto com velocidade e cuspiu em seu rosto.
Com um rosnado, eles impulsionaram o leve corpo da garota por cima da cerca e deixaram-na ir.
A sensação daquele vôo foi assustadora. No primeiro segundo, ela sentiu-se leve, ainda em contato com as mãos deles, e por isso os tecidos de suas roupas forçavam-na para cima. Ela sentia que sairia voando dali.
Então Red começou a cair.
Parecia uma queda lenta, com sua capa inflando-se abaixo dela, criando uma bolha enorme e vermelha atrás de seus braços. Finalmente seu tronco inclinou-se para trás, e o estômago para cima. Seus olhos se viraram nas órbitas, e ela sentiu-se tonta.
Aqueles dois segundos de queda foram os mais terríveis de sua vida. Ela sentiu-se próxima do chão, e então fechou os olhos, esperando o choque.
Ela sentiu apenas um amortecimento.
Red abriu os olhos devagar, arfando ao descobrir que estava viva. Ela continuava longe do chão. Red sentiu que algo cambaleou, e percebeu que fora seu salvador.
Daniel a segurava entre os braços. Aninhada, ela tremia da cabeça aos pés. Ele mantinha os braços firmes, mas suas pernas estavam bambas por ele ter parado a garota em plena queda.
Enquanto se olhavam pasmos, Daniel decidiu que eles tinham que sair dali. Logo os lenhadores olhariam para baixo e não gostariam da visão que se desenrolara.
Daniel correu pela porta dos fundos, onde os becos entre as casas faziam um espaço para armazenamento de produtos. Haviam caixas e pilhas enormes de feno. Ele só parou de correr quando chegou à outra extremidade do espaço, onde ambos ficavam ocultos pelas caixas e pelas portas abertas do celeiro.
Ela queria sair do abraço dele, mas suas mãos não afrouxavam. Daniel a repousou sobre o feno, respirando fundo. Abaixado a sua frente, continuou a apertando contra seu peito até mesmo quando ela estava sentada.
– Pode me explicar o que foi que acabou de acontecer ali?
Ele estava eufórico, mas não esperava uma resposta. Red só pensava que queria sair do aperto dele, contudo não havia nenhuma brecha para escapar.
Após mais alguns segundos de respirações pesadas, Daniel ergueu a cabeça para nivelar seus olhos nos dela.
– Sinto muito pelo que aconteceu ontem. Não foi minha intenção... Sabe, te deixar mal.
– Mas você estava tentando tirar informações de mim, não estava?
Ele abaixou a cabeça, mexendo a boca como se falasse algo para si próprio. Por fim, erguendo o rosto, Red viu que seus olhos eram penosos.
– Você sempre foi uma pessoa que me deixou intrigado. Até antes de você me bater. – incrivelmente, ele esboçou um sorriso. – Queria saber mais sobre você.
Ela sentiu como se tivesse tomado um tapa no rosto.
– Você queria saber mais sobre meu lado aberração. Deve saber muito bem que ninguém chega perto de mim. Não sem um propósito claro.
Não perto o suficiente para que eu me pareça com uma pessoa, pensou ela.
Agora foi Daniel que sentiu o tapa. Seu maxilar se tensionou, ele engoliu com dificuldade.
– Eu... Desculpe-me.
Era tudo que ele tinha a dizer? Red riu sarcasticamente em seu interior. Só quando a histeria do momento passou ela sentiu-se culpada. Ele era tão bom para ela, por que não deveria aceitar suas desculpas?
Red começou com a voz mais baixa que um sussurro.
– Eu... Devo aceitar suas desculpas, mas nunca, nunca fale sobre essas cicatrizes novamente. Nunca mais me faça sentir-me uma aberração.
Daniel assentiu. Ele deu um sorriso levemente malicioso, os olhos brilhando.
– Posso tratá-la como a rainha, se quiser.
Ela pôs ambas as mãos em seu peito e o afastou dela, devagar.
– Ser apenas uma garota comum está bom para mim, certo?
Daniel finalmente percebeu que deveria dar-lhe espaço. Erguendo-se do chão lentamente, ajudou-a a se levantar pela mão. Manteve seus dedos apertando os dela por mais um momento antes de ver se tinha alguém na porta do armazém.
– Vá primeiro. Se alguém aparecer, eu o paro antes que chegue até você.
Ele saiu de trás das caixas, cavalheiro até o fim. Red corou antes de correr para um dos becos que dava para a rua, grata por ter Daniel do seu lado.
Ao sumir de sua capa, Daniel moveu-se com cuidado para fora, mais uma vez pensando em Red.
Ela era ingênua, mas forte. Sabia manter-se distante, mas não conseguia erguer uma barreira quando falava com ele. Daniel sentia que ela era mais frágil do que aparentava, pois com ele a garota era estranhamente sensível.
O toque de suas mãos em seu peito continuou ali por mais uma hora.
Ele nunca a veria como uma aberração, mesmo que quisesse.
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