Notas iniciais
Então, mil desculpas por não ter postado nesses últimos dois domingos, mas eu estou tentando acompanhar o ritmo que eu escrevo. (É difícil manter os capítulos adiantados!) Enfim, espero que gostem desse cap., foi um dos que mais gostei de escrever. ;)

Red irrompeu na clareira, com o sangue fervilhando nos extremos de seu ser. Já faziam quatro dias que os animais haviam sido mortos, e os moradores começaram a sentir mais fome que o habitual.

Dentro de mais alguns dias comendo nada além de algumas frutas e pães, começariam a morrer. A carne dos bichos criados era o sustento das pessoas.

Ella tirara isso deles.

– Ella! Apareça! SE TIVER CORAGEM, APAREÇA PARA MIM!

O silêncio que se seguiu foi o entendimento de Red.

Ella não apareceria, não se Red ficasse ali gritando pela floresta. Sabia que o risco de alguém ouvi-la em sua cólera era maior que sua vontade de aparecer para ela.

Red chutou um monte de neve, fazendo-a voar pelos ares. Ela sentou-se nas pedras do altar, passando o dedo pelo sangue seco e impregnado dos animais que já haviam sido ali sacrificados.

Ela lembrou-se de algo terrível.

Alguém seria levado.

Lentamente, Red fez uma promessa para si mesma. Não deixaria que Ella tirasse algo mais daquela cidade. Red era a irmã de alma de Ella, mas seu sangue pertencia àquelas pessoas.

Ela teve um pensamento incoerente seguido do outro. Por que eram irmãs de alma mesmo? Por que Ella atacara Red quando ela era criança?

Ela pensou em outra coisa.

Fora mesmo sua culpa ter ido de encontro ao Lobo quando tinha sete anos?

Ou fora Ella que sugerira isso?

Vendo para trás, Red não se lembrava de um momento sequer que sua opinião não tivesse sido sugerida por Ella. Desde sua infância, ela fora ensinada, modificada e colocada nos eixos que Ella queria. Nenhum momento de sua vida tivera a ausência da mulher.

Ela sentia-se eufórica e agitada. Perdera mesmo sua vida toda dando ouvidos a uma louca que agora queria matar sua família? Mesmo aqueles que cochichavam quando ela passava... Mas aquilo também não fora culpa de Ella?

Se Red não tivesse virado Lobo, ela seria uma garota normal, teria os rapazes que quisesse, teria uma vida normal. Não precisaria vir ali, até o altar do Lobo, toda vez que tivesse um problema.

Ela comprimiu os dentes, querendo gritar de raiva.

Ela não o fez.

Em vez disso, criou outra promessa. Mais pessoal, desta vez. Ela falaria com Ella, não importa o que acontecesse. E seria antes da lua cheia.

Red teve que usar um recurso que ambas não usavam há tempos. Ela pegou a faca que trouxera na bota – para o caso de uma briga feia – e, na estaca do altar, fez o sinal de sete pequenas flechas. Uma para cada dia. Acima, o símbolo de uma lua crescente. Em uma semana, queria ver Ella, de preferência à noite.

Ela saiu de lá sem olhar para trás, irritada com tudo à sua volta.

Red ainda pisava forte no chão quando passou pelos portões do muro de toras da cidadela.

A neve já fora limpa, mas ainda havia alguns vestígios de vermelho no solo. Ela tentou não olhar para aquelas marcas, cujos riscos a faziam lembrar-se de suas cicatrizes.

A garota teria que trabalhar novamente. Agora que sabia o que estava acontecendo, ela sentia-se eufórica dentro da sala de teto baixo que era a loja de Dulcy, a mulher do alfaiate.

As casas que se aproximavam do centro tinham palafitas mais baixas, até sumirem e deixarem os andares de baixo quase encobertos pela neve. A casa de Dulcy – que mantinha a loja no andar abaixo – era um lugar frio, mas aconchegante, que apareceu em seus olhos depois de alguns minutos de caminhada.

Estando prestes a entrar pela porta, Red viu duas mulheres cochichando. Não seria uma surpresa se fosse sobre ela que estavam falando, mas dessa vez ela captou uma frase vacilante:

– Começo a achar que algo do que está acontecendo tem a ver com ela. – instantaneamente, Red parou com a mão sobre a maçaneta, congelada. Virou-se devagar para as mulheres e as encarou incrédula.

Red ficou entre responder ou apenas entrar e começar a trabalhar logo. Em circunstâncias normais, ela o teria feito. Mas o problema era que, mesmo que não soubesse, aquela mulher chutara na opção certa. Tinha a ver com Red. Uma suspeita nesse ponto em que as coisas corriam podia significar fogueira para a garota.

Red sabia o que Ella diria.

Elimine-a sem deixar suspeitas. Acabe com o problema. Entretanto, Red se recusava a dar ouvidos para ela mais uma vez.

Então, respondeu com a voz alta o suficiente para ser ouvida apenas pelas duas:

– Não estou passando menos fome que vocês, senhoras. – a frase era cautelosa, mas carregada de veneno. Em um tom em que Red era a única que percebia, é claro.

Uma das mulheres, ruiva e que usava um xale, se mexeu desconfortável.

– Você não está ficando mais magra. Suas bochechas ainda estão coradas.

Era uma verdade inegável. Mas só porque Red saíra para caçar pássaros, por menores que fossem, na Floresta Negra. A quilômetros dali. À noite. E ela não tinha nojo de um pássaro morto e cru. Com certeza aquelas senhoras tinham.

Como Red não respondeu nada, a outra das mulheres murmurou:

– Sabia que tinha algo de estranho nela.

– “Ela” ainda pode te ouvir.

Ela pareceu ofendida. Era óbvio, nenhuma jovem de dezessete anos falaria algo assim para uma mulher de cinquenta. Mas Red não exatamente se importava com o que elas pensavam.

– Você nunca foi como as outras garotas. Não parece pertencer a esse lugar.

– Nunca me trataram como as outras garotas! Alguma vez já falaram assim com a sua vizinha, ou com sua sobrinha? Já disseram para elas que elas são deslocadas?

– Minha sobrinha não tem cicatrizes feitas pelo Lobo.

Red sentiu o chão deslocando-se abaixo de seus pés. Então percebeu que ela estava andando às cegas, para a direção delas. Aquela era a acusação mais infame e terrível que já haviam feito dela.

Mas o que ela estava fazendo mesmo? Iria agredir as mulheres? Encará-las de perto até que retirassem o que tinham dito?

Os passos que Red avançava eram distanciados pelas mulheres. Mesmo com aquele início de correria, elas não tiravam os olhos de Red.

Então a garota parou. As duas, surpresas, estancaram também, agarradas uma à outra.

Red abriu a boca, tentando dizer algo, mas tudo o que saiu foi um gemido. Seu lábio inferior tremeu. Uma lágrima silenciosa escorreu por sua bochecha.

Não tinha mais importância saber o que as mulheres diriam à suas comadres depois dessa conversa. Se aquilo chegaria aos ouvidos de alguém importante, se iriam acusá-la de algo insano.

Aquelas palavras magoaram Red. Houve um soluço leve, então mais outro. Lágrimas se esvaiam mostrando tudo pelo que ela passara – a exclusão da vila, a pressão de Ella, a pena que seus pais sentiam por ela, as dores de toda sua vida se sobrepunham.

As senhoras nem mesmo demonstraram querer se desculpar pelo que haviam feito. Entretanto, Red não queria as desculpas dela. Ela se virou, quase nem vendo a fechadura diante de seus olhos embaçados.

Depois que entrou, despencou em um monte inútil e diminuto de mágoas, deixando-se ali sem pensar em nada.

Da porta de outra loja da rua, Daniel franziu a testa para a cena. Com uma virada rápida, informou ao dono que voltaria logo.

Ele correu de encontro à loja do alfaiate, e as senhoras que ainda estavam ali pareceram surpresas em vê-lo entrar sem nem hesitar.

Daniel percorreu os olhos no ambiente escuro, procurando por Red. Acabou achando-a sobre uma pilha de lãs que não estavam costuradas a nada, formando pequenas colchas de tecido. Ela soluçava baixinho, envolta em sua capa enorme e que a protegia do frio do recinto.

– Red? – arriscou chamá-la. Ela se virou para ele, e seu rosto se iluminou de um jeito que Daniel nunca vira um rosto se iluminar ao olhar para ele. Parecia que todas as esperanças daquela garota se depositaram nele naquele momento.

Ela apertou as mãos, e então as estendeu em sua direção como uma criancinha suplicante. O coração de Daniel pareceu se quebrar.

Ele se ajoelhou e a tomou em seus braços, apertando-a forte. Os dedos dela se prenderam na malha das costas de seu blusão, como se aquele abraço fosse a âncora que não a deixaria afundar.

Depois de alguns segundos assim, ela fungou várias vezes, tentando se recuperar.

– C-Como... Como soube?

Daniel deu um leve sorriso.

– Trabalho do outro lado da rua, sabia?

Ela juntou as sobrancelhas levemente. Não disse nada.

– Então, quase todo dia, eu via você chegando. E indo embora, às vezes. Eu sou entregador, então passo várias vezes aqui na frente.

Ela sentiu uma pontada de entendimento.

– Era por isso que eu te intrigava? Você me via?

Ele deu o mínimo dos sorrisos.

– Você ainda me intriga. – ele não pode evitar, mas quase se imaginou beijando-a ali, naquele momento. Afastou a imagem como se afasta uma mosca. – E sabe por quê? Porque você é a garota mais forte que já conheci – ele fez uma pausa. – Mas está chorando.

Red olhou para baixo, tentando decidir o quanto deveria falar. Falou tudo.

– Aquelas duas mulheres, elas... – limpou o nariz com as costas da mão, rapidamente. – elas disseram que eu não pertenço a esse lugar. Que eu não sou como as outras. Por que as outras não têm cicatrizes horríveis como as minhas.

Daniel deu um suspiro quase inaudível. Novamente aquelas cicatrizes. Era por isso que a tinham feito chorar?

– Não as escute. Elas não sabem nada sobre você.

Ele tentou secar uma nova lágrima que caía, mas ela lhe afastou a mão.

– Nem você sabe. – ela pesou as próximas palavras por tanto tempo que achou que nem as diria. Mas disse. – Elas disseram que essas cicatrizes foram feitas pelo Lobo.

Cautelosa, mas quase abruptamente, Daniel ergueu a cabeça. Seus lábios estavam separados, por que a menção do Lobo já se tornara um tabu. E, mais profundamente ainda, era isso que ele pensara logo que a conhecera. Antes, ele só queria saber mais sobre ela. Agora pensava nela como... Algo mais especial que isso. Só que aquelas palavras o fizeram duvidar de novo.

Ele puxou o rosto dela para perto, segurando-o dentro de suas mãos. O toque no rosto dela espalhou uma sensação calorosa por seus dedos. Apesar de sua mente gritar algumas coisas bem duvidosas, ele queria tratá-la com afeto. Ele tocou a testa dela com a sua, e esperou a quentura de seu corpo se alastrar para o dela.

– Nunca, jamais, escute o que essas velhas disserem sobre você. – ele olhava para os lábios dela, carnudos e rosados, e os olhos dela traziam uma fúria lacrimosa que olhava para ele. – Elas não sabem o que dizem.

Então, foi como se uma chave fizesse o clique que destrancava uma porta. Daniel puxou-a para si, e ali eles ficaram. Os lábios dele eram cheios, macios, cálidos. Ela achou conforto neles.

Devagar, ele passou os dedos pelos cabelos dela, sentindo toda a sua extensão. Ela acariciou seu rosto, áspero pela barba que começava a crescer novamente.

Durante segundos que pareciam uma eternidade, Red estava inebriada e imersa em seu próprio mundo recém-criado. Ele era pequeno, aquecido, e não tinha nada de ruim que este mundo tinha. Nada de criaturas sobrenaturais. Nada de velhas fofoqueiras. Só aquele beijo, e aquelas lãs abaixo deles, e a longa capa vermelha que se amontoava ao redor, formando uma proteção contra o frio lá fora.

Notas finais
Por favor, não se desapontem se eu não postar todo domingo, porque estou começando a escrever outra história também (e acabo deixando essa meio de lado). Até semana que vem, então! ;*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.