Noite

34 É Claro que não pode Fugir


Notas iniciais
Feliz natal, pessoal!!!! (até msm p/ os fantasmas... kkk) =) P.S.: Como sempre, muito obrigada, Eddy!

_12 de Fevereiro_

Minha mãe me abraçou forte e achei que não fosse mais me soltar.

— Vou fazer você arrumar seu quarto quando voltar — ouvi o riso em sua voz. — Tome cuidado — ela disse, por fim, enchendo o meu rosto de batom com os seus beijos brincalhões.

— Ai, mãe!

Ela sorriu e piscou para mim.

— Mari, não vai deixar esse menino entrar, não? — tia Lídia questionou do banco de trás do carro, enquanto tentava fazer Luan parar de dar nó no seu cabelo. — Não pode soltar o cinto — ela voltou a repreender Caíque, que se contorcia de um jeito estranho, a fim de se desvencilhar do cinto de segurança para que suas tentativas, de içar seu pequeno corpo para fora do carro, dessem certo.

— Tchau, mãe — disse pela milésima vez. — Sim, vou ligar assim que chegar em Juiz de Fora e depois em BH — afirmei com convicção antes que eu fosse obrigado a refazer a promessa pela milésima vez.

— Pare de zombar, Júnior! — ela cruzou os braços. — Nós nos preocupamos, está bem?

Sorri e acenei, passando os olhos rapidamente pela janela do laboratório no andar de cima da pousada. Sabia o quanto minha mãe desaprovava o fato de meu pai ter se enfurnado na pequena sala fria por mais uma noite após o expediente de trabalho no hospital, ainda que tentasse não demonstrar. Também era óbvio que era mais que isso, os dois andavam estranhos ultimamente. O afeto mútuo continuava o mesmo, mas... Meu pai obcecava-se cada vez mais com o trabalho, e minha mãe parecia distante — muitas vezes, desprovida da vivacidade que parecia ser o centro de sua personalidade desde que me lembrava.

A vi acompanhar o meu olhar e entender o que se passava pela minha cabeça. Dei de ombros, e seu sorriso pareceu desanimado quando se despediu:

— Sentiremos saudades.

Abri a porta do carro e sentei-me na frente, ao lado do tio Leo, que logo me mandou colocar o sinto de segurança.

De resto, não tem muito mais o que dizer. A viagem foi chata como geralmente as viagens são. Depois de abandonar as casinhas charmosas e as ruas de pedra de Martina, ficamos um tempo seguindo por uma rodovia ladeada pela mata Atlântica até que ela resolveu dar vez aos campos de gado ou plantações de batata.

Tenho que admitir que quase tive uma crise de pânico quando percebi que estávamos, tipo, oficialmente, fora de Martina. Um nervosismo absurdo me invadiu e eu, sinceramente, pensei em abrir a porta do carro e pular para fora. Soa completamente sem noção, mas não achei isso quando aquela sensação claustrofóbica foi tornando-se mais forte. Olhei para meu tio e vi que ele não tinha reparado em nada que não se relacionasse com placas de trânsito. Respirei fundo, cravando as unhas no banco do carro como se estivesse me segurando para não gritar em uma montanha russa e trinquei os dentes.

É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir. É claro que não pode fugir..., a voz do Wagner parecia chiar e ecoar dentro da minha cabeça, me deixando tonto.

Achei que duraria para sempre (é, como se isso fosse mesmo possível), mas, conforme parte de mim mostrava-se mais do que convicta de que ainda tinha muitas coisas a fazer em Martina, fui me acalmando frente a uma certeza minha. Eu voltaria, não por causa da porcaria que Wagner havia enfiado na minha cabeça. Não. Eu voltaria por mim e por todas as partes que Martina tinha passado a representar em quem eu era. Talvez a Melinda estivesse certa até certo ponto, não soube dizer muito a respeito. Mas de uma coisa eu sabia, era uma droga ser quem fica.

Dormi um bocado, principalmente quando minha tia começou a inventar historinhas, no banco de trás, para aplacar a inquietação dos meninos. Tio Leo permaneceu assoviando baixo por todo o percurso, focando-se apenas em continuar dirigindo o carro.

Chegando em Juiz de Fora, eu estava moído. O sol, fazendo o velho Gol dos meus tios parecer um forno de última geração, não ajudava. Passamos pelo morro da Glória e eu vi os estudantes do colégio católico agruparem-se nos pontos de ônibus para irem embora para casa. Um guarda de trânsito apitava para lá e para cá, fazendo os carros pararem para que os transeuntes pudessem atravessar a avenida pela faixa de pedestre em frente à escola. Vi um menininho derrubar alguns action figure e voltar para pegá-los no meio da faixa, enquanto o guarda esperava e os carros também.

Pensei em Eduardo.

O garoto deveria ter a mesma idade que ele, e eu, sem dúvida, queria que Eduardo estivesse fazendo algo bobo como derrubar bonequinhos dos Pawer Rangers em uma faixa de pedestres a estar confinado em um quarto de hospital em Martina.

Suspirei, e depois de alguns minutos e sinais vermelhos, paramos em frente à casinha amistosa dos meus tios. As paredes coloriam-se do mesmo verde-limão de que eu me lembrava, e as dobradiças da porta ainda rangiam quando ela era aberta. Pisei no tapete milenar da sala, ajudando a carregar as malas, e segui tia Lídia até a cozinha.

— Quer comer? — adivinhou. Seu jeito de sorrir era parecido com o da minha mãe, mas seus olhos eram maiores, então seus semblantes mais expressivos pareciam sempre quase caricatos.

Sorri e acenei em concordância.

— Estou morto de fome.

Minha tia revirou os olhos e analisou a geladeira praticamente vazia.

— Vou ter que ir ao mercado — coçou a cabeça bocejando. — E isso que você está sentindo não chega nem perto de ser fome. Apetites vêm e passam, fome é um acúmulo deles. Dói e mata devagar.

Ergui uma sobrancelha frente ao seu tom sombrio, e ela tamborilou os dedos na bancada da cozinha.

— O quê? Tem algo a dizer? — seu nariz pareceu arrebitar-se ainda mais e sua voz foi suave e risonha.

— Não importa, ainda preciso comer.

— Sim, sim! Mercado!

A tarde transcorreu lenta e tranquilamente, meu tio providenciou minha passagem logo que chegamos, depois de eu insistir em não esperar até o dia seguinte para viajar até BH.

— Vou perder muita aula se demorar muito — aleguei tentando parecer, ainda que um pouco, inocente.

— Se bem sei, você vai ficar uns dias sem aula até que arrumem o essencial das instalações elétricas.

Sorri amarelo e, após mais uns minutos de trocas de argumentos, tio Leo ligou para a rodoviária e confirmou uma reserva de passagem que minha mãe havia feito ontem.

O ônibus saiu às oito da noite e as despedidas foram breves e calorosas. Sentei-me, sem sono, em minha confortável cadeira reclinável e reparei na pequena quantidade de passageiros. Uns vinte, contando comigo. Tentei arranjar algum passatempo diferente de observar um velhinho que logo estava roncando em uma cadeira do outro lado do corredor, sem sucesso.

— Aff — resmunguei com preguiça de jogar no celular, e pensando se seria uma boa ideia procurar o livro que a Tabhita havia me dado para começar a ler.

Os minutos arrastaram-se, mas as luzes pareceram se apagar cedo demais. Logo, restou apenas a iluminação fantasmagórica e opcional que cada passageiro poderia acionar, ou não, apertando o botão do pequeno painel acima de seu assento.

Fiquei no escuro mesmo, o frio do ar condicionado começando a me incomodar — me arrependi de ter vestido aquela bermuda jeans verde. Já estava começando a adormecer quando o motorista anunciou que pararíamos por vinte minutos. As luzes não se acenderam, mas o murmurinho preencheu meus pensamentos enquanto meus olhos continuavam fechados, ainda que minha mente teimasse em não mergulhar na inconsciência.

Quando o motor do ônibus rugiu com mais força e percebi que estávamos voltando à estrada novamente, senti um cheiro apimentado e um ranger leve da cadeira ao meu lado, então abri os olhos.

Uma garota pouco mais jovem que eu devolveu-me o olhar curioso. Sua pele era acobreada e seus cabelos, curtos e ondulados, balançaram levemente quando ela deixou seu corpo cair na cadeira.

— O resto do ônibus está vazio — informei, sugestivamente.

— Ah, sim — ela girou o pescoço e correu os olhos pelo interior do ônibus com vários pares de cadeiras desocupadas. — Não achei que estaria tão vazio — a garota afirmou entendendo de forma absurdamente errônea as minhas palavras.

Revirei os olhos e voltei a fechá-los — talvez eu realmente devesse contar carneirinhos.

— Então, para onde está indo?

Abri um dos meus olhos e reparei no vestido branco e no conjunto excessivo de bijuterias douradas que a garota exibia. Absurdamente espalhafatoso, concluí sem deixar de reparar no quanto aquele estilo parecia combinar com ela.

— BH.

— Ah. Legal, eu nunca fui lá — ela pareceu entusiasmada. — Sou de uma cidade bem pequena do interior, é a primeira vez que vou para a capital.

A capital. Um frio atravessou meu estômago quando lembrei o que estava indo fazer a tantos quilômetros de Martina. Estava prestes a reiniciar uma estressante retrospectiva mental dos fatos nauseantes dos últimos dias, quando reparei nos olhos cor de canela da garota, que continuavam a me fitar praticamente sem piscar.

— Legal — disse debilmente, imaginando que ela aguardava um comentário meu.

— Legal — ela concordou e colocou o sinto de segurança, estalando os dedos das mãos ansiosamente. Não pude deixar de pensar que ela parecia familiar, mas não fazia nem ideia de onde poderia tê-la conhecido. Com um franzir de sobrancelhas descartei a possibilidade e voltei a encarar a paisagem campestre e noturna que passava rapidamente pelo vidro da janela à minha direita.

Em certos momentos, parecia que algo se movimentava acompanhando o ônibus nas partes onde a luz dos postes não alcançava. Como se fosse uma espécie de sombra vista pelo canto do olho. Pensar nisso me fazia suar frio e diminuía drasticamente qualquer possibilidade de que eu pregasse os olhos. Também não posso dizer que a chuva mansa que se iniciou contribuiu para que minha tensão diminuísse.

— Pensar que você vai chegar em um lugar diferente, com pessoas e coisas diferentes não te dá arrepios? — ela indagou após um longo momento de silêncio.

Tentei recordar a sensação que tive quando soube que me mudaria para Martina. Como foi observar a paisagem antes de eu passar pela entrada de pedra da pequena cidadezinha? Quais eram as minhas expectativas?

Nada veio a minha cabeça e, por não sei que razão, não me incomodei.

— Hmm.

Algumas horas depois, com o sol de BH mal se anunciando, desci do ônibus e tentei ligar para a tia Daniele. Como ela não atendeu após três tentativas, joguei minha mochila nas costas e fui arrastando meus chinelos até o ponto de ônibus. Ainda estava mancando e evitava apoiar meu peso no pé direito, mas acho que a tornozeleira, que eu estava usando, ajudava.

Não vi mais a garota que se sentou ao meu lado durante parte da viagem, nos separamos assim que chegamos em BH. Agora, no ponto de ônibus, reconheci o velhinho que dormira no par de cadeiras ao lado da minha e ele sorriu para mim quando percebeu que eu o fitava.

Meu celular tocou.

Bocejei e atendi, estranhando não só ver o Bagdá me ligando como ver o Bagdá me ligando antes das seis da manhã.

— Bagdá?

— Oi, oi. Fale baixo, ainda é cedo e minha cabeça está doendo. — Sua voz pareceu mais áspera e rouca que o habitual.

— Ah, ok — eu disse e, em resposta ao seu silêncio, emendei: — Foi mal.

— Li o bilhete que você deixou aqui.

Seu tom foi neutro e, não sabendo o que isso podia significar, prendi a respiração por alguns instantes antes de questionar:

— E?

— Olha... — Bagdá começou a dizer e pareceu hesitar até que, após alguns instantes e silêncio, uma voz diferente dissesse: — Augusto não vai poder passar o olho na sua amiguinha do hospital.

— Não? Espera, João?

— Ângela desapareceu durante a noite e ninguém sabe como nem por quê. — João pronunciou cada palavra de forma objetiva e sem rodeios, como se estivesse dando mais uma de suas lições.

O choque me deixou sem palavras. Eu havia me esgueirado até a casa do Bagdá pouco antes de sair de Martina, com os meus tios. Com a confirmação de que ele estava ausente, assim como eu tinha suposto, deixei o bilhete que tinha escrito, sob sua porta. Pedi (meio que ordenei) que ele cuidasse dos meus pais e da Ângela enquanto estivesse fora. Também mencionei Hugo e Geraldo, e algumas outras trivialidades — nada que valha apena citar. Definitivamente não sabia o que o sumiço da Ângela poderia significar... Ou, talvez...

— Wagner. — A conclusão aflorou-se nos meus lábios, e eu bufei preocupado.

— Humph, não! Ele está sob controle — Bagdá voltou a falar, e eu franzi o cenho, confuso — Não sabemos das causas do seu sumiço...

— Espera, como assim o Wagner está sob controle? — interrompi e recebi o silêncio como resposta — Alô, alô?

Quase taquei o celular no chão quando percebi que a ligação tinha caído. Tentei retornar a ligação, mas o único som que chegou aos meus ouvidos foi o da voz maquinal da caixa de mensagens.

— Merda — resmunguei tentando suprimir minha frustração.

Logo o ônibus certo chegou, e eu embarquei. Observei os tons da aurora que tingiam a cidade, fazendo-a parecer um monte vivo de concreto quase intangível e atemporal. Tentei absorver o máximo que pude da sensação reconfortante que me invadia observando tal cenário — de uma coisa eu tinha certeza, achar uma pá era o menor dos meus problemas agora.

Notas finais
Reviews? =)