Noite
35 Flores são para os Vivos
Notas iniciais
_13 de fevereiro_
Joguei o celular no sofá, irritado.
— Calma, deve ter havido algum problema com a linha telefônica, ou sei lá...
Estreitei meus olhos para tia Daniele. Seus cabelos negros se aglutinavam em um coque preguiçoso, e suas roupas lembravam pijamas não importando a forma como eu olhasse.
— Hmmm... — Fechei os olhos e massageei as têmporas. A Ângela era comida de emergência de uma vampira, tinha Mal de Parkinson, guardava antipsicóticos e tinha sumido misteriosamente do hospital após, além de ter sido jogada em uma quantidade absurda de km/h contra um poste, ser diagnosticada com uma doença terminal e desconhecida. E ainda tinha o fato de eu não estar conseguindo ligar para ninguém em Martina.
Então, sim: eu estava preocupado!
— Relaxa um pouco, seus pais não vão fugir. — Tia Daniele tentou soar animadora enquanto pintava as unhas dos pés de rosa choque. Não ajudou muito. — Sua mãe é a irmã mais velha aqui, e seu pai é dez anos mais velho que ela, apesar de não parecer, então tudo se resolverá!
Tentei não parar para pensar na costumeira síntese sem nexo da minha tia e revirei os olhos.
— Ei, pare com essa cara de sou-bom-demais-para-te-ouvir! Pense em coisas positivas, lembra? Assim como você tinha me dito que ia fazer!
— Hmmm... Você ainda lembra disso.
— É claro, pode não parecer, mas eu reparo nas coisas, ok?
Tentei não rir visualizando sua expressão enfática, mas, quando percebi seu moletom do avesso, foi realmente difícil. Missão impossível, eu diria.
— Por exemplo, sei que em momentos de grande estresse como esse — ela endireitou-se no sofá —, você deve pensar em como é sortudo por ter um pai que não é careca. Você compreende as chances que isso te dá para o futuro?
Oh, o mais provável é que eu não seja careca! A humanidade está salva!
Sorri desanimadamente, e tia Daniele levantou-se, com um ar satisfeito e andando feito um pato — para não borrar o esmalte berrante das unhas dos pés. Foi até uma cômoda, abriu uma gaveta e voltou de lá trazendo uma correspondência aberta. Jogou-a em meus braços e deixou seu corpo demasiado esguio cair no sofá.
— Pro Pedro. Mandei há um tempo pro endereço de vocês, mas a correspondência voltou — ela esclareceu sem dar muita importância.
Fitei meu endereço rabiscado, com a letra enfadonha da tia Daniele, em um dos lados do envelope. Talvez a correspondência tenha voltado porque ninguém entendeu quem raios era o destinatário, pensei. E revirei os olhos, especialmente, ao ver meu endereço seguido do nome da cidade: Martírio.
— Típico — resmunguei, espiando o conteúdo do envelope.
— E, sério, vá lá ver se não tem nada no escritório do seu pai que eu já até pus a bendita placa de “vende-se”.
— Achei que ele não quisesse vender.
— E quem se importa? Estamos em uma crise, rapaz. Até a Mari já mais do que autorizou a venda.
Balancei a cabeça e mostrei-lhe o envelope.
— O que tem aqui afinal?
— Uns dados sobre uma pesquisa que o Pedro estava fazendo em conjunto com o hospital e a universidade. Não sei muito sobre o conteúdo. — Tia Daniele fez careta e profetizou: — Aquela gangue do jaleco branco ainda vai se arrepender de tudo o que aconteceu.
— Tia, não é como se todos os médicos fossem culpados. Nenhum de nós gostou do que aconteceu, muito menos o meu pai — soltei uma risada sem humor. — E, cara, não é mais fácil enviar isso aqui por e-mail?
— Tudo bem que esquecer uma tesoura em alguém é algo absurdo, mas, poxa, e as outras mil cirurgias sem tesouras esquecidas? E as outras mil vidas que foram mudadas por causa do Pedro, isso não conta, não? Até médicos erram, ok? — Tia Daniele prosseguiu em sua indignação, me ignorando.
Só... Como ela conseguia levar meus problemas para um lado cômico?
— Tia, não foi bem isso que aconteceu. E, sinceramente, não precisamos falar disso de novo.
— Ok, ok. Apenas diga a ele que estou junto na luta contra a máfia do jaleco branco. — Frente a sua empolgação, achei melhor não dizer que “máfia do jaleco branco” era a galera dos sindicatos regionais que, supostamente, atrasava os processos à favor dos médicos envolvidos.
— Tia, revoluções a parte, e a pá? — perguntei levando a conversa a um rumo menos estressante.
— Pra que você quer essa pá, menino? Eu já disse que meu jardim é assim mesmo, a terra é seca e pronto! Não tem nada que mexer!
Ergui uma sobrancelha e me indaguei como alguém aguentava a tia Daniele. Putz, a mulher era louca!
— Ok, ok. Saquei — ergui as mãos demonstrando estar rendido —, não mutilarei seu jardim seco.
— Humph! Quando você passou a usar sarcasmos com a sua tia, hein? — ela amuou-se e, com uma voz mais aguda, esclareceu: — Você era todo fofinho.
— Tia Daniele...
— Óh, óh... Já são quatro horas! O que ainda está fazendo aqui? Não disse que ia visitar seu irmão?
Franzi o cenho.
— Vou, vou. É claro.
— Então vai logo, antes que fique tarde! Amanhã você não vai querer ir.
— Não vou? — Desafiei.
— Não, você vai ficar boa parte do dia com aquela sua cara de jaca. Aquela reservada especialmente para os dias das consultas da Dra. Alzira.
Tinha me esquecido disso.
— É, rapaz... A Mari pediu para que eu me certificasse de que você iria. — Tia Daniele sorriu de um jeito não muito cúmplice. — A Alzira vai usar o horário de almoço dela pra te atender.
— Hmm... Ok, é oficial, ela deve me amar mesmo, né?
— Isso e o fato de ela ser amiga dos tempos de universidade da sua mãe. Você tinha que ver como ela era quando ia lá em casa, parecia uma anarquista pirada. É estranho vê-la ajudando pessoas em um consultório, meio que não combina.
Estalei a língua, cético.
— Até onde eu sei, você é professora do primário, tia. E, cara — emendei sarcasticamente —, Deus sabe como você segue o padrão ortodoxo.
Lancei-lhe um sorrisinho de canto, e me levantei.
— Ei, ei — ela estreitou os olhos. — Volte aqui, onde vai? Ortodoxo não quer dizer bom, ok?
Ri do seu inconformismo caricato e girei a chave da porta.
— Vou lá no laboratório como você pediu mil vezes e depois vou visitar meu irmão. Não era isso que estava mandando eu fazer?
Por sorte, o antigo consultório do meu pai ficava a alguns quarteirões da casa da minha tia. Acho que Martina estava me influenciando, me pareceu um tanto irritante a ideia de ter que pegar um ônibus dali a alguns minutos.
Sem contar o tempo que perdi esperando que os carros decidissem parar para que eu atravessasse a rua, cheguei rápido à clínica. A pintura, que antes tinha sido branca, manchava-se de tons amarelados, esverdeados e até mesmo pretos em diferentes pontos. Pichado de preto ou vermelho, lia-se: “Assassino”, “Mataremos você”, “Saia daqui” além de algumas obscenidades. Passei pelo portão e constatei que a janela da frente tinha sido novamente quebrada. Inspirei e cacei o molho de chaves no meu bolso. Errei duas vezes até descobrir qual era a que se encaixava na fechadura.
Fora a fina camada de poeira que cobria os móveis e impregnava o ar, e a quantidade assustadora de correspondências na entrada, tudo aparentava estar igual. Não parecia que aquele lugar estava abandonado há mais de um ano.
Passei o olho pelas correspondências e poucas possuíam como remetente o hospital ou a universidade. Estava começando a ler a quarta das outras cartas quando desisti e resolvi juntá-las em uma pilha que iria para o lixo. Eram apenas malucos destilando raiva e palavrões — certamente, todas as manchetes que saíram nos jornais foram motivadoras.
Explorei a clínica em busca de mais alguma coisa que meu pai talvez quisesse, mas não achei nada que se destacasse. Concluí que minha missão ali tinha chegado ao fim e teria ido embora, não fossem as batidas altas e insistentes na porta.
— Ei, Dr. Pedro! Abra, sei que o senhor está aí.
Primeiro, admito que voltei vários passos imaginando que talvez fosse um fanático cheio de instintos homicidas, mas depois... Bem, eu me dei conta de que o cara tinha dito “senhor”. Até onde sei, só japonês xinga alguém com os devidos pronomes de tratamento.
— Olha, sei que disse para eu não me meter, mas eu vi a luz acesa! Não adianta me evitar. — O homem esmurrou a porta mais cinco vezes.
Avancei, confuso com a situação.
— Está bem, não vai abrir, não é? Está bem! Vou deixar essa merda desse pacote aqui! Se vire com isso! — E com essas nada calmas palavras, o som de seus passos firmes se seguiu ao baque seco de algo sendo jogado contra a porta.
— Ok, isso foi estranho.
Abri a porta e não achei nem sinal do sujeito, tudo o que restava era uma caixa de papelão cúbica com arestas do tamanho do meu antebraço. Apenas o destinatário dançava, diante dos meus olhos, em uma caligrafia borrada pela chuva: Dr. Derrá.
Fiquei mortalmente curioso para saber não só o que raios poderia ter ali dentro que pudesse deixar o cara com uma necessidade tão absurda de entregá-lo ao meu pai, mas, também, qual era a razão de ele estar tão pirado com ele.
Chutei a caixa para dentro, enfiei as cartas aparentemente úteis no bolso e tranquei a porta. Ainda tinha que ir a outro lugar e seria mais prático se eu deixasse para pegar a caixa depois.
Tomei o ônibus, depois de uma eternidade no ponto de ônibus, e me surpreendi quando alguém me puxou para um assento.
— Ei, o que... Cadu?
— Oi, cara — ele sorriu. — Senta aí.
Sem muitas opções, sentei e franzi as sobrancelhas.
— Oi.
— E aí, voltou a morar em Belo Horizonte? O Gilda vai gostar de saber disso.
— Não, eu... Ei, desde quando você é tão, quero dizer... amigável?
— Corta essa, Felipe. Tivemos aquele lance, mas passou... — Cadu falou, sem jeito.
— Lembro que você ter me deixado com um olho roxo — evidenciei. — E também tinha aquela sua cara homicida de buldogue toda vez que me via.
Cadu encolheu os ombros e ajeitou o boné em sua cabeça raspada.
— Putz, cara, sei que não foi culpa sua. Já pedi desculpas. E você arrebentou a minha gengiva, lembra? — Ele apontou para o aparelho com borrachinhas que intercalavam entre verde e amarelo. — Minha mãe quase me esfolou vivo quando viu minha cara roxa e o sangue.
Achei melhor abstrair e não mencionar que ele tinha imaginado a porcaria da parte em que ele pedia desculpas.
— Sua mãe sempre pareceu meio do mal. — Sorri.
— É, é... Isso mesmo cara. — Ele soltou uma gargalhada. — Estamos bem?
— Ok. Só não fale como se estivéssemos casados, por favor.
— Falou, então. — Ele levantou-se e puxou a cordinha do ônibus. — Bom te ver, estou trabalhando. Passa lá no clube depois, falando sério, a Gilda vai chorar de alegria quando te ver.
— Depois de me obrigar a fazer uma série de abdominais, só se for.
Cadu soltou uma risada e desceu.
Fiquei só, com o assento vazio ao lado, e, antes de estar realmente preparado, o ponto em que eu deveria descer chegou.
O dia estava sufocante. O cheiro de fumaça, de alguma coisa queimando por perto, misturava-se ao ar seco fazendo o próprio sol parecer embaçado. Arrastei minhas pernas pelo quarteirão pensando no que eu iria dizer depois do “oi”, sim, eu deveria dizer algo além disso. Deveria chegar lá e ir além do “oi” não apenas com uma pessoa, o que era pior. Estremeci, era estranho como pensar nesse tipo de coisa deixava tudo mais deslocado do que já era.
Estanquei em frente à construção imponente e pintada de tons de branco e rosa claro. Na esquina, o mesmo comerciante idoso sorria simpaticamente ao atender seus clientes. Observei-o por alguns segundos, era uma espécie de ritual. Honestamente, não tinha guiado minhas pernas muitas vezes até ali. Nos últimos quatro anos, eu podia contar nos dedos de uma mão quantas vezes havia transposto aqueles portões de ferro. Mas foram incontáveis os momentos em que fui até aquele ponto da rua e fiquei observando aquele senhor, me acalmando com o esmero e a sinceridade que ele deixava transparecer em cada gesto.
Eu precisava disso.
Ainda que, mesmo com a insistência dos meus pais, não ousasse transpor àquelas paredes na maioria das vezes, ficar ali parado fazia com que algo dentro de mim sentisse que poderia reviver a proximidade que me era tão habitual.
— Aff! — Pela primeira vez caminhei até o velho senhor, tirando uma nota surrada do bolso. — Quero essas e essas — apontei, e entreguei-lhe o dinheiro.
Ele não sorriu, apenas me fitou com certo olhar inteligente. Embalou meu pedido cuidadosamente e entregou-me o troco.
Andei lentamente pela calçada, pisando firme sem nem sentir meu tornozelo machucado doer. Passei pelos portões de ferro envolvido por um incômodo déjà vu. Vi o Seu Antônio acenar para mim, alguns metros à frente. Parecia quase um convite para que eu continuasse a andar, e assim o fiz.
A área era muito ampla e o canto dos pássaros parecia envolver o ambiente. Seu Antônio fazia um excelente trabalho cuidando das plantas e do gramado, e eu gostava de sentir o cheiro de grama recém-cortada. Segui pela enorme propriedade parando apenas quando as palavras que foram o plano de fundo da minha infância tornaram-se nítidas aos meus olhos:
Em busca do infinito que tolda os olhos
Gregório Derrá Neto
Amado filho e irmão.
14 de Junho de 1992 – 7 de Fevereiro de 2010
Mordi o lábio inferior e agachei-me, deixando o pequeno buquê de margaridas brancas sobre a lápide de mármore. O habitual talo na garganta deixando tudo mais difícil.
— Oi, Greg — cumprimentei e passei meus dedos pela superfície fria do mármore, tocando o contorno daquelas palavras. No fim, não havia o que dizer. Era sempre assim, eu apenas ficava encarando a porcaria da lápide. — Nós ainda estamos buscando por isso — sussurrei após um minuto inteiro.
Encarei o segundo montinho de flores, este, de margaridas amarelas. Estava prestes a me erguer quando alguém limpando a garganta quebrou toda a minha ordem interior:
— Pensei que flores fossem para os vivos.
Levantei os olhos e encontrei o homem da banquinha de flores, da esquina do cemitério, me encarando. Não havia malícia ou diversão em seus olhos castanhos, tudo o que transparecia era uma quase ingênua curiosidade.
— Elas são. — Levantei-me, colocando o peso do meu corpo sobre o pé que não estava machucado — São para que gente que, como eu, ache que pode fazer algo por quem não está mais aqui. Ainda é uma droga ser quem fica. — Soltei a última frase com certo sarcasmo e o senhor não pareceu perceber totalmente o que eu quis dizer — Se me der licença, vou para o próximo. — Mostrei-lhe o segundo buquê e comecei a andar.
— Não era só o seu irmão? — Ouvi-o perguntar e me surpreendi. Como ele poderia saber sobre meu irmão?
— Não mais — respondi ainda de costas e contornei as lápides dirigindo-me ao túmulo da família Amaranto.
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