Noite

36 Funerais são Complicados


Notas iniciais
Hey, pessoas!!! Espero que estejam gostando do avanco do enredo.... hehe. Boa leitura!! p.s.: Obrigada pela ajuda, Adrien!

_14 de Fevereiro_

Uma chuva fina caía quando o relógio do meu celular marcou onze horas. O céu estava escuro e alguns trovões me fizeram estremecer enquanto vestia meu casaco. Brinquei nervosamente com o pingente de osso do antigo colar que havia pertencido à minha avó e respirei fundo.

Está na hora.

Levantei o capuz do casaco conforme a chuva foi engrossando e corri para pegar o ônibus quando o avistei parado no ponto. O cobrador torceu o nariz para a nota molhada que lhe dei como pagamento, mas não disse nada, apenas entregou-me o troco, fechou os olhos e cruzou os braços como se estivesse retomando o cochilo.

Andei até o fundo do ônibus e me esparramei em uma das muitas cadeiras desocupadas. Uma garota, semi-acordada, ouvia música na minha frente. O som estava tão alto que eu podia ouvir a voz de Dinho Ouro Preto, mesmo através dos fones de ouvido:

Todo dia é um pouco pior

Cercado por todos os lados

O dia é longo e o caminho maior

Cada hora passa mais devagar

Cercado por todos os lados

Chegando perto sem nunca tocar

Espirrei e encostei a testa na janela fria. Por que aquela garota tinha que ter na playlist justo aquela música? Ouvi-la parecia apenas me tornar mais consciente do quão vazio eu me sentia, como se minha alma tivesse um buraco projetado para expandir-se a cada respiração. Putz, a Tabitha gostava dessa música, tipo, muito. Mas ouvir aquela letra era quase opressivo.

Desci do ônibus, e um trovão iluminou com mais intensidade a rua escura. O poste da esquina piscou três vezes antes de apagar, e a certeza gélida de que tinha algo me seguindo quase fez minha mente paranoica ter um curto circuito. Andei sentindo meus músculos rígidos e com uma determinação que eu realmente estava longe de possuir. Fui até um dos montes de arbustos que cresciam naquela praça e enfiei o braço por trás dele, puxando uma pá velha e meio enferrujada, que trouxe de carona alguns ramos com folhas, que se agarraram ao meu casaco.

— Certo.

Fitei a silhueta negra do cemitério, iluminada ocasionalmente pelos trovões, e segui pela calçada, transpondo o quarteirão que me separava da entrada. Sabia que o seu Antônio estaria na guarita como vigia, e essa foi a única vez que me senti grato por toda aquela chuva. Impediria que ele ouvisse qualquer coisa suspeita ou, mesmo, se sentisse encorajado a procurar por uma.

Fitei o portão enferrujado, tentando não tremer ou bater os dentes de frio, e, então, passei por ele, seguindo reto pela calçada. Andei até a parte do muro que era revestida por uma velha e enorme trepadeira. Lambi os lábios, sentindo o gosto da chuva, e girei o braço, jogando a pá por cima do muro.

Um barulho retiniu em meio à chuva, e eu torci para não ter arranhado a lápide de ninguém. Apoiei meu pé, o não-completamente-ferrado, na trepadeira e, antes que pudesse mudar de ideia, impulsionei-me para cima e escalei o muro. As palmas e dedos das minhas mãos ficaram irritantemente arranhadas, mas o que me incomodou, mesmo, foi o tornozelo esquerdo, que me fez trincar os dentes de dor por causa do impacto da queda.

Cambaleei um pouco, me levantando, e então respirei fundo. Peguei a pá e marchei como se fosse para a guerra. O vento chiava, dando vozes às árvores e aquela incômoda sensação de que tinha alguém me perseguindo, me atormentava.

— O único vampiro que te odeia é o Wagner, e o Bagdá disse que lidou com ele.

Ri nervosamente das minhas próprias palavras e passei os olhos rapidamente na lápide do Gregório antes de parar em frente a da Tabhita. As flores que eu tinha lhe deixado ainda estavam lá. Encarei suas pétalas ensopadas e então as coloquei de lado, como se simplesmente destruí-las, com a pá, fizesse parte de admitir que a Tabhita que eu havia visto alguns dias atrás realmente estava por aí.

Cavei por horas, ou assim pareceu. A chuva ficava cada vez mais forte e eu só continuei porque sabia que, se fosse embora, não voltaria. E eu precisava, sim, ter certeza. Eu havia viajado mais de mil quilômetros por isso e não era a porcaria de uma tempestade ou furacão que iria me impedir. Essa resignação, impulsionada por toda minha raiva muda, me fez finalmente bater com a pá na superfície dura de madeira.

Espanei o caixão com as mãos e forcei sua abertura com a ponta de ferro da pá. Quando a tampa de madeira escura finalmente se abriu, um jorro de terra pulou para dentro do caixão e a chuva, torrencial e murmurante, começou a inundá-lo.

Os ruídos da madrugada, que se intensificavam ou atenuavam-se conforme a força do temporal, me fizeram estremecer. Porém não tanto como o cheiro, fétido e repugnante, que abriu, na marra, caminho por todos os meus poros. Alguns instantes de atordoamento foram necessários até que eu, finalmente, colocasse o braço sobre o nariz e abrisse mais os olhos, querendo enxergar melhor através das gotas grossas e constantes.

— Chegando perto sem nunca tocar. — Minhas palavras não passavam de um sussurro rouco, e eu sorri.

A pele parecia feita de neve, os lábios possuíam um rosado artificial e os dedos fechavam-se em um buquê de flores mortas. Seus cílios eram tão longos quanto eu me lembrava, e seus cabelos azuis pareciam cada vez mais escuros conforme a chuva os encharcava.

Ela estava linda, completamente hipnotizante.

Ter consciência disso, com certeza, não fez bem a minha mente constatadamente doente. No entanto, ainda assim, poderia tê-la encarado por horas, mesmo que a umidade parecesse estar infiltrando-se em meus ossos. O mundo era preenchido pela dor aguda que voltava a cutucar meu peito, como uma ferida que insistia em não cicatrizar, mas, em igual medida, cada pedaço de mim sentia-se tão... tão aliviado, que, em alguns instantes delirantes, a loucura pareceu realmente um presente — apenas um descortinar de irônica poesia.

Encarei-a mais um pouco, era como se ela estivesse prestes a abrir os olhos. Se o fizesse, talvez o som de seu sorriso desse outra vibração àquela madrugada úmida. Revirei os olhos com minhas próprias especulações e estava prestes a tirar uma mexa de cabelo azul que se grudava a sua testa quando um barulho de tiro cortou a noite e deu outra cadência à chuva.

Paralisei, engolindo em seco e apurando minha audição. Vagarosamente, depois de testemunhar dez batidas de coração de pura adrenalina, coloquei meia cabeça para fora da cova. À esquerda, uma luz amarela se aproximava e, com ela, certamente, o autor do disparo. Olhei uma última vez para a Tabhita e, decidindo largar a pá para trás, impulsionei-me para fora da lápide e saí correndo. Atrás de mim, uma voz gritava sem que eu entendesse sequer uma palavra.

Pior, latidos reverberavam pelo cemitério.

Corri com mais vontade e, conforme fui me aproximando do muro, soube que era o fim da linha. Dois segundos e os cachorros me pegariam. Dois segundos e eu iria parar em alguma delegacia por um motivo patético, minha tia conseguiria upar* em seu nível de loucura e o delegado Borges teria mais motivos para me enfiar em algum buraco socioeducativo.

Pulei naquele muro com tudo, sem permitir que a dor do impacto ocupasse qualquer parte da minha atenção. Meus dedos estavam sendo esfolados e meu tornozelo estava me matando, mas eu apenas continuei forçando meu peso sobre ele enquanto subia desesperadamente e sentia as mandíbulas dos cachorros a centímetros de mim. E, apesar de todo o meu esforço e desespero, seria impossível conseguir, não fosse a droga de um berro seguido do som de três apitos curtos.

Meus sentidos estavam a mil e, pelo canto do olho, vi o cachorro que estava prestes a dar o segundo puxão na barra da minha calça, afastar-se repentinamente, correndo em direção ao portão. Em direção ao apito. Não tive tempo de ficar intrigado, cada neurônio meu concentrava-se na importante tarefa de cair fora dali, mesmo escorregando por causa da chuva.

E assim deveria ter terminado. Eu escalaria o muro e correria o quanto pudesse, até que não houvesse qualquer vestígio de perseguidores, humanos ou animais. Ignoraria completamente a droga do apito e agradeceria pela minha sorte, mas não, o velho tinha que dar uma de Flash e puxar minha perna antes que eu pudesse voltar às graças da liberdade.

Meus dedos se arrastaram bruscamente tanto pela superfície de concreto quanto pela trepadeira. Senti elas arderem e o líquido quente que se espalhou pelas minhas palmas quando, já no chão, fechei minhas mãos, mas não foi reconfortante em meio àquela noite fria.

— Felipe? Felipe, é mesmo você? Por que está fazendo isso?

Encarando o muro de pedra, paralisei por alguns instantes. Não precisava ser gênio para concluir que fugir e fingir que nada tinha acontecido era a melhor opção. Mas era tarde demais para cair fora. Não porque eu não fosse conseguir me livrar de um senhor com uma espingarda. Não. O ponto passara a ser eu ter sido visto e, claro, o fato de que, provavelmente, não conseguiria convencer aquele homem a ignorar um túmulo violado.

— Droga — resmunguei sentindo minha garganta seca, apesar de toda aquela chuva. Ajeitei-me na grama úmida, voltando-me para seu Antônio, sacudi minhas mãos imundas e estendi-as sob a chuva buscando algum alívio.

— Sim, droga — ele concordou, desaprovador. — Eu vi o que você fez. Por que desenterrou o corpo daquela pobre garota?

Não consegui visualizar bem sua expressão, sentado e com todo aquele aguaceiro, mas deduzi que sua testa enrugada deveria estar franzida. Nada bom, eu estava mesmo ferrado.

— Responda — ordenou e sacudiu o enorme guarda-chuva, como se o gesto traduzisse urgência.

— Um ritual satânico. — Mostrei meus dentes em um sorriso sarcástico. — Aparentemente, nunca sai de moda.

— Você acha isso engraçado? — o velho exaltou-se e, não vendo qualquer reação da minha parte, suspirou.

Deu alguns passos em minha direção, até parar perto o suficiente para que o guarda-chuva me protegesse do impacto incômodo das gotas frias e intermináveis de chuva.

— Sabe há quanto tempo conheço seu pai? — sua pergunta foi retórica, mas mesmo assim neguei com a cabeça e ele prosseguiu: — Dezessete anos. Exatamente a sua idade. Neto não tinha nem seis anos ainda — franzi o cenho, lembrando-me do quanto Greg detestava ser chamado de Neto —, ele era elétrico e tão esperto... Estava realmente feliz com o irmão que iria ter.

Encarei minhas unhas, contornadas de sangue e terra, e aguardei que prosseguisse.

— É esquisito pensar que, há alguns dias, fez quatro anos que ele se foi. — Vi o contorno dos lábios do homem curvarem-se na tentativa de um sorriso e, tendo experiência o suficiente no quesito melancolia, recostei-me no muro deixando que prosseguisse em seu relato. — Seu pai ficou tão desolado, e, o que não sai da minha memória, não importa quantos anos passem, é a expressão que ele fez. Dor verdadeira, muito pior do que ter algum órgão arrancado. Foi isso que eu vi quatro anos atrás e foi isso que eu vi dezessete anos atrás, quando o filho sendo enterrado era o meu e não o dele. — Seu Antônio fungou duas vezes e coçou a testa com a ponta da espingarda. — Eu só percebi quanta dor estava sentindo, por perder meu único filho, naquele dia. Eu só percebi que, mesmo depois de treze anos, continuava no funeral do meu filho, naquele dia. Quando vi o seu pai. Quando vi o caixão do Neto descendo até o fundo da cova que eu cavei. Entende o que estou dizendo? — Na verdade, eu não fazia ideia de onde ele pretendia chegar, mas acenei positivamente. — Tragédias acontecem, os jornais e os conhecidos seguem em frente, mas os que estão no núcleo... os que estão no núcleo da tempestade têm que permitir-se sair do funeral.

Estalei alguns dedos e encarei os sapatos gastos do velho senhor.

— Até aquele dia sete, eu realmente odiava o seu pai. Eu ainda não tinha percebido que, por alguns momentos e talvez mais, ele partilhou da minha angústia. Ele desesperou-se por perder meu filho naquela mesa de operação, ele fez parte do funeral. Confuso, não é?

Na verdade era, mas eu não concordei ou discordei.

— Passei muito tempo afundado em culpa, odiando seu pai por não ter conseguido salvá-lo. E as cicatrizes de todo esse ódio ainda estão comigo, sou um homem só. Perdi tudo, até mesmo parei de lecionar. Minhas únicas companhia passaram a ser meus rottweilers e essas lápides, mas você é muito jovem para isso, garoto. — O homem agachou-se, de modo que nossos olhos ficassem no mesmo nível. — Deixe a garota ir. Sair do funeral não significa abandoná-la, trata-se de agarrar-se com tudo ao significado de cada memória e então ter coragem. Seguir adiante, fazer novas escolhas.

Seu Antônio levantou-se e, com a cabeça, sinalizou para que eu também o fizesse.

Fiquei de pé, meio atordoado. A tal metáfora do funeral tinha total sentido para mim, ainda que não fosse pelas razões que o seu Antônio supunha.

— Por que desenterrou o corpo daquela garota, Felipe?

Fiz careta, era absurdo demais.

— Esses... esses funerais, eles são complicados demais. — Minha voz estava meio rouca, mas seu Antônio pareceu ficar feliz com o meu tom.

— E exaustivos — ele sorriu batendo, de leve, com o cano da espingarda no meu braço de forma amigável, o que foi estranho, porque ainda era uma espingarda no fim das contas. — Vamos tomar um chá? Está muito frio aqui fora.

Seu semblante era reconfortante e até passou pela minha cabeça que, talvez, eu não fosse me denunciar. Incomodei-me com o caixão da Tabhita ainda aberto, mas achei melhor não dizer nada.

— Vou levá-lo para casa, seus pais devem estar preocupados. Abra a porta, minhas mãos estão ocupadas. — Ele pediu e eu girei a maçaneta. Abri a porta e fechei-a, rapidamente, por impulso, ao ver o par de rottweilers ali dentro. — Deixe disso, Felipe. Abra a porta, eles não vão fazer nada... Gostaria de saber como vieram parar aqui...

Abri a porta e, com um comando do seu Antônio, ambos os cachorros sentaram obedientemente. Suas línguas rosadas para fora enquanto abanavam loucamente os rabos.

— Não parece que estavam me perseguindo há um minuto.

— Eles são muito dóceis — disse o homem fechando o guarda-chuva, ainda no batente na porta. — Certo, agora... — começou a dizer, enquanto voltava-me para o interior da guarita e fitava o interior aconchegante, mas parou.

— Hmm, o que ia dizer... — comecei a perguntar após espirrar duas vezes, quando um familiar e aterrorizante estalo preencheu meus ouvidos.

As lembranças do Festival da Batata correram alucinadas pela minha mente até estacionarem naquele beco escuro, o mesmo beco em que eu tinha observado Toni quebrar o pescoço de um cara. Estremeci.

Virei-me vagarosamente, como se tentasse demonstrar que não era uma ameaça, apesar de isso soar ridículo. Toquei no ferro frio do meu revólver, enfiado na parte de trás do cós da minha calça, e fitei, desolado, o homem que havia acabado de me prometer um chá. Seu corpo sustentou-se em pé por um instante longo demais, diante dos meus olhos, e então, tombou com tudo para frente. O peito pressionando-se ao piso azulejado e sua face, virada antinaturalmente para cima. Seus olhos, ainda abertos, pareciam possuir um vago vestígio da convicção que os inflamava alguns segundos atrás.

Não havia sangue, só a morte em uma de suas nuances.

Levantei o rosto. O capuz já tinha escorregado da minha cabeça, e ela já estava mais do que estourando depois de me expor tanto àquele tempo. Seu Antônio jazia imóvel no chão, enquanto a chuva gritava lá fora fazendo coro com os latidos dos cachorros, que não ousavam se mexer. Concentrei-me na nova figura imóvel sob o aguaceiro, a meio passo do vão da porta. Alto e esguio, vestia roupas escuras. Vi-o esticar o pé esquerdo para dentro da pequena guarita, como se estivesse testando a firmeza do piso.

Não pude deixar de pensar que ele estava zombando de mim, e tal perspectiva destravou um monte de coisas que eu costumava tentar deixar bem escondidas em alguma parte do meu subconsciente.

Trinquei os dentes.

Uma centelha se acendendo na minha mente.

Talvez...

— Ele está morto — murmurei puxando o revólver devagar e desengatilhando-o com o polegar.

O cara sorriu, não sei se por ter ouvido o que eu disse ou pela arma sendo desengatilhada. Realmente, não importava. Sequer esperei pelas palavras que estavam prestes a vir, a julgar por seus lábios que se abriram levemente. O tempo pareceu desacelerar e, não, eu não me importava. Queria com todas minhas forças que ele desaparecesse. Que fosse para o inferno, e, com essa determinação, em uma fração de segundos, estiquei o revólver e atirei.

Uma. Duas. Três vezes.

Um silvo esganado cortou o compasso da chuva, e eu exalei o ar frio da noite, vendo, cheio de satisfação, o homem cair.

— A morte não salva ninguém — murmurei como uma resposta para mim mesmo e avancei alguns passos.

O último tiro cravara-se na madeira da porta. Os dois primeiros haviam acertado a cabeça do homem, um na testa e outro no nariz. Sangue, ossos e miolos eram lavados pela chuva enquanto eu via a lanterna do seu Antônio, que tinha caído no chão, começar a falhar. Seu guarda-chuva enorme foi arrastado pelo vento e, ocasionalmente, esbarrava em alguma lápide.

Evitei olhar para corpo enrugado e imóvel do seu Antônio, tão pouco dei atenção aos cachorros que o cutucavam com o focinho. Meus olhos esquadrinharam aquele pequeno recinto simplório e eu guiei minhas pernas quando achei o que precisava. O fio do facão não estava muito bom, foram necessários quatro golpes para que a cabeça do assassino se separasse do resto do corpo.

Terminada a tarefa, chutei a cabeça para longe e revistei os bolsos do cadáver. Suas roupas eram finas e caiam-lhe como uma luva. Achei cigarros, um isqueiro que peguei para mim e um mapa de BH. Abri-o cuidadosamente, no chão fosco da guarita, e observei as marcações em vários pontos da cidade. A casa em que eu morava antes de o meu pai ser processado e demitido, a casa em que morei depois disso. O hospital onde meu pai trabalhava. A clínica. A UFMG. A casa da minha tia. A floricultura falida da minha mãe. Meu antigo trabalho em uma livraria. E uma porção de outras localizações que eu não conhecia ou me lembrava.

— Que diabos... — resmunguei, levantando-me.

Não era ilusão, eu estava mesmo sendo perseguido e não era algo aleatório. Mas o que procuravam? O que eu poderia oferecer?

As respostas não vieram, e a chuva não cessou. Não poderia ficar lá para sempre, levantei o capuz e enfrentei novamente toda aquela água. Precisava voltar a enterrar a Tabhita, pegar a pá da minha tia e dar o fora, mas a contagem de cadáveres não ficaria só em dois. No caminho até a lápide, três cadáveres manchavam o gramado de sangue. Dois deles tinham buracos enormes e vazios no lugar de seus corações enquanto o terceiro tinha o pescoço tão torcido, que apenas um fio de carne permitia que a cabeça ainda fizesse parte do corpo.

A Tabhita também não estava mais lá, seu caixão estava vazio e manchado de sangue. Imaginar que algum deles poderia ter cravado os dentes e destroçado seu corpo sem vida me deu náuseas. O quão longe tudo aquilo continuaria indo? O mundo estava mesmo ruindo e o frio, que enrijecia meus músculos, pareceu intensificar-se.

Estiquei o braço para dentro da cova, pegando o cabo da pá, antes de sentir alguém se aproximando e levantar-me bruscamente, apontando o revólver.

Cadu piscou atordoado e ergueu as mãos.

— Ei, ei... Calma, sou eu.

Não abaixei a arma.

— Olha, apenas olhe isso... — Cuidadosamente ele desceu sua mão esquerda até o bolso da calça. — Calma, cara... olha aqui. — Cadu ergueu um apito rosa choque e a compreensão me atingiu.

— Foi você que apitou — hesitei com a arma, por alguns segundos.

— Eu que apitei. — Orgulhou-se.

— Por quê? — Voltei a erguer o revólver, e ele bufou.

— Você ia virar petisco de cachorro, cara... Um obrigado ia bem. Aonde arranjou essa coisa? Virou traficante ou o quê?

Passei meus olhos pelos corpos e então de volta a ele, inquisitivamente.

— Noite longa. — Cadu coçou a cabeça. — Há mais corpos lá fora.

— Todos mortos?

— Como vou saber? — Sua voz falhou e ele pareceu tentar se aconchegar mais em sua capa de chuva amarela — Eu me livrei dos cachorros, tranquei-os no posto de vigia e então corri. Putz, eu achei que você tinha fugido. Eu corri para a praça e esperei, mas você não apareceu, então...

— Você voltou — completei.

— É. E aí todos aqueles corpos estavam lá. É verdade, pode guardar essa coisa?

Dei-me conta de que ainda segurava a arma e abaixei-a.

— Desculpe — resmunguei. — E você não está em choque?

— O que... Não, não estou. Totalmente bem aqui, já vomitei as duas vezes que precisava.

— Está bem, vamos lá fora. Tenho que conferir se estão mesmo mortos ou podemos ser perseguidos — Enfiei novamente o revólver na parte de trás do cós da minha calça.

Em frente ao portão, naquele momento, escancarado, cinco corpos, em posições bizarramente antinaturais, esparramavam-se pela calçada. Dois deles eram de mulheres, que tinham tido as cabeças arrancadas por nada além de força bruta. Um terceiro tinha um pedaço de ferro atravessando sua garganta enquanto os dois últimos não tinham braços.

— Esses dois estão vivos, na guarita tem um facão. Você pode ir lá pegar?

Cadu franziu a testa, evidentemente nervoso, e então questionou:

— E você, o que vai fazer?

Ergui uma sobrancelha e esbocei um sorriso sem humor.

— Segurar essa pá como se fosse uma espada e torcer para que eles não se levantem.

Em resposta as minhas palavras, ele se foi. Correu para dentro do cemitério e eu encostei a mão no ferro frio do revólver, tentando me acalmar. Uma ideia estava se formando e eu não gostava nem um pouco dela.

Quando Cadu me entregou o facão, eu cortei a cabeça de apenas um dos que não possuía braços. O outro eu deixei do jeito que estava, depois de encará-lo por longos segundos de hesitação.

— Bem, valeu — agradeci, massageando brevemente as têmporas. — Nos vemos por aí, eu me viro com o resto.

— Com o resto? — Cadu cravou os olhos no que quer que fosse aquele cara desmaiado. — Você me conhece bem demais pra saber que eu não sou um idiota, sei que as coisas não estão do jeito que deveriam estar. Então eu vou ficar, me diga logo o que quer fazer com esse cara.

— Hmm — encarei-o. — Realmente demorou para que você voltasse à sua personalidade original, apesar de ser irritante.

Cadu continuou parado onde estava e cruzou os braços.

— Ok... Preciso de respostas e só posso conseguir alguma coisa com ele vivo.

— Está bem, mas você vai só esperar que ele acorde? Tipo, aqui?

— Aí é que é a parte difícil. — Franzi as sobrancelhas. — Não dá para levá-lo de ônibus até a clínica do meu pai. E também não dá para ficar aqui. Não estou a fim de contar com a boa vontade do que quer que fez isso com eles, vai por mim, tem que ter sido muito over power.

— Vamos para a minha casa, então. É do outro lado da praça e eu estou sozinho...

— Não. — Fui taxativo. — Não — repeti antes que ele pudesse argumentar.

— O carro do meu pai, então? — ele sugeriu.

— Seu pai não vai dar falta?

— Meu pai morreu.

— Ah... — Fiquei mudo por alguns instantes antes de soltar hesitantemente: — sinto muito.

— É, é um saco. E então, vamos?

— Eu não sei dirigir — alertei.

— Eu me viro — garantiu piscando o olho.

— Ok — cedi, incerto. — Traga o carro até aqui que eu vou continuar vigiando-o.

Fiquei sozinho, novamente, e a chuva foi diminuindo. Algo parecia errado. Cadu parecia entender bem mais do que eu supunha, e isso realmente me intrigou. Fazia muito tempo que não tínhamos uma conversa decente, ao longo dos últimos anos, eu passara a encará-lo apenas como meu colega idiota da natação. Estava consciente de que a escolha certa era não o envolver, mas eu tinha certeza de que ele acharia o caminho para a merda com ou sem mim. Afinal, não é qualquer coisa que faz um cara aparecer de madrugada em um cemitério. Tipo, sem ser convidado.

Suspirei tendo aquela sensação de ser observado de novo. Por quanto tempo isso continuaria? Eu realmente me sentia esgotado, a ideia de tentar descobrir se tal sensação era fruto da minha mente ou tão tátil quanto aquele cadáver me atordoava. Já havia passado por dois anos dessa porcaria, com todo o apoio, remédios e tratamentos possíveis. Não tinha certeza se poderia voltar a lidar com isso naquelas circunstâncias devastadoras com cadáveres por todos os lados.

Baixei o capuz e ajudei Cadu a colocar o nosso sequestrado no porta-malas. Subi no carro e apreciei o conforto de não se estar debaixo de uma chuva. Chegamos rápido, principalmente, pelo fato de as ruas estarem quase vazias. Pretendia ir dando indicações do caminho para Cadu, mas não precisou, aparentemente, ele sabia muito bem onde era a antiga clínica do meu pai. Não teci nenhum comentário sobre isso.

Arrombei a janela que já estava quebrada e entrei por ela. Com a ajuda de Cadu, puxei o corpo do cara para dentro e, em seguida, o vi entrar. A chuva fizera um estrago na entrada, a antiga sala de espera dos pacientes. Múltiplas goteiras se manifestavam por todos os lados e eu apenas dei de ombros, tendo consciência de que aquilo, provavelmente, era resultado de alguma das obras de vândalos. Provavelmente tinham destelhado o telhado novamente.

Cocei a cabeça.

— Ano ruim — justifiquei.

Encostamos o cara em um dos cantos do consultório da Dra. Neildes, antiga sócia do meu pai. E esperamos. Tirei meu casaco encharcado e minha camisa. Torci-os e dependurei-os nos ganchos do porta-chaves, para que escorressem. Tremi um pouco de frio, mas não era tão ruim. Aquela sala era a única que não possuía goteiras e, portanto, era muito melhor do que continuar tomando chuva em um cemitério. Tirei meus sapatos e meias e sentei-me, recostado, na quina oposta a onde o desmaiado estava. Peguei o revólver e segurei-o firme, tentando permanecer atento ao mesmo tempo em que procurava relaxar um pouco.

— E agora?

— Esperamos — respondi.

Cadu acariciou a lâmina de uma faca de cozinha e recostou-se no vão da porta.

— Esperamos e então descobrimos se monstros sentem dor.

Percebi o ódio sólido e amargo em cada uma de suas palavras. Não disse nada. Fechei os olhos e esperei.

Notas finais
*upar-> subir de nivel. Termo de RPG. *Música Todos os Lados de Capital Inicial. Espero que teham gostado do capitulo!!! Att^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.