Noite
16 Wind Of Change
Notas iniciais
Sei que demorei com esse cap, mas pensem assim... Se matarem a autora, não haverá mais fanfic! =) hehe... Enfim, minha vida está bem corrida ultimamente e alguns imprevistos aconteceram, por isso a demora. Desculpem mesmo, ok?!
Sem delongas, boa leitura!
P.s.: Vlw pela betagem, Clock-chan! =)
_Dia 31 de Janeiro_
Eu acordei cedo hoje, mas meu pai e Tabhita já haviam saído, e minha mãe corria de lá para cá arrumando o café da manhã junto com uma senhora que ela me apresentou como Rosa. Pelo o que entendi, essa Sra. Rosa trabalhava com a minha avó, principalmente, nos períodos em que Martina estava cheia de gente, como agora. Faz sentido, acho; minha avó, sozinha, não daria conta de um monte de quartos de hóspedes, do café da manhã e de cuidar do resto da pousada inteira, né?!
— Quer ajuda, aí? — eu perguntei tentando encontrar alguma lógica na disposição bagunçada das frutas, pães, bolos, sucos e garrafas de café sobre a mesa da cozinha.
— Não, Felipe... — disse minha mãe enfiando uma uva na minha boca. — Está muito ácida?
— Hmm... Não, está boa. — eu disse pegando outra. — Tem certeza? — Indaguei franzindo o cenho e ela, em resposta, parou e me lançou aquele sorriso esperto.
— Felipe, suas experiências na cozinha sempre foram as piores... Eu e a Rosa estamos dando conta... E não coma todas as uvas! Não vai sobrar nada para os turistas desse jeito.
— Ah, ok. — Eu disse engolindo outra uva, pegando um pequeno cacho e saindo da cozinha, tentando ignorar o olhar estranho que a tal Sra. Rosa me lançava. Sério, essa mulher tem uma aura sinistra...
Na verdade, não aconteceu nada de muito interessante hoje. Estou escrevendo aqui neste diário, por mero hábito. Estranhamente, o que era para ser algo para me ajudar a me expressar... — Pérolas da Dra. Alzira, minha antiga terapeuta — Não ajuda muito, mas acabou por se tornar um passatempo e um lugar oficial para meus rabiscos. É relaxante, apesar de eu ser tentado muitas vezes a escrever um mero: O dia foi chato!
Aproveitei minha ausência de sono pela manhã, o que é muito raro, e fui à casa do tal Hector. Simplesmente porque, dos que sumiram, é o que tem a casa mais perto da minha e, claro, às sete da manhã o sol já estava incomodamente quente para ir mais longe. Foi fácil descobrir o endereço, nessa cidade todo mundo sabe até quantas meias você tem na gaveta. Mesmo assim, andei um monte. Não sei bem como funciona o trajeto dos ônibus em Martina, só sei que vou ter que pegar um para frequentar o Colégio Silvana Batista depois de amanhã e, de algum jeito, parar no ponto certo.
Segui enfiando-me em algumas ruas mais periféricas da cidade; a maioria, diferente do centro, possuía grandes blocos de pedra substituindo o asfalto. Posso até dizer que é meio charmoso, dá um clima sei lá... De interior?! Dã! Enfim... Vi um monte de barraquinhas e ornamentos do tal “Festival da Batata” que vai começar amanhã e durar a semana inteira. Pelo o que percebi a cor tema é vermelho. Nunca vi tantas barracas e pessoas de vermelho; parecia até que... Sei lá... A Coca Cola queria começar uma espécie de dominação mundial a partir de Martina. — Uh, tão provável.
Quando parei em frente a casa — um TANTO enorme, devo dizer — do tal Hector, toquei a campainha disposta ao lado das enormes portas duplas de madeira. O lugar era como se algum ricaço cansado do stress urbano, resolvesse passar uns tempos em uma luxuosa mansão em Martina. Ta aí... Por que em Martina? Já inventaram Maceió se você quer praias, Brasília se quer riqueza arquitetônica, Diamantina se quer riqueza natural, Amazônia se quer um tour pela natureza e... Affs... Sei lá! Só não achei os atrativos de Martina. Não ainda, espero que seja ainda mesmo. Porque o sentimento geral que tenho, quanto mais tempo passa e eu continuo morando aqui... Quanto mais pessoas eu conheço... Sério, é de que tem algo errado! Provavelmente essa é a razão de eu ter ido lá na casa do cara e ter tocado a campainha sem ter muita ideia do que iria dizer ou o que queria descobrir.
— Oi. — disse uma garota com mais ou menos a minha idade e com os olhos injetados de sangue. Pela droga ou pelo sono, resolvi especular que ao invés de ser uma dependente química ela é só uma adolescente com aversão a acordar cedo, como eu. E cara... Com o tanto que enrolei para sair de casa e o tanto de vezes que me perdi até achar a casa do tal Hector... Posso dizer que já eram umas nove horas da manhã.
— Oi. — eu disse fitando seus cabelos negros e espetados, sem reparar muito no fato de que EU é que tenho que falar nessas horas. Sério, pensar é tão mais interessante que acabo parecendo idiota.
— Quem é você? — ela indagou sem rodeios, trocando o peso do pé da perna direita para a esquerda.
— Eu posso esperar, sabe...
— Hm? Esperar o quê?
— Você ir no banheiro?
— Cara... Sério... Você é só mais um dos estúpidos amigos do meu irmão? Caia fora daqui! Ele sumiu, ok? Não sei onde ele está! — ela disse berrando em uma velocidade assustadora e com seus olhos castanhos enchendo-se de lágrimas.
— Não sou amigo do seu irmão, na verdade... Nem o conheço. — eu disse antes que pudesse pensar muito a respeito. Por isso que a Tabhita diz que eu não sei mentir. Que seja... Mentir é problemático demais e o pior que poderia acontecer era ela pegar alguma faca da cozinha e me perseguir ao longo das barraquinhas vermelhas me chamando de retardado ou algo parecido.
— Não? — ela disse com os olhos meio arregalados, parecendo relaxar.
— Não.
— Humph. Ok. — ela disse amuada. — entra aí, pode sentar. Eu já volto. — ela disse largando a porta aberta e correndo como uma louca escada acima.
— Ok. — eu disse entrando vagarosamente e coçando o braço esquerdo. Aparentemente, alguma coisa com algo semelhante a um ferrão enorme, resolveu fazer uma festa no meu braço. Cinco vezes, deixando enormes marcas vermelhas com pontinhos de sangue coagulado no centro.
A sala tinha o mesmo estilo de piso de madeira encerado da minha. Mas o resto era completamente diferente. O sofá era enorme e preto e a sua frente, havia um hack com uma TV LCD de umas 100 polegadas. Um tapete espalhava-se por quase todo o cômodo e apesar da decoração moderna, as paredes pareciam algo saído do século XIX. Com uma espécie de papel de parede todo coberto de pinturas e fotografias antigas. Algumas, eu reconheci, eram do Hector junto com uma garota: pescando, dançando, comendo... Hmm... Melaço?! Certamente, a garota da foto, era a mesma doida do cabelo espetado que abrira a porta. Havia também algumas com aquele ar de “família reunida no natal”, outras com a garota segurando medalhas e vestindo um quimono e havia pinturas; todas de paisagens, a exceção de uma que retratava um cara de cavanhaque e costeletas, vestindo um daqueles uniformes bem mais antigos do exército.
— Se divertindo com a velharia? — eu ouvi a garota dizer por trás de mim e tive que me segurar para não virar de vez, com o susto que ela me deu.
— Um pouco. Vocês gostam muito de fotos em família. — eu disse reparando que ela parecia ter penteado o cabelo, além de ter vestido um jeans e uma camiseta em que se lia: “A culpa é do meu irmão”. Achei o trocadilho um tanto interessante na ocasião, mas fiquei quieto.
— Nem tanto... Essa decoração é horrível... — ela disse fazendo uma careta e se jogando no sofá. — Senta aí Sr. Estranho. O que você quer, afinal?
— Tem algumas coisas que eu quero perguntar, — Talvez eu estivesse sendo muito insensível, apenas para satisfazer meu ego. Cogitei ir embora com uma desculpa qualquer, mas acabei voltando ao meu propósito original depois de analisá-la por um breve segundo. Ela não parecia ser do tipo que iria ficar satisfeita com uma desculpa esfarrapada. — me chamo Felipe, e você...?
— Veio aqui e não sabe nem o meu nome? — ela disse, mas não parecia estar mal humorada. — Ângela. Agora fale logo à que veio.
Ok. Eu já estava vendo a hora em que essa garota se levantaria com uma intenção assassina em nível máximo e viria arrancar minha cabeça. Na hora posso ter pensado que exagerei, mas ela começou a brincar com um canivete suíço por entre os dedos e eu comecei a achar que talvez minha imaginação incrivelmente fértil, tivesse acertado, para variar... O que não me ajudou. Hahaha.
— Eu... — eu comecei, tentando pensar em algo coerente para iniciar a conversa sem que ela me achasse propriamente louco ou suspeito. Bem, acho que naquela situação eu era meio suspeito... Aff... Enfim, foi do jeito que foi! — Eu sou amigo da... Gabrielle. — eu disse me esforçando para me lembrar do nome da ruiva. Sou realmente péssimo com nomes e fiquei torcendo para que fosse Gabrielle mesmo e não Gabriella.
— Hmm... E? Você não parece estar falando a verdade... — ela disse passando os dedos pela lâmina retrátil. Cara, sério, canivetes?!... Aff! Ela podia largar aquele troço! Sempre que vejo algum, lembro de uma vez quando eu era criança e um noiado assaltou, eu e minha mãe. Ele segurava um canivete daqueles bem vagabundos e meio enferrujados, acho que era mais fácil morrer de tétano com um troço daquele, do que propriamente por algum corte letal.
— Olha, se não quer me responder, apenas me mande embora, ok?! Não fique aí me lançando olhares dúbios com um canivete na mão! Não conheço essa Gabrielle ou o seu irmão! Também vi suas fotos com medalhas e sua faixa verde de karatê, então, provavelmente, você poderia me espancar o quanto quisesse... — Suspirei. — Mesmo sem o canivete! Você não tem que me responder nem nada, mas o que quero saber é:
Seu irmão era amigo de alguma Meire? Você a viu depois do dia 28?
Alguma mulher estranha apareceu recentemente?
Você sabe se Hector tem conta no Youtube e qual o Nick?
Algum dos pertences do Hector sumiu recentemente?
O que você acha que aconteceu?
— Ok... — Ângela disse com os olhos levemente arregalados, jogando a faca sobre a mesa entre nós. — Muitas perguntas... Mas porque se interessa por isso? Não acho que você tenha algum distintivo policial aí com você...
— Aí está... — Eu disse com um daqueles sorrisos forçados. — Aposto que a polícia praticamente já encerrou o caso do Hector. Saiu no jornal, mas você, certamente, percebeu que não houve muito empenho em buscas. Tudo está sendo ridiculamente superficial! — Eu disse estudando sua expressão e percebendo que pela forma como ela me fitava, eu não devia estar muito longe da verdade. — Ele não era do tipo que se ausenta sem qualquer explicação. — Arrisquei, eles pareciam ser muito próximos. Pelo menos, foi isso que pude perceber com todo aquele monte de fotos. — Mas... Ele saiu com a namorada Gabrielle, no dia 28 e não voltou. A polícia procurou em todos os lugares, menos na floresta. Especularam várias vezes quanto a uma fuga de quatro adolescentes rebeldes e...
— Eles disseram que eles provavelmente vendiam e consumiam drogas ilegalmente e por isso foram envolvidos por algum grupo criminoso ou... Fugiram de algo...
— Mas quem fugiria sem dinheiro, roupas ou qualquer tipo de provisão?
— Quem é você? — Ângela inquiriu taciturna. — Como sabe dessas coisas...?
— Eu estava especulando. Você, certamente, sabe que não haverá mais buscas. Provavelmente, com o início do Festival, tudo será esquecido. Não é interessante uma cidade com casos de desaparecimento... — eu disse me perdendo em meus próprios pensamentos por alguns instantes. — Pelo menos, não, quando está inserido em uma rede tão complicada de incidentes. — eu resmunguei a última parte.
— O que disse? Sabe, um detetive veio aqui e me disse coisas parecidas ontem. Mas até onde sei, ele foi afastado há algum tempo por julgamento inadequado e pelo o que entendi, insubordinação. Acha que não percebi como os policiais agiram estranhos? Nem pareciam se importar! Como se, como se... As buscas fossem só para calar a boca de quem queria algum tipo de resposta!
— Nada. Enfim, acho que seu irmão sumiu por algum motivo mais complicado do que parece. Você viu o vídeo? — eu disse sem saber direito se estava satisfeito ou não com o fato de meu blefe estar tão correto. Eu sabia que a polícia vinha sendo negligente desde que a Márcia supostamente se suicidara, até que nível essa negligência chega eu não sei. Mas se até alguns figurões da cidade estão sendo ignorados, o que devo esperar? Talvez seja cedo demais para tirar alguma conclusão, mas é evidente que há algo grande por trás! Ângela mencionou tráfico de drogas, mas... Simplesmente não encaixa... E claro, tem a vampira.
— Ei, que vídeo? — ela disse cruzando os braços.
Peguei meu celular e procurei, por alguns segundos, em qual pasta eu havia salvado o arquivo. Até encontrá-lo e ampliar a imagem.
— Veja. — Eu disse entregando-lhe o celular e encarando sua expressão perdida, com os olhos grudados na tela touch screen. Não fiz questão de ver junto com ela. Eu praticamente já decorei esse vídeo, desde as falas do cara do ICE até as da doida que fumou LSD e acha que é vampira.
— Isso... — ela começou a dizer, me encarando a espera de uma explicação. Sem dúvida, ela percebera onde eu queria chegar. Se o vídeo fosse real, acho que não seria muito provável que o irmão dela estivesse vivo...
— É exatamente o que parece. Vê a data? É do dia em que todos eles desapareceram. Acha que o vídeo é real?
— Sim, sim... É. A Meire tem uma estranha mania de filmar tudo o que pode. Ela edita as melhores cenas e posta no canal dela no Youtube... Mas,... Por que eles estão com o Denildo? Meu irmão disse...
— O que ele disse? — eu inquiri, após um minuto muito doloroso de silêncio.
— Denildo é um canalha idiota! Envolveu-se com um monte de merdas ilegais, foi expulso do Colégio ano passado. Hector disse que não tinha mais nada haver com ele... Então, por quê? Não, esse vídeo está errado! Deve ser do ano passado ou algo assim, sabe... Alguma brincadeira deles, ou sei lá...
— Hmm... Você achou que o mais estranho foi o Denildo estar com eles? E a tal vampira, a voz dela lhe é familiar?
— Não, não é. Cara, quem é você, hein? Qual é o seu objetivo perguntando tudo isso?
— Não sei dizer se é real ou não. Honestamente, acho que sim. Foi muito bem orquestrado para ser algo do ano passado. Além disso, quem vai me dizer se é de agora ou não é você. Olhe bem para a roupa que ele está usando. — eu disse retrocedendo o vídeo para a parte em que ele abraça a ruiva — Está vendo aí? Ele estava usando essa roupa um ano atrás ou no dia 28? Além disso, se a Meire é uma fanática por vídeos e ela gravou esse há um ano, porque ela não postou antes? Vi o canal dela, há vídeos de todas as naturezas... Simplesmente ficar guardando esse para postar um bom tempo depois, não tem sentido. — eu disse já não tendo muita certeza do que ela faria a seguir, dada a sua expressão pouco amistosa.
— Oh, sério... Grr... — ela disse apertando meu celular até os nós de seus dedos ficarem brancos. Já disse que meu celular não é nenhum smartphone imortal? — É, o que você disse tem sentido...
— Seu irmão não foi bater um papo com nenhum traficante, nem nada do gênero. Mas se meteu com alguma doida com uma arma branca*, eu acho. Uma que, inclusive, deve ter uma cara muito assustadora, músculos, talvez, e uma psicopatia que a faz achar que é uma vampira.
— Já fez até a análise psicológica?
Não disse nada, estava achando que ela iria ter algum surto psicótico a qualquer instante.
— Obrigada por me dizer isso.
E aí está a parte super estranha do meu dia. A garota parecia querer arrancar meu fígado há meio minuto e em seguida estava me agradecendo.
— Agora vá embora! Quero ficar sozinha! — ela não berrou, mas soou como se o tivesse feito, tamanha foi a intensidade com que pronunciou cada palavra.
Peguei meu celular e rapei de lá.
Assim que voltei, passei o resto do dia sem fazer nada. Tentando não coçar o meu braço esquerdo cheio de vergões avermelhados e acima de tudo, evitando cruzar com aquela Sra. Rosa pelos corredores. Ela parece ser a mãe da Ângela ou algo assim. Sem dúvidas, o olhar vou te matar, é o mesmo.
Nem a Tabhita, nem o meu pai apareceram para o almoço. A Sra. Rosa e a minha mãe começaram uma inflamada conversa sobre frutas e legumes em conserva – Tão interessante! – e antes que eu pudesse perceber, comecei a me perguntar se minha mãe já sabe sobre Madrid. Provavelmente.
Quando Tabhita finalmente chegou do treino, seus cabelos azuis ainda estavam úmidos e ela vestia uma regata branca e limpa sobre um short Jeans folgado que batia pouco antes de seu joelho.
— Achei que você tinha ido a um treino de futebol.
Ela me lançou um olhar desanimado e disse:
— Passei na casa da Mariana. Tomei banho lá. — ela disse passando reto por mim e subindo as escadas meio troncha com uma mochila abarrotada apoiada em um ombro só.
Quando a vi fazer isso... Não parecia a Tabhita. Tenho certeza de que alguma coisa aconteceu, aquela face abatida dela... Não era só cansaço!
— Tabhita! — eu disse segurando seu pulso que estava revestido com uma daquelas pulseiras de atleta*.
— O-O quê? Me larga! — ela disse arregalando os olhos e puxando o braço rapidamente, como se o meu toque fosse algo a se evitar.
— Você está bem? O que aconteceu?
— Nada. O treino foi muito bom. — ela disse subindo mais um degrau e, em resposta, eu subi um também.
— Tabhita, foi aquele cara de antes de ontem? Ele fez alguma coisa?
— Do que você está falando, Felipe? — ela indagou com as sobrancelhas franzidas e um ar debochado. — Apenas quero ir tomar um banho, ok? Por favor, não me impeça! — ela disse com o seu mais afiado tom cortante, mas com um olhar que parecia suplicante. Eu, definitivamente, não entendi o que aconteceu.
Pensei em bater na porta dela, para conversarmos, mas ela não me atendeu. Acabei enviando um SMS e ela também não me respondeu. Estava começando a ficar realmente preocupado... E se ela tivesse tido uma crise neurótica no quarto e desmaiado? Sério, eu já estava quase arrombando a porta de nervoso. A Tabhita não é do tipo que evita alguém quando está com raiva, ela é do tipo que esclarece tudo o mais rápido possível. Além disso, porque ela estaria brava comigo? Ou é só egocentrismo meu, mesmo?
Desisti da ideia de arrombar a porta assim que encontrei com ela no corredor. Está calor, mas ela estava usando uma de suas camisas finas de mangas compridas, com uma enorme imagem do Hiruma* com uma carta Às na mão.
— Tabhita...? — eu chamei e ela me lançou novamente aquele olhar magoado, enquanto mordia os lábios. Algo estava muito errado e eu não sabia o quê.
Ela não disse nada, apenas ficou me encarando como se tivesse uma louca vontade de me contar algo, mas a garganta estivesse seca demais para que pudesse pronunciar qualquer som. Fiquei com medo que fosse algo sobre Madrid, que ela fosse dizer algo como: vou embora amanhã! Fiquei remoendo isso na minha cabeça por alguns instantes, até que me foquei novamente ao corredor onde a Tabhita me encarava com os olhos um tanto indecifráveis.
— Lembra-se da sua festa de quinze anos? — eu disse me aproximando cautelosamente, tentando assumir uma expressão calma e bem humorada, que não traduzisse todas as minhas incertezas. — Sua mãe quis fazer uma festa de proporções gigantescas e deu tudo errado. Ela confundiu o responsável do bufet com o do salão, então quando brigou com a responsável pelo salão, ela foi procurar um novo bufet. No fim das contas, eram dois bufets e nenhum salão, acabou por ser tarde demais para arranjar outro a tempo. Nós acabamos comendo um monte de canapés e coca cola diet na sua casa, com Scorpions tocando ao fundo. — eu disse pegando sua mão com cuidado, na verdade eu estava com medo de que ela a puxasse novamente e me lançasse aquele mesmo olhar irritado. — Você estava muito chateada, não pela festa, mas porque você passou por um inferno de aulas de danças, à toa. Seu primo Andrew, que seria o seu parceiro, tinha inventado outra festa para ir assim que te deu os parabéns. — eu disse, sem desviar o olhar de seus olhos castanhos, que refletiam meu rosto. Tentei não reparar muito nisso, apenas absorvendo cada detalhe do calor de sua mão ou de seus cílios longos e negros. — Então eu disse... Você conduz. — eu sorri e não sei se foi minha imaginação, mas acho que vi a sombra de um sorriso, ainda que muito sutil, delinear-se nos lábios dela. — Ainda não sou bom nisso, portanto... Você conduz, Tabhita. — eu disse deslizando minha outra mão por sua cintura e entrelaçando meus dedos mais fortemente nos dela.
Ela não fez nada, não resistiu. Apenas deixou o rosto enterrar-se no meu peito e no fim, eu que tive que guiá-la – de um jeito meio lamentável, devo dizer – Tenho certeza de que ela chorou da forma mais silenciosa que conseguiu, mas eu não disse nada. Tentei me recordar da música que tocava quando dançamos assim pela primeira vez e como não lembrei, simplesmente comecei a cantar Wind of Change* baixinho, – algumas partes das quais não me recordava, eu preenchia com hum hum hum e acho que a ouvi rir quando fiz isso. – em um sussurrou compassado que era audível apenas para nós dois.
Take me to the magic of the moment
On a glory night
Where the children of tomorrow dream away
In the wind of change...
Quando a música terminou, ainda ficamos movimentando-nos lentamente, da esquerda para a direita, em silêncio até que ela desprendeu-se de mim e disse:
— Não estou muito legal hoje, Felipe. Vou dormir, ok? — ela concluiu, ainda com uma, mal disfarçada, expressão afligida e fechou-se em seu próprio quarto antes que eu tivesse a chance de argumentar. Ainda fiquei um tempo encarando a porta, tentando organizar meus pensamentos antes de chegar a conclusão de que eu não a veria até amanhã.
— Mulheres são, definitivamente, complicadas!
Como se as coisa não pudessem ficar mais confusas... Há alguns minutos, quando olhei pela janela, tive a nítida impressão de ver Wagner lá embaixo, sob a laranjeira, olhando para mim quase sem piscar. Foi muito rápido, então não sei bem se foi só a minha imaginação ou não... Talvez ele tenha voltado de uma festa ou algo assim? Oh, a desculpa é tão medíocre que nem eu acredito. Começou a chover há alguns minutos e eu dei mais algumas espiadas pela janela, tentando divisar o Wagner novamente, mas não vi mais nada.
Talvez tenha sido só o dia estressante demais, talvez... – Porque não acho que acredito realmente nisso.
Notas finais
* Tipo essa pulseira no pulso do cara da imagem.
http://e.i.uol.com.br/esporte/tenis/2010/08/17/thomaz-bellucci-faz-devolucao-contra-marcos-baghdatis-no-masters-1000-de-cincinnati-1282077365046_300x300.jpg
*Hiruma: quarteback do mangá/anime Eyeshield21. Sua aparência e ações lembram um demônio.
* Wind of Change: música da banda Scorpions.
~~Curiosidades~~
Eu msm, Tincampy, odeio o apelido "Lipe" (apesar de gostar do nome "Felipe"); porém a Tabhita gosta, então está aí, haha...
Obrigada por lerem o cap! x.x
Postarei o próximo entre terça e quarta feira; garanto que estará bem grandinho e terá algumas das coisas que acho que vcs estão ansiosos para lerem! =)
É isso! Bjus (Digam o que acharam do cap, ok!)
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